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Vinho, Carmesim e Confissões

O silêncio na mansão Montel após um grande evento era quase palpável, mas não era um silêncio vazio. Era carregado com o eco das risadas, o cheiro residual de perfumes caros e a sensação de exaustão satisfatória. Lívia e Maya haviam subido para o refúgio da ruiva assim que o último carro cruzou os portões da propriedade. O quarto de Lívia, com suas paredes em tons pastéis e móveis de design clássico, parecia um santuário isolado do resto do mundo.

Lívia caminhou até a pequena adega climatizada que mantinha em um canto do quarto — um presente de dezoito anos de seu pai — e retirou uma garrafa de um tinto encorpado. Ela não precisava perguntar; sabia que Maya precisava de algo para relaxar a mente depois do turbilhão de emoções que fora assumir o relacionamento diante de toda a árvore genealógica dos Montel.

— Acho que sobrevivemos — disse Lívia, servindo duas taças de cristal. O líquido carmesim brilhava sob a luz suave dos abajures de âmbar.

Maya estava sentada na ponta da cama king-size, tendo se livrado da jaqueta de couro que agora repousava desajeitadamente sobre uma poltrona de veludo. Ela soltara o cabelo, e os fios pretos caíam como uma cascata sombria sobre os ombros. Ela aceitou a taça, seus dedos roçando os de Lívia no processo.

— Sobrevivemos é pouco, Liv. Sua avó quase nos deu a benção papal — comentou Maya, soltando aquela risada rouca que sempre fazia a espinha de Lívia vibrar. — Mas admito que meu coração só voltou ao ritmo normal agora.

Lívia sentou-se ao lado dela, cruzando as pernas elegantemente. O vestido terracota subiu um pouco pelas suas coxas, mas ela não se importou. Ela observou Maya tomar um gole generoso do vinho, os olhos castanhos fechando-se por um instante enquanto apreciava o sabor.

— Você foi incrível lá embaixo — sussurrou Lívia, aproximando-se. — A forma como você segurou minha mão... eu senti que poderia enfrentar qualquer coisa.

Maya pousou a taça na mesa de cabeceira e virou-se totalmente para Lívia. A luz âmbar destacava a angulosidade de seu rosto e a pequena pinta charmosa no canto da boca que Lívia tanto adorava.

— Eu não ia soltar, Liv. Nunca mais. — O olhar de Maya era intenso, analítico, mas transbordava uma vulnerabilidade que ela só permitia que Lívia visse. — Passamos vinte anos orbitando uma à outra. Eu estava cansada de fingir que a gravidade era apenas amizade.

Lívia sentiu um calor que não vinha do vinho. Ela deixou sua própria taça de lado e levou a mão ao rosto de Maya, o polegar traçando a linha da mandíbula definida da morena. A pele de Maya era quente e macia.

— A gravidade é perigosa, Bellini — brincou Lívia em voz baixa, embora sua respiração estivesse começando a falhar.

— Só se você tiver medo de cair — rebateu Maya, inclinando-se para frente. — E eu já caí por você há muito tempo.

O beijo que se seguiu não teve a hesitação do primeiro, na cozinha. Foi um encontro faminto, carregado de anos de desejo reprimido e palavras não ditas. Tinha gosto de vinho tinto e urgência. Lívia entrelaçou os dedos nos cabelos pretos de Maya, puxando-a para mais perto, enquanto Maya envolvia a cintura de Lívia, trazendo-a para o seu colo com uma força que fez a ruiva soltar um suspiro baixo contra seus lábios.

— Maya... — murmurou Lívia entre os beijos, sentindo o perfume de baunilha de sua própria pele se misturar ao cheiro amadeirado de Maya.

— Eu estou aqui, Liv. Eu sempre estive aqui.

Maya começou a trilhar um caminho de beijos pelo pescoço de Lívia, encontrando o ponto sensível logo abaixo da orelha. As mãos de Lívia desceram para os ombros de Maya, sentindo a firmeza dos músculos sob a seda da camisa vinho. O contraste entre a delicadeza de Lívia e a intensidade magnética de Maya criava uma eletricidade que parecia fazer o ar do quarto estalar.

Com um movimento ágil, Maya inverteu as posições, deitando Lívia sobre as colchas de seda. O cabelo ruivo espalhou-se como fogo contra o travesseiro claro. Maya ficou por cima, apoiada nos cotovelos, observando Lívia com um olhar que misturava adoração e um desejo profundo, quase selvagem.

— Você é a coisa mais linda que eu já vi — disse Maya, a voz mais grave do que nunca. — E as sardas... eu quero contar cada uma delas hoje.

Lívia sorriu, seus olhos verdes brilhando com uma mistura de desafio e entrega.

— Então é melhor você começar logo, porque eu soube que tenho muitas.

As mãos de Maya foram para o zíper lateral do vestido terracota de Lívia. O som do metal deslizando foi o único ruído no quarto além da respiração pesada das duas. O tecido de seda deslizou pela pele de Lívia, revelando as curvas que ela costumava disfarçar, mas que agora oferecia a Maya como um presente.

Quando o vestido foi descartado, Maya parou por um segundo, apenas admirando a visão da pele clara e sardenta de Lívia sob a luz suave. Era como uma pintura renascentista ganhando vida.

— Minha vez — sussurrou Lívia, alcançando os botões da camisa de Maya.

Seus dedos longos e delicados trabalharam com agilidade, abrindo a seda vinho e revelando a pele morena e o corpo esguio de Maya. O colar de lua balançou entre os seios de Maya quando ela se inclinou para beijar Lívia novamente, desta vez com uma ternura que fez o coração da ruiva doer de amor.

— Eu te amo tanto que chega a doer — confessou Maya contra a pele do colo de Lívia.

— Então me mostra — pediu Lívia, puxando-a para baixo. — Mostra que você é minha, do mesmo jeito que eu sempre fui sua.

O toque de Maya era exploratório e reverente. Seus dedos longos, os mesmos que desenhavam plantas arquitetônicas complexas, agora mapeavam o corpo de Lívia com uma precisão que conhecia cada reação, cada arrepio. Ela beijou as sardas nos ombros, nos braços e no vale entre os seios, enquanto Lívia arqueava o corpo, buscando mais contato, mais calor.

A transição da amizade para a paixão física foi natural, como se seus corpos tivessem ensaiado aquele momento em sonhos por anos. Havia uma familiaridade reconfortante no cheiro e no toque, mas uma novidade eletrizante na intenção por trás de cada gesto.

Lívia explorou a pele de Maya com a mesma curiosidade, maravilhada com a força e a graça da melhor amiga. Ela sentiu a cicatriz no dedo de Maya e a beijou, um gesto que fez Maya soltar um gemido baixo e enterrar o rosto no pescoço de Lívia.

— Liv... — a voz de Maya era um sussurro quebrado.

— Shhh... apenas sinta, Maya.

O ritmo entre elas aumentou, uma dança de mãos, lábios e pele que não precisava de música. O mundo exterior, as expectativas dos Montel, os projetos da faculdade e as pressões da vida adulta desapareceram. Naquele quarto, existiam apenas o sol e a lua, finalmente se fundindo em um eclipse total.

Lívia sentia cada toque de Maya como uma marca permanente. A forma como Maya a segurava, com uma mistura de possessividade e cuidado, fazia Lívia se sentir a pessoa mais importante do universo. E, para Maya, estar com Lívia daquela maneira era como finalmente encontrar o norte em uma bússola que estivera quebrada por muito tempo.

Quando o ápice chegou, foi como uma explosão de cores e sensações que as deixou sem fôlego, agarradas uma à outra como se fossem as únicas âncoras em um mar agitado. Lívia escondeu o rosto no peito de Maya, ouvindo o coração da morena bater em um ritmo frenético, igualando o seu.

O silêncio voltou a reinar, mas agora era um silêncio de completude. Elas ficaram abraçadas sob os lençóis, a pele ainda quente e suada, os membros entrelaçados de uma forma que tornava difícil dizer onde uma terminava e a outra começava.

Maya puxou o cobertor sobre elas e beijou o topo da cabeça ruiva de Lívia.

— Você está bem? — perguntou Maya, a voz suave e protetora.

Lívia levantou a cabeça, um sorriso radiante iluminando seu rosto, apesar do cansaço.

— Eu nunca estive melhor, Bellini. Mas acho que você esqueceu de contar algumas sardas na minha perna esquerda.

Maya soltou uma risada, aquela risada que enchia o ambiente e fazia Lívia se sentir em casa.

— Eu tenho a vida inteira para terminar a contagem, Montel. Não pretendo ir a lugar nenhum.

Lívia se aconchegou mais ao corpo de Maya, sentindo a segurança e o amor que transbordavam daquela união.

— Engraçado... — comentou Lívia, fechando os olhos — todo mundo sempre disse que a gente se completava. Mas eu só entendi o que isso significava de verdade agora.

— O que significa? — quis saber Maya, acariciando o braço sardento de Lívia.

— Significa que eu posso ser o sol e você a lua, mas a gente compartilha o mesmo céu. E eu não trocaria esse céu por nada no mundo.

Maya não respondeu com palavras. Ela apenas apertou o abraço e beijou a testa de Lívia, selando uma promessa silenciosa de que, não importa o quanto a vida mudasse aos vinte anos ou depois, aquele santuário que haviam construído juntas permaneceria intocado.

Lá fora, a madrugada avançava sobre a mansão dos Montel. O vinho nas taças havia terminado, a festa havia acabado, mas para Lívia e Maya, a celebração estava apenas começando. Elas adormeceram juntas, entrelaçadas não apenas pelo cansaço, mas por um laço que havia sobrevivido à infância, à adolescência e que agora, na vida adulta, florescia com a intensidade de um amor que sempre soube seu destino.

O próximo domingo chegaria com suas perguntas e brincadeiras, mas elas o enfrentariam de mãos dadas, sabendo que, por baixo da mesa, a conexão entre elas era muito mais profunda do que qualquer um poderia imaginar. Elas eram Lívia e Maya. E, finalmente, elas eram uma da outra.

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