A força
O Despertar do Segredo
A tensão que pairava entre Adam e Clara nos dias que se seguiram à briga na biblioteca não havia desaparecido por completo, mas havia se transformado em algo mais denso, uma eletricidade que parecia carregar o ar sempre que cruzavam o mesmo corredor. Clara tentava manter sua resolução de distância, mas o isolamento era uma tortura que ela mesma se impusera. O silêncio entre eles não era de paz, era o silêncio de uma corda esticada ao máximo, prestes a romper.
Naquela noite, a lua de Eternia estava cheia e prateada, lançando sombras longas pelas janelas altas do castelo. Clara estava em seus aposentos, tentando se concentrar em uma costura simples para acalmar os nervos. No entanto, sua mente não parava de repetir as palavras de Adam: "Eu não beijei aquela mulher". Ela queria acreditar. No fundo de sua alma, ela acreditava. Mas a imagem de Lady Elara, tão perfeita e graciosa, continuava a sussurrar em seu ouvido que ela era insuficiente.
O som suave da tapeçaria se movendo a fez sobressaltar. Ela não precisou olhar para saber quem era. O cheiro de sândalo e o calor que emanava daquela presença eram inconfundíveis.
— Eu disse para você não vir hoje — sussurrou Clara, sem se virar, embora suas mãos estivessem tremendo sobre o tecido.
— E eu disse que não consigo respirar sem você — respondeu Adam, a voz rouca e carregada de uma determinação que a fez estremecer.
Ele atravessou o quarto com passos rápidos e pesados. Antes que Clara pudesse protestar, as mãos grandes de Adam envolveram sua cintura, puxando-a para trás contra o peito dele. O contraste era imediato: a força dele contra a maciez dela. Adam enterrou o rosto na curva do pescoço de Clara, inspirando profundamente.
— Pare de fugir de mim — rosnou ele contra a pele dela. — Esses dias foram um inferno. Ver você me evitando, ver outros homens olhando para você no pátio... eu quase perdi o controle.
Clara sentiu o ciúme dele como uma onda física. Era possessivo, sim, às vezes sufocante, mas para uma mulher que passava a vida se sentindo invisível, aquela intensidade era o que a mantinha ancorada. Ela se virou nos braços dele, os olhos úmidos.
— Eu tenho medo, Adam. Tenho medo de que um dia você acorde e perceba que os boatos estavam certos, que você precisa de alguém como a Elara.
— Nunca — disse ele, selando as palavras com um beijo urgente.
Não era um beijo delicado. Era um beijo de posse, de necessidade acumulada por dias de silêncio e desconfiança. Adam a levantou com facilidade, levando-a em direção à cama. Naquele momento, as inseguranças de Clara sobre seu corpo, sobre o fato de ser gordinha ou de não ter poderes, pareceram desaparecer sob o toque febril dele. Para Adam, cada curva dela era um território sagrado, e ele fazia questão de demonstrar isso com as mãos e os lábios.
As roupas foram deixadas de lado com pressa, o desespero de estarem juntos novamente superando qualquer cautela. Sob a luz fraca das velas, a pele de Clara brilhava, e Adam a olhava como se ela fosse a visão mais magnífica de toda Eternia. Ele a deitou nos lençóis de seda, cobrindo o corpo dela com o seu, os dedos entrelaçados aos dela, prendendo-a contra o colchão.
— Você é minha — ele sussurrou, a voz vibrando contra a boca dela. — Só minha. Entendeu?
Clara apenas conseguiu assentir, puxando-o para mais perto, entregando-se àquele calor que só ele sabia proporcionar. O mundo lá fora — a She-Ra, as obrigações reais, as intrigas da corte — não existia. Ali, eles eram apenas dois corações batendo no mesmo ritmo frenético.
No entanto, o destino em Eternia raramente era gentil com segredos.
Do outro lado do castelo, Adora caminhava apressada. Ela estava preocupada com Clara. Sua melhor amiga andava estranha, pálida e esquiva. Adora sabia que algo estava errado e, após uma conversa tensa com o Rei Randor sobre a segurança das fronteiras, ela decidiu que não passaria mais uma noite sem confrontar Clara e oferecer seu apoio.
— Ela deve estar dormindo, mas eu preciso saber se ela está bem — murmurou Adora para si mesma, ajustando a braçadeira de sua armadura.
Ela não usou o corredor principal. Como conhecia o castelo como a palma de sua mão, pegou um atalho que levava diretamente à ala dos hóspedes e amigos da família real. Adora não bateu. No seu ímpeto de protetora e amiga, ela simplesmente girou a maçaneta da porta de Clara, que, na pressa e no fervor do momento, não havia sido trancada por dentro.
— Clara, eu sei que é tarde, mas eu realmente precisava...
As palavras de Adora morreram em sua garganta. O som da porta batendo contra a parede ecoou no quarto silencioso, interrompendo o momento de intimidade.
O tempo pareceu congelar.
Na cama, Adam e Clara se separaram bruscamente. Adam, movido por um instinto de proteção imediato, puxou o lençol para cobrir Clara, colocando-se parcialmente à frente dela, embora ele mesmo estivesse sem camisa, com o cabelo bagunçado e os olhos ainda nublados pelo desejo.
Clara sentiu o sangue fugir de seu rosto. O terror que ela alimentara por meses — o medo de ser descoberta, o medo do julgamento de Adora — agora era uma realidade nua e crua diante de seus olhos. Ela se encolheu atrás de Adam, desejando que o chão se abrisse e a engolisse.
Adora estava estática na soleira da porta. Seus olhos azuis, geralmente cheios de determinação e bondade, estavam arregalados em choque absoluto. Ela olhou para o irmão, depois para Clara, e então novamente para Adam. A ficha demorou alguns segundos para cair, mas quando caiu, a expressão de Adora mudou de surpresa para uma confusão dolorosa.
— Adam? — A voz dela saiu quase como um sussurro quebrado. — Clara?
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Adam recuperou a compostura primeiro, embora sua mandíbula estivesse travada de tensão. Ele não recuou. O lado possessivo que Clara tanto conhecia estava ali, presente na forma como ele protegia o espaço dela.
— Adora, saia — disse Adam, a voz baixa e autoritária.
— Saia? — Adora deu um passo para dentro do quarto, a raiva começando a borbulhar por trás do choque. — O que... o que é isso? Há quanto tempo isso está acontecendo?
Clara, trêmula e com as lágrimas já escorrendo pelo rosto, tentou falar, mas sua voz não passava de um soluço abafado.
— Adora, por favor... me desculpe... — conseguiu dizer Clara, escondendo o rosto no travesseiro.
— Desculpar? — Adora agora olhava para Adam com uma indignação crescente. — Adam, ela é minha melhor amiga! Você... você está brincando com ela? É isso que você faz nas suas noites "folgadas"?
— Não ouse — rugiu Adam, levantando-se da cama e enrolando uma manta na cintura, enfrentando a irmã de igual para igual. — Não ouse dizer que isso é uma brincadeira. Eu amo a Clara.
Adora recuou um passo, como se tivesse sido atingida por um golpe físico.
— Você a ama? E por que esconderam isso de mim? Por que me deixaram no escuro enquanto eu me preocupava com ela todos os dias?
— Porque ela tinha medo! — Adam apontou para Clara, que ainda chorava silenciosamente. — Ela tinha medo de que você a olhasse como está olhando agora! Como se ela não fosse boa o suficiente para ser mais do que uma sombra no palácio. Como se o príncipe de Eternia não pudesse se apaixonar por uma mulher comum.
— Eu nunca pensaria isso dela! — gritou Adora, as lágrimas também surgindo em seus olhos. — Mas vocês mentiram para mim! Vocês me fizeram de boba!
— Nós não queríamos te magoar, Adora — interveio Clara, sentando-se na cama, segurando o lençol contra o peito com força, os olhos vermelhos e inchados. — Eu tinha tanto medo de te decepcionar. Você é a She-Ra... você é perfeita. Eu sou apenas... eu. Eu achei que você sentiria vergonha de mim por estar com o seu irmão.
Adora olhou para Clara, e a raiva em seu rosto suavizou por um momento, dando lugar a uma tristeza profunda.
— Vergonha? Clara, você é a pessoa mais gentil e leal que eu conheço. Eu nunca teria vergonha de você. Mas o fato de você não ter confiado em mim... isso dói mais do que qualquer segredo.
Adam deu um passo à frente, tentando se aproximar da irmã, mas Adora levantou a mão, sinalizando para que ele parasse.
— Não. Agora não, Adam. Eu não consigo nem olhar para vocês dois agora.
— Adora, espere! — Adam tentou chamá-la, mas a irmã já havia dado as costas e saído do quarto, batendo a porta com uma força que fez os quadros nas paredes tremerem.
O silêncio voltou a reinar no quarto, mas era um silêncio pesado, impregnado de culpa e desespero. Clara desabou em soluços, cobrindo o rosto com as mãos. O segredo que os unia agora era a fenda que ameaçava destruir tudo o que ela amava.
Adam voltou para a cama e envolveu Clara em seus braços, apertando-a com uma força quase dolorosa.
— Vai ficar tudo bem — ele sussurrou, embora sua própria voz estivesse instável. — Eu não vou deixar nada acontecer com você. Eu não vou deixar ela se afastar.
— Ela me odeia, Adam — soluçou Clara contra o peito dele. — Eu perdi minha melhor amiga. Eu sabia que isso ia acontecer. Eu sabia que eu ia estragar tudo.
— Você não estragou nada — disse Adam, segurando o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhá-lo. — O mundo agora sabe, Clara. Não há mais sombras. Não há mais Lady Elara, não há mais mentiras. Sou eu e você. E se o mundo inteiro, inclusive minha irmã, tiver que aprender a aceitar isso, eles vão. Porque eu não vou abrir mão de você. Nunca.
Clara olhou para ele, vendo a fúria e o amor lutando nos olhos do príncipe. Ela sabia que os dias seguintes seriam os mais difíceis de sua vida. O castelo em breve estaria fervilhando com a notícia, e o julgamento de Eternia seria implacável. Mas, enquanto Adam a segurava daquela maneira, com aquela possessividade que dizia que ele enfrentaria exércitos por ela, uma pequena parte de seu coração começou a acreditar que, talvez, ela não precisasse mais ter medo de sua própria sombra.
No entanto, o caminho para o perdão de Adora e a aceitação do reino estava apenas começando, e as feridas abertas naquela noite de lua cheia demorariam muito para cicatrizar. Adam beijou a testa de Clara, prometendo silenciosamente que, não importava o que viesse, ele seria o escudo que ela nunca teve, e ela seria a rainha que ele sempre escolhera, com ou sem coroa.