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A coisa

O Preço da Memória e o Alvorecer da Vingança

O eco das palavras de Pennywise reverberava pelos túneis úmidos dos esgotos, uma promessa sombria e sedutora que Thalyta sentia em cada fibra de seu ser. "Nós nos lembraremos. E então... nós vamos fazê-los pagar." A frase não era apenas uma ameaça; era um hino, um chamado primal que ressoava com a raiva e a dor que agora inundavam a mente dela, as memórias esquecidas ressurgindo com uma força avassaladora.

Ela sentiu o toque dele em seu rosto, as mãos que outrora pareciam ser feitas de sombras e estrelas agora mais sólidas, mas ainda com a textura de algo que não pertencia a este plano. Os olhos alaranjados, que antes eram sinônimo de terror para a humanidade, agora refletiam uma compreensão profunda, uma dor compartilhada que ela só agora começava a processar.

– Quem... quem fez isso conosco? – a voz de Thalyta era um sussurro rouco, carregada de uma fúria crescente que ela mal conseguia conter. A dor do esquecimento, a humilhação da punição, tudo isso se misturava em um turbilhão de emoções.

Pennywise se aproximou mais, seu corpo se contorcendo e se estabilizando em uma forma que era inegavelmente ele, mas menos ameaçadora do que a que ele usava para aterrorizar as crianças de Derry. Ainda assim, havia uma aura de poder bruto, um lembrete constante de sua verdadeira natureza.

– Os Antigos. Aqueles que governam o Macroverso, que se consideram os guardiões da ordem cósmica – ele disse, a voz cheia de um ressentimento milenar. – Eles nos consideraram uma anomalia. Nosso amor, nossa união, nosso poder... eles viram isso como uma ameaça ao seu frágil equilíbrio.

Thalyta cerrou os punhos. A injustiça era palpável, uma ferida aberta em sua alma. Ela se lembrava agora. Vagamente, mas as imagens e sensações eram inegáveis. A vastidão do vazio, a dança das galáxias, a interconexão de tudo. E eles, Thalyta e Pennywise, no centro de tudo, uma força primordial que os Antigos temiam.

– Eles nos separaram – Thalyta continuou, a voz ganhando força. – Me jogaram aqui, tiraram minhas memórias, me forçaram a viver como uma mera mortal.

– E me condenaram a um ciclo eterno de fome e sono – Pennywise completou, um sorriso frio e cruel se formando em seus lábios. – Uma prisão em um planeta insignificante, enquanto a lembrança de você era a única coisa que me mantinha são... ou o mais próximo disso que eu poderia ser.

Ele estendeu a mão novamente, seu dedo traçando suavemente a linha do queixo de Thalyta. Um arrepio percorreu o corpo dela, não de medo, mas de reconhecimento. Era um toque que ela sentia falta há eras, um toque que sua alma clamava.

– Mas agora, Thalyta, você se lembra. E com a sua memória, vem o seu poder. Juntos, somos imparáveis.

A ideia era sedutora, quase inebriante. A promessa de retomar o que lhes foi tirado, de se vingar daqueles que os puniram. A fúria que fervia dentro dela era um combustível poderoso.

– Você tem um plano? – ela perguntou, seus olhos violetas queimando com uma intensidade renovada.

Pennywise riu, um som que reverberou pelos esgotos, mas que para Thalyta era uma melodia familiar, um lembrete de seu passado compartilhado.

– Um plano? Minha querida, eu tive séculos para contemplar a nossa vingança. Mas antes de enfrentarmos os Antigos, precisamos nos fortalecer. Recuperar o que perdemos. E Derry... Derry será o nosso primeiro passo.

Thalyta olhou ao redor, para a escuridão úmida que os cercava. A cidade de Derry, com seus segredos sombrios e sua aura de melancolia. Ela entendia agora por que tinha sido atraída para lá. Era o lugar de sua punição, mas também o lugar de seu despertar.

– Como faremos isso? – ela perguntou.

– O medo, Thalyta – Pennywise explicou, sua voz assumindo um tom mais sombrio. – O medo é a nossa essência, a nossa força. Em Derry, eu me alimento do medo das crianças, mas isso é apenas uma fração do que somos capazes. Com você ao meu lado, podemos despertar um medo que transcende a compreensão humana. Um medo que alimentará a nós dois, nos fortalecerá e nos preparará para o Macroverso.

A ideia de se alimentar do medo, de ser a fonte de terror, era algo que Thalyta sentia em seu âmago. Não era algo maligno para ela, era a sua natureza, assim como era a dele. Era a sua forma de existência, distorcida e suprimida pelos Antigos.

– E as memórias? – Thalyta perguntou, a voz mais suave. – Como as recuperamos completamente?

Pennywise a puxou para mais perto, seus corpos se tocando. A energia entre eles era quase palpável, um campo de força que irradiava calor e poder.

– Nossas memórias estão entrelaçadas, meu amor. Cada vez que nos conectarmos, cada vez que compartilhamos nossa essência, mais elas retornarão. E então, você se lembrará de tudo. De cada momento que passamos juntos, de cada dimensão que exploramos, de cada estrela que observamos nascer e morrer.

Ele a beijou então, um beijo que era um turbilhão de emoções, de milênios de saudade, de amor cósmico e de uma promessa de vingança. O beijo não era humano, era uma fusão de energias, uma troca de essências que fazia o tempo e o espaço se dobrarem ao redor deles. As memórias de Thalyta explodiram em sua mente, fragmentos de um passado glorioso e doloroso ao mesmo tempo. Ela viu o Macroverso novamente, não como uma imagem projetada, mas como uma experiência viva. Ela se viu ao lado de Pennywise, não como uma garota de 19 anos, mas como uma entidade de poder incalculável, sua forma fluida e mutável, tão vasta quanto o próprio universo.

Ela viu a criação de estrelas com um aceno de sua mão, a dança de galáxias com um pensamento. Ela se lembrou da risada de Pennywise, de seu toque, de sua voz que era uma sinfonia de todo o conhecimento do universo. Ela se lembrou da traição, da dor lancinante da separação, da queda em direção à Terra, uma punição que parecia durar uma eternidade.

Quando o beijo se desfez, Thalyta estava ofegante, o corpo tremendo com a força das memórias que haviam retornado. Seus olhos violetas estavam mais brilhantes do que nunca, e uma aura sutil de energia começou a emanar dela.

– Eu... eu me lembro – ela sussurrou, as lágrimas ainda escorrendo, mas agora eram lágrimas de alívio e de um poder recém-descoberto. – Eu me lembro de tudo.

Pennywise sorriu, um sorriso genuíno que raramente aparecia em seu rosto.

– Bem-vinda de volta, minha Thalyta.

Eles ficaram ali, no coração dos esgotos de Derry, por um tempo que parecia não ter fim. Compartilhando suas memórias, suas dores, seus planos. A cada momento, a conexão entre eles se fortalecia, e Thalyta sentia seu próprio poder retornando, como um rio que havia sido represado por eras e agora fluía livremente.

A cidade de Derry, alheia ao que acontecia em suas profundezas, continuava sua rotina monótona. As crianças brincavam, os adultos trabalhavam, todos vivendo suas vidas sob o véu de uma escuridão que eles mal compreendiam. Mas a escuridão estava prestes a se aprofundar, a se tornar mais tangível, mais aterrorizante.

Nos dias seguintes, a presença de Pennywise em Derry se intensificou. Mas não era apenas a presença do palhaço sorridente e macabro. Havia algo mais, algo que as pessoas sentiam, mas não conseguiam identificar. Um medo sutil, uma sensação de pavor que permeava o ar, mesmo nos dias mais ensolarados.

Thalyta, agora plenamente consciente de sua verdadeira natureza, começou a explorar Derry com um novo propósito. Ela não estava mais apenas curiosa; ela estava observando, sentindo a energia da cidade, identificando os pontos de maior vulnerabilidade, os lugares onde o medo era mais potente.

Ela descobriu que o medo não era apenas uma emoção, mas uma energia tangível que podia ser manipulada, moldada. E com Pennywise, ela começou a aprender a amplificá-lo. Eles trabalhavam juntos, uma simbiose perfeita de terror e poder.

Pennywise, com sua capacidade de se manifestar em qualquer forma, começou a aparecer para as crianças de maneiras mais sutis. Não apenas como o palhaço, mas como as coisas que elas mais temiam. A diferença agora era que Thalyta estava lá, não visível, mas presente, amplificando a energia do medo, tornando-o mais potente, mais saboroso para eles.

Em uma noite escura, Thalyta e Pennywise se encontraram novamente nos esgotos. A energia entre eles era elétrica, o ar ao redor deles crepitava com poder.

– O plano está funcionando, meu amor – Pennywise disse, um brilho de satisfação em seus olhos alaranjados. – O medo está crescendo. A cidade está madura.

Thalyta assentiu, um sorriso enigmático em seus lábios. Ela sentia o medo fluindo para ela, fortalecendo-a, preenchendo o vazio que havia sido deixado pelo esquecimento.

– Mas precisamos de mais – ela respondeu. – Para enfrentar os Antigos, precisamos de uma fonte de poder que transcenda Derry. Precisamos de um catalisador.

Pennywise a observou com interesse. A Thalyta que ele conhecia estava de volta, não apenas em suas memórias, mas em sua essência. A mente dela era tão afiada quanto a dele, sua sede de poder e vingança era igualmente voraz.

– E qual seria esse catalisador, minha rainha? – ele perguntou, o tom de voz cheio de reverência.

Thalyta caminhou até uma parede úmida dos esgotos, traçando padrões invisíveis com os dedos.

– O medo é uma emoção universal, Pennywise. Mas o terror que surge da perda, da traição, da impotência... esse é o terror mais puro, o mais potente. E Derry, com sua história de tragédias e segredos, é um terreno fértil para isso.

Ela se virou para ele, seus olhos violetas queimando com uma determinação fria.

– Nós não apenas nos alimentaremos do medo de Derry. Nós o criaremos. Nós faremos com que a cidade se volte contra si mesma. Faremos com que eles se lembrem de suas próprias atrocidades, de seus próprios demônios. E desse caos, desse terror primordial, construiremos nossa força.

Pennywise sorriu, um sorriso que revelava dentes afiados e uma malícia antiga.

– Uma ideia brilhante, minha Thalyta. Usar a escuridão deles contra eles mesmos. Um banquete digno de reis.

A partir daquele momento, a natureza dos ataques em Derry começou a mudar. Não eram apenas crianças desaparecendo. Havia acidentes inexplicáveis, surtos de violência irracional, pesadelos que assombravam os adultos e os levavam à beira da loucura. A cidade inteira começou a sentir uma opressão crescente, uma sensação de que algo muito antigo e muito maligno havia despertado.

As pessoas começaram a desconfiar umas das outras, os laços comunitários se desfazendo sob o peso do medo e da paranoia. Thalyta e Pennywise observavam, invisíveis, alimentando-se da discórdia, da desconfiança, do terror que brotava do coração da própria humanidade.

Thalyta, em sua forma humana, continuava sua vida em Derry, uma observadora silenciosa, uma sombra entre as sombras. Ela via o medo nos olhos das pessoas, sentia o pavor crescendo em seus corações. E a cada vez, ela sentia seu próprio poder aumentar, as memórias se solidificando, a conexão com Pennywise se aprofundando.

Uma noite, enquanto caminhava pelas ruas silenciosas de Derry, Thalyta parou em frente à casa de Neibolt Street. A casa, um ícone de terror na cidade, parecia estar mais viva do que nunca, pulsando com uma energia escura. Pennywise surgiu ao lado dela, sua forma quase transparente, visível apenas para ela.

– Eles estão prontos, meu amor – ele sussurrou, a voz como o farfalhar de folhas secas. – A colheita está madura.

Thalyta estendeu a mão, tocando a parede fria da casa. Ela sentiu a dor, o medo, a história de todas as vítimas que haviam perecido dentro de suas paredes. E sentiu algo mais, algo que a encheu de uma determinação fria.

– Não será o suficiente – ela disse, virando-se para Pennywise. – Para enfrentar os Antigos, precisamos de um poder que eles jamais imaginaram. Precisamos de um sacrifício.

Pennywise a olhou, seus olhos laranja brilhando com uma mistura de curiosidade e admiração. Ele sabia que Thalyta era poderosa, mas a profundidade de sua ambição, a astúcia de sua mente, o surpreendiam a cada dia.

– Que tipo de sacrifício você tem em mente, minha Thalyta? – ele perguntou, um sorriso cruel se formando em seus lábios.

Thalyta sorriu de volta, um sorriso que era um reflexo do dele, mas com uma beleza sombria que era unicamente dela.

– Um sacrifício que purgue Derry de sua hipocrisia, de sua complacência. Um sacrifício que liberte toda a energia de medo acumulada nesta cidade por séculos. Um evento que será lembrado por milênios, aqui e em todo o Macroverso.

Ela olhou para o céu noturno, para as estrelas que pareciam piscar em um reconhecimento distante.

– Nós faremos com que Derry se incendeie – ela declarou, a voz carregada de poder. – E das cinzas, nós renasceremos, mais fortes do que nunca. E então... eles pagarão.

O ar em Derry estremeceu. O jogo não havia apenas mudado; ele havia sido redefinido. Não era mais apenas sobre uma entidade se alimentando do medo. Era sobre dois seres cósmicos, unidos em amor e vingança, prontos para incendiar um mundo para recuperar o que lhes foi tirado. Derry era apenas o tabuleiro, e os humanos, meros peões. O verdadeiro confronto estava por vir. E Thalyta e Pennywise estavam mais do que prontos.