a filha do buzeira
Operação Valsa Real
A empolgação com a resposta positiva de Biel Drake transformou o restante daquela tarde ensolarada em uma verdadeira festa antecipada. A notícia de que o convite havia sido aceito correu rápido pela mansão, gerando uma onda de comemorações que durou até o último pedaço de picanha sair da grelha de Feijuca. Mas para Rafaela, Hillary, S/N e Lívia, a confirmação era apenas o primeiro passo de uma engrenagem gigantesca que precisava começar a rodar imediatamente.
Dois dias depois, a mansão de Buzeira amanheceu em polvorosa. Não era um dia comum: Biel Drake havia prometido passar na casa para formalizar a parceria, alinhar o cronograma de ensaios e, claro, almoçar com a tropa inteira.
Na espaçosa sala de estar com pé-direito duplo e pisos de mármore reluzentes, Rafaela andava de um lado para o outro. Usava um conjunto confortável de moletom cinza claro e um tênis casual, mas os olhos inquietos denunciavam o nervosismo.
— Amiga, se você continuar cavando um buraco no chão com esse tênis, seu pai vai ter que pagar outra reforma — brincou Lívia, sentada no sofá enquanto navegava no catálogo de uma grife de calçados de festa.
— Eu não consigo evitar, Lívia! — Rafaela parou de repente, virando-se com as mãos na cintura. — Uma coisa foi falar com o Biel pela tela do celular com todo mundo berrando em volta. Outra coisa é ele chegar aqui na minha frente pra gente falar de ensaios, de dança... e se eu pisar no pé dele? E se a valsa ficar esquisita?
S/N, que estava encostada na bancada da cozinha americana tomando um suco de maracujá, não conseguiu conter o riso carinhoso.
— Respira, Rafa! O Biel é super paciente, você sabe disso. Fora que a gente chamou a professora de dança justamente pra ninguém pagar mico. Ninguém nasce sabendo dançar valsa de gala.
— Exatamente — completou Hillary, descendo as escadas com um caderno de anotações luxuoso e o celular na mão. Os cabelos estavam impecáveis, e o perfume suave preencheu o ambiente. — Seu pai já contratou uma coreógrafa especializada em eventos de debutante. O Biel só vem hoje pra gente bater o martelo sobre a música e os horários das aulas. Você vai ver que vai ser a coisa mais divertida do mundo.
— Falando no meu pai... — Rafaela franziu o cenho ao ouvir risadas graves vindas da área externa. — Onde ele está?
— Está lá fora com os meninos — respondeu Hillary, revirando os olhos com uma expressão resignada e divertida. — Armaram uma verdadeira banca de tribunal para receber o Biel. Eu já mandei ele parar com as palhaçadas, mas você conhece o Buzeira quando cisma de encenar o pai ciumento.
Do lado de fora, a cena era quase cinematográfica. Sentados em círculo ao redor da mesa de vidro da piscina, Buzeira, Kabrinha, Nino, Feijuca, Pecinha, Tuto, Joãozinho VT, NZ, Jhow, Guizeira e Migalzeira pareciam uma comitiva de líderes de estado negociando um tratado de paz.
— Ó, eu já vou avisando — dizia Kabrinha, cruzando os braços musculosos com uma feição exageradamente séria. — Se o moleque vacilar um centímetro, eu mesmo entro de penetra no ensaio pra corrigir a postura dele!
— Você não corrige nem a sua coluna quando senta no sofá, Kabrinha — zombou Feijuca, arrancando risos de Nino e Pecinha. — Vai querer pagar de instrutor de valsa agora?
— Deixa o Kabrinha, Feijuca — interveio Buzeira, balançando um copo de água com gelo e ajeitando os óculos escuros de armação dourada. — A preocupação é legítima! Minha filha mais velha tá virando mulher, rapaz. Quinze anos não é qualquer data. O Biel é nosso parceiro, considero como irmão mais novo, mas nessa história ele é o príncipe da Rafinha. O protocolo tem que ser seguido à risca!
— Ah pronto, virou monarquia agora — riu Joãozinho VT, batendo no ombro de Tuto. — Imagina o Buzeira de coroa e capa vermelha recebendo os convidados na entrada do castelo.
— Se bobear ele vai mesmo — pontuou NZ, rindo ao lado de Jhow, Guizeira e Migalzeira, que já estavam com a câmera do celular ligada gravando a resenha para os stories.
O som do interfone ecoou pelos alto-falantes discretos da casa, seguido pelo barulho inconfundível de um motor esportivo desacelerando no portão principal.
— Chegou o homem! — anunciou Pecinha, levantando-se.
Rafaela, que observava tudo pela porta de vidro da sala ao lado de S/N e Lívia, sentiu um frio gostoso na barriga. Valentina e Isaque, que estavam brincando de pega-pega com um carrinho elétrico no gramado, pararam na hora e correram na direção da entrada.
— Tio Biel chegou! — gritou Valentina com a vozinha fina e animada, puxando Isaque pela mão.
Minutos depois, Biel Drake atravessou o corredor lateral que dava acesso à piscina. Ele estava no seu estilo característico: calça cargo preta, camiseta oversized de tom neutro, correntes de prata brilhando sob a luz do sol e um sorriso descontraído no rosto. Nas mãos, segurava uma caixa elegante envolta em uma fita de cetim vermelha e um buquê de flores delicadas em tons pastéis.
A presença dele iluminou o lugar instantaneamente.
— Salve, rapaziada! — cumprimentou Biel, erguendo a mão aberta para a tropa.
— Olha ele aí! O príncipe da nobreza! — gritou Nino, puxando uma salva de palmas calorosa que foi acompanhada por Guizeira e Migalzeira aos assobios.
Buzeira levantou-se lentamente de sua cadeira, tentando manter uma postura imponente e solene, mas o sorriso de canto entregava o quanto ele gostava de Biel.
— Chegou na hora certa, rapaz — disse Buzeira, apertando a mão de Biel com firmeza e depois puxando-o para um abraço rápido com tapinhas nas costas. — Achei que ia amarelar e mandar um sósia pro ensaio.
— Jamais, chefe! Compromisso com a família Buzeira é prioridade máxima — respondeu Biel, rindo com sinceridade. Em seguida, ele cumprimentou um por um: Kabrinha, Feijuca, Tuto, Pecinha, Joãozinho VT, NZ e Jhow, antes de abaixar-se para cumprimentar Valentina e Isaque, que pularam ao redor de suas pernas.
— Você trouxe presente pra mim também, Biel? — perguntou Isaque, curioso, apontando para a caixa.
— Esse aqui é especial pra sua irmã mais velha, amigão — respondeu Biel com ternura, bagunçando os cabelos do menino. — Mas pro almoço eu trouxe um montão de chocolates que deixei lá no carro pra você e pra Valentina.
As crianças comemoraram e saíram correndo em direção à cozinha para avisar a equipe de apoio, deixando o caminho livre.
Biel virou-se então para a entrada da sala, onde Rafaela acabara de se aproximar, ladeada por Hillary, S/N e Lívia. Ao ver a debutante, o olhar do garoto se suavizou completamente. Ele deu alguns passos à frente, quebrando qualquer clima de tensão.
— Oi, Rafinha — disse Biel, abrindo um sorriso doce e estendendo o buquê de flores. — Isso aqui é só um agrado pra comemorar o início oficial da nossa preparação.
Rafaela sentiu as bochechas esquentarem, mas recebeu as flores com um brilho radiante nos olhos. O aroma doce das pétalas parecia acalmar de vez qualquer resquício de vergonha.
— Biel... que lindo! Muito obrigada, de verdade — disse ela, abraçando o buquê contra o peito. — Você não precisava ter tido esse trabalho todo.
— Claro que precisava — respondeu ele, entregando em seguida a caixa de cetim. — E abre essa caixinha aqui depois, é uma lembrancinha pra você guardar até o dia da festa.
— Ih, rapaz... já tá querendo amolecer o coração da minha filha? — Buzeira se intrometeu, colocando o braço sobre os ombros de Biel e olhando para o presente com desconfiança bem-humorada. — Hillary, você viu isso? O menino é diplomata demais.
— Larga de ser implicante, Buzeira — Hillary repreendeu o marido com um riso elegante, aproximando-se para beijar a bochecha de Biel. — Seja bem-vindo, querido. A gente está muito feliz que você aceitou fazer parte desse momento com a gente.
— Prazer enorme, tia Hillary. Sabe que eu tenho um carinho gigantesco por todos vocês — disse Biel, acenando em seguida para S/N e Lívia. — E aí, meninas! Prontas pra me verem passar vergonha tentando dançar valsa clássica?
— Que nada, a gente confia no seu gingado! — garantiu Lívia.
— Mas se você errar o passo, eu vou estar na primeira fileira gravando em 4K pro TikTok, só pra constar — avisou S/N, arrancando gargalhadas de todos ao redor.
— Pois então vamos entrar e resolver essa parada logo — chamou Hillary, gesticulando para que todos fossem para a sala de estar ampla, onde havia espaço de sobra para conversarem e até arriscarem os primeiros movimentos.
A tropa inteira se acomodou como pôde pelo ambiente. Kabrinha e Feijuca sentaram-se no tapete felpudo perto da lareira ecológica; Nino, Pecinha e Joãozinho VT dividiram o sofá menor; enquanto Buzeira ocupou sua poltrona de couro favorita, vigiando cada detalhe como um verdadeiro patriarca protetor. Tuto, NZ, Jhow, Guizeira e Migalzeira ficaram em pé encostados no corrimão da escada, ansiosos para ver a cena se desenrolar.
Hillary colocou o tablet sobre a mesinha de centro e abriu um documento compartilhado.
— Muito bem — começou a mãe da debutante. — A professora de dança vai vir duas vezes por semana a partir do próximo mês, mas hoje a Rafaela precisa escolher a trilha sonora da valsa do príncipe. Nós já separamos algumas opções, Biel, e queríamos saber a sua opinião.
— Manda ver, tia Hillary. Sou todo ouvidos — respondeu Biel, sentando-se no sofá ao lado de Rafaela, mantendo uma distância respeitosa que Buzeira aprovou silenciosamente com um leve aceno de cabeça.
Rafaela respirou fundo, pegando o tablet com as próprias mãos. Ela tocou a tela, reproduzindo a primeira opção nas caixas de som embutidas no teto. Uma melodia suave de piano e violino começou a soar, preenchendo o ambiente com um ar digno de conto de fadas moderno, antes de transicionar para uma versão acústica e elegante de uma canção contemporânea de R&B.
— Essa aqui é a minha favorita — confessou Rafaela, olhando de soslaio para Biel com timidez. — Não é aquela valsa antiga e parada, mas ainda tem toda a emoção e o romantismo que um momento de debutante pede. O que você acha?
Biel fechou os olhos por alguns segundos, prestando atenção nas batidas suaves e no ritmo compassado da melodia. Quando abriu os olhos novamente, o entusiasmo era evidente.
— Rafa, essa música é perfeita — declarou ele, sem hesitar. — Ela tem peso, tem sentimento, mas tem balanço. Não vai ficar aquela coisa travada, sabe? Dá pra gente fazer uma entrada marcante, girar na medida certa e terminar com aquela pose clássica que vai fazer sua mãe e suas amigas chorarem na plateia.
— Eu já tô quase chorando só de imaginar, imagina no dia — confessou Lívia, colocando as mãos sobre o peito.
— E você, Buzeira? O que achou da escolha musical? — perguntou S/N, cutucando de brincadeira o braço do amigo.
Buzeira fingiu tossir para disfarçar o nó na garganta que já começava a se formar. Ele limpou a garganta e ajeitou a gola da camisa.
— É... é bonita. Tem classe. Não parece essas barulheiras que o Kabrinha escuta no fone de ouvido enquanto treina. Por mim, tá aprovadíssima.
— Ei, meu gosto musical é refinado, tá ouvindo? — retrucou Kabrinha, indignado, fazendo toda a sala cair na gargalhada.
— Agora vem a parte prática — propôs Hillary, levantando-se com um sorriso travesso. — Vocês dois já sabem a música. Que tal darem uma palhinha aqui na sala agora? Só pra gente ver a postura e a altura?
O rosto de Rafaela esquentou imediatamente.
— Mãe! Aqui na sala? Com todo mundo olhando?
— Claro, Rafinha! — incentivou Joãozinho VT do fundo da sala. — O ensaio geral começa em casa!
— Vai lá, Rafa! Confia no processo! — gritou Tuto, puxando um coro com Guizeira e Migalzeira: — Dança! Dança! Dança!
Biel deu uma risada alta, contagiado pela energia da casa. Ele levantou-se com elegância, ajeitou a barra da camiseta e estendeu a mão aberta na direção de Rafaela com uma leve reverência de brincadeira.
— Me concede essa dança, princesa?
Rafaela olhou para S/N e Lívia, que fizeram gestos positivos e animados com os braços, incentivando-a a não recuar. Hillary deu um sorriso encorajador. Respirando fundo e reunindo toda a sua coragem, Rafaela colocou a mão delicada sobre a dele e se levantou do sofá.
— Se eu pisar no seu pé, a culpa é da plateia — avisou ela, arrancando risos de Biel.
— Se você pisar no meu pé, a gente improvisa um passo novo e finge que foi combinado — rebateu ele com leveza.
A música começou a tocar novamente no sistema de som. O silêncio caiu sobre a sala, quebrado apenas pela voz melodiosa que saía das caixas de som.
Biel conduziu Rafaela até o centro do piso de mármore. Com extremo cavalheirismo e precisão, ele colocou a mão esquerda firme e suave nas costas dela, mantendo a postura reta. Rafaela apoiou a mão no ombro dele, enquanto as outras mãos se entrelaçavam na altura do peito, exatamente como mandava o figurino clássico.
Nos primeiros três tempos, ambos deram passos curtos, buscando a sintonia do ritmo. Rafaela estava um pouco rígida, com medo de errar a contagem, mas Biel a olhou nos olhos e sorriu, sussurrando um "vai no meu tempo, tá perfeito" que ninguém além dela conseguiu ouvir.
Aos poucos, a rigidez se desfez. Biel guiou Rafaela em um giro lento e gracioso. O movimento foi fluido, perfeito, fazendo os cabelos longos e escuros da garota flutuarem no ar antes de ela voltar para os braços dele com uma risada genuína de alívio e satisfação.
Do sofá, Buzeira assistia à cena em silêncio. Por trás dos óculos escuros que ele rapidamente puxou para cobrir os olhos, lágrimas discretas se formaram. Ele apertou a mão de Hillary, que já estava com os olhos marejados, emocionada ao ver a filha mais velha tão radiante e segura.
Quando a canção atingiu o primeiro refrão, Biel deu um último passo para trás e fez uma leve inclinação de cabeça em sinal de respeito, enquanto Rafaela completava o movimento com um sorriso largo, as bochechas ainda rosadas, mas transbordando pura felicidade.
A sala inteira irrompeu em aplausos estrondosos e gritos de comemoração.
— Que isso! Mandaram muito! — berrou Kabrinha, batendo palmas de pé.
— Já tá pronto! Nem precisa de professora, chama logo o fotógrafo! — gritou Nino, assobiando alto.
— Ficou perfeito, amiga! Lindo demais! — exclamou Lívia, pulando do sofá junto com S/N para abraçar Rafaela logo que ela se soltou de Biel.
— Não falei que você ia arrasar? — disse S/N, apertando a garota em um abraço afetuoso. — Vocês dois têm uma presença incrível juntos. A festa vai parar nesse momento!
Pecinha, Feijuca, NZ e os outros rapazes se aproximaram de Biel, dando tapas amigáveis em suas costas e elogiando a postura dele.
— Mandou bem demais, moleque — disse Feijuca. — Teve respeito, teve presença e não pisou no vestido invisível da garota. Já passou no teste da banca!
Buzeira finalmente se levantou, caminhando a passos lentos até o centro da sala. O clima brincalhão deu lugar a um instante de pura emoção familiar. Ele parou na frente de Biel, estendeu a mão e o puxou para um abraço forte e sincero.
— Obrigado por cuidar disso com tanto carinho, Biel — disse Buzeira, a voz levemente embargada, quebrando de vez a pose durona. — Minha filha é a coisa mais preciosa da minha vida. Saber que ela vai ter alguém como você ali do lado, respeitando ela e fazendo esse momento ser mágico, não tem preço.
— Eu que agradeço a confiança de olhos fechados, Buzeira — respondeu Biel com a maior sinceridade do mundo. — A Rafa é como uma irmãzinha mais nova pra mim. Pode ter certeza absoluta de que no dia dessa festa, ela vai se sentir a menina mais incrível do planeta. Eu garanto isso.
Hillary se juntou ao abraço, seguida por Rafaela, formando um círculo familiar caloroso no centro daquela sala imensa. Valentina e Isaque, vendo todo mundo abraçado, correram e se jogaram no meio das pernas dos pais, completando o momento de afeto com risos infantis e bagunça.
— Bom, agora que o protocolo oficial tá assinado e selado com dança — anunciou Kabrinha, quebrando o clima choroso com sua habitual energia expansiva —, quem é que vai acender a churrasqueira de novo? Porque ver adolescente dançando valsa me deu uma fome violenta!
— Sai daí, Kabrinha! A comida lá fora já tá pronta faz meia hora! — respondeu Feijuca rindo, liderando a tropa em direção à varanda gourmet.
Enquanto os rapazes saíam em fila fazendo piadas e zombando uns dos outros sobre quem dançava melhor, Rafaela permaneceu por um breve instante no centro da sala. Ela olhou para as flores que repousavam sobre a mesinha, para a caixinha de veludo que logo abriria no quarto, e para os amigos e a família reunidos lá fora, rindo sob o sol daquela tarde inesquecível.
O nervosismo que a acompanhara durante toda a semana havia desaparecido por completo, dando lugar a uma certeza serena e vibrante: o seu baile de debutante seria não apenas grandioso, mas repleto de verdade, lealdade e do amor de todos aqueles que caminhavam ao seu lado.