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A Herege e a Ovelhinha

O Batismo de Fogo e o Calor da Carne

A tempestade lá fora parecia querer arrancar o telhado do Sleepy Hollow, mas dentro do quarto 104, o ar estava parado, carregado de um magnetismo que Gabriele nunca soube que era capaz de gerar. O beijo que começou como uma explosão de liberdade tinha se transformado em uma calmaria trêmula. Elas ainda estavam ali, enredadas nos lençóis ásperos que cheiravam a detergente barato, mas o silêncio agora não era mais de guerra; era de descoberta.

Conforme as horas avançavam, a temperatura caiu drasticamente. O aquecedor velho no canto do quarto soltava um estalo metálico ocasional, mas não produzia calor suficiente para combater a umidade que subia do chão. Gabriele, ainda vestida com seu linho azul agora amarrotado, começou a tremer. Não era apenas o frio da noite inglesa, era o tremor de quem tinha passado a vida inteira contida em uma redoma de vidro e, de repente, se via exposta ao relento.

Hylda sentiu a vibração no corpo da mulher mais jovem. Ela suspirou, um som profundo que parecia vir de algum lugar cansado, mas terno, dentro de seu peito. Sem pedir permissão, ela se moveu.

— Venha aqui, Gabi. Pare de lutar contra a termodinâmica. — Hylda puxou Gabriele gentilmente pelas costas, encaixando o corpo menor contra o seu.

Foi uma "conchinha" perfeita, embora Gabriele estivesse rígida como uma estátua de mármore no início. Hylda era quente, surpreendentemente quente. O calor emanava dela como se ela tivesse um motor interno que nunca desligava. O peito de Hylda pressionava as costas de Gabriele, e o braço tatuado da ex-professora rodeou a cintura da ex-noviça, trazendo-a para mais perto.

— Você está tremendo como uma folha de papel num ventilador — sussurrou Hylda perto do ouvido dela. — Relaxa. Eu não mordo... a menos que você peça com educação.

— Eu não estou acostumada com isso — Gabriele admitiu, a voz saindo pequena, quase um fio. — Com o frio. Com... você. Com tudo.

— O mundo é um lugar gelado, querida. Por isso as pessoas se amontoam. A igreja chama isso de comunhão, eu chamo de sobrevivência básica.

Gabriele sentiu o hálito de Hylda no seu pescoço. Não cheirava apenas a cigarro agora; havia um cheiro de pele, de vida real, algo que o incenso das missas matinais nunca conseguiu mascarar. Ela sentiu seus dedos ficando dormentes, as mãos pálidas e finas apertadas contra o próprio peito.

— Minhas mãos estão geladas — murmurou Gabriele, uma reclamação que era, na verdade, um convite implícito para mais contato.

Hylda soltou uma risadinha rouca, aquela vibração que Gabriele começava a achar perigosamente viciante.

— Sabe o que dizem, não é? Mãos frias, coração quente. Mas se você quer resolver o problema imediato... — Hylda pegou uma das mãos de Gabriele com a sua, que era maior e áspera de um jeito que parecia contar histórias de décadas de trabalho e rebeldia. — Eu posso esquentar sua mão no lugar mais quente do meu corpo.

Gabriele sentiu o sangue subir para as bochechas.

— Hylda! — O tom de repreensão estava lá, mas não tinha força.

— O que foi? Eu ia dizer debaixo da minha axila, sua mente poluída. Ou talvez na minha barriga. O que você achou que eu ia dizer? — Hylda provocou, apertando um pouco mais o abraço.

— Você é impossível. Uma mulher da sua idade... — Gabriele virou o rosto levemente, encontrando o olhar de Hylda na penumbra.

— Uma mulher da minha idade sabe exatamente o que quer e como conseguir. E sabe identificar quando alguém está morrendo de vontade de ser cuidada, mas tem orgulho demais para admitir.

Hylda deslizou a mão de Gabriele para dentro de sua própria regata, posicionando-a contra a pele da barriga. O calor foi imediato e chocante. Gabriele soltou um suspiro longo, fechando os olhos enquanto a circulação parecia retornar não apenas para seus dedos, mas para sua alma.

— Melhor? — perguntou Hylda.

— Sim — respondeu Gabriele, quase num sussurro. — Obrigada.

Ficaram em silêncio por alguns minutos, ouvindo a chuva. A tensão sexual, que antes era um campo de batalha, agora se transformava em algo mais denso, uma curiosidade física que Gabriele não conseguia mais reprimir. Ela se virou devagar nos braços de Hylda, ficando de frente para ela. O rosto de Hylda, marcado pelo tempo e pelas experiências, estava a centímetros do seu. As tatuagens nos braços da mulher mais velha pareciam desenhos sagrados e profanos sob a luz fraca que vinha do poste da rua.

Hylda estudou o rosto de Gabriele com uma intensidade que fez a jovem desviar o olhar.

— Você nunca fez isso, não é? — Hylda perguntou. Não era uma provocação agora. Era uma constatação suave, quase clínica.

Gabriele sentiu o nó na garganta. Ela pensou na Madre Mestra, nos olhares trocados sobre o saltério, nos toques acidentais durante a Eucaristia que a faziam perder o fôlego. Mas era tudo platônico, torturante e reprimido.

— Eu... eu fiz votos, Hylda. Eu vivi para o espírito.

— O espírito é ótimo, mas ele não tem terminações nervosas — Hylda acariciou a bochecha de Gabriele com o polegar. — Você está nervosa. Seu coração está batendo tão rápido que parece que vai furar o linho desse vestido caro.

— Eu não sei o que fazer — Gabriele confessou, as lágrimas de frustração e desejo começando a arder nos olhos. — Eu não sei como ser... isso. Eu não sei as regras.

Hylda sorriu, um sorriso que não tinha nada de cínico desta vez. Era o sorriso de uma professora que amava sua disciplina, ou de um "padre" que realmente entendia a confissão.

— Não existem regras, Gabi. Só existe o que você sente. E se você estiver com muito medo de liderar o caminho... — Hylda inclinou-se, roçando os lábios no nariz de Gabriele. — Você quer ser minha "pillow princess" esta noite?

Gabriele franziu a testa, a confusão nublando seus olhos castanhos.

— O que... o que é isso? Uma princesa de travesseiro?

Hylda soltou uma gargalhada baixa e deliciada, que ecoou pelo quarto pequeno.

— Oh, Deus, você é realmente um projeto em branco, não é? — Hylda explicou, a voz descendo uma oitava, tornando-se um sussurro aveludado. — Significa que você não precisa se preocupar com nada. Você só precisa deitar, relaxar e deixar que eu faça todo o trabalho. Você só recebe. Você é a realeza, e eu sou sua serva dedicada. O que me diz?

O coração de Gabriele deu um salto. A ideia de entregar o controle — algo que ela sempre segurou com unhas e dentes, seja através da disciplina religiosa ou da etiqueta social — era ao mesmo tempo aterrorizante e a coisa mais atraente que já ouvira.

— Eu... eu posso fazer isso? — Gabriele perguntou, a voz trêmula.

— Você pode fazer o que quiser. Aqui não tem Deus olhando por cima do ombro, lembra? Só eu. E eu prometo que sou uma juíza muito mais benevolente.

Hylda começou a desabotoar o vestido de Gabriele. Seus dedos eram ágeis, apesar da idade. Cada botão que se abria parecia uma barreira que caía entre o passado de Gabriele e o presente incerto. Quando o linho azul deslizou pelos ombros dela, revelando a pele pálida e a lingerie simples, quase monástica, Hylda parou por um segundo para admirar a visão.

— Você é uma obra de arte negligenciada, Gabriele — murmurou Hylda. — E é um pecado mortal ninguém ter te dito isso antes.

— Hylda, eu... — Gabriele tentou falar, mas as palavras se perderam quando Hylda começou a beijar a base de seu pescoço.

— Shhh. Sem palavras. Sem orações. Só sinta.

Hylda a guiou de volta para os travesseiros com uma delicadeza que contrastava com sua aparência bruta. A cama rangeu, mas nenhuma das duas se importou. Gabriele sentiu o peso do corpo de Hylda sobre o seu, um peso que não a sufocava, mas a ancorava.

Enquanto as mãos de Hylda exploravam o corpo de Gabriele, a ex-noviça sentiu uma onda de sensações que nunca soube que existiam. Era como se cada toque estivesse acendendo uma luz em um cômodo escuro de sua consciência. Ela estava nervosa, sim, suas mãos se fechando nos lençóis com força, mas o medo estava sendo rapidamente substituído por uma fome voraz.

— Respire, Gabi — comandou Hylda, a voz contra sua pele. — Siga o ritmo da minha mão.

Gabriele obedeceu. Ela fechou os olhos e, pela primeira vez na vida, parou de tentar analisar suas ações sob a ótica do pecado ou da virtude. Ela era apenas um corpo, um feixe de nervos e desejos, sendo despertada por uma mulher que tinha visto de tudo e que, por algum milagre, parecia querer ver tudo dela.

— Você é tão bonita quando para de pensar — disse Hylda, olhando para cima por um momento, observando o rosto de Gabriele iluminado pelo prazer e pela descoberta.

— Eu não consigo... parar de sentir — arquejou Gabriele, sua cabeça jogando-se para trás, expondo a linha longa de sua garganta.

— Ótimo. É para isso que servem os sentidos.

Hylda foi paciente. Ela conhecia o corpo feminino como um músico conhece seu instrumento mais amado; ela sabia onde pressionar, onde recuar, onde provocar com um toque leve como uma pluma. Ela tratou Gabriele com uma reverência que a jovem nunca encontrou no convento. Era uma forma diferente de sagrado — um sagrado que se manifestava no suor, nos gemidos abafados e na entrega total.

Quando o clímax finalmente atingiu Gabriele, foi como uma revelação divina, mas sem a distância do céu. Foi uma explosão de cores e calor que a deixou sem fôlego, o corpo arqueando-se contra o de Hylda enquanto o nome da outra mulher escapava de seus lábios como uma prece desesperada.

Depois, o silêncio que se seguiu foi o mais doce que Gabriele já experimentara. Ela estava deitada, o peito subindo e descendo rapidamente, enquanto Hylda se acomodava ao seu lado, puxando o cobertor para cobri-las novamente.

Hylda não disse nada de imediato. Ela apenas estendeu a mão e começou a acariciar o cabelo castanho de Gabriele, tirando as mechas suadas de sua testa.

— Então — disse Hylda finalmente, o tom divertido voltando aos poucos. — Ainda acha que o punk rock é a coisa mais barulhenta do mundo, ou eu ganhei o troféu?

Gabriele soltou uma risada fraca, escondendo o rosto no ombro de Hylda.

— Você é impossível, Hylda. Absolutamente impossível.

— Eu sei. É o meu maior charme.

Gabriele se aconchegou mais perto, sentindo o calor de Hylda agora misturado ao seu. O frio do quarto parecia ter desaparecido. Ela olhou para a mão de Hylda, para as tatuagens que antes a assustavam, e percebeu que aquelas marcas eram apenas o mapa de uma vida vivida sem medo.

— Hylda? — chamou Gabriele baixinho.

— Hum?

— Obrigada por... por ser minha serva dedicada.

Hylda deu um beijo no topo da cabeça de Gabriele.

— Não se acostume, princesa. Amanhã de manhã, você ainda vai ter que aguentar meu cigarro e minha playlist horrível no carro.

— Eu sei — sorriu Gabriele, fechando os olhos. — Mas acho que posso aprender a gostar de algumas músicas.

A chuva continuava a cair lá fora, mas dentro do quarto 104, o mundo parecia ter começado de novo. Gabriele adormeceu sentindo o cheiro de couro e tabaco de Hylda, e pela primeira vez em muito tempo, ela não teve sonhos com corredores frios ou votos de silêncio. Ela sonhou com a estrada, com o vento no rosto e com a promessa de que, mesmo depois do convento, ainda havia muito para ser descoberto. E que Hylda, com todas as suas falhas e provocações, era exatamente o guia pecaminoso de que ela precisava para encontrar sua própria redenção.