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A festa de Oliver

O Sabonete de Cereja e a Lâmina de Algodão Doce

O corredor da Escola de Papel parecia mais silencioso do que o normal, mas para Oliver, o silêncio era um grito ensurdecedor. Ele caminhava saltitante, como sempre fazia, balançando seu lápis gigante e procurando por aquela faísca de caos que costumava compartilhar com seus melhores amigos. Ele avistou Zip e Edward perto dos armários, cochichando sobre algum novo projeto de engenharia ou uma pegadinha que não o incluía.

— Ei, pessoal! — Oliver exclamou, aproximando-se com um sorriso largo e um pedaço de sabonete de lavanda na mão, pronto para dar uma mordida. — Vocês não acreditam no que eu fiz com o caderno daquela aluna nova. Está uma obra de arte!

Zip nem sequer desviou o olhar do papel que segurava. Edward, por sua vez, apenas ajustou os óculos e continuou a explicar algo técnico para a garota-papel ao seu lado. Eles agiam como se Oliver fosse apenas uma sombra, uma mancha de grafite mal apagada no cenário.

— Edward? Zip? — Oliver tentou novamente, o sorriso vacilando. — Eu estou falando com vocês.

Nada. O vácuo emocional foi o golpe final. Oliver sentiu um aperto estranho no peito, algo que o sabonete mais doce do mundo não conseguiria curar. Sem dizer mais uma palavra, ele deu meia volta e caminhou em direção à saída. Se o mundo de papel não o queria, ele criaria seu próprio mundo dentro de casa.

Ao entrar em seu quarto, o ambiente parecia distorcido. A tristeza não veio como choro, mas como uma mudança física. Oliver sentiu o elástico que prendia seu cabelo estourar. O rabo de cavalo, que sempre foi sua marca registrada de rebeldia, desmoronou. Seus fios de cabelo escorreram pelos ombros, lisos, pesados e sem vida, como se a própria gravidade da sua solidão estivesse puxando tudo para baixo.

Ele se sentou no chão, cercado por móveis inanimados. O silêncio da casa começou a ganhar textura. Ele olhou para um abajur no canto do quarto.

— Você viu como eles me trataram, não viu? — perguntou Oliver, a voz saindo num sussurro rouco.

O abajur não respondeu, mas na mente de Oliver, a cúpula de tecido inclinou-se levemente.

— Exatamente! — Oliver riu, uma risada seca que não alcançava os olhos. — Eles acham que são melhores que eu. Mas você me entende, Sr. Abajur. Você sempre ilumina as coisas.

Ele se arrastou até a cozinha, pegando um pote de sabonetes coloridos, mas não conseguia comer. Ele começou a alinhar as colheres sobre a mesa.

— E você, Dona Colher? O que acha do Edward? — Ele aproximou o rosto do metal frio. — Ah, você acha que ele é um arrogante? Eu também! Ele acha que a ciência dele é mais importante que a nossa amizade.

As horas passaram e a sanidade de Oliver derretia como cera quente. Ele conversava com as paredes, discutia com o tapete e pedia conselhos para um rádio desligado. O isolamento havia quebrado a última barreira de sua mente travessa, transformando a diversão em algo sombrio e distorcido.

De repente, batidas fortes ecoaram na porta da frente. Era Edward. Ele se sentia culpado, ou talvez apenas irritado porque precisava de Oliver para alguma tarefa.

— Oliver! Abre essa porta! — Edward gritava do lado de fora. — Para de drama. A gente só estava ocupado. Sai logo daí!

Oliver não se mexeu. Ele estava ocupado ouvindo o que o sofá tinha a dizer sobre traição.

— Ele quer entrar — sussurrou Oliver para o móvel. — Mas ele não é convidado, é?

Edward, perdendo a paciência, usou uma de suas ferramentas para forçar a fechadura. A porta se abriu com um estalo seco. Ele entrou na casa, deparando-se com uma cena bizarra: Oliver estava sentado no escuro, o cabelo liso cobrindo metade do rosto, cercado por objetos dispostos em um semicírculo.

— Oliver, que palhaçada é essa? — Edward caminhou até ele e segurou seu braço com força. — Levanta agora. Você está agindo como um louco. Vamos voltar para a escola.

— Eu não quero sair — Oliver respondeu, a voz desprovida de qualquer emoção. — Meus amigos estão aqui. Eles falam comigo. Eles não me ignoram.

— Seus amigos são objetos, Oliver! — Edward tentou puxá-lo, usando toda a sua força física para arrastar o garoto em direção à saída. — Deixa de ser esquisito e vamos logo!

Mas Oliver estava plantado no chão. Sua força parecia sobre-humana, alimentada por um ressentimento profundo. Edward puxava e empurrava, mas Oliver permanecia imóvel, os olhos fixos em um ponto vazio atrás do amigo.

— Solte-me, Edward — disse Oliver, e desta vez havia um brilho perigoso em seu olhar. — O Sr. Abajur disse que você é perigoso para a minha saúde mental.

— O quê? — Edward soltou um suspiro de frustração. — Você enlouqueceu de vez. Eu vou te levar à força se precisar!

Edward tentou agarrá-lo pelo colarinho, mas Oliver se soltou com um movimento brusco. Ele correu para o porão, com Edward logo atrás, gritando insultos sobre como Oliver estava sendo infantil.

No fundo do porão, sobre uma bancada de ferramentas, Oliver viu algo que nunca tinha notado antes. Era uma motosserra. Mas não era uma ferramenta comum. Ela era pintada em tons de rosa pastel e azul turquesa, com adesivos de corações e estrelas brilhantes. A lâmina parecia feita de um metal polido que refletia as cores do arco-íris. Era a coisa mais "kawaii" e mortal que ele já vira.

— Oh... — Oliver estendeu as mãos, os dedos trêmulos de excitação. — Você é tão linda. Como se chama?

— Oliver, larga isso! — Edward parou na entrada do porão, o rosto empalidecendo ao ver a arma nas mãos do amigo. — Isso não é um brinquedo!

Oliver ligou o motor. O som não era um rugido agressivo, mas um zumbido agudo e quase musical, como se a motosserra estivesse cantando uma canção de ninar macabra.

— Ela disse que o seu nome é "Fim" — Oliver sorriu, e desta vez o sorriso era largo demais, rasgando o rosto de papel. — E ela quer conhecer você de perto, Edward.

— Oliver, para com isso! — Edward deu um passo para trás, tropeçando em uma caixa. — Somos amigos! Lembra? Eu, você e a Zip!

— Amigos não ignoram os outros — Oliver avançou, a motosserra fofa brilhando sob a luz fraca. — Amigos não puxam os outros contra a vontade. Amigos... ficam juntos para sempre.

Edward tentou correr, mas o porão era um labirinto de memórias e tralhas. Oliver foi mais rápido. Em um movimento fluido e enlouquecido, ele ergueu a motosserra decorada. O primeiro golpe atingiu o ombro de Edward, rasgando o papel e liberando um jorro de tinta vermelha e espessa que manchou os adesivos de coração da máquina.

— Viu só? — Oliver ria enquanto Edward caía, gritando de dor. — Ela gosta de você! Ela está te dando beijos de metal!

O que se seguiu foi um frenesi de cores pastéis e violência bruta. Oliver não parou até que os gritos de Edward silenciassem e o chão estivesse coberto por fragmentos de papel e fluidos vitais. O silêncio voltou a reinar, mas agora era um silêncio satisfeito.

Oliver desligou a motosserra e a abraçou, sujando suas próprias roupas de sangue. Ele olhou para o corpo sem vida de Edward. Uma fome estranha, nascida daquela esquizofrenia momentânea e do vazio em seu estômago, começou a crescer.

— Você sempre disse que queria ser parte de algo grande, Edward — Oliver sussurrou, agachando-se ao lado do que restou do amigo.

Lentamente, ele começou a rasgar pedaços do corpo de papel, ensopados em sangue, e a levá-los à boca. O gosto era metálico, doce e amargo ao mesmo tempo, muito diferente do sabonete de cereja que ele costumava comer. Mas, para Oliver, naquele momento de completa loucura, era a refeição mais completa que ele já tivera.

Ele mastigava devagar, conversando com o cadáver entre uma mordida e outra.

— Agora você nunca mais vai me ignorar — disse Oliver, limpando o sangue do canto da boca com a manga da camisa. — Agora você vai estar comigo em todos os lugares. Literalmente.

As paredes da casa pareciam sussurrar em aprovação. O cabelo de Oliver continuava liso, caído sobre os olhos, enquanto ele terminava seu banquete macabro, finalmente sentindo que não estava mais sozinho.