A aposta
O Labirinto de Vidro e a Isca de Ouro
O resto da tarde de Tatsuyo foi um borrão de batimentos cardíacos acelerados e mãos trêmulas. Quando chegou em casa, o silêncio do apartamento parecia menos opressor do que o habitual. Ela preparou um lanche para o irmão mais novo, Hiro, mas sua mente estava presa naquele beijo na bochecha e no cheiro de Kuro que parecia ter impregnado sua pele.
Ela se olhou no espelho do banheiro, afastando os cabelos pretos para ver o lugar onde ele a tocara. Tatsuyo sabia que era vulnerável. Ela sabia que, para a maioria das pessoas, ela era apenas a "garota esquisita" que teve o pai morto nos braços aos onze anos, um trauma que a deixou marcada com cicatrizes invisíveis de pânico e uma necessidade desesperadora de ser aceita. Mas Kuro Hatake, o garoto que poderia ter qualquer uma, tinha escolhido sentar ao lado dela.
— Ele disse que eu sou interessante... — sussurrou para o reflexo, os olhos negros brilhando com uma esperança perigosa.
Enquanto isso, em uma lanchonete badalada perto da escola, Kuro estava rodeado pelos seus cinco amigos. A atmosfera era de celebração antecipada. Ren batia palmas na mesa, rindo alto.
— Cara, eu não acreditei quando vi você saindo abraçado com a "Muda"! — exclamou Ren, empurrando um copo de refrigerante para Kuro. — Você é um monstro, Hatake. Ela estava quase derretendo no chão.
Kuro deu um gole na bebida, exibindo aquele sorriso convencido que o tornava o rei do terceiro ano. Ele passou a mão pelo cabelo branco repicado, sentindo o ego inflar a cada elogio.
— Eu disse para vocês. É como tirar doce de criança — vangloriou-se Kuro, a voz carregada de desdém. — Ela é tão carente que, se eu der um "oi" mais caloroso, ela já começa a planejar o nome dos nossos filhos. O problema vai ser aguentar o grude, mas pelos dois mil e quinhentos... eu viro um santo.
— Não esquece da gravação, Kuro — lembrou Leo, com um olhar malicioso. — A aposta só vale se a gente ver que ela se entregou de verdade. E o coração partido no final tem que ser cinematográfico. Queremos ver lágrimas.
— Vocês vão ter tudo isso e mais um pouco — respondeu Kuro, os olhos castanhos brilhando com a frieza de quem via Tatsuyo apenas como um objeto em um tabuleiro de xadrez. — Amanhã vou na casa dela. Vou começar a fase dois: o "porto seguro".
No dia seguinte, a ansiedade de Tatsuyo estava em um nível alarmante. Ela teve duas crises de pânico leves antes do meio-dia, acalmadas apenas pela ideia de que Kuro estaria lá em breve. Ela limpou o apartamento três vezes, organizou seus livros e pediu para Hiro ficar no quarto jogando videogame para não "atrapalhar".
Quando a campainha tocou às duas horas em ponto, o coração dela deu um salto que quase a deixou sem fôlego. Ela abriu a porta e lá estava ele, usando uma regata que deixava seus braços definidos à mostra e um sorriso que parecia iluminar o corredor mal iluminado do prédio.
— Oi, Nakamura — disse ele, entrando sem cerimônia e deixando o perfume caro invadir o ambiente simples. — Bela casa. Aconchegante.
— O-oi, Kuro... — Tatsuyo gaguejou, fechando a porta com as mãos suadas. — Obrigada por vir. Eu separei os livros de história, a matéria do simulado é difícil...
Kuro jogou a mochila no sofá e se aproximou dela, ignorando completamente os livros. Ele parou a poucos centímetros de distância, forçando-a a olhar para cima para encontrar seus olhos.
— Esquece a história por um minuto — ele murmurou, a voz baixa e sedutora. — Como você está? De verdade. Eu vi você tremendo na aula hoje. Alguém mexeu com você?
Tatsuyo sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ninguém nunca perguntava como ela estava "de verdade". A maioria das pessoas apenas desviava o olhar quando ela começava a tremer.
— Só... o pessoal do fundo. Eles jogaram bolinhas de papel em mim e disseram que eu deveria... — ela engoliu em seco — ...que eu deveria ter ido junto com o meu pai.
Kuro sentiu uma pontada de algo que ele ignorou rapidamente, rotulando como "metodologia de atuação". Ele colocou as mãos nos ombros dela, sentindo-a estremecer sob seu toque.
— Eles são lixo, Tatsuyo. Escuta bem — ele inclinou a cabeça, forçando-a a manter o contato visual. — De agora em diante, você é minha. Se alguém encostar um dedo em você ou disser uma palavra, vai ter que se ver comigo. Entendeu?
Tatsuyo sentiu um soluço escapar. Era demais. Aquela proteção, aquela atenção... era tudo o que ela sonhava desde que o mundo tinha ficado cinza sete anos atrás. Sem conseguir se conter, ela se jogou nos braços dele, enterrando o rosto no peito de Kuro.
— Obrigada... obrigada por me ver — ela soluçou, os braços magros rodeando a cintura dele com uma força desesperada.
Kuro sorriu por cima da cabeça dela, um sorriso que não chegava aos olhos. Ele passou os braços pelo corpo dela, sentindo como ela era pequena e frágil. "Fácil demais", ele pensou.
— Shhh, está tudo bem. Eu estou aqui — ele disse, acariciando os cabelos pretos e lisos dela. — Eu não vou a lugar nenhum.
Eles passaram as horas seguintes fingindo estudar, mas a maior parte do tempo foi gasta com Kuro contando histórias engraçadas para fazê-la rir. Cada risada tímida de Tatsuyo era como uma pequena vitória para a aposta dele. Ele percebeu que ela era "grudenta" mesmo; se ele se afastava para pegar um copo de água, ela o seguia com o olhar, como se tivesse medo de que ele fosse desaparecer.
Em um momento, enquanto estavam sentados no tapete da sala, Kuro percebeu uma cicatriz pequena no pulso dela, escondida sob a pulseira do relógio.
— O que é isso? — perguntou ele, pegando a mão dela com delicadeza.
Tatsuyo tentou puxar o braço, o pânico voltando a brilhar em seus olhos pretos.
— Nada... foi um dia ruim. Um dia de muita ansiedade.
Kuro levou a mão dela aos lábios, beijando a cicatriz. O gesto foi tão inesperadamente terno que Tatsuyo sentiu que poderia morrer ali mesmo de tanta felicidade.
— Não faz mais isso — ele pediu, fingindo uma preocupação profunda. — Me liga quando se sentir assim. Qualquer hora. Eu quero ser o seu refúgio, Tatsuyo.
— Você falaria comigo de madrugada? — ela perguntou, a voz cheia de uma carência infantil.
— Com certeza. Eu adoraria ouvir sua voz antes de dormir.
A mentira saiu da boca de Kuro com uma facilidade assustadora. Ele era um mestre em dizer o que as pessoas queriam ouvir. Para ele, aquilo era apenas um roteiro bem executado. Mas para Tatsuyo, eram as tábuas de salvação de um navio naufragado.
Quando Kuro se despediu, já no final da tarde, ele deixou Tatsuyo em um estado de êxtase melancólico. Ela encostou a testa na porta fechada, tentando processar o fato de que o garoto mais popular da escola queria ser o seu "refúgio".
Kuro, por outro lado, desceu as escadas do prédio assobiando. Assim que chegou à calçada, pegou o celular e enviou uma mensagem no grupo dos amigos:
"Peixe fisgado. Ela já está dependente. Próximo passo: o encontro oficial. Preparem o dinheiro, idiotas."
Ren respondeu quase instantaneamente: "E a gravação, garanhão? Quando sai o clipe?"
Kuro deu um sorriso de lado, ajustando a mochila.
"Calma. Fruta madura a gente colhe com cuidado. Quero que ela esteja tão apaixonada que, quando eu ligar a câmera, ela faça qualquer coisa para me agradar."
Os dias seguintes foram uma exibição pública de "romance". Na escola, Kuro fazia questão de andar de mãos dadas com Tatsuyo pelos corredores. Ele a buscava na sala, carregava sua mochila e, o mais cruel de tudo, confrontou os valentões que costumavam persegui-la.
— Ei! — Kuro gritou no refeitório, parando na frente de um grupo de garotos que tinha acabado de rir do jeito que Tatsuyo caminhava. — Se eu ouvir mais um pio sobre a minha garota, a gente vai resolver isso lá fora. Alguma dúvida?
Os garotos, intimidados pela estatura e pela popularidade de Kuro, recuaram imediatamente. Tatsuyo, que estava escondida atrás dele, sentiu uma onda de gratidão tão forte que seus olhos se encheram de lágrimas. Ela se agarrou ao braço dele, as unhas cravando levemente no tecido de sua jaqueta.
— Kuro, você não precisava... — ela sussurrou, embora estivesse radiante.
— Eu cuido do que é meu, Tatsuyo — ele respondeu, dando um beijo no topo da cabeça dela, garantindo que todos estivessem olhando.
Aquelas palavras — "o que é meu" — ecoaram na mente de Tatsuyo como uma melodia sagrada. Ela nunca tinha pertencido a ninguém desde a morte do pai. Ser "de alguém" era a segurança que ela tanto buscava para aplacar o pânico constante.
No entanto, a mente de Tatsuyo era um lugar sombrio. Mesmo com a atenção de Kuro, a depressão não desaparecia; ela apenas ficava adormecida. Ela começou a enviar mensagens constantes para ele.
"Você ainda gosta de mim?" "Desculpa se eu estiver sendo chata." "Obrigada por não me deixar sozinha hoje."
Kuro lia as mensagens e revirava os olhos no quarto, mas respondia sempre com doçura. "Claro que gosto", "Você nunca é chata", "Sempre estarei aqui". Ele estava alimentando o monstro da dependência emocional dela, sabendo que, quanto mais alto ela subisse naquela torre de ilusão, maior seria a queda.
Certa noite, Tatsuyo ligou para ele às três da manhã. Ela estava tendo uma crise de pânico severa, a falta de ar a sufocando enquanto as memórias do pai morrendo em seu colo voltavam com força total.
— Kuro... por favor... eu não consigo respirar — ela soluçou no telefone, a voz quebrada.
Kuro, que estava dormindo, sentiu uma onda de irritação. "Que garota problemática", ele pensou. Mas então, lembrou-se da aposta. Lembrou-se do dinheiro e do seu orgulho. Ele sentou-se na cama e mudou o tom de voz para um sussurro reconfortante.
— Ei, ei... respira comigo, Tatsuyo. Eu estou aqui. Conta até quatro comigo... Isso, devagar. Eu não vou desligar.
Ele passou quarenta minutos no telefone com ela, fingindo paciência enquanto ela chorava e pedia desculpas por ser "tão quebrada".
— Você não é quebrada, você é especial — mentiu Kuro, bocejando silenciosamente. — Eu amo o jeito que você confia em mim.
— Eu te amo, Kuro — ela soltou, pela primeira vez. A voz dela era um fio de esperança pura. — Eu te amo tanto que dói.
Kuro paralisou por um segundo. Um calafrio estranho percorreu sua espinha, mas ele o afastou. Era apenas o jogo chegando ao clímax.
— Eu também, pequena. Eu também.
Naquela noite, Kuro não conseguiu voltar a dormir imediatamente. Ele olhou para o teto, pensando no plano. O próximo final de semana seria o momento. Ele a convidaria para sua casa, diria que seus pais viajaram, prepararia o cenário. A câmera estaria escondida. Ele conseguiria a prova, ganharia a aposta e terminaria tudo.
Ele imaginou o rosto de Tatsuyo quando ele contasse a verdade. Imaginou o brilho nos olhos dela se apagando. Um pensamento rápido cruzou sua mente: "Ela vai aguentar?". Ele sabia da depressão grave, sabia das crises. Mas o orgulho de Kuro Hatake era maior do que qualquer empatia. Ele nunca perdia uma aposta.
No dia seguinte, na escola, os amigos o cercaram novamente.
— Ela disse que te ama? — perguntou Ren, incrédulo.
— Ontem à noite. Por telefone — Kuro respondeu com um sorriso triunfante. — O "vrau" vai ser no sábado. Vou gravar tudo no meu quarto. Segunda-feira, eu mostro o vídeo para vocês e dou o fora nela na frente de todo mundo no intervalo.
— Cara, isso vai ser épico — disse Leo, rindo. — Ela vai ficar destruída.
— Esse é o objetivo, não é? — Kuro deu de ombros, embora, por um breve milésimo de segundo, a imagem de Tatsuyo beijando sua cicatriz tenha passado por sua mente. Ele a afastou. — Ela é só uma garota esquisita que deu sorte de ter minha atenção por algumas semanas.
Longe dali, no banheiro feminino, Tatsuyo lavava o rosto, tentando esconder os olhos inchados do choro da madrugada. Ela sorria para o espelho. Pela primeira vez em anos, ela sentia que o vazio em seu peito estava sendo preenchido. Ela não sabia que estava construindo sua casa sobre areia movediça, e que o garoto que ela chamava de "seu herói" era, na verdade, o arquiteto de sua ruína.
Ela pegou o celular e enviou mais uma mensagem para Kuro: "Mal posso esperar pelo sábado. Vou me entregar de corpo e alma para você. Obrigada por me salvar."
Kuro sentiu o celular vibrar no bolso. Ele não precisou ler para saber que era ela. Ele apenas sorriu para os amigos, sentindo o cheiro do dinheiro e o gosto amargo da traição que estava prestes a servir. O jogo estava quase no fim, e o coração de Tatsuyo Nakamura estava prestes a ser o troféu mais caro que Kuro já havia conquistado.