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a dor da perda

As Cicatrizes que o Vento Não Apaga

A primeira semana após o retorno foi um mergulho em um poço de agonia física e silêncio cortante. A fazenda, que antes era o refúgio de Soluço, transformara-se em sua cela de recuperação. O ferimento em sua mão esquerda latejava em sincronia com as batidas de seu coração, uma lembrança constante e pulsante de que o ódio tem um preço que nem sempre estamos dispostos a pagar.

Soluço estava sentado na varanda de madeira, observando o sol se esconder atrás das colinas. Sua mão estava envolta em bandagens limpas, mas ele ainda podia sentir a fantasmagoria dos dedos que não estavam mais lá. Era uma sensação bizarra, um formigamento onde agora só havia o vazio.

A porta rangeu atrás dele. O som dos passos de Astrid era inconfundível; firmes, mas carregados de uma hesitação que nunca existira antes daquela viagem maldita. Ela carregava Giovana no colo, a bebê agora dormindo profundamente, alheia ao caos que quase destruíra sua família.

— O jantar está na mesa — disse Astrid, a voz desprovida da doçura de outrora. — Você precisa comer para que os remédios façam efeito.

Soluço não se virou imediatamente. Ele fechou os olhos, respirando o ar frio da noite.

— Eu não sinto fome, Astrid.

— Eu não perguntei se você sente fome — rebateu ela, a rispidez cortando o ar como uma lâmina. — Eu disse que o jantar está na mesa. Se você teve forças para cruzar o estado atrás de um homem morto por dentro, tem forças para caminhar até a cozinha e agir como um pai.

Soluço suspirou, sentindo o peso de cada palavra. Ele se levantou lentamente, sentindo os ossos protestarem. Ao entrar na casa, o cheiro de ensopado de batata e carne seca o atingiu, mas seu estômago se revirou. Ele se sentou à mesa, observando Astrid colocar Giovana cuidadosamente no berço improvisado na sala antes de se juntar a ele.

O silêncio entre eles era denso, quase sólido. O único som era o tilintar das colheres contra a cerâmica. Soluço tentou usar a mão direita para comer, mas o tremor em seus músculos dificultava a tarefa.

— Como está a febre? — perguntou ela, sem olhar para ele.

— Passou. Acho que o antisséptico funcionou.

— Sorte a sua. Em um mundo onde um arranhão pode significar a morte, você foi brincar de carrasco com a sorte — Astrid finalmente levantou os olhos, e o que Soluço viu não foi ódio, mas uma mágoa profunda, uma decepção que doía mais do que qualquer soco de Alvin. — Você olhou para ela antes de ir?

Soluço hesitou, a colher parada no ar.

— Para quem?

— Para sua filha, Soluço! — a voz de Astrid subiu um tom, mas ela rapidamente a controlou para não acordar a bebê. — No dia em que você pegou aquela moto, você olhou para o rosto dela? Porque eu olhei. Eu olhei para ela e me perguntei o que eu diria quando ela crescesse. "Seu pai preferiu o sangue de um velho do que ver você dar os primeiros passos"? Era isso que você queria que fosse o legado dele?

— Eu fiz isso por ele, Astrid! — Soluço explodiu, a voz rouca de dor. — Eu fiz pelo meu pai! Eu não conseguia fechar os olhos sem ver o crânio dele sendo esmagado! Você não entende o que é viver com esse som na cabeça todo santo dia!

— E agora? — Astrid inclinou-se para a frente, os olhos brilhando sob a luz da lamparina. — Agora que você quebrou o braço dele, agora que você deixou a marca do seu ódio naquele lugar e perdeu parte do seu corpo... o som parou?

Soluço abriu a boca para responder, mas as palavras morreram em sua garganta. Ele pensou no rosto daquela menina, a filha de Alvin. Ele pensou no terror nos olhos dela. O som do cano batendo na têmpora de Stoico ainda estava lá, mas agora vinha acompanhado de uma imagem nova: a de si mesmo, coberto de sangue, agindo exatamente como o monstro que ele jurara destruir.

— Não — confessou ele, a voz mal passando de um sussurro. — Não parou.

— Exatamente.

Astrid levantou-se e começou a recolher os pratos. Ela não disse mais nada naquela noite.

Nas semanas seguintes, a rotina da fazenda retomou uma normalidade frágil. Soluço começou a ajudar nas tarefas pesadas novamente, adaptando-se à perda dos dedos. Ele aprendeu a segurar o machado de forma diferente, a manejar as rédeas do cavalo com a mão direita e a usar o coto da mão esquerda como apoio. A dor física estava diminuindo, mas o isolamento emocional persistia.

Ele passava horas na oficina, tentando consertar ferramentas, mas sua mente sempre voltava para a estrada. Ele se perguntava onde Alvin e a menina estariam. Estariam vivos? Teriam sido pegos pelo "estalo"? A culpa era um sentimento novo para ele — não a culpa por ter batido em Alvin, mas a culpa por ter exposto uma criança ao mesmo trauma que o definira.

Certa tarde, enquanto Soluço tentava consertar uma cerca perto da floresta, ele sentiu que estava sendo observado. Ele largou o martelo e levou a mão à faca na cintura, os instintos de sobrevivência gritando.

— Quem está aí? — rugiu ele.

O mato se mexeu e, para sua surpresa, não era um zumbi ou um saqueador. Era um lobo magro, com uma cicatriz no focinho, que o observava de longe. O animal não rosnou; apenas o encarou com olhos que pareciam carregar uma sabedoria antiga e cansada. Soluço relaxou a mão. Por um momento, ele viu algo de Stoico na quietude daquela fera. Uma força que não precisava de violência para se afirmar.

Ao voltar para casa, ele encontrou Astrid sentada na varanda, costurando uma pequena manta para Giovana. O sol estava se pondo novamente, pintando o céu de laranja e roxo. Soluço se sentou nos degraus, a alguns metros dela.

— Eu vi um lobo hoje — disse ele, tentando quebrar o gelo que durava semanas.

Astrid não parou o que estava fazendo.

— Eles estão descendo das montanhas. O inverno vai ser rigoroso.

— Eu estava pensando... — Soluço hesitou, olhando para suas mãos. — Meu pai nunca quis que eu fosse um guerreiro. Ele queria que eu fosse um líder. Ele dizia que um líder protege o que ama, enquanto um guerreiro apenas destrói o que odeia.

Astrid parou a agulha no ar. Ela olhou para ele, esperando.

— Eu passei vinte anos sendo o guerreiro que eu achei que ele precisava que eu fosse — continuou Soluço, as lágrimas começando a embaçar sua visão. — Mas eu esqueci de ser o filho que ele amava. Eu deixei o Alvin vencer, Astrid. Não naquele dia no beco, mas em todos os dias depois disso, quando eu permiti que o ódio dele crescesse dentro de mim.

Astrid deixou a costura de lado e se moveu para o degrau onde ele estava. Ela colocou a mão sobre a mão enfaixada dele, os dedos dela entrelaçando-se nos dele, ignorando a ausência dos que faltavam.

— Você não é o Alvin, Soluço — disse ela suavemente. — O Alvin nunca teria parado. Ele teria matado você na frente daquela criança e teria rido disso. Você parou. Você teve misericórdia quando tinha todos os motivos do mundo para não ter. Isso é o que sobrou do Soluço que eu conheci. Isso é o que sobrou do Stoico em você.

Soluço encostou a cabeça no ombro dela, deixando as lágrimas caírem finalmente. Foi um choro silencioso, um desabafo de décadas de luto e fúria contida.

— Eu tive tanto medo de perder você — sussurrou Astrid, beijando o topo da cabeça dele. — Não para a morte, mas para a escuridão. Eu não posso criar a Giovana sozinha, e eu não posso criá-la com um homem que só tem fantasmas no coração.

— Eu estou aqui — prometeu ele. — Eu juro, Astrid. Eu estou aqui.

Naquela noite, o pesadelo não veio. Soluço sonhou com o mar, com o cheiro de sal e com a risada estrondosa de seu pai enquanto o carregava nos ombros. Não havia sangue, não havia o som de metal contra osso. Havia apenas paz.

No dia seguinte, Soluço acordou cedo. Ele foi até a oficina e pegou o machado que usara em sua jornada de vingança. Ele olhou para a lâmina cega e manchada. Com um movimento decidido, ele caminhou até o centro do pátio e cravou o machado em um tronco de carvalho maciço com tanta força que o cabo de madeira rachou.

Ele não o usaria mais para caçar homens.

Ele voltou para dentro e encontrou Giovana acordada no berço, agitando os braços gordinhos. Soluço a pegou no colo com uma delicadeza que ele achava ter perdido. A pequena agarrou seu dedo indicador — o que restara daquela mão — e deu um sorriso desdentado.

— Oi, pequena — murmurou ele, sentindo um calor que nenhuma fogueira poderia proporcionar. — Eu sou seu pai. E eu vou te ensinar que o mundo é difícil, mas que a gente não precisa ser difícil com ele.

Astrid apareceu na porta da cozinha, observando a cena. Havia um brilho de esperança em seus olhos azuis que Soluço não via há muito tempo.

— O café está pronto — disse ela, desta vez com um sorriso pequeno e genuíno.

— Já vou — respondeu ele.

Enquanto caminhava para a mesa, Soluço percebeu que as cicatrizes ainda estavam lá. Elas nunca iriam embora. A falta dos dedos, as marcas no corpo, a ausência de seus pais... tudo isso fazia parte de quem ele era. Mas, pela primeira vez, as cicatrizes não eram feridas abertas. Eram apenas registros de que ele havia sobrevivido à tempestade.

A fazenda continuava sendo um pequeno ponto de luz em um mundo mergulhado nas sombras, mas agora, Soluço não estava mais apenas guardando a luz. Ele estava começando a senti-la.

— Soluço? — chamou Astrid da cozinha.

— Sim?

— Não se esqueça de trocar o curativo depois.

Ele riu, um som que soou estranho em seus próprios ouvidos, mas incrivelmente bem-vindo.

— Sim, senhora.

O apocalipse ainda estava lá fora. Os mortos ainda caminhavam e os vivos ainda lutavam. Mas ali, naquele pequeno pedaço de terra, o silêncio finalmente era de paz. E para Soluço Hayden Spantosicus III, isso era mais do que ele jamais ousara esperar. Ele tinha uma vida para viver, uma filha para ver crescer e uma mulher que o amava o suficiente para remendar até os pedaços mais quebrados de sua alma.

A vingança tinha ficado para trás, perdida na poeira da estrada. O que importava agora era o presente, o cheiro de café fresco e a mão pequena de Giovana apertando a sua. Ele estava em casa. E, desta vez, ele estava inteiro.