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a filha do buzeira

O Espelho da Realeza

A manhã de segunda-feira chegou trazendo consigo o tipo de agitação que só a mansão de Buzeira conhecia. No entanto, dessa vez o epicentro do movimento não era a churrasqueira nem a quadra de esportes, mas sim o andar superior e as duas vans pretas com vidros escuros que haviam acabado de estacionar na entrada principal. Delas desceram assistentes de alfaiataria, costureiras conceituadas e araras inteiras cobertas por capas de proteção plástica translúcida, exibindo tecidos que iam do cetim mais pesado ao tule cravejado de pedrarias finas.

A consagrada estilista dos maiores nomes de São Paulo fora convocada pessoalmente por Hillary para realizar o atendimento com exclusividade domiciliar. Na enorme suíte master da mansão, que tivera seus móveis parcialmente afastados para dar lugar a espelhos de corpo inteiro com iluminação de estúdio, Rafaela tentava manter a calma, com o roupão de seda branca bem amarrado à cintura.

— Eu nunca vi tanto tecido na minha vida — murmurou Rafaela, com os olhos muito abertos enquanto duas assistentes desfilavam com cabides dourados. — Parece que a gente vai vestir um elenco inteiro de filme de época.

— E vai mesmo, linda — disse S/N, que estava sentada em uma das poltronas de veludo, segurando um copo térmico de café gelado. — Teu pai não contratou uma equipe de gravação qualquer. O diretor que vem amanhã já gravou clipe com os maiores trappers e sertanejos do país. Você tem que estar impecável, com cara de quem manda em tudo.

— E você vai mandar — completou Lívia, que se aproximou da arara principal e deu um leve toque em uma das peças de tule azul-marinho cintilante. — Olha o caimento dessa barra, Rafa! Se você entrar no salão com isso aqui rodando, até o mármore vai parecer sem brilho.

Hillary entrou no quarto acompanhada da estilista-chefe, uma mulher elegante de cabelos curtos e óculos de armação fina chamada Donatella.

— Rafaela, meu amor — disse Hillary, abrindo um sorriso acolhedor —, a Dona Donatella trouxe exatamente o que desenhamos no croqui na sexta-feira. A versão do vestido para o teaser do palacete tem o corset estruturado em pedras de cristal, uma fenda sutil para dar mobilidade na dança e a cauda removível.

— Menina, você tem as medidas perfeitas de uma debutante moderna — elogiou a estilista, gesticulando para as assistentes abrirem a primeira capa. — Quando colocarmos o vestido, faremos os alinhavos nas costas e na cintura. O objetivo é que pareça uma segunda pele, sem sufocar seus movimentos durante os giros da valsa.

Enquanto Rafaela era levada para trás do biombo luxuoso montado no canto do quarto, um burburinho de vozes familiares começou a subir a escadaria. Não demorou muito para que a porta entreaberta da suíte batesse contra a parede com força, revelando Kabrinha, Feijuca, Nino e Pecinha, todos espremidos como se estivessem invadindo uma área de segurança máxima.

— Ô de casa! O controle de qualidade da tropa tá liberado pra entrar? — anunciou Kabrinha, cruzando os braços com cara de poucos amigos de mentira.

— Nem pensar! — gritou Hillary, colocando as mãos nos quadris e bloqueando a passagem com autoridade. — Fora daqui, vocês quatro! Isso aqui é prova secreta de vestido! Tradição não permite que marmanjo fique bisbilhotando antes da hora!

— Qual foi, tia Hillary? — choramingou Feijuca, tentando espiar por cima do ombro dela. — A gente só veio dar suporte moral! O Buzeira tá lá embaixo quase roendo as unhas e mandou a comitiva vir averiguar se o tecido é resistente a rasgos.

— Se o Buzeira estiver ansioso, ele que venha ele mesmo e espere no corredor — rebateu S/N, rindo e jogando uma almofada pequena na direção de Kabrinha, que desviou por pouco. — Saiam já daqui! O Biel já chegou?

— Chegou nada, o homem tá na sala de jogos escolhendo qual cordão de ouro vai usar com o terno — respondeu Nino, rindo. — Ele tá mais nervoso que vestibular de medicina.

— Deixa o menino em paz, Nino — advertiu Lívia. — E vocês, xô! Vão comer pão de queijo na cozinha!

Derrotados pela guarda feminina, os rapazes deram meia-volta resmungando piadas, mas as risadas deles ainda podiam ser ouvidas ecoando pelo corredor.

Atrás do biombo, com a ajuda paciente da estilista, Rafaela respirou fundo quando o fecho de correr invisível deslizou pelas suas costas. O tecido de seda azul-da-meia-noite desceu reto até o chão, enquanto a saia de tule sobreposta se abria em camadas leves, criando um efeito degradê que parecia um céu noturno salpicado de constelações.

Quando Rafaela deu os primeiros passos para fora do biombo, subindo na pequena plataforma circular diante dos três espelhos articulados, o quarto inteiro mergulhou em um silêncio reverente.

Hillary levou as duas mãos ao peito, e os olhos marejaram instantaneamente.

— Meu Deus, filha... — a voz de Hillary falhou por um segundo. — Você parece... uma rainha. Uma rainha de verdade.

Lívia soltou um grito abafado de emoção, batendo palminhas frenéticas.

— Gente, esquece tudo! Esquece qualquer referência de filme da Disney! A Rafaela acabou de zerar o padrão de beleza de debutante!

S/N levantou-se lentamente, admirando a forma como o corpete abraçava a silhueta da garota com classe e suavidade, sem perder a juventude dos seus quase quinze anos.

— Rafa... você tá surreal — disse S/N, aproximando-se com os olhos brilhando. — Olha como isso valoriza o seu tom de pele. Olha o reflexo desse brilho quando você se mexe. O Biel vai esquecer até a contagem dos passos quando te ver pronta amanhã!

Rafaela olhou para si mesma no reflexo tríplice. Suas bochechas ganharam uma corada suave, mas o sorriso tímido logo se transformou em uma expressão de encanto genuíno. Ela tocou a própria cintura, sentindo a firmeza elegante da estrutura, e girou devagar sobre a plataforma de madeira, vendo as pontas do tule flutuarem com leveza poética.

— Eu... eu nem consigo acreditar que sou eu mesma — confessou ela, com a voz embargada. — Parece um sonho, mãe.

— É a sua realidade, meu amor — disse Hillary, subindo no estrado e abraçando a filha de lado com cuidado extremo para não amarrotar a seda. — O seu pai e eu trabalhamos tanto para ver esse sorriso no seu rosto. Você merece cada pedrinha costurada nesse vestido.

Uma batida discreta e educada soou na porta. Dessa vez não era a barulheira de Kabrinha.

— Licença... — a voz calma de Biel Drake pediu passagem. — Posso entrar ou ainda tá rolando segredo de estado?

— Biel! — exclamou Hillary, recompondo-se e secando uma lágrima rápida com a ponta do indicador. — Entra, querido! A sua prova do smoking precisa ser agora também.

A porta se abriu por completo, e Biel deu um passo para dentro do quarto. Ele já vestia a calça de alfaiataria preta com corte italiano ajustado e uma camisa social de botões de madrepérola, mas carregava no braço o paletó de veludo escuro e a gravata borboleta desfeita.

Assim que os olhos de Biel pousaram em Rafaela sobre o estrado iluminado, ele parou imediatamente onde estava. O sorriso costumeiro dele congelou por uma fração de segundo em uma expressão de absoluto choque e admiração. Ele desceu o olhar pelo vestido e voltou para o rosto dela, balançando a cabeça em negação lenta, como quem não acredita na beleza da cena.

— Caraca... — escapou da boca dele, num tom quase inaudível, antes que ele limpasse a garganta. — Rafa... sem palavras, de verdade. Você tá espetacular. Se eu soubesse que ia ficar desse jeito, tinha mandado fazer um terno de armadura medieval pra tentar acompanhar esse nível.

Rafaela riu, sentindo o nervosismo desaparecer sob o elogio sincero do amigo.

— Para, Biel! Assim você me deixa com mais vergonha!

— Vergonha de quê, princesa? — rebateu ele, aproximando-se da área dos espelhos com passos seguros e cumprimentando a estilista com uma inclinação educada. — O diretor do teaser não vai nem precisar colocar efeito de luz na edição. Você já tá iluminando o quarto inteiro sozinha.

— O garoto não é fraco na lábia, viu? — comentou Lívia para S/N, arrancando risos de ambas.

— Menos conversa e mais trabalho, mocinho — ordenou Donatella com um sorriso bem-humorado, pegando o paletó dos braços de Biel. — Vista esse paletó. Preciso ajustar a largura dos ombros e a altura das mangas para que suas mãos fiquem livres na hora de segurar a mão da debutante.

Biel vestiu o paletó de veludo preto. O corte era moderno, com lapelas acetinadas estreitas e um forro de seda bordô personalizado com detalhes sutis em cinza chumbo. A mistura entre a elegância clássica de um baile de gala e a identidade urbana e estilosa do garoto criava um contraste impecável.

Donatella começou a prender os alfinetes com agilidade milimétrica nas costas de Biel, enquanto Hillary e as meninas observavam a dupla posicionada lado a lado diante dos espelhos.

— Olhem para isso — murmurou Hillary, com a mão no queixo. — Vocês dois juntos parecem saídos da capa de uma revista internacional.

— Nem me fale — concordou S/N. — O Buzeira vai querer mandar emoldurar a foto em tamanho real pra botar na entrada da mansão.

Antes que pudessem continuar, a maçaneta girou com estrondo e a porta foi empurrada com força. Buzeira entrou como um furacão, acompanhado por Joãozinho VT, Tuto, NZ, Jhow, Guizeira e Migalzeira, todos com os celulares empunhados gravando a cena para os arquivos pessoais da família. Atrás deles vinham Valentina e Isaque, correndo descalços pelo carpete.

— Que demora é essa, rapaz? Já deu tempo de fazer três vestidos novos! — Buzeira começou a falar com a sua habitual voz de comando, mas as palavras simplesmente travaram na sua garganta no momento em que ele encarou Rafaela de cima a baixo.

Os óculos escuros de armação dourada escorregaram pelo nariz do influenciador. Os olhos castanhos dele se arregalaram. Buzeira parou no meio do quarto, cruzou os braços para disfarçar o arrepio nos braços, e a mandíbula dele pareceu endurecer enquanto ele tentava segurar o choro a todo custo.

— Olha a Rafinha... — sussurrou Guizeira ao fundo, esquecendo-se da pose de cinegrafista por um segundo.

— Ficou uma princesa de verdade, chefe — disse Tuto com sinceridade palpável, batendo de leve no ombro de Buzeira.

— Papai! A Rafa parece uma fada do desenho! — gritou Valentina, correndo e parando bem na frente da barra brilhante do vestido, com os olhos redondos cheios de fascínio infantil.

— É a fada mais cara do Brasil, minha filha — conseguiu falar Buzeira, finalmente quebrando o silêncio com a voz visivelmente rouca pela emoção. Ele deu três passos largos, ignorando os protestos bem-humorados da estilista sobre os alfinetes, e parou aos pés da plataforma da filha.

— Pai... gostou? — perguntou Rafaela, mordendo o lábio com ansiedade.

Buzeira ergueu os olhos para a primogênita. O homem que não temia nenhuma negociação nos negócios, que lidava com multidões diariamente nas redes e administrava uma rotina caótica com um sorriso no rosto, parecia completamente desarmado diante da menina que ele vira nascer.

— Se eu gostei? — Buzeira puxou a mão da filha e a beijou com carinho e solenidade. — Minha princesa... não tem dinheiro no mundo que pague ver você assim. Você tá a coisa mais perfeita que Deus já desenhou. Eu só não choro aqui agora porque esse monte de moleque vai ficar me zoando na internet a semana toda.

— Tarde demais, chefe! Já peguei o close do olho brilhando em 4K! — avisou NZ, rindo com o telefone focado no rosto do patriarca.

— Eu vou confiscar esse celular, NZ, você vai ver só — ameaçou Buzeira em tom de brincadeira, antes de se virar para Biel Drake. O empresário estreitou os olhos e apontou o indicador para o smoking impecável do rapaz. — E você, hein, Bielzinho? Tá achando que é o James Bond agora?

Biel abriu os braços, rindo com naturalidade.

— Tô tentando manter a postura à altura da sua filha, chefe Buzeira. Se eu não caprichar, o Kabrinha me joga na piscina amanhã no meio do palacete!

— O Kabrinha não joga ninguém em lugar nenhum — zombou Feijuca, encostado no batente da porta junto com Pecinha. — Mas o Biel tá na régua mesmo, tem que admitir. Dá até vontade de alugar um smoking pra mim também.

— Nem inventa, Feijuca — riu S/N. — Se você botar veludo com esse calor, você derrete na primeira esquina.

— Muito bem, rapazes — Donatella deu duas palmas firmes para chamar a atenção da turma toda. — Eu já marquei todas as bainhas e os ajustes dos ombros. Agora, antes de eu levar as peças para a costura final de acabamento, eu exijo que eles façam um pequeno teste prático.

— Teste prático? — perguntou Rafaela, surpresa.

— Sim! — a estilista apontou para o espaço livre entre a cama e o espelho. — Vocês precisam dar um giro completo com a cauda montada e com o calçado oficial da gravação. Preciso garantir que o tecido não enrosque na barra da calça dele durante o clímax da música.

Lívia correu imediatamente até uma caixa dourada que estava sobre o aparador e retirou de lá os sapatos de Rafaela: sandálias prateadas de salto fino estruturado, adornadas com pequenas tiras de cristais que envolviam o tornozelo. Com a ajuda da mãe, Rafaela calçou os sapatos, ganhando mais alguns centímetros de postura imponente.

BielDrake ajeitou a gravata borboleta e deu um passo à frente, descendo uma leve reverência formal que fez Valentina aplaudir no canto da sala.

— Vamos lá, parceira — disse Biel, estendendo a mão aberta com a palma para cima. — Como a gente treinou ontem lá na sala.

Rafaela apoiou a mão enluvada de leveza sobre a palma dele, sentindo a firmeza do aperto de Biel. Ele a conduziu com passos curtos e decididos para o centro do piso de madeira nobre da suíte master.

Joãozinho VT colocou a música de referência para tocar direto do celular. O piano lírico e moderno começou a ecoar no ambiente, abafando qualquer conversa paralela.

A postura de Biel mudou instantaneamente. Ele ergueu a mão esquerda de Rafaela na altura exata dos ombros, colocou a mão direita firme, mas com extremo respeito, no meio das costas do vestido, e olhou nos olhos dela com total foco.

— No três — sussurrou ele com tranquilidade. — Um, dois, três.

Eles deram o primeiro passo largo para a direita. O movimento foi suave, a barra pesada de tule azul acompanhou a trajetória sem tropeçar nos sapatos de verniz de Biel. Rafaela respirou no mesmo compasso, sentindo o apoio seguro dos braços do amigo.

Quando a batida da música cresceu, Biel deu um passo para trás com agilidade, criando o espaço exato para girar Rafaela sob o braço levantado. O vestido abriu-se no ar em uma circunferência espetacular, como as asas de uma borboleta cintilante na penumbra do quarto. Os cabelos longos de Rafaela chicotearam suavemente o ar perfumado, e ela completou o giro sem perder o equilíbrio nem por uma fração de segundo, caindo perfeitamente alinhada de volta aos braços de Biel.

O movimento final foi finalizado com Biel inclinando a cabeça de leve e Rafaela flexionando levemente os joelhos em uma reverência clássica, o sorriso dela ocupando todo o rosto.

A suíte master pareceu explodir em comemoração.

— Que show! — berrou Buzeira, batendo palmas com os braços erguidos acima da cabeça. — Meu Deus do céu, isso no palacete vai parar São Paulo inteira!

Hillary abraçou Lívia e S/N em um aperto triplo de pura euforia, enquanto os meninos no fundo assobiavam e gritavam como torcida de clássico de futebol.

— Perfeito! O caimento ficou irrepreensível! — declarou Donatella, anotando os últimos detalhes no tablet com um sorriso triunfante. — Nenhuma costura repuxou, o movimento teve liberdade total. Vocês estão mais do que prontos para as câmeras de amanhã.

Biel soltou a mão de Rafaela e deu um toque descontraído de ombro com ela, rindo com o rosto um pouco corado pelo esforço e pela emoção da cena.

— Viu só, Rafinha? Eu falei que ia dar tudo certo. Amanhã a gente vai quebrar tudo naquela gravação.

— Com você de príncipe, ficou fácil, Biel — respondeu ela com uma doçura desarmante, olhando para a pulseira de estrela cadente que continuava brilhando em seu pulso, combinando perfeitamente com os tons frios do vestido.

Buzeira se aproximou dos dois, colocando uma mão no ombro da filha e a outra no ombro de Biel, olhando para os dois com o orgulho de quem sabia que construíra uma história linda para sua família.

— Bom, a brincadeira foi linda, mas amanhã a van da equipe de filmagem chega às seis da manhã na porta do palacete — anunciou o empresário com seu tom definitivo de liderança. — Quero todo mundo alimentado, descansado e focado. A tropa Buzeira vai mostrar pro mundo como é que se faz uma festa de quinze anos de respeito!

— Pode apostar, pai — disse Rafaela, com a determinação brilhando nos olhos.

Ali, cercada por sua família, suas fiéis companheiras e amigos leais que vibravam a cada conquista sua, Rafaela sabia que não havia espaço para medo ou insegurança. O ensaio real fora concluído com honras máximas, e a garota de catorze anos estava prestes a dar o passo mais inesquecível de sua vida rumo ao seu próprio castelo.

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