A homofobia nunca e o caminho
Gosto Amargo na Garganta
O grave dos paredões de som fazia o chão de terra batida da quadra tremer, reverberando direto nas costelas de quem tentava se manter de pé no meio da multidão. O cheiro de cerveja derramada, fumaça de prensado e suor impregnava o ar abafado da noite de sábado no morro. Luzes estroboscópicas azuis e vermelhas cortavam a escuridão, desenhando sombras frenéticas nas paredes descascadas dos becos.
Gabriel Santino estava encostado numa mureta perto do bar improvisado, com uma garrafa de uísque barato numa das mãos e um copo de plástico na outra. Alto, ombros largos e peito definido sob a camisa preta entreaberta que deixava à mostra as tatuagens que subiam pelo pescoço, ele vigiava o movimento com um sorriso cínico nos lábios. Ninguém passava por ali sem sentir a presença dele. Gabriel sabia disso e se alimentava desse medo misturado com desejo que costumava despertar. Quando uma garota qualquer passou rebolando e jogou um olhar por cima do ombro, ele apenas estalou a língua e desviou o rosto com desprezo escancarado. Para ele, nenhuma mulher ali merecia mais do que alguns minutos de atenção desinteressada antes de ser descartada.
A poucos metros dali, Felipe Menezes tentava demonstrar a mesma marra, embora sua estatura mais baixa e o rosto de traços quase delicados traíssem uma postura que ele forçava além da conta. Tinha o cabelo milimetricamente cortado na régua, corrente fina no pescoço e uma pose inflamada que tentava compensar cada centímetro que lhe faltava. Ele empurrou de lado uma garota que tentava puxar assunto, rindo para um grupo de conhecidos com arrogância barata.
— Sai do pé, ô comédia — Felipe falou alto o bastante para os amigos rirem, dispensando a menina como se ela fosse lixo jogado na calçada.
Gabriel observou a cena e soltou uma risada rouca, balançando a cabeça.
— Tá se achando o dono da boca, né, pivete? — Gabriel provocou, dando um passo à frente e parando diante dele com toda a sua envergadura. A diferença de altura era óbvia, mas Felipe ergueu o queixo, recusando-se a recuar um milímetro sequer.
— Não fode, Santino — Felipe retrucou, a voz já arrastada pelo excesso de energético com vodca que vinha engolindo desde as dez da noite. — Fica na tua que ninguém te chamou no papo.
— Tu não aguenta dois socos e quer cantar de galo pra cima de mim? — Gabriel deu mais um passo, invadindo o espaço de Felipe até que seus peitos quase se tocassem. O calor entre os dois parecia mais denso que o vapor da própria festa. — Bebe mais, mané. Daqui a pouco tá caindo de maduro na sarjeta.
— Vou cair é na tua cara, seu comédia — Felipe rebateu, mas seus olhos piscaram mais lentos, denunciando o torpor do álcool que já nublava seus reflexos.
Gabriel apenas sorriu de canto, um brilho estranho e faminto dançando no fundo de seus olhos escuros. Em vez de socar Felipe como faria com qualquer outro que falasse daquele jeito, ele estendeu o copo de uísque.
— Bebe aí, valentão. Quero ver tu descer essa porra toda de uma vez.
Felipe pegou o copo num impulso idiota de orgulho. Não aceitava desaforo, muito menos de um cara como Gabriel, que sempre parecia olhar para ele de cima a baixo com um ar de deboche insuportável. Ele virou o líquido escuro de garganta abaixo sem respirar. A queimação foi imediata, rasgando o esôfago e fazendo sua vista rodar em círculos coloridos.
Meia hora depois, a festa virou um borrão confuso de batidas ensurdecedoras e risadas distantes.
Felipe mal conseguia coordenar os passos. Quando tropeçou no primeiro degrau de um beco mais escuro, foi a mão pesada e áspera de Gabriel que o segurou pelo colarinho, evitando que ele batesse a cara no concreto sujo.
— Falei que tu não segurava a onda, porra — Gabriel sussurrou contra o ouvido dele, a voz baixa, quente, perigosamente próxima.
— Me larga... — Felipe murmurou, mas os joelhos cederam. Seu corpo parecia pesado como chumbo, a mente girando num vórtex onde a raiva e a fraqueza se misturavam de forma perigosa.
— Largar o caralho. Tu vai cair que nem merda no meio do beco e os caras vão rir da tua cara. Bora pro meu barraco.
A caminhada até a laje de Gabriel foi um labirinto de ruelas estreitas, com o braço de Felipe jogado sobre os ombros musculosos do outro. Gabriel o conduziu sem esforço, desfrutando da proximidade, sentindo a respiração entrecortada de Felipe batendo contra a pele suada do seu pescoço. Havia uma tensão estranha crescendo ali, algo proibido, sujo, que nenhum dos dois jamais admitiria em sã consciência. No vocabulário deles, homens como eles batiam em viado, humilhavam qualquer um que desviasse da norma e tratavam mulheres como troféus descartáveis. Aquilo não existia. Não podia existir.
Mas, assim que a porta de madeira do barraco de Gabriel bateu e a tranca correu, a atmosfera mudou drasticamente.
O quarto era abafado, iluminado apenas pela claridade alaranjada dos postes de luz que entrava pela janela sem cortina. O ventilador velho rodava barulhento num canto, cortando o ar sem refrescar nada.
Felipe cambaleou até a beira da cama de casal desarrumada e caiu sentado, passando as mãos pelo rosto em chamas.
— Que porra de calor... minha cabeça vai explodir — resmungou ele, arrastando as palavras, os olhos vermelhos e semicerrados.
Gabriel tirou a camisa preta com um puxão brusco, jogando-a no chão. O corpo forte, desenhado por cicatrizes e tinta preta, brilhava de suor. Ele se aproximou da cama e parou diante de Felipe, com os punhos na cintura, encarando o rosto bonito e avermelhado do rapaz com uma fixação doentia.
— Levanta daí, ô arrombado. Já tá dando vexame — Gabriel falou, a voz rouca, áspera.
Felipe ergueu a cabeça para xingar, pronto para disparar mais uma rajada de ódio gratuito, mas as palavras travaram na garganta. Ele viu a postura imponente de Gabriel, a respiração pesada do homem a poucos palmares de distância, e uma onda súbita de confusão misturada com torpor subiu dos seus membros para o estômago.
— Vai se foder, Gabriel...
— Cala essa boca — Gabriel rosnou, dando um passo e prensando a perna entre as coxas de Felipe.
O que começou como uma disputa de poder, um empurrão mal dado de Felipe tentando afastar o outro, transformou-se instantaneamente em um choque elétrico. Gabriel agarrou Felipe pelos cabelos na nuca, puxando sua cabeça para trás sem delicadeza alguma, expondo o pescoço dele. A dor aguda fez Felipe arfar, mas quando os olhares se cruzaram, o ódio que ambos cultivavam encontrou outra válvula de escape.
Gabriel não pensou nas merdas que falava na rua, nem nos preconceitos que vomitava diariamente para manter sua fama de sujeito temido. Ele simplesmente colou sua boca na de Felipe num beijo violento, quase desesperado, que cheirava a álcool, suor e fumaça.
Felipe tentou empurrar, bateu as mãos espalmadas contra o peito rígido de Gabriel, mas a resistência foi derretendo sob o peso esmagador da luxúria misturada com a bebedeira. O beijo não tinha ternura; era uma briga de línguas, dentes batendo e saliva quente. Um som abafado escapou da garganta de Felipe, e em vez de recuar, ele se viu segurando os braços tatuados do homem mais alto, puxando-o para mais perto.
— Tu fala demais, Menezes... — Gabriel arfou entre os lábios dele, descendo uma das mãos ásperas para a cintura de Felipe, puxando-o com força até que os corpos estivessem completamente colados. — Agora mostra se tu é homem mesmo.
As mãos de Gabriel foram rápidas, desabotoando a calça jeans surrada enquanto mantinha Felipe dominado. O ambiente ferveu de uma vez só. Felipe, com os sentidos completamente embotados pela quantidade cavalar de bebida, sentiu a pressão da mão de Gabriel em seu ombro, forçando-o para baixo.
Deveria ter sido o momento de socar a cara de Gabriel, de quebrar uma garrafa na cabeça dele, de fugir gritando ofensas. Mas o corpo não obedeceu à moral podre que Felipe carregava. Num transe pesado, Felipe escorregou da borda da cama até o chão de cimento batido, caindo de joelhos entre as pernas abertas de Gabriel.
O ar sumiu do quarto.
Gabriel segurou os cabelos de Felipe novamente, não para machucar, mas para guiar, com o olhar cravado no topo da cabeça do rapaz.
— Abre a porra da boca — Gabriel mandou, a respiração entrecortada, os músculos do abdômen retesados.
Felipe olhou para cima. Seus olhos castanhos estavam vidrados, o rosto delicado corado de vergonha e tesão incontrolável. Ele abriu os lábios devagar, engolindo em seco antes de se inclinar para a frente.
Quando a boca quente e úmida de Felipe o envolveu, um gemido rouco e gutural rasgou o peito de Gabriel. O homem alto fechou os olhos com força, afundando os dedos grossos nos fios de cabelo de Felipe, puxando-o com mais força contra si. A sensação era avassaladora, uma humilhação consentida que fazia o sangue de Gabriel ferver de um jeito que mulher nenhuma no morro jamais tinha conseguido provocar. Ele empurrava o quadril em movimentos curtos e urgentes, sentindo a língua de Felipe trabalhar com uma sofreguidão que contradizia qualquer fachada de homofobia que o moleque carregava.
Felipe engasgava de leve, as lágrimas brotando nos cantos dos olhos pelo reflexo e pela queimação, mas não parou. Ele estava submisso ali, no chão sujo, servindo ao cara que jurava odiar, chupando com um desespero que parecia querer arrancar a própria alma para fora do peito. A sensação de preenchimento, o gosto salgado de pele e a força com que Gabriel o segurava criavam um turbilhão insano que desarmava qualquer tentativa de sanidade.
A intensidade não parou por ali. Gabriel não se contentou. Com um puxão bruto, ele levantou Felipe do chão como se o outro pesasse nada, jogando-o de bruços sobre o colchão fino.
O sexo que se seguiu foi cru, ríspido, sem qualquer preliminar suave. A cama estalava contra a parede de alvenaria a cada estocada violenta. Felipe cravava os dedos no lençol encardido, mordendo o tecido para abafar os gemidos altos que insistiam em escapar da sua boca, enquanto as costas ardiam sob os toques pesados e os beijos mordidos que Gabriel deixava na sua pele.
Gabriel estava alucinado. O calor daquele corpo menor, o aperto insano e a entrega desgovernada de Felipe destruíam cada barreira de arrogância em sua mente. Ele gozou com um rugido abafado contra as costas suadas de Felipe, sentindo uma satisfação que o atingiu como um tiro no meio do peito. Ele não apenas gostou; ele amou cada segundo daquela perversão. Ficou fascinado pelo jeito como o garoto marrento tremia debaixo do seu peso.
O silêncio caiu no quarto como uma laje de concreto.
As horas passaram arrastadas, sufocantes. A madrugada foi dando lugar aos primeiros raios de sol acinzentados que cortavam as telhas de amianto.
Gabriel já estava acordado há muito tempo. Estava sentado na beira da cama, vestindo apenas uma bermuda folgada, com um cigarro aceso entre os dedos. A cinza caía no chão enquanto ele olhava para o lado, observando Felipe deitado de costas, respirando fundo, ainda mergulhado no sono pesado da ressaca. Gabriel sentia um formigamento constante nas pontas dos dedos, uma vontade perturbadora de esticar o braço e tocar a pele do garoto outra vez. Por dentro, estava em polvorosa. Tinha sido a melhor foda da sua vida. Jamais admitiria aquilo em voz alta para homem nenhum no morro, mas a memória da noite fazia seu sangue queimar novamente. Queria mais. Queria que aquilo se repetisse.
De repente, Felipe se mexeu.
Um gemido rouco escapou de sua garganta seca. A cabeça latejava com uma violência brutal, como se alguém estivesse batendo com um martelo em suas têmporas. Ele levou as mãos aos olhos, tentando afastar a claridade irritante da manhã, sentindo o corpo moído, as articulações doloridas e um desconforto nítido entre as pernas.
Ele piscou, tentando reconhecer o teto manchado de umidade. Não era o seu quarto.
Quando virou a cabeça para o lado e viu Gabriel sentado ali, encarando-o com um meio sorriso indecifrável, o cérebro de Felipe travou por um segundo.
— Acordou, bela adormecida? — Gabriel soltou a fumaça pelo nariz, a voz rouca e calma.
O estômago de Felipe deu uma volta completa.
As memórias da noite anterior não voltaram aos poucos; elas caíram sobre sua consciência como uma avalanche devastadora. O beco. O barraco. A boca de Gabriel colada na sua. As mãos na sua nuca. O chão frio. Ele de joelhos. O gosto... meu Deus, o gosto.
Ele tinha engolido o pau de Gabriel. Tinha gemido como uma vadia na cama dele. Tinha se deixado foder até perder as forças.
Um arrepio gélido e nauseante percorreu a espinha de Felipe. O sangue fugiu de seu rosto, deixando-o completamente pálido.
— Que... que porra foi essa? — Felipe sussurrou, a voz falhando, as mãos tremendo tanto que mal conseguiu se apoiar para sentar na cama.
Gabriel arqueou uma sobrancelha, mantendo a pose inabalável.
— O que foi o quê, ô comédia? Tu bebeu até o cu fazer bico e nós resolveu a nossa parada. Tá surpreso por quê?
A palavra atingiu Felipe como um tapa na cara. Ele pulou para fora da cama em desespero puro, tropeçando nos próprios pés antes de alcançar a calça jeans jogada no chão. A vergonha e a aversão subiram em sua garganta como bile quente.
— Eu não fiz isso... não, não, não! — Felipe começou a falar alto, a voz esganiçada pelo pânico, cuspindo repetidamente no chão enquanto vestia a roupa com pressa frenética. — Eu não sou viado, caralho! Tu me drogou, porra?! Que merda tu botou no meu copo?!
Gabriel apagou o cigarro na parede com calma, levantando-se devagar. A atitude do garoto o irritou, mas ele disfarçou o choque com a costumeira frieza arrogante.
— Te droguei o caralho, tu tomou porque quis e veio pro meu barraco porque quis — Gabriel retrucou, dando um passo em direção a ele. — Tu chupou meu pau porque tava doido pra isso, Felipe. Não vem pagar de louco agora não.
— Cala essa boca podre, seu desgraçado! — Felipe gritou, as lágrimas de puro ódio e repulsa queimando em seus olhos. Ele levou a mão à boca, esfregando os lábios com as costas da mão com tanta força que a pele ardeu em carne viva. Ele sentia como se nunca mais fosse conseguir tirar o gosto de Gabriel da boca. Era um veneno. Uma mancha imunda na sua dignidade. — Eu odeio viado! Eu nunca faria essa nojeira! Isso não aconteceu!
— Aconteceu sim, seu cuzão — Gabriel avançou, encurralando Felipe contra a parede de alvenaria, o peito nu quase encostando no garoto trêmulo. Gabriel tentava manter a postura dura de favela, mas havia uma faísca perigosa e magoada no fundo de sua arrogância. — E tu adorou. Tava babando no meu pau, então para de latir antes que eu perca a paciência e te quebre aqui dentro.
Felipe olhou para Gabriel com uma expressão de nojo tão profundo, tão visceral, que o homem alto estremeceu imperceptivelmente por dentro. Era o ódio puro de quem preferia a morte a encarar o que tinha feito.
— Se tu abrir essa boca de bosta pra falar disso pra qualquer um no morro... se tu sequer olhar na minha cara... eu juro que te mato, Gabriel. Eu te mato — Felipe cuspiu as palavras, a voz engasgada pelo nojo.
— Vai embora logo daqui antes que eu me arrependa de não ter te largado na sarjeta — Gabriel respondeu, dando um passo para trás com o maxilar travado, fechando as mãos em punhos para não demonstrar o quanto aquela rejeição histérica o estava atingindo.
Felipe não esperou um segundo convite. Ele abriu a tranca da porta com mãos trêmulas e disparou para fora do barraco, correndo pelo beco como se o próprio diabo estivesse em seu encalço.
No meio do caminho deserto, sob a luz cinzenta da manhã, Felipe parou encostado num poste, curvou-se para a frente e vomitou violentamente na sarjeta, esvaziando o estômago até só sobrar bile e lágrimas. Ele esfregava a língua nos dentes, desesperado, tentando arrancar dali a lembrança do calor de Gabriel, praguejando em silêncio contra a própria existência.
Lá em cima, na laje, Gabriel continuou de pé perto da janela, observando o vulto de Felipe sumir pelas vielas. Ele levou dois dedos aos lábios, sentindo o fantasma daquele contato ainda impregnado em sua pele. Gabriel puxou o ar com força, um sorriso sombrio e frustrado surgindo nos cantos da boca. Ele podia odiar todo mundo, podia fingir que era o sujeito mais frio daquela favela, mas sabia perfeitamente que aquela história estava longe de terminar.