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A esperança e a fe

O Eco do Louvor nos Pátios de Cedro

O tempo parecia ter adquirido uma nova cadência nos corredores do palácio de Salomão. O silêncio que antes era preenchido apenas pelo farfalhar das sedas e pelos sussurros conspiratórios das esposas agora era rompido pelo riso cristalino de Emanuel. A criança crescia sob o olhar atento de Karen, que não permitia que a glória da sua nova posição como mãe do herdeiro mais celebrado diminuísse sua humildade. Ela sabia, em cada fibra do seu ser, que Emanuel não era fruto de sua capacidade, mas da misericórdia de um Deus que se inclina para ouvir o clamor dos aflitos.

Salomão, o homem mais sábio da terra, encontrava-se frequentemente em um estado de contemplação profunda ao observar Karen. Ele já havia escrito provérbios sobre a mulher virtuosa, mas vê-la personificada em sua última esposa era uma experiência que transcendia a teoria. Em uma manhã, enquanto o sol de Jerusalém banhava o terraço em tons de âmbar, o rei aproximou-se de Karen, que segurava Emanuel enquanto observava o horizonte.

— O reino fala da sua canção, Karen — disse Salomão, colocando a mão sobre o ombro da esposa. — Dizem que as notas que saem dos seus lábios têm o poder de acalmar as tempestades da alma.

Karen sorriu, inclinando a cabeça para sentir o toque do marido.

— Não é a minha voz, meu senhor — respondeu ela com suavidade. — É o Nome que eu pronuncio. Há um peso de glória quando dizemos que Ele está conosco.

Salomão suspirou, sentindo o peso da coroa um pouco mais leve naquele momento.

— Às vezes, entre tantos julgamentos e decisões de estado, eu me esqueço da simplicidade dessa entrega. Você me lembra que a sabedoria começa no temor, mas floresce na adoração.

— O senhor governa um povo grande e numeroso — disse Karen, voltando-se para ele. — Mas lembre-se do que me ensinou quando cheguei aqui: o Deus de Israel não habita apenas em templos de pedra, mas em corações que se rendem. Emanuel é a prova de que Ele não nos deixou sós.

Enquanto conversavam, uma das servas aproximou-se, curvando-se profundamente. Seu rosto carregava uma expressão de hesitação.

— Majestade, as outras rainhas... elas solicitam a presença da Rainha Karen no jardim das oliveiras. Dizem que desejam celebrar o crescimento do pequeno príncipe.

Karen trocou um olhar rápido com Salomão. Ela conhecia a natureza daquelas mulheres. Muitas delas ainda mantinham seus pequenos ídolos escondidos sob as vestes, deusas da fertilidade e amuletos do Egito, de Moabe e de Edom. O convite poderia ser uma armadilha de palavras ou um gesto de paz, mas Karen não temia.

— Vá, minha amada — incentivou Salomão. — Mostre a elas que a luz que você carrega não se apaga com o vento da inveja.

Karen entregou o bebê aos cuidados de sua ama de confiança e caminhou em direção aos jardins. O ar estava carregado com o perfume das flores de laranjeira. Ao chegar ao pavilhão central, encontrou um grupo de mulheres adornadas com joias pesadas e olhares afiados. Entre elas estava Maaca, uma das esposas mais influentes, que sempre liderara as zombarias contra a esterilidade de Karen.

— Vejam se não é a favorita do Rei — disse Maaca, com um sorriso que não alcançava os olhos. — A egípcia que abandonou os deuses de seu pai por um Deus invisível.

Karen manteve a postura ereta, a educação de princesa mesclada com a dignidade de uma serva do Altíssimo.

— Eu não abandonei a luz pela escuridão, Maaca. Eu apenas encontrei o Sol depois de viver sob sombras.

— Dizem que você canta para a criança — interveio outra esposa, inclinando-se para frente. — Uma música sobre um Deus que caminha entre os homens. Como pode o Criador do universo se importar com o ventre de uma mulher ou com o choro de um bebê?

Karen sentiu uma queimação no peito, não de raiva, mas de uma urgência divina. Ela se sentou no banco de mármore, fechando os olhos por um momento para buscar a presença que a sustentara durante os dias de jejum.

— Vocês buscam deuses que precisam ser carregados nos ombros — começou Karen, a voz firme e doce. — Deuses de ouro que têm olhos, mas não veem; têm ouvidos, mas não ouvem. O Deus que eu sirvo é Emanuel. Ele não está apenas no céu; Ele está aqui, agora. Ele ouviu o meu silêncio quando eu não tinha forças para gritar.

— Prove — desafiou Maaca, cruzando os braços. — Cante para nós o que canta para o menino. Deixe-nos ver se o seu Deus também nos alcança.

O desafio estava lançado. O jardim parecia ter ficado em absoluto silêncio. Até os pássaros pareciam aguardar. Karen respirou fundo, e a melodia começou a brotar. Não era uma técnica ensinada nos palácios do Egito, mas um rio que fluía do seu espírito.

— Santo, Santo, Santo... — a voz de Karen subiu, pura e cristalina, vibrando contra as colunas do jardim.

Ela começou a entoar os versos da canção que se tornara sua oração constante. Enquanto cantava "Emanuel, Deus conosco", a atmosfera ao redor começou a mudar. O cinismo nos rostos de algumas mulheres começou a derreter. A música falava de uma majestade que se faz próxima, de um Rei que deixa o trono para curar a ferida da alma.

— O Teu nome é sobre todo nome... — Karen cantava agora com os olhos abertos, olhando diretamente para Maaca. — O Teu reino não terá fim.

As lágrimas, antes raras naquele ambiente de competição e poder, começaram a surgir nos olhos de algumas das esposas. A presença de Deus invadiu o jardim de tal forma que o orgulho não encontrava lugar para se esconder. Karen não estava apenas apresentando uma música; ela estava apresentando o próprio Emanuel, o Messias prometido que o nome de seu filho prefigurava.

— Glória, glória ao Rei! Majestade, Te adoramos! — O clímax da canção ecoou, e Karen sentiu como se o próprio céu estivesse descendo sobre aquele pedaço de terra.

Quando a última nota se dissipou, o silêncio que se seguiu foi sagrado. Ninguém ousava falar. Maaca, a mulher que fora sua maior crítica, baixou o rosto, as mãos tremendo levemente sobre o colo.

— Nunca ouvimos nada assim — sussurrou uma jovem esposa moabita, limpando o rosto. — Há uma paz nesta canção que os nossos rituais não conhecem.

— Não é a canção — disse Karen, aproximando-se de Maaca e tocando-lhe as mãos. — É Ele. Ele está aqui, Maaca. Ele conhece a sua dor e a sua solidão, mesmo no meio de toda esta riqueza. Ele é Emanuel para você também, se você O buscar.

Maaca olhou para Karen, e pela primeira vez, não havia ódio em seu olhar, apenas uma profunda e desesperada curiosidade.

— Você realmente acredita que Ele cura... não apenas o ventre, mas o coração?

— Eu sou a prova viva — respondeu Karen. — Eu era uma estrangeira, uma idólatra, uma mulher vazia. Ele me deu um filho, sim, mas antes disso, Ele me deu a Si mesmo.

Naquele dia, o harém de Salomão testemunhou algo mais grandioso do que qualquer conquista militar. A semente da fé fora plantada em solo árido através da adoração de uma mulher que não teve medo de jejuar quando todos riam, e de cantar quando todos duvidavam.

Ao entardecer, Karen voltou para seus aposentos. Salomão a esperava com Emanuel nos braços. O rei parecia radiante.

— As servas vieram me contar — disse ele, entregando o bebê à mãe. — Elas disseram que o jardim das oliveiras parecia o átrio do Templo hoje. Que as mulheres choravam e que a paz de Deus estava sobre todas elas.

Karen beijou a testa de Emanuel, que dormia tranquilamente.

— O Senhor está fazendo algo novo, Salomão. Ele está usando este pequeno milagre para atrair as nações a Si.

— E Ele está usando você, Karen — disse o rei, com admiração. — Sua voz atravessou as paredes deste palácio. Sua fé atravessou as barreiras do meu próprio entendimento.

Karen sentou-se à beira da cama, observando o luar que entrava pela janela. Ela sabia que os desafios não terminariam ali. O reino teria suas crises, o coração de Salomão enfrentaria suas próprias batalhas entre a sabedoria e as distrações do mundo, mas ela tinha uma âncora.

— Enquanto houver fôlego em mim — sussurrou ela para o filho e para o marido —, haverá uma canção. Porque não importa o que aconteça amanhã, o nome d'Ele permanece o mesmo.

Ela começou a cantarolar baixinho, apenas para os dois homens de sua vida, a melodia que o céu lhe emprestara.

— Emanuel... Deus conosco...

E naquela noite, em Jerusalém, o sono de todos foi mais profundo. Pois sobre o palácio de cedro e pedra, pairava a certeza de que o Deus que ouve o clamor silencioso de uma mulher em jejum é o mesmo que governa as estrelas, e que Ele, em Sua infinita graça, escolhera habitar entre o Seu povo. Emanuel não era apenas o nome de um príncipe; era a promessa eterna de que a humanidade nunca mais caminharia sozinha.