A escolha certa
Entre o Caos da Fama e a Verdade do Coração
O Rio de Janeiro amanheceu sob um sol escaldante, mas o calor das ruas da Pavuna não se comparava ao incêndio que ainda consumia as redes sociais. Após a live histórica que parou o Brasil, o nome de Js da Torre, Karen Aluap e Karen Alencar permanecia no topo dos Trending Topics. O público estava dividido: de um lado, os românticos que celebravam o reencontro do "primeiro amor"; do outro, os justiceiros da internet que não perdoavam a traição à amizade de infância.
No apartamento de Aluap, o silêncio era um luxo raro. Ela observava a vista pela janela, sentindo o peso da gravidez que ainda não aparecia no corpo de modelo, mas que já transformava tudo por dentro. O celular, em modo avião, era uma tentativa desesperada de manter a sanidade.
A campainha tocou, quebrando a tensão. Era Js. Ele entrou com o semblante cansado, as olheiras denunciando uma noite em claro no estúdio, tentando transformar a angústia em rimas.
— Como tu tá, preta? — perguntou ele, puxando-a para um abraço apertado. — Vi que as páginas de fofoca não deram trégua hoje.
— Eu já esperava, Js — respondeu ela, encostando a cabeça no peito dele. — O que dói não é o que os estranhos dizem. É saber que a Alencar está lá fora, carregando um filho teu e nos odiando com todas as forças. A gente era carne e unha.
— Eu sei, Aluap. Eu também sinto esse peso — disse Js, afastando-se um pouco para olhar nos olhos dela. — Mas eu não podia mais viver uma mentira. Eu estaria sendo injusto com a Alencar se ficasse com ela amando você. O moleque que vai nascer dela vai ter tudo, eu já falei. Mas eu não posso dar para ela um coração que não pertence mais a mim há muito tempo.
— A internet é um tribunal cruel — suspirou Aluap. — Estão me chamando de destruidora de lares, de talarica... logo eu, que saí daqui chorando porque não queria te deixar.
— Esquece eles — ele disse, com a voz firme de quem já enfrentou muita coisa na favela antes de chegar ao topo das paradas. — O que importa é que a gente tá junto agora. E essa criança aqui — ele pousou a mão sobre o ventre dela — vai crescer sabendo que foi fruto de uma história que nem o tempo, nem a distância, nem a confusão conseguiram apagar.
Enquanto isso, na Barra, Karen Alencar lidava com a sua própria tempestade. O apartamento, antes cheio de mimos e presentes de Js, parecia vazio. Ela olhava para os vídeos no TikTok, onde antes reinava com dancinhas e carisma, e via uma enxurrada de comentários de pena. E a pena, para ela, era pior que o ódio.
O celular dela vibrou. Era uma notificação de um vídeo de fofoca analisando cada segundo da live da noite anterior. "Alencar estava errada em insistir?" dizia a legenda. Ela sentiu o sangue ferver.
— Errada? — murmurou ela para as paredes. — Errada em amar o cara que estava do meu lado? Errada em construir uma vida com ele enquanto a "famosona" brilhava na Europa?
Ela decidiu que não ficaria calada. Precisava humanizar a sua dor, mostrar que não era apenas a "outra" na história de amor de Aluap e Js, mas a mulher que esteve presente nos dias de chuva. Ela pegou o celular e começou a gravar um novo vídeo, sem filtros, com o rosto inchado de quem tinha chorado a noite toda.
— Oi, gente — começou ela, a voz trêmula. — Eu não vou fazer live de novo porque não tenho estrutura. Só queria dizer que eu errei, sim. Errei em acreditar que o amor se constrói apenas com presença. Eu sabia da história deles, claro que sabia. A Aluap me contava tudo quando éramos pequenas. Mas ela foi embora! Ela seguiu a vida dela, os desfiles dela. Eu fiquei. Eu vi o Js crescer no trap, eu vi ele passar dificuldades. Eu estava lá.
Ela fez uma pausa, respirando fundo para não desabar.
— Eu errei em me envolver com o ex da minha melhor amiga? Talvez. Mas o coração não escolhe. E agora tem um bebê no meio disso tudo. Eu só peço respeito. Não me chamem de vítima, mas também não me chamem de vilã. Eu sou só uma mulher que amou o homem errado na hora errada.
O vídeo foi postado e, em minutos, já tinha milhões de visualizações. A tréplica de Alencar trouxe uma nova camada para a "treta". As pessoas começaram a entender que, naquela história, ninguém era totalmente santo e ninguém era totalmente demônio. Eram apenas crias da Pavuna tentando lidar com sentimentos maiores que eles mesmos.
Horas depois, Js recebeu um link do vídeo de Alencar. Ele assistiu em silêncio, sentado no sofá de Aluap.
— Ela tá sofrendo muito, Js — comentou Aluap, que assistia por cima do ombro dele. — A gente precisa resolver isso de um jeito que não destrua a infância desses irmãos que estão vindo por aí.
— Eu vou lá — disse Js, levantando-se. — Vou na casa dela. A gente precisa conversar de verdade, sem câmera, sem chat, sem público.
— Você acha que ela vai te receber? — perguntou Aluap, preocupada.
— Ela tem que receber. Pelo bem do nosso filho que tá com ela. E eu preciso que ela entenda que, embora eu ame você, ela sempre vai ter o meu respeito por tudo o que a gente viveu.
Js dirigiu até a Barra. O condomínio de luxo parecia um mundo distante da Pavuna onde tudo começou. Quando ele chegou à porta de Alencar, hesitou por um momento. Ele sabia que aquela conversa seria uma das mais difíceis da sua vida.
Ao abrir a porta, Alencar não escondeu a surpresa, nem a amargura.
— Veio conferir se eu ainda estou chorando para postar no seu próximo hit? — disparou ela, dando passagem para ele entrar.
— Vim falar de homem para mulher, Alencar — disse Js, sério. — Sem música, sem marketing.
— O que você quer, Js? Você já disse tudo na frente de setenta mil pessoas. Você ama ela. O amor venceu. Parabéns.
— Eu vim te pedir perdão, de verdade — disse ele, aproximando-se. — Eu fui moleque. Eu deixei você acreditar que a gente tinha um futuro para sempre porque eu tinha medo de ficar sozinho. Eu usei a sua companhia para tapar um buraco que a Aluap deixou. Isso foi egoísmo meu.
Alencar desviou o olhar, as lágrimas voltando a aparecer.
— Você me usou, Js. Eu fui o estepe da sua vida enquanto a roda principal estava rodando o mundo.
— Não diz isso. O que a gente viveu foi real. O carinho que eu sinto por você é real. E o filho que você carrega é a coisa mais importante da minha vida, junto com o que a Aluap tá esperando. Eu não quero que a gente seja inimigo. Eu não quero que meus filhos cresçam ouvindo que a mãe de um odeia a mãe do outro.
— É muito fácil para você pedir isso agora — rebateu ela. — Você tem a carreira, tem a mulher que sempre quis e tem dois filhos a caminho. Eu tenho uma carreira no TikTok que agora vive de comentários de ódio e um filho que vai crescer vendo o pai em fotos de família com outra mulher.
— Eu vou estar presente, Alencar. Eu vou ser pai de verdade. Não vai ser só pensão e foto no Instagram. Eu quero que você encontre alguém que te ame do jeito que você merece, porque eu não consegui te dar esse amor por inteiro.
A conversa durou horas. Houve gritos, houve choro e, finalmente, um silêncio exausto. Não houve um perdão completo — feridas daquela profundidade não fecham com uma tarde de conversa —, mas houve um entendimento. Eles estabeleceram termos. Js seria presente, Alencar tentaria manter a neutralidade nas redes sociais e, acima de tudo, eles tentariam proteger as crianças.
Quando Js saiu de lá, sentiu que um peso de toneladas tinha sido retirado de seus ombros. Ele ligou para Aluap.
— Tá tudo resolvido? — perguntou ela, a voz ansiosa do outro lado.
— Resolvido não tá, preta. Mas o caminho tá limpo. Ela entendeu que não tem volta. Agora a gente tem que focar no que vem pela frente.
— Eu postei uma foto nossa — disse Aluap, com voz baixa. — Sem legenda. Só a gente.
Js abriu o Instagram. A foto era simples: os dois na laje de uma casa na Pavuna, anos atrás, adolescentes, sorrindo como se o mundo fosse pequeno demais para eles. A imagem dizia mais do que qualquer live ou comunicado oficial. Era a prova de que algumas histórias simplesmente se recusam a terminar.
Nos dias que se seguiram, a poeira começou a baixar. A internet, sempre ávida por uma nova polêmica, começou a se interessar por outros escândalos. Js lançou uma música nova, uma love song acústica que narrava a trajetória de um "cria" que rodou o mundo e percebeu que seu tesouro estava no quintal de casa. A música estourou.
Aluap voltou aos trabalhos de modelo, mas agora com um brilho diferente. Ela não era mais apenas a "modelo internacional"; era a mulher que tinha lutado pelo seu lugar ao lado do homem que amava.
Alencar, por sua vez, começou a postar sobre maternidade real. Ela transformou sua dor em uma conexão com milhares de outras mulheres que também foram "segunda opção" ou que criavam filhos sozinhas. Ela encontrou seu próprio nicho, sua própria força.
Meses depois, o nascimento do primeiro filho, o de Alencar, foi o teste final. Js estava lá, no hospital. Ele segurou o menino nos braços e sentiu uma emoção que nenhuma rima poderia descrever. Horas depois, Aluap enviou uma mensagem para Alencar: "Ele é lindo. Que ele tenha muita saúde".
Alencar visualizou. Demorou dez minutos para responder, mas respondeu: "Obrigada. Em breve será o seu".
Não era a amizade de infância de volta. Aquilo tinha se quebrado para sempre. Mas era algo novo. Era maturidade. Era o reconhecimento de que, no complexo tabuleiro da vida na Pavuna, as peças às vezes se batem, se machucam, mas precisam continuar no jogo.
O amor de Js e Aluap tinha vencido, sim. Mas a vitória não era sobre Alencar. Era sobre a verdade. No final das contas, o trap da vida real era cheio de batidas pesadas e letras difíceis, mas enquanto houvesse sinceridade, a melodia valia a pena ser ouvida.
Js voltou para casa naquela noite, encontrou Aluap lendo um livro sobre bebês e sentou-se ao lado dela. Ele colocou a mão na barriga dela e sentiu um chute leve.
— O mundo lá fora ainda tá falando, sabia? — disse ela, sorrindo.
— Deixa falar, preta — Js respondeu, beijando a testa dela. — O show já acabou. Agora é só a nossa vida.
E ali, entre o luxo conquistado e as raízes que nunca morreram, o trio da Pavuna seguia seus caminhos. Diferentes, distantes, mas eternamente ligados pelos laços de um passado que se recusou a ser esquecido e de um futuro que estava apenas começando a ser escrito.