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A dama e o vagabundo

O Veneno sob o Açúcar

A sensação de poder é melhor do que qualquer doce que o Café Boutique possa oferecer, mas eu ainda assim saboreava meu milkshake de morango com um prazer quase infantil. Sentada em uma das mesas de canto, eu observava o movimento da rua através da vitrine. Júnior estava ocupado nos fundos, e os funcionários me tratavam como a princesa que eu tecnicamente era. Para eles, eu era a herdeira doce; para mim, eles eram apenas figurantes no meu teatro particular.

Meu celular vibrou sobre a mesa. Era uma mensagem da Janu.

"Onde você tá, bonequinha? O grupo tá se reunindo."

"No Café Boutique, tomando um shake. Vem pra cá. Precisamos passar no mercado antes de encontrar os meninos", respondi, sentindo um sorriso de canto surgir.

"Tô chegando em cinco minutos", ela rebateu.

Dito e feito. Pouco tempo depois, Janu entrou no estabelecimento com aquele ar de superioridade que só ela tinha. Trocamos um olhar cúmplice. Para quem visse de fora, éramos apenas duas adolescentes conversando, mas nossas mentes estavam trabalhando em como transformar o dia daqueles órfãos em um inferno ainda maior.

Pagamos a conta e saímos. No momento em que atravessávamos a calçada, um garoto de roupas sujas e olhar malandro esbarrou em mim com força. Eu ia soltar um xingamento, mas parei a tempo ao reconhecer o rosto. Era o Paçoca, o inimigo número um do Mosca e de sua trupe.

— Opa, desculpa aí, patricinha — disse ele, limpando o suco que quase respingou em sua camiseta. Ele me encarou por um momento, semicerrando os olhos. — Espera... você é aquela que anda com o grupinho do orfanato, não é?

Eu fiz minha melhor cara de "menina assustada e gentil".

— Sou amiga deles, sim. Por quê? — perguntei, sentindo Janu segurar o riso ao meu lado.

— Tô procurando o Mosca. Aquele projeto de herói tem uma conta pra acertar comigo. Você sabe onde ele se esconde agora? — Paçoca perguntou, cruzando os braços.

Eu apontei para a direção correta com uma precisão cirúrgica, mas mantendo a voz doce.

— É só seguir reto por essa avenida e virar na segunda à direita. Tem um casarão branco com um portão grande, o Orfanato Raio de Luz. Ele deve estar por lá agora, brincando no pátio.

Paçoca abriu um sorriso banguela e vitorioso. Ele se aproximou e, antes que eu pudesse reagir, me deu um beijo rápido na bochecha, um gesto de agradecimento puramente debochado.

— Valeu, boneca! Você é bem mais útil do que parece.

Ele saiu correndo na direção que eu indiquei. Janu explodiu em uma gargalhada assim que ele se afastou o suficiente.

— Hanna, você é diabólica! Mandar o Paçoca direto pro ninho deles? O Mosca vai ter um troço!

— O inimigo do meu inimigo é meu brinquedo, Janu — respondi, limpando a bochecha com um lenço, sentindo nojo do toque dele, mas satisfeita com o resultado. — Agora vamos ao mercado. Temos compras a fazer.

Compramos potes de tinta guache de várias cores, pincéis e blocos de papel. O plano oficial para os adultos e para o orfanato seria que eu convenceria "meus novos amigos vizinhos" a fazerem um pedido de desculpas formal pela confusão na praça. Iríamos pintar cartazes de paz. A ironia era tão deliciosa que eu quase conseguia sentir o gosto.

Encontramos Janjão, Bel, André e Tatu no bosque, perto de uma área mais densa de árvores onde ninguém nos incomodaria. O clima estava leve, mas carregado de malícia.

— E aí, trouxeram o material? — perguntou Janjão, pegando as sacolas da minha mão.

— Tudo aqui. Vamos começar a "produção artística" — eu disse, sentando-me na grama.

Começamos a pintar os papéis com frases clichês como "Desculpas" e "Amizade", mas a cada palavra escrita, a gente caía na risada. Janjão, querendo chamar minha atenção, mergulhou o dedo na tinta azul e passou no meu nariz.

— Ei! — exclamei, rindo. — Você vai ver só!

Peguei um pincel com tinta amarela e risquei a bochecha dele. Em poucos segundos, o que era para ser uma oficina de cartazes virou uma guerra de tinta entre nós. Bel e Janu pintavam os braços, André e Tatu faziam marcas de guerra nos rostos. No meio daquela bagunça, eu era apenas a Hanna, sem máscaras de herdeira, apenas a namorada do líder dos vizinhos.

Mas a brincadeira parou quando meus olhos bateram em um balde velho, seco e abandonado perto de um arbusto. Uma ideia brilhante e cruel brilhou na minha mente.

— Gente, olhem aquilo — apontei para o balde. — Tive uma ideia melhor do que os cartazes.

— Fala, chefa — disse Tatu, interessado.

— Vamos misturar o resto das tintas com terra e um pouco de água daquela torneira ali. Vamos fazer uma lama colorida e nojenta. Depois, a gente amarra esse balde na viga de entrada da casinha na árvore.

— Um sistema de armadilha! — Janjão completou, os olhos brilhando. — Quando eles abrirem a porta para ver os "pedidos de desculpas", o balde vira na cabeça deles.

Trabalhamos rápido. A mistura ficou com um aspecto deplorável, um marrom acinzentado com cheiro de mofo e química. Fomos até o jardim do orfanato, aproveitando que todos estavam na hora do lanche dentro da casa. Com a minha chave, entramos no cercado da casinha na árvore. Janjão e André subiram e montaram o mecanismo com uma corda fina, quase invisível. Penduramos um cartaz bem chamativo na porta: "PARA NOSSOS AMIGOS DO ORFANATO".

Nos escondemos atrás dos arbustos altos e esperamos. Não demorou muito para que o grupo aparecesse. Mosca, Pata, Duda, Mili e os menores vinham conversando, parecendo tristes pelo vandalismo do dia anterior.

— Olha! Tem um cartaz ali! — gritou Tati, apontando para a casinha.

— Será que foram os vizinhos que se arrependeram? — Mili perguntou, esperançosa.

— Duvido muito, mas vamos ver — disse Mosca, tomando a frente de forma protetora.

Ele subiu os degraus e segurou a maçaneta. Assim que ele puxou a porta, o balde virou com um estrondo seco. A lama de tinta e terra caiu diretamente sobre a cabeça de Mosca e Duda, que estava logo atrás. O líquido viscoso escorreu pelos cabelos, rostos e roupas, sujando tudo.

— Mas o que é isso?! — gritou Duda, tentando limpar os olhos.

— Que nojo! Isso fede! — Pata exclamou, recuando.

Atrás dos arbustos, nós quase morremos sufocados de tanto segurar o riso. Ver o "herói" do orfanato coberto de lama colorida era o ápice da minha tarde.

Mas o jogo precisava continuar. No dia seguinte, decidimos elevar o nível da minha "vitimização". O plano era simples: eu seria sequestrada pelos vizinhos para que os meninos do orfanato provassem que eram "leais".

Fomos para o bosque à tarde. Janjão me amarrou em uma cadeira velha que encontramos, usando cordas que não apertavam de verdade, mas que pareciam firmes. Colocaram um lenço sobre a minha boca para simular uma mordaça.

— Pronta, Hanna? — Janjão perguntou, acariciando meu rosto antes de se esconder.

— Pronta. Podem ir chamá-los.

Janu e os outros correram até o pátio do orfanato, fingindo desespero.

— Mosca! Pata! Vocês viram a Hanna? — Janu gritou, ofegante. — A gente estava brincando no bosque e uns caras estranhos apareceram! A gente correu, mas ela sumiu!

— O quê?! — a voz do Mosca ecoou, carregada de pânico. — Como vocês deixaram ela sozinha? Vocês dizem que são amigos dela!

— Foi tudo muito rápido! — mentiu Janjão, fingindo culpa. — Eles foram para o lado norte do bosque!

O grupo todo saiu correndo. Eu estava lá, sentada na cadeira, ouvindo os passos se aproximarem. Comecei a me debater e a fazer sons abafados pela mordaça, forçando lágrimas nos olhos.

— Ali! Eu vi um vestido! — gritou Rafa.

Eles romperam o matagal e me encontraram. Mosca foi o primeiro a chegar, com o rosto pálido de preocupação. Ele se ajoelhou na minha frente e desamarrou a mordaça com as mãos trêmulas.

— Hanna! Meu Deus, você está bem? — ele perguntou, a voz falhando.

— Mosca... eu tive tanto medo... — sussurrei, deixando minha cabeça cair no ombro dele.

Eu vi, pelo canto do olho, Janjão e o resto da nossa turma observando de trás de uma árvore grossa. Eles estavam rindo em silêncio, mas o clima mudou em um segundo.

— Graças a Deus você está viva — disse Mosca. Antes que eu pudesse prever, ele segurou meu rosto e me deu um selinho demorado.

Eu congelei. Meus olhos se arregalaram. Aquilo não estava no roteiro. Senti um gosto de suor e o cheiro do sabonete barato do orfanato. Nojento. Discretamente, desviei o olhar para o lado e vi a expressão do Janjão. O rosto dele estava vermelho de raiva, os punhos cerrados. Janu tinha a mão na boca, chocada.

Para piorar a situação, Paçoca surgiu do nada, saindo de trás de uma moita, rindo da cena.

— Olha só o casalzinho de lixo! — Paçoca gritou, chamando a atenção de todos.

— Você de novo! — Mosca se levantou, pronto para brigar.

— Calma aí, valentão! — Paçoca deu um passo para trás, mas antes de sair correndo para fugir do Duda e do Rafa que começaram a persegui-lo, ele olhou diretamente para mim e gritou: — Toma cuidado com o que esse Mosca faz, hein, boneca? Ele é mais liso do que parece!

Paçoca sumiu entre as árvores com os meninos atrás dele. Pata e Mili me ajudaram a levantar e a desamarrar o resto das cordas.

— Eu preciso... eu preciso lavar meu rosto — eu disse, tentando não transparecer o ódio que sentia por aquele beijo. — O susto foi grande.

— Vai lá, Hanna. A gente te espera aqui — disse Pata, confortando-me.

Caminhei até um riacho próximo, onde o grupo dos vizinhos já me esperava escondido. Assim que saí da vista dos órfãos, peguei um lenço e esfreguei minha boca com força, sentindo como se minha pele estivesse contaminada.

— Que nojo! Que nojo! — eu reclamava, cuspindo no chão.

Janu e os outros se aproximaram. Janjão estava com uma cara de poucos amigos.

— Que palhaçada foi aquela, Hanna? — ele perguntou, cruzando os braços. — O plano não era ele te beijar.

— Você acha que eu queria aquilo, Janjão? — rebati, irritada. — Aquele garoto é um idiota iludido! Eu quase vomitei.

— Foi nojento de ver — comentou Bel, fazendo uma careta. — Você não está envenenada, está?

Eu soltei uma risada curta, tentando quebrar o gelo, e balancei a cabeça.

— Infelizmente, acho que vou sobreviver. Mas preciso de um antídoto de verdade.

Aproximei-me de Janjão, puxando-o pela gola da camiseta, e dei um selinho rápido e firme nele.

— Bem melhor — eu disse, sorrindo. — O gosto dele é de orfanato, o seu é de vitória.

Janjão relaxou a expressão e deu um sorriso de lado, passando o braço pela minha cintura.

— Você é louca, Almeida Campos.

— Eu sou a dona do jogo, Janjão. E o Mosca? Bem, ele acabou de assinar a própria sentença. Ninguém toca no que é meu e sai impune.

Rimos juntos, o som ecoando pelo bosque silencioso, enquanto o sol começava a se pôr, escondendo as sombras de quem realmente éramos.