A aranha encurralada pelo filhote de morcego
Entre Frequências e Batimentos Cardíacos
O corredor principal da Academia Gotham no horário do intervalo era o equivalente acústico a estar dentro de um motor de avião a jato para Peter Parker. Mesmo com o supressor de frequência firmemente ajustado em sua orelha esquerda, a cacofonia de armários batendo, risadas estridentes e o arrastar de centenas de sapatos no chão de mármore fazia sua cabeça latejar. Ele se encolheu contra o seu armário, os dedos trêmulos girando o pequeno seletor de metal no aparelho para tentar abafar o som do salto alto de uma professora a três corredores de distância.
— Se você continuar apertando isso com tanta força, vai acabar quebrando a liga de titânio.
Peter deu um sobressalto, as costas batendo contra o metal do armário com um baque surdo. Ele olhou para o lado e encontrou Tim Drake parado ali, com um sorriso leve e os braços cruzados sobre o peito. Tim usava o uniforme da escola com uma elegância despojada que Peter jamais conseguiria replicar, a jaqueta ligeiramente aberta e o cabelo preto bagunçado de um jeito que parecia proposital, mas que Peter sabia ser fruto de mais uma noite sem dormir.
— Tim! Oi. Eu... eu não vi você chegando — gaguejou Peter, sentindo o rosto esquentar instantaneamente. Ele ajeitou os óculos no nariz, um tique nervoso que adotara desde que chegara àquele universo.
— Eu percebi. Você parecia estar em outra dimensão — Tim comentou, dando um passo à frente. A diferença de altura entre eles ficou evidente quando Tim se aproximou, sua silhueta bloqueando parte do fluxo de estudantes que passavam pelo corredor. — Está tudo bem com o ouvido hoje? O barulho está muito alto?
A preocupação na voz de Tim era genuína, e isso sempre desarmava Peter. No seu antigo mundo, ele era o protetor, o herói que cuidava de todos. Ter alguém que parecia constantemente focado em seu bem-estar era uma sensação tão nova quanto assustadora.
— Sim, só... Gotham é uma cidade barulhenta. Acho que o clima úmido afeta as soldas do aparelho às vezes — mentiu Peter, oferecendo um sorriso tímido.
— Entendo — disse Tim, seus olhos escuros brilhando com aquela intensidade analítica que sempre fazia Peter sentir como se estivesse sob um microscópio. — Bom, talvez isso aqui ajude a melhorar o seu humor.
Tim enfiou a mão no bolso da calça e puxou uma pequena caixa de veludo preto. Ele a estendeu para Peter.
— O que é isso? — Peter perguntou, piscando confuso.
— Abra.
Com os dedos ligeiramente desajeitados, Peter pegou a caixa e a abriu. Dentro, repousavam três microprocessadores de última geração, do tamanho de grãos de arroz, brilhando sob a luz fluorescente do corredor. Peter sufocou um suspiro. Ele reconheceu a marca imediatamente; eram componentes experimentais da Wayne Enterprises, peças que nem sequer estavam no mercado e que custariam o equivalente a seis meses do seu salário na cafeteria.
— Tim, eu... eu não posso aceitar isso! — Peter tentou fechar a caixa, mas Tim colocou a mão sobre a dele, impedindo-o.
— Claro que pode. Eu vi esses protótipos no laboratório de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa do meu pai e pensei que eles seriam perfeitos para o seu... projeto de engenharia — Tim disse, inclinando-se um pouco mais perto. Sua voz caiu para um tom mais baixo, quase um sussurro que o aparelho de Peter captou com uma nitidez avassaladora. — Considere um presente de um amigo que se importa com o seu silêncio.
O toque da mão de Tim, quente e firme sobre os dedos de Peter, enviou uma onda de eletricidade direto para a espinha do jovem herói. Peter sentiu suas bochechas arderem em um tom violento de vermelho.
— É... é muito generoso da sua parte. Obrigado, Tim — murmurou Peter, olhando para os próprios pés para evitar o olhar intenso do outro.
Tim soltou uma risada baixa, um som que fez o coração de Peter falhar uma batida. Antes que Peter pudesse se afastar, Tim deu um passo para o lado para dar passagem a um grupo de estudantes barulhentos e, ao fazer isso, sua mão desceu casualmente para a cintura de Peter, puxando-o levemente para mais perto para protegê-lo do fluxo de pessoas.
O sentido aranha de Peter não disparou como um aviso de perigo, mas todo o seu corpo travou. A mão de Tim em sua cintura era firme, possessiva de uma forma que Peter não sabia como processar. Ele prendeu a respiração, sentindo o calor do corpo de Tim tão próximo ao seu.
— Drake. Parker.
A voz fria e cortante quebrou o momento. Peter olhou para o lado e viu Damian Wayne parado a poucos metros de distância, segurando uma pasta de couro. O garoto mais novo olhava para os dois com uma expressão de profundo tédio e desdém, embora seus olhos verdes estivessem atentos.
— Damian — disse Tim, sem remover imediatamente a mão da cintura de Peter, o que só fez o blush de Peter se estender até as orelhas. — Precisa de alguma coisa?
— Apenas lembrá-lo de que a exibição pública de sentimentalismo barato nos corredores da academia é patética — Damian respondeu, cruzando os braços. Ele voltou seu olhar para Peter. — Parker, espero que você não esteja deixando a incompetência crônica de Drake afetar seu desempenho acadêmico. O professor de física mencionou que seu último relatório foi brilhante. Seria uma pena se você se distraísse com... futilidades.
— Ah, não, eu... eu estou focado, Damian. Totalmente focado — gaguejou Peter, desvencilhando-se suavemente do aperto de Tim, embora uma parte dele sentisse falta do calor quase instantaneamente.
Damian soltou um som nasal que parecia um哼 de desaprovação.
— Tanto faz. Não se atrase para a aula de literatura, Parker. O debate de hoje exige alguém com um cérebro funcional, e a cota da sala já está perigosamente baixa.
Com isso, o Wayne mais jovem deu meia-volta e caminhou pelo corredor com sua habitual postura aristocrática. Peter soltou o ar que nem sabia que estava segurando.
— Não ligue para ele — Tim disse, balançando a cabeça com um sorriso divertido. — Damian tem o charme de um porco-espinho. Mas ele está certo sobre uma coisa.
— Sobre o quê? — Peter perguntou, olhando para Tim.
— Você é brilhante, Peter — Tim disse, e dessa vez, ele estendeu a mão e tocou de leve a ponta do nariz de Peter, um gesto carinhoso que fez o estômago de Peter dar nós. — Vejo você mais tarde na cafeteria?
— Sim... sim, claro. Meu turno começa às quatro — Peter respondeu, a voz quase sumindo.
Tim piscou para ele, deu um tapinha leve no ombro de Peter e se afastou, misturando-se à multidão de alunos. Peter ficou parado ali por um bom tempo, segurando a caixinha de veludo contra o peito, tentando acalmar os batimentos cardíacos que pareciam ressoar mais alto do que qualquer ruído de Gotham.
***
Às dezenove horas, a cafeteria "The Drip" estava mergulhada na penumbra cinzenta típica das noites de outono da cidade. A chuva começara a tamborilar contra as grandes vidraças da frente, criando uma atmosfera isolada e quase aconchegante. Peter estava atrás do balcão, limpando a máquina de café expresso. O aroma forte dos grãos torrados era um dos poucos cheiros que ele realmente apreciava naquele mundo; ajudava a ancorá-lo.
O sino acima da porta tocou. Peter nem precisou olhar para cima para saber quem era. Seu sentido aranha deu aquela vibração familiar e calorosa, e o som dos passos calmos e determinados na entrada era inconfundível.
Tim Drake entrou, sacudindo algumas gotas de chuva de sua jaqueta escura. Ele parecia cansado, com sombras sutis sob os olhos que sugeriam que ele passara a tarde inteira envolvido em algo exaustivo — provavelmente os mistérios que ele sempre parecia carregar consigo. Mas, no momento em que seus olhos encontraram os de Peter, sua expressão se suavizou.
— O de sempre? — Peter perguntou, apoiando as mãos no balcão de madeira com um sorriso que não conseguiu conter.
— Por favor. E se você puder colocar um pouco daquela sua energia positiva nele, eu agradeceria. Tive uma tarde longa com o conselho da Wayne Enterprises — Tim disse, soltando um suspiro pesado enquanto se sentava em um dos bancos altos do balcão.
Peter começou a preparar o café preto forte que Tim tanto gostava. Enquanto a máquina trabalhava, ele olhou de relance para o cliente.
— Você trabalha demais, Tim. Você ainda é um estudante, sabia?
— Eu poderia dizer o mesmo de você, Parker — Tim rebateu, apoiando o queixo na mão, observando os movimentos ágeis de Peter. — Escola de elite de manhã, laboratório à tarde, trabalho à noite... Quando é que você dorme?
— Ah, sabe como é... o sono é para os fracos — brincou Peter, pegando uma caneca de porcelana.
Nesse momento, devido ao cansaço acumulado e à distração de ter Tim o observando tão de perto, os dedos de Peter escorregaram. A caneca de porcelana caiu de sua mão, indo direto em direção ao chão de azulejos.
Para uma pessoa comum, a caneca estaria estraçalhada. Mas os reflexos de Peter eram os de uma aranha. Em uma fração de segundo, antes mesmo que a gravidade pudesse puxar o objeto por trinta centímetros, a mão de Peter disparou para baixo, capturando a caneca pelo cabo a poucos milímetros do chão, sem derramar uma única gota do café que começara a encher o recipiente.
Peter congelou na posição, percebendo imediatamente o erro que cometera. Ninguém normal tinha reflexos assim. Ele engoliu em seco e endireitou o corpo lentamente, colocando a caneca no balcão com as mãos ligeiramente trêmulas.
Ele olhou para Tim, temendo o pior. Tim estava com os olhos fixos na caneca, e depois os elevou para o rosto de Peter. A mente brilhante do terceiro Robin estava claramente calculando a velocidade, a trajetória e o tempo de reação impossível que acabara de testemunhar.
— Isso... foi impressionante — Tim disse lentamente, sua voz carregada de uma curiosidade perigosa.
— Eu... eu faço muitos malabarismos — Peter mentiu descaradamente, sentindo o suor frio descer por sua nuca. — Reflexos de goleiro, sabe? Eu jogava muito futebol quando era... mais jovem.
Tim não comprou a desculpa, mas decidiu não pressionar. Em vez disso, ele se levantou do banco e deu a volta pelo balcão, entrando na área de serviço da cafeteria. Peter deu um passo para trás, mas o espaço era estreito.
— Tim, você não pode vir aqui atrás, as regras da loja...
— Não tem ninguém aqui, Peter — Tim o interrompeu suavemente.
Ele se aproximou até que não houvesse mais espaço entre eles. Tim estendeu a mão e pegou a caneca de café, colocando-a de lado. Então, seus olhos escuros fixaram-se nos de Peter, cheios de uma intensidade que fez o coração do herói disparar.
— Você é cheio de segredos, não é, Peter Parker? — Tim sussurrou, dando mais um passo à frente.
Peter estava encurralado entre o peito de Tim e as prateleiras de suprimentos. Ele podia sentir o calor emanando de Tim, o cheiro de chuva e colônia cara.
— Eu não tenho segredos. Sou só o Peter — ele disse, a voz saindo mais fraca do que pretendia.
Tim deu um sorriso de canto, um misto de diversão e afeição. Ele ergueu a mão livre e, com uma lentidão torturante, tocou a lateral do rosto de Peter, o polegar acariciando de leve a maçã de sua bochecha. Peter fechou os olhos por um breve segundo, entregando-se ao toque. Em seguida, a mão de Tim desceu pelo pescoço de Peter, fazendo-o estremecer, e parou firmemente em sua cintura, puxando-o para um abraço de lado que era ao mesmo tempo protetor e incrivelmente íntimo.
— Você pode ser quem você quiser ser, Peter — Tim disse perto de sua orelha, sua respiração quente agitando os fios castanhos do cabelo de Peter. — Mas não tente se esconder de mim. Eu passei tempo demais procurando por algo real nesta cidade para deixar você simplesmente escapar.
Peter sentiu seu rosto queimar tanto que teve certeza de que poderia iluminar a cafeteria escura. Seus braços ficaram rigidamente ao lado do corpo antes que, timidamente, ele retribuísse o aperto, segurando o tecido da jaqueta de Tim com os dedos trêmulos.
— Eu não vou a lugar nenhum, Tim — Peter confessou em um sussurro sincero. Era a verdade. Ele não tinha mais para onde ir, nenhum outro universo o esperava. Gotham era seu lar agora, por mais sombrio que fosse.
Tim se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos de Peter novamente. O olhar protetor e possessivo de Tim era quase avassalador, mas, pela primeira vez, Peter não sentiu vontade de fugir daquela atenção.
— Bom — Tim disse, abrindo um sorriso largo e genuíno que iluminou seu rosto cansado. — Porque eu pretendo vir aqui tomar café todos os dias. E não pense que esqueci que você me deve uma explicação sobre como aprendeu a fazer esses "malabarismos".
Peter soltou uma risada nervosa, ajustando os óculos com a mão livre, enquanto a outra ainda permanecia timidamente perto da cintura de Tim.
— É uma longa história.
— Eu tenho a noite toda — Tim respondeu, piscando para ele antes de finalmente soltá-lo e pegar sua caneca de café.
Enquanto Tim voltava para o seu lugar no balcão, Peter limpou as mãos no avental, sentindo o calor do toque de Tim ainda marcado em sua pele. Ele olhou para a chuva caindo do lado de fora, o som das gotas agora suavizado pelo filtro de seu aparelho e pelo batimento constante e seguro de seu próprio coração.
A solidão que o acompanhara desde que cruzara as barreiras dimensionais parecia, finalmente, estar se dissipando. Peter Parker ainda tinha o peso do mundo em seus ombros, mas ali, com Tim Drake sorrindo para ele do outro lado do balcão, o fardo parecia um pouco mais leve de carregar.