A gordinha e a entidade
O Sorriso de Sangue sob a Lua de Outubro
O ar de outubro em Orange County trazia consigo um frio cortante, mas Clara não o sentia. Ela estava envolta no calor do casaco de lã que Bill insistira que ela usasse, um item caro e macio que cheirava ao perfume amadeirado dele. Eles estavam em um festival de Halloween, um evento que Jocelyn a convencera a frequentar para "animar o espírito". Bill, embora detestasse multidões e a ideia de homens estranhos esbarrando em sua mulher, aceitara ir, agindo como o namorado perfeito e protetor.
— Você está tão linda, Clara — Bill murmurou ao pé do ouvido dela, sua mão possessiva espalmada na base das costas dela, guiando-a pela feira. — Mas eu preferia estar em casa, com você em meus braços, longe desses olhares.
Clara corou, sentindo aquele calor familiar subir pelo pescoço.
— É só uma noite, Bill. A Jocelyn precisava de apoio. O pai dela... as coisas não estão bem.
Bill apenas assentiu, seus olhos castanhos-avermelhados escaneando a multidão com uma frieza predatória que Clara interpretava apenas como cansaço. Ele a apertou um pouco mais contra si quando um grupo de adolescentes fantasiados passou correndo.
— Fique perto de mim — comandou ele, a voz baixa e vibrante. — Não saia do meu lado por nada.
Por volta das nove da noite, o caos começou de forma sutil. Jocelyn estava nervosa, mencionando que algo parecia errado, que sentia estar sendo observada. Bill, sentindo a "fome" crescer dentro de si — aquela entidade que clamava por sangue e espetáculo —, precisou se retirar.
— Amor, recebi um alerta da empresa. Preciso atender essa ligação no carro, é urgente — mentiu ele, beijando a testa de Clara com uma ternura que escondia o monstro fervilhante por baixo da pele. — Vá com a Jocelyn para a área das barracas de comida. Eu te encontro em dez minutos. Prometa que não vai se afastar dela.
— Prometo, Bill. Vá logo, não se preocupe comigo.
Assim que ele dobrou a esquina de um trailer, a transformação ocorreu. Não física, mas de alma. A postura de Bill mudou; ele se tornou fluido, sobrenaturalmente ágil. Em questão de segundos, o terno caro foi substituído pelo traje de bobo da corte em tons de laranja e preto, e a máscara de porcelana com o sorriso fixo e gélido cobriu seu rosto. O Jester estava livre.
Ele tinha um plano. Jocelyn precisava ser "ensinada". Emma, a irmã dela, estava envolvida. O Jester queria caos. Ele queria ver o medo florescer como uma flor noturna.
No meio do parque, a confusão estourou. Gritos ecoaram quando as luzes de um dos palcos piscaram e se apagaram. O Jester surgiu entre as sombras, movendo-se como uma marionete cujos fios eram puxados pelo próprio inferno. Ele brandia seu cetro, executando movimentos teatrais enquanto a multidão corria, pensando ser parte de uma performance macabra.
Jocelyn e Emma estavam encurraladas perto de uma estrutura de madeira. O Jester saltou sobre um caixote, rindo silenciosamente por trás da máscara. Ele adorava o terror nos olhos delas. Ele se preparou para um ataque, um movimento rápido para desarmar qualquer resistência e levar o pânico ao ápice.
Foi então que tudo deu errado.
Clara, que havia se perdido de Jocelyn na correria inicial, surgiu de trás de uma tenda, chamando desesperadamente pela amiga.
— Jocelyn! Emma! Onde vocês estão?
Ela tropeçou na escuridão, caindo exatamente no caminho que o Jester havia traçado para seu ataque.
O Jester já estava em movimento, uma lâmina oculta em sua mão, girando em um arco mortal destinado a assustar as irmãs. Ele não a viu. Não até que fosse tarde demais.
O impacto foi seco. A lateral da lâmina e o peso do corpo de Jester atingiram Clara com força total, arremessando-a contra o chão de cascalho. O braço dela se chocou contra a quina de uma caixa de metal, e um grito de dor pura rasgou o ar, silenciando por um segundo o burburinho do parque.
— Ah! Meu braço... Bill! Bill, me ajuda! — Clara soluçou, encolhida no chão, segurando o membro ferido que já começava a sangrar através do casaco caro.
Por trás da máscara de porcelana, o mundo de Bill parou.
O pulso do Jester, geralmente frio e compassado, disparou em um ritmo frenético de puro pânico humano. Seus olhos, escondidos pelos buracos negros da máscara, arregalaram-se. Cada fibra do seu ser espiritual gritou em agonia. Ele a tinha machucado. Sua divindade. Sua única razão de existir.
Ele deu um passo instintivo em direção a ela, as mãos enluvadas tremendo. Ele queria cair de joelhos, arrancar a máscara, implorar perdão e curar cada centímetro daquela pele que ele jurara proteger.
— Clara... — o nome morreu em sua garganta, transformando-se em um som gutural e abafado.
Ele não podia. Se ele se revelasse agora, o santuário que ele construíra para ela desabaria. Ela o veria como o monstro que ele era. O medo que ela sentia agora do "assassino mascarado" seria direcionado a ele, Bill. E isso ele não suportaria.
Jocelyn e Emma correram para o lado de Clara.
— Clara! Meu Deus, você está sangrando! — Jocelyn gritou, olhando para cima com ódio e terror para a figura do Jester. — Seu monstro! Saia de perto dela!
O Jester permaneceu estático, uma estátua de pesadelo sob a luz da lua. Por dentro, Bill estava em frangalhos. Ele via o sangue de Clara manchar o tecido do casaco que ele mesmo escolhera para ela. Ele via as lágrimas escorrendo pelo rosto redondo e doce que ele beijava todas as manhãs. A possessividade dele atingiu um nível febril; ele queria matar todos ali por terem permitido que ela se machucasse, e queria se destruir por ser o autor da dor dela.
Ele precisava disfarçar. Precisava manter o papel.
Com um esforço de vontade sobre-humano, o Jester inclinou a cabeça para o lado, imitando uma curiosidade mórbida, embora suas entranhas estivessem queimando em desespero. Ele soltou uma risada curta e estridente — um som mecânico e sem alma — e fez uma reverência exagerada para as três mulheres.
— Por favor... não me machuque... — Clara soluçou, olhando para a máscara.
Aquelas palavras foram como facas cravadas no coração de Bill. *Ela tem medo de mim*, ele pensou, a mente em espiral. *Minha Clara tem medo de mim.*
Ele girou o cetro com uma destreza fingida, embora seus dedos estivessem rígidos. Ele apontou para Clara e depois para a saída, um gesto que parecia uma ameaça teatral, mas que na verdade era um comando desesperado: *Vá embora. Saia daqui. Fique em segurança.*
— Vamos, Clara! Consegue levantar? — Emma ajudou Jocelyn a erguer a amiga.
Clara gemeu, o rosto pálido.
— Bill... onde está o Bill? Eu quero o Bill...
O Jester deu um passo à frente, e Jocelyn recuou, puxando Clara. Ele parou. O conflito interno era tão vasto que a própria entidade Jester parecia oscilar, a máscara vibrando levemente com a tensão acumulada. Ele queria pegá-la no colo e levá-la para o hospital mais caro do país, mas em vez disso, ele apenas observou, em um silêncio torturante, enquanto as três fugiam em direção à luz das viaturas de polícia que se aproximavam.
Assim que elas sumiram de vista, o Jester soltou um rugido abafado. Ele se virou para a caixa de madeira onde Clara havia se chocado e a golpeou com tamanha força que a madeira se transformou em lascas.
Ele precisava voltar a ser Bill. Agora.
***
Vinte minutos depois, na tenda médica improvisada na entrada do parque, Clara estava sentada em uma maca, o braço enfaixado e o rosto lavado de lágrimas. Jocelyn estava ao seu lado, tentando confortá-la, quando Bill apareceu, correndo, a respiração ofegante, o cabelo escuro desalinhado e uma expressão de puro terror que, desta vez, não era fingida.
— Clara! — Ele gritou, empurrando os paramédicos para o lado.
— Bill! — Ela se jogou contra ele, chorando copiosamente no seu peito. — Foi horrível... aquele homem... aquela coisa de máscara... ele me atingiu...
Bill a abraçou com uma força que quase a sufocou, enterrando o rosto em seu pescoço. Suas mãos percorriam o corpo dela, verificando o curativo no braço com uma urgência maníaca.
— Eu sinto muito, eu sinto muito, eu nunca deveria ter te deixado sozinha — ele sussurrava, a voz falhando. — Eu vou matar... eu vou cuidar disso. Você está bem? Diga-me que você está bem.
— Dói muito, Bill — ela soluçou, escondendo o rosto.
Bill olhou para o curativo e, por um breve momento, seus olhos brilharam com um vermelho tão intenso que Jocelyn, que observava de perto, deu um passo atrás, confusa. A aura dele não era de um namorado preocupado; era a de um predador que acabara de ver sua presa mais preciosa ser ferida.
— Ele não vai chegar perto de você nunca mais — Bill disse, a voz subitamente fria e cortante como gelo. — Eu prometo a você, Clara. Ninguém toca no que é meu e sai impune.
— Foi um acidente, Bill — Jocelyn interveio, a voz trêmula. — Ele estava atacando a gente, a Clara entrou na frente sem querer... ele parecia... ele parou por um segundo depois que ela caiu. Foi estranho.
Bill lançou a Jocelyn um olhar tão carregado de ódio e aviso que a garota emudeceu instantaneamente. Ele a culpava. Culpava Jocelyn por levar Clara ali. Culpava o mundo. Mas, acima de tudo, a entidade dentro dele estava sofrendo uma mutação.
Naquela noite, após levar Clara para casa e dar a ela sedativos para que pudesse dormir sem dor, Bill não se deitou ao seu lado imediatamente. Ele ficou de pé, na penumbra do quarto, observando a silhueta dela sob os lençóis.
Ele tocou o braço enfaixado dela com a ponta dos dedos, uma carícia tão leve que ela nem se moveu.
— Minha doce, doce Clara — ele sussurrou para a escuridão. — O monstro tentou proteger você do mundo, mas o monstro esqueceu que ele é a coisa mais perigosa aqui.
Ele se afastou da cama, caminhando até o grande espelho do quarto. Por um momento, ele não viu o homem bonito e rico de cabelos escuros. Ele viu o reflexo da máscara de porcelana, o sorriso pintado manchado com o sangue dela.
O Jester não estava apenas na cidade naquela noite. O Jester estava em guerra consigo mesmo. E quem quer que tivesse atravessado o caminho de Clara — os adolescentes do parque, os organizadores do festival, qualquer um que tivesse contribuído para que ela estivesse naquele lugar — pagaria o preço.
Porque se Bill não podia punir a si mesmo sem perder Clara, ele puniria o resto do mundo até que não sobrasse nada além deles dois.
Ele voltou para a cama, deslizando para baixo das cobertas e puxando o corpo macio de Clara para junto do seu. Ela suspirou durante o sono, buscando o calor dele.
— Eu te amo — ela murmurou, inconsciente.
— E eu vou destruir o mundo por você — ele respondeu, fechando os olhos enquanto a possessividade o consumia, transformando seu amor em algo ainda mais sombrio do que a morte.