A escola dos amores
O Equilíbrio das Sombras e a Geometria do Prazer
A luz fria das lâmpadas fluorescentes do corredor da Faculdade de Engenharia do Porto parecia mais agressiva do que o habitual naquela manhã de quinta-feira. Para Mateus, o mundo era um conjunto de frequências e padrões que, por vezes, se tornavam insuportáveis. Ele caminhava rente à parede, o ombro roçando ligeiramente no betão rugoso, sentindo a textura como um lembrete de que ainda estava ancorado à realidade. A sua barba, densa e meticulosamente cuidada, era o seu escudo sensorial, mas hoje, depois dos eventos na Foz, ela parecia carregar o peso de mil toques invisíveis.
— Mateus, estás a andar a 4,2 quilómetros por hora. Estás atrasado para a aula de Cálculo Estrutural ou estás apenas a tentar fugir da tua própria sombra? — A voz de Gabriel surgiu por trás dele, carregada daquela ironia aveludada que Mateus já começava a descodificar como afeto.
Mateus parou e ajustou os óculos, olhando para Gabriel. O colega usava uma camisa de seda preta que parecia brilhar sob a luz artificial, os olhos escondidos por trás de lentes levemente fumadas.
— A velocidade média de caminhada humana é de 5 quilómetros por hora, Gabriel. Eu estou apenas a ajustar o meu passo para evitar a turbulência no corredor — respondeu Mateus, a voz monocórdica escondendo a tempestade interna.
— A única turbulência aqui, querido, é a que deixaste no escritório do Lisandro — Gabriel aproximou-se, reduzindo a distância até que Mateus pudesse sentir o calor que emanava dele. — O Luís não para de falar sobre o "momento de epifania" que tiveste com ele. Sabes que eu sou um homem possessivo, Mateus? Gosto de saber onde é que as minhas peças de engenharia estão a ser aplicadas.
Mateus sentiu a ponta dos dedos a formigar.
— Eu não sou uma peça, Gabriel. Eu sou um sistema complexo. E o Luís... o Luís apenas testou uma interface diferente.
Gabriel soltou uma risada curta e puxou Mateus para um nicho entre dois armários metálicos. A barba de Mateus roçou no pescoço de Gabriel, e o rapaz magro sentiu o seu coração falhar uma batida, um erro de sistema que ele não conseguia corrigir.
— Pois bem, sistema complexo — sussurrou Gabriel, a mão subindo para acariciar os pelos ásperos da bochecha de Mateus —, espero que estejas pronto para a aula de hoje. Ouvi dizer que o Lisandro e o Lopa decidiram fazer uma parceria para o projeto final. É como juntar nitroglicerina com um isqueiro.
No bar da faculdade, a atmosfera era de uma tensão quase elétrica. Ricardo estava sentado com a perna engessada apoiada numa cadeira, enquanto Simões, com uma paciência que desafiava as leis da natureza, tentava desenhar um gráfico de momentos fletores no gesso do rapaz.
— Simões, se voltares a desenhar um coração perto da minha rótula, eu juro que te bato com a muleta até veres o arco-íris — resmungou Ricardo, embora não tenha retirado a perna.
— É uma metáfora, Ricardo — disse Simões, sem levantar os olhos. — O coração representa a carga pontual que aplicas no meu peito todos os dias. Sabias que o amor tem uma resistência à tração superior ao aço?
— O amor tem uma resistência à tração zero quando eu tenho TDAH e tu não te calas há vinte minutos! — Ricardo olhou em volta, procurando uma distração. — Onde está o Nuno e o João? Eles não deviam estar a preparar a stream de hoje?
— Estão no balneário — disse Luís, aparecendo com um sorriso malicioso e uma lata de refrigerante. — Parece que a "colaboração" deles agora envolve testes de fricção em superfícies húmidas. O João diz que é pesquisa para um novo jogo, mas o Nuno parecia estar a marcar golos em balizas muito específicas.
Luís piscou o olho a Ricardo e depois olhou para Mateus e Gabriel que entravam no bar. O olhar que trocou com Mateus foi rápido, mas carregado de uma cumplicidade que fez o rapaz barbudo desviar os olhos para o chão.
Subitamente, o silêncio instalou-se. Lisandro e Lopa entraram juntos. Era uma visão perturbadora: o herdeiro de Gaia, com o seu ar de aristocracia predatória, e o infiltrado de Coimbra, com o seu carisma destrutivo. Atrás deles, Francisco, Rafael e Daniel caminhavam como uma guarda pretoriana, mas havia algo de diferente no trio. Francisco e Rafael pareciam mais relaxados, as suas mãos roçando ocasionalmente, enquanto Daniel caminhava à frente deles, com um ar de quem tinha finalmente tomado as rédeas da situação.
— Bom dia, operários da gestão — saudou Lisandro, a voz projetando-se com facilidade. — Espero que tenham descansado. O projeto de hoje envolve a análise de uma estrutura instável sob condições extremas. E por estrutura, quero dizer... nós mesmos.
Lopa sorriu, encostando-se ao balcão.
— Eu e o Lisandro estivemos a discutir — começou Lopa, olhando diretamente para Gabriel — e decidimos que o grupo precisa de uma auditoria. Há demasiados segredos a minar as fundações. Por isso, a aula de hoje será na oficina do Rafael. Mas não vamos fundir metal. Vamos fundir vontades.
— O que é que isso significa? — perguntou Francisco, cruzando os braços, os bíceps saltando sob a pele.
— Significa — interveio Daniel, colocando a mão no ombro de Francisco — que o Lisandro tem razão. A gente anda a esconder-se uns dos outros há tempo demais. Na oficina, não há paredes. Só há verdade.
A oficina de Rafael, à noite, era um santuário de sombras e metal. O cheiro de óleo, fumo e suor misturava-se num cocktail inebriante. Lisandro tinha mandado vir catering de luxo e garrafas de vinho que pareciam deslocadas naquele ambiente industrial, mas a discrepância apenas aumentava a excitação.
— Sentem-se — ordenou Lisandro, apontando para os bancos de madeira e as caixas de ferramentas.
Mateus sentou-se perto de uma prensa hidráulica, sentindo-se estranhamente em casa entre as máquinas. Gabriel sentou-se ao seu lado, a mão repousando na coxa de Mateus, um gesto de posse silenciosa que o rapaz barbudo aceitou sem questionar.
— Vamos começar pelo básico — disse Lopa, caminhando até ao centro do círculo. — Francisco, Rafael, Daniel. Vocês os três acham que encontraram o equilíbrio com o Lisandro. Mas o que acontece quando o Lisandro for embora? Quando o herdeiro voltar para a sua torre de marfim?
Rafael levantou-se, a sua figura imensa de 1,90m projetando uma sombra gigantesca nas paredes.
— O Lisandro não é uma variável temporária, Lopa. Ele é o catalisador. Ele mostrou-nos que não precisamos de escolher.
— E tu, Mateus? — Lisandro virou-se para o rapaz barbudo, ignorando Rafael por um momento. — Tu que vês o mundo em números e estruturas. O que é que sentes quando o Gabriel te toca? É uma força de compressão ou de expansão?
Mateus sentiu todos os olhos postos nele. O seu autismo gritava para que ele fugisse, para que se escondesse atrás de uma planilha de Excel, mas a mão de Gabriel na sua coxa era um lembrete físico de que o mundo não era apenas lógica.
— É... é uma sobrecarga — respondeu Mateus, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Como se a minha largura de banda não fosse suficiente para processar a informação. Mas... eu não quero baixar a frequência. Eu quero aumentar a capacidade do recetor.
Luís soltou um assobio baixo.
— Isso foi a coisa mais gay e mais técnica que já ouvi. Adoro.
— Chega de conversa — interrompeu Daniel, levantando-se e caminhando até Lisandro. — Tu trouxeste-nos aqui para um teste de carga, não foi? Então vamos a isso.
Daniel puxou Lisandro para um beijo agressivo, enquanto a sua outra mão agarrava o cinto de Francisco. Rafael, não querendo ficar de fora, envolveu os três com os seus braços massivos, criando um núcleo de carne e desejo no centro da oficina.
Lopa observava, com um brilho de triunfo nos olhos. Ele virou-se para Gabriel e Mateus.
— E vocês? Vão ficar apenas a observar a obra ou vão meter as mãos na massa?
Gabriel olhou para Mateus. Havia uma pergunta silenciosa nos seus olhos. Mateus, num ato de coragem que surpreendeu até a si mesmo, levantou-se e caminhou até Luís, que estava encostado a uma bancada de ferramentas.
— Luís — disse Mateus, a voz rouca —, disseste que querias testar a suavidade da minha barba.
Luís largou a garrafa de cerveja, os olhos arregalados.
— Mateus, tu não brincas em serviço, pois não?
— Eu não brinco com especificações técnicas — respondeu Mateus.
Luís puxou Mateus pela barba e beijou-o com uma fome que fez o rapaz barbudo gemer. Gabriel aproximou-se logo a seguir, envolvendo Mateus por trás, as suas mãos explorando o corpo magro e peludo por baixo da camisola de lã. Mateus estava agora entre os dois, um ponto de convergência para duas forças opostas que o faziam sentir-se mais vivo do que qualquer cálculo de estabilidade.
A oficina tornou-se um labirinto de encontros. No canto, Ricardo e Simões partilhavam um momento de inesperada ternura. Simões tinha Ricardo ao colo, com a perna engessada cuidadosamente posicionada, enquanto Ricardo, pela primeira vez, deixava de reclamar e se perdia nos beijos do rapaz que o idolatrava.
— Simões... — murmurou Ricardo entre beijos — se contares isto ao Nuno, eu mato-te.
— O teu segredo está seguro nas fundações do meu coração, Ricardo — respondeu Simões, antes de o beijar novamente.
Mais ao centro, o grupo principal tinha-se tornado uma massa fluida de prazer. Lisandro era o maestro, alternando entre a força bruta de Francisco e a submissão intensa de Rafael, enquanto Daniel se movia entre todos eles como o elemento de ligação. A barba de Rafael roçava na pele bronzeada de Lisandro, enquanto as mãos de Francisco exploravam a agilidade de Daniel. Era uma sinfonia de gemidos e carne, onde as barreiras da Gestão Civil tinham sido completamente demolidas.
Lopa, vendo que o seu plano de causar o caos tinha resultado numa harmonia inesperada, aproximou-se de João e Nuno, que observavam a cena com uma mistura de choque e fascínio.
— Então, Vtubers — disse Lopa, a sua voz como veneno doce —, querem gravar isto ou querem fazer parte da história?
João olhou para Nuno e depois para o Lopa.
— O Monokuma diz que o desespero é a única verdade — disse João com um sorriso estranho —, mas eu acho que isto é muito melhor.
Os três perderam-se numa exploração que misturava a curiosidade digital de uns com a malícia real de outro.
No meio de tudo isto, Mateus encontrava o seu próprio equilíbrio. Com Gabriel e Luís a explorarem cada centímetro da sua pele, ele sentia-se como uma ponte suspensa, vibrando com a passagem de uma carga que o levava ao limite da sua resistência. A barba, que antes era o seu escudo, era agora o ponto de contacto onde ele sentia o hálito quente de Luís e os beijos húmidos de Gabriel.
— Estás bem, Mateus? — sussurrou Gabriel ao seu ouvido, a mão descendo para o volume entre as pernas do rapaz magro.
— Eu estou... a processar — respondeu Mateus, a cabeça inclinada para trás, os olhos cerrados. — A carga é elevada, mas a estrutura está estável. Não parem.
As horas passaram na oficina como se o tempo tivesse sido suspenso por uma grua invisível. O calor dos corpos combatia o frio do metal, e a honestidade bruta daquele encontro tinha curado feridas que as aulas de gestão nunca conseguiriam tocar.
Quando a madrugada começou a despontar, o grupo estava espalhado pelo chão da oficina, cobertos por mantas e casacos, exaustos mas finalmente em paz. Lisandro estava sentado numa caixa de madeira, observando o "seu" grupo com um olhar de satisfação.
— Sabem — disse Lisandro, a voz ecoando suavemente entre as máquinas — a gestão civil não é sobre construir coisas que duram para sempre. É sobre saber como as coisas se comportam sob pressão. E vocês... vocês portaram-se muito bem.
Francisco, com a cabeça no colo de Rafael, olhou para Daniel, que dormia tranquilamente ao seu lado.
— Nós não somos apenas um grupo de faculdade, pois não? — perguntou Francisco.
— Somos uma anomalia estatística — respondeu Mateus, que estava aninhado entre Gabriel e Luís, a sua barba ligeiramente desgrenhada mas o olhar calmo. — E as anomalias são as partes mais interessantes de qualquer projeto.
Gabriel riu e beijou o topo da cabeça de Mateus.
— Amanhã temos entrega de projeto, sabem disso, não sabem?
— O projeto já está entregue — disse Lopa, levantando-se e limpando o pó das calças. — A fundação está feita. Agora só falta ver o que é que vamos construir em cima disto.
O grupo começou a levantar-se, preparando-se para enfrentar a luz do dia e a rotina da Faculdade do Porto. Mas enquanto caminhavam para a saída, Mateus parou por um momento e olhou para trás, para a oficina escura. Ele percebeu que a sua vida, tal como uma estrutura complexa, nunca voltaria a ser a mesma. As variáveis tinham mudado, os coeficientes de segurança tinham sido redefinidos, e ele, o rapaz que via o mundo em números, tinha finalmente aprendido que a matemática mais importante era a que se fazia entre os corpos de quem amava.
— Vamos, Mateus? — chamou Luís, estendendo-lhe a mão.
Mateus sorriu — um sorriso real, que iluminou o seu rosto barbudo — e segurou a mão de Luís, enquanto a outra se entrelaçava na de Gabriel.
— Vamos — disse Mateus. — Temos muito que construir.
E ali, sob o céu cinzento do Porto, o grupo de Gestão Civil caminhou em direção ao futuro, sabendo que, independentemente da carga que a vida lhes impusesse, eles tinham as fundações mais sólidas do mundo: a verdade de quem eram e o desejo de continuarem a desafiar, juntos, todas as leis da gravidade.