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A briga (Edgar é amora)

O Silêncio dos Dragões e a Fúria de um Pai

O castelo estava mergulhado em um silêncio desconfortável, daqueles que parecem pesar toneladas sobre os ombros de quem caminha pelos corredores de pedra. Eu seguia Amora de longe, mantendo uma distância segura, como um cachorrinho que sabe que fez bagunça e está esperando a dona se acalmar. O "castigo" dela era pior do que qualquer rajada de gelo que o Edgar pudesse lançar em mim. Ficar sem os beijos da Amora era como ser um dragão sem fogo: triste, frio e sem utilidade nenhuma.

— Amora, sério, vamos conversar! — exclamei, apressando o passo para alcançá-la. — O Kip estava falando coisas absurdas de você. Eu não podia simplesmente ficar parado ouvindo ele desrespeitar minha namorada.

Ela parou de repente, virando-se com uma agilidade que me fez quase tropeçar nos próprios pés. Seus olhos roxos brilhavam, não de ódio, mas de uma teimosia que eu conhecia muito bem.

— Scorpio, eu sei que ele é um idiota. Todo mundo sabe! — Ela cruzou os braços sobre o peito. — Mas meu pai já está procurando qualquer motivo para te expulsar daqui permanentemente. Se ele te pega brigando no jardim, ou pior, usando seus poderes de fogo contra outro aluno, ele vai ter a desculpa perfeita. Você não entende? Eu estou tentando te proteger!

— Me proteger? — Eu ri, uma risada sem graça. — Chuchu, eu sou um Diabrotic. Eu lido com fogo e perigo desde que nasci. Quem precisa de proteção é o Kip se ele abrir a boca de novo.

Amora soltou um suspiro pesado e voltou a andar, mas dessa vez não foi para o quarto dela. Ela seguiu em direção à biblioteca real, um lugar onde raramente íamos, a menos que fosse para fugir de alguém.

— O castigo continua — sentenciou ela, sem olhar para trás. — E se reclamar, eu aumento para duas semanas.

Entramos na biblioteca e o cheiro de pergaminho antigo e poeira nos atingiu. Lá no fundo, sentada em uma das mesas circulares, estava minha irmã, Sofia, junto com a Lila e a Pandora. Elas pareciam estar estudando algum mapa antigo, mas assim que nos viram, o clima de "estudo" desapareceu.

— Ih, olha a cara do meu irmão — Sofia zombou, apontando para mim. — Parece que levou uma surra mental da Amora. E aí, o Kip ainda tem todos os dentes?

— Sofia, não começa — resmunguei, sentando-me na cadeira mais afastada.

— Ele mereceu, Sofia — defendeu Pandora, com sua voz sempre doce, embora seus olhos mostrassem que ela concordava com a punição. — Mas o Scorpio realmente precisa controlar esse temperamento. O Rei Edgar está furioso. Ele se trancou na sala do trono com a Sadi e a Olivia para discutir "protocolos de segurança".

Senti um calafrio. Quando o Edgar falava em "protocolos de segurança", geralmente significava "como manter o Scorpio a cinquenta metros de distância da minha filha".

— Ele não pode fazer nada contra o nosso namoro legalmente, pode? — perguntei, olhando para Lila, que era a mais sensata do grupo.

Lila mordeu o lábio, pensativa.

— Legalmente? Talvez não. Mas ele é o rei, Scorpio. Ele pode te mandar para uma missão diplomática no outro lado do mundo ou te colocar em treinamento intensivo com os guerreiros de elite até você não ter forças nem para dizer "bom dia".

— Ótimo — murmurei, encostando a cabeça na mesa de madeira. — Eu sobrevivo ao fogo, mas vou morrer de cansaço ou de saudade.

Amora, que estava folheando um livro qualquer apenas para fingir que não estava prestando atenção, amoleceu um pouco a expressão. Ela se aproximou da minha cadeira e colocou a mão no meu ombro. Por um segundo, achei que o castigo tinha acabado, mas ela apenas apertou meu ombro com firmeza.

— Vai ficar tudo bem, dragãozinho. Só precisamos manter a calma. Eu vou falar com a Sadi. Ela tem influência sobre o meu pai. Talvez ela consiga convencê-lo de que você não é o monstro que ele imagina.

— Eu não sou um monstro, sou apenas incompreendido — brinquei, tentando arrancar um sorriso dela.

Ela deu um sorrisinho de lado, mas logo o escondeu.

— Não tente me ganhar com humor. O castigo ainda está de pé.

Enquanto as meninas voltavam a conversar sobre os dramas do castelo, meu fada-fone vibrou novamente. Dessa vez, não era um número desconhecido. Era uma mensagem da Sterna no grupo das fadas e guerreiros.

*Chat do Grupo* *Sterna: "Gente, o clima aqui na sala de jantar ficou péssimo depois que vocês saíram. A Dona Dulce está tentando acalmar o Edgar com torta de amora, mas ele disse que 'amoras são doces demais e precisam de proteção contra pragas'."*

*Sofia: "Pragas? Ele me chamou de praga por tabela?"*

*Sterna: "Acho que ele se referia ao Scorpio, Sofi... kkk"*

*Olivia: "Ele está vindo para a biblioteca. Escondam o Scorpio!"*

Meus olhos se arregalaram ao ler a última mensagem. Olhei para a porta da biblioteca e, como se fosse cronometrado, ouvi o som de botas pesadas marchando pelo corredor. O som era rítmico, autoritário. Era ele.

— Ele está vindo! — sussurrei com urgência.

— Quem? — perguntou Lila.

— O sogrão! — Sofia respondeu por mim, já fechando os livros rapidamente. — Scorpio, entra embaixo da mesa!

— Eu não vou me esconder embaixo de uma mesa como um covarde! — protestei, embora minhas pernas estivessem prontas para correr.

— Entra logo, Scorpio! — Amora ordenou, e sua voz de princesa não admitia discussões.

Eu me enfiei debaixo da mesa enorme de carvalho, espremido entre as pernas das cadeiras e os pés da Sofia e da Amora. Poucos segundos depois, as portas da biblioteca se abriram com um estrondo controlado.

— Amora? — A voz de Edgar ecoou pelo salão. Era fria como o gelo profundo.

— Sim, pai? — Ela respondeu, e eu podia jurar que ela estava fingindo ler o livro de ponta-cabeça.

— Onde está aquele rapaz? O Diabrotic.

Houve uma pausa agonizante. Eu prendi a respiração, sentindo o cheiro do verniz da mesa.

— Ele... ele saiu, pai — disse Sofia, com uma naturalidade impressionante para quem estava chutando minha canela debaixo da mesa para eu ficar quieto. — Acho que ele foi treinar na arena. Ele parecia muito... frustrado.

Ouvi os passos de Edgar se aproximando da mesa. Ele parou bem na minha frente — ou melhor, na frente de onde eu estava escondido. Eu conseguia ver as botas polidas dele a poucos centímetros do meu nariz.

— Frustrado, é? — Edgar comentou. — Ele deveria estar grato por eu não ter transformado ele em cinzas naquele almoço. Amora, minha filha, você tem um futuro brilhante. Você é a herdeira de um legado de luz. Por que insiste em se envolver com as chamas?

— Pai, o fogo não é necessariamente ruim — Amora disse, e sua voz estava firme agora. — O fogo aquece, o fogo ilumina. O Scorpio tem um coração bom, mesmo que ele seja um pouco... explosivo às vezes. Você não pode julgar ele pela família ou pelo passado.

— Eu o julgo pelas ações — rebateu Edgar. — E hoje ele agrediu outro aluno nos jardins.

— O Kip mereceu! — Sofia interveio, e eu mentalmente agradeci à minha irmã, mesmo que ela fosse irritante 90% do tempo. — Ele falou coisas horríveis da Amora. O Scorpio só a defendeu.

Edgar soltou um som que parecia um rosnado abafado.

— Defesa ou não, ele não deve usar a força bruta dentro deste castelo. Amora, venha comigo. Temos muito o que conversar sobre suas responsabilidades. E quanto a você, Sofia... certifique-se de que seu irmão entenda que minha paciência tem um limite. E esse limite é muito curto.

Os passos se afastaram. Ouvi as portas se fecharem novamente. Esperei mais um minuto inteiro antes de sair de debaixo da mesa, tossindo por causa da poeira.

— Cara, eu odeio esconderijos — reclamei, espanando minha roupa.

— Você ouviu o que ele disse, Scorpio — Amora falou, olhando para mim com uma expressão preocupada. — Ele está no limite.

— Eu ouvi. Mas também ouvi você me defendendo — eu disse, dando um passo em direção a ela. — "O fogo aquece, o fogo ilumina"... foi bonito, chuchu.

Ela corou levemente, mas logo recuperou a postura.

— Não se acostume. E o castigo ainda não acabou.

— Ah, qual é! Eu acabei de passar pelo trauma de quase ser pisoteado pelo rei! — implorei.

Lila e Pandora riram, enquanto Sofia revirava os olhos.

— Vamos, gente — chamou Lila. — Vamos deixar os pombinhos se entenderem. Temos que ajudar a Sadi com os preparativos para o festival de amanhã.

As meninas saíram, deixando apenas eu e Amora na biblioteca silenciosa. A luz do entardecer entrava pelas janelas altas, pintando o ambiente de dourado. Amora sentou-se em uma das poltronas de veludo e eu me sentei no chão, aos pés dela.

— Você está realmente brava comigo? — perguntei baixinho, olhando para cima.

Ela suspirou, passando a mão pelo meu cabelo.

— Não estou brava, Scorpio. Estou com medo. Meu pai é um homem difícil. Ele demorou anos para aceitar as mudanças no reino, e ele vê você como uma ameaça à minha segurança. Eu só não quero que nada nos separe.

— Nada vai nos separar — prometi, segurando a mão dela. — Eu posso ser um idiota às vezes, e posso perder a cabeça com caras como o Kip, mas eu nunca vou deixar ninguém, nem mesmo o seu pai, me afastar de você. Eu vou provar para ele que eu sou digno.

Amora sorriu, um sorriso verdadeiro dessa vez. Ela se inclinou para frente, diminuindo a distância entre nossos rostos. Meus batimentos cardíacos aceleraram.

— Então o castigo acabou? — perguntei, com esperança.

Ela parou a milímetros dos meus lábios, o hálito com cheiro de menta.

— Hum... deixe-me pensar. Você foi um bom menino escondido debaixo da mesa?

— O melhor de todos. Nem espirrei!

— Está bem — ela sussurrou. — O castigo está suspenso... por enquanto.

Quando nossos lábios finalmente se tocaram, foi como se todo o caos do dia — o almoço desastroso, a briga com o Kip, a fúria do Edgar — desaparecesse. Era apenas o fogo e a luz se encontrando, como deveria ser.

Mas, como nada na minha vida é fácil, o momento foi interrompido por um pigarro alto vindo da entrada da biblioteca.

Nos separamos bruscamente. Lá estava o Kip, com um curativo no lábio e um olho roxo, acompanhado por nada mais, nada menos que a Olivia.

— Desculpe interromper o momento "romântico" — disse Kip, com a voz anasalada por causa do soco. — Mas a Olivia disse que eu precisava pedir desculpas.

Olivia cruzou os braços, olhando para Kip com uma cara de poucos amigos.

— Peça logo, Kip. Ou eu mesma te transformo em um sapo e te deixo no fosso.

Kip olhou para mim, depois para Amora, e murmurou algo que soou como "desculpaporfalaraquelascoisas".

— Não ouvi — eu disse, provocando.

— Desculpa, tá legal? — ele gritou, irritado. — Mas você ainda é um bruto, Diabrotic.

— E você ainda é um fofoqueiro, Kip — Amora rebateu, levantando-se. — Agora saia daqui antes que eu mesma decida qual vai ser o próximo castigo do Scorpio... e eu garanto que vai envolver você sendo o alvo de treino dele.

Kip empalideceu e saiu correndo, com Olivia logo atrás, rindo da covardia dele.

Amora voltou a olhar para mim e estendeu a mão.

— Vem, dragãozinho. Vamos jantar na cozinha com a Dona Dulce. Longe do meu pai e de qualquer outra pessoa que queira estragar o nosso dia.

— Comida da Dona Dulce e a sua companhia? — sorri, entrelaçando meus dedos nos dela. — Esse é o melhor plano que eu ouvi o dia todo.

Caminhamos juntos pelos corredores, agora mais escuros, mas eu não sentia mais o peso do castelo. Enquanto estivéssemos juntos, o fogo Diabrotic e a luz da princesa Amora sempre encontrariam um jeito de brilhar, não importava o quanto o mundo — ou o sogro — tentasse apagar.

— Scorpio? — Amora chamou, enquanto descíamos as escadas.

— Sim, chuchu?

— Se você bater em mais alguém essa semana... o castigo vai ser de um mês.

— Entendido — respondi, rindo. — Vou tentar ser um anjinho. Mas não prometo nada se o Kip abrir a boca de novo.

— Scorpio!

— Brincadeira! Ou talvez não...

O som das nossas risadas ecoou pelas paredes de pedra, um pequeno ato de rebeldia contra a seriedade do reino. O amanhã traria novos desafios, novos olhares tortos de Edgar e, provavelmente, mais mensagens estranhas no fada-fone. Mas, por aquela noite, éramos apenas dois jovens namorando, fugindo para a cozinha em busca de torta e paz.