A juventude
O Evangelho Segundo a Rocha e a Redenção das Línguas Sujas
A manhã seguinte ao fatídico jantar dos Hashiras não nasceu com o brilho dourado habitual; para Sanemi Shinazugawa e Obanai Iguro, o sol parecia uma imensa e acusadora lanterna apontada diretamente para suas falhas morais. O veredito de Oyakata-sama fora selado com a suavidade de uma pétala, mas a execução estava nas mãos de Gyomei Himejima, o que equivalia a ser julgado por uma montanha com sentimentos.
No pátio central da Mansão da Rocha, o silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico das contas do rosário de Gyomei e pelos suspiros pesados de Obanai. Sanemi, por outro lado, parecia uma caldeira prestes a explodir.
— Eu ainda não entendi por que eu tenho que estar aqui — resmungou Obanai, ajustando a máscara com dedos nervosos. Kaburamaru, em seu pescoço, parecia igualmente desanimado, com a língua bifurcada saindo em um ritmo lento. — Eu mal abro a boca. Minha comunicação é noventa por cento olhar de desprezo e dez por cento sarcasmo. Onde entra o baixo calão nisso?
— Silêncio, Iguro-san — retrucou Gyomei, sua voz profunda vibrando no peito dos dois homens. Lágrimas já começavam a rolar por suas bochechas. — A omissão é uma forma de conivência. Você permitiu que o jovem Tokito-kun fosse exposto ao veneno verbal de Shinazugawa-san sem intervir. Vossas almas precisam de uma purificação rigorosa.
Sanemi soltou um som que era metade rosnado, metade escárnio.
— Purificação? Himejima, nós matamos demônios! O sangue deles espirra na nossa cara todo santo dia! Você acha que um "caralho" aqui e ali vai estragar o moleque? Ele corta cabeças com a mesma facilidade com que esquece o que comeu no café da manhã!
Gyomei uniu as mãos em prece, e a pressão atmosférica ao redor deles pareceu aumentar dez vezes.
— A pureza do espírito não se mede pela lâmina, mas pelo verbo, Shinazugawa-san. Tokito-kun é uma criança de quinze anos cuja mente é como um lago plácido. Você jogou pedras imundas nesse lago. Hoje, vocês dois aprenderão a cultivar a mansidão.
Enquanto isso, a poucos metros dali, sentado em cima de uma pedra lisa, Muichiro Tokito observava a cena com a intensidade de quem estuda a migração das formigas. Ele segurava um pequeno bloco de notas que Tanjiro lhe dera naquela manhã, com a instrução de "anotar apenas palavras bonitas".
— "Mansidão" — murmurou Muichiro, escrevendo a palavra com uma caligrafia surpreendentemente elegante. — Isso é um tipo de doce ou um golpe de espada?
— É uma virtude, Tokito-kun! — exclamou uma voz vibrante.
Kyojuro Rengoku surgiu do nada, como se tivesse sido conjurado pelo próprio entusiasmo. Ao seu lado, Uzui Tengen exibia um sorriso que brilhava mais que as joias em sua testa.
— Uma virtude extravagante! — completou Uzui, cruzando os braços. — Viemos assistir ao espetáculo. Ver o Shinazugawa tentando ser "manso" é um evento que acontece uma vez a cada milênio. É artisticamente hilário!
— De fato! — Rengoku riu, as chamas em seus olhos parecendo dançar. — A disciplina de Himejima-san é lendária! Gostoso!
Sanemi lançou um olhar assassino para os dois espectadores, mas antes que pudesse proferir qualquer uma de suas saudações coloridas, Gyomei pigarreou.
— Primeira tarefa — anunciou o Pilar da Rocha. — Vocês irão cuidar das crianças do orfanato vizinho durante a tarde. Mas há uma regra: para cada palavra ríspida, impaciente ou inadequada, vocês deverão recitar dez sutras enquanto carregam uma rocha de cinquenta quilos.
— Você está brincando — disse Obanai, a voz falhando levemente.
— Eu nunca brinco com a salvação de vossas almas — respondeu Gyomei, com uma seriedade mortal.
O grupo se deslocou para o jardim do orfanato, onde cerca de vinte crianças corriam freneticamente. Muichiro seguia o grupo como um pequeno patinho, ainda com seu caderninho em mãos. Shinobu Kocho já estava lá, ajudando a organizar as atividades, mantendo aquele sorriso que fazia Sanemi sentir calafrios.
— Ora, se não são os nossos novos monitores — disse Shinobu, a voz doce como mel envenenado. — Shinazugawa-san, por favor, tente não assustar as crianças com essa expressão de quem quer mastigar pregos. E Iguro-san, tente ser... acessível.
— Acessível? — Obanai recuou um passo quando uma criança de cinco anos se agarrou à sua perna. — Tem um humano minúsculo encostando em mim. Kaburamaru, faça alguma coisa.
A serpente apenas se encolheu, fingindo-se de morta.
Sanemi foi cercado por três meninos que queriam ver suas cicatrizes.
— Ei, tio! — gritou um dos meninos. — Como você conseguiu esses cortes? Foi um gato gigante?
Sanemi sentiu a veia na têmpora pulsar. Ele respirou fundo, lembrando-se da rocha de cinquenta quilos.
— Não, pirralho... quer dizer... jovem mancebo — a palavra soou estranha em sua boca, como se ele estivesse mastigando areia. — Foram... ossos do ofício. Coisas da vida. Agora saiam de perto antes que eu...
Ele parou. Gyomei estava logo atrás dele, a mão gigante pairando sobre seu ombro.
— Antes que eu... os convide para uma rodada de brincadeiras saudáveis — finalizou Sanemi, as palavras saindo espremidas entre dentes cerrados.
Muichiro, sentado na grama, anotou: "Mancebo. Sanemi-san parece estar com dor de barriga."
A tarde progrediu de forma caótica. Uzui e Rengoku sentaram-se em um banco próximo, comendo batatas doces e comentando a performance dos colegas como se fosse uma peça de teatro kabuki.
— Olhe aquilo, Rengoku! — apontou Uzui, quase engasgando de rir. — O Iguro está tentando fazer uma escultura de areia para aquela menina, mas parece que ele está construindo um sarcófago! Que falta de brilho!
— Ele está se esforçando! — rebateu Rengoku, genuinamente admirado. — Veja como ele evita usar sarcasmo! Ele acabou de dizer "por gentileza" para o menino que chutou sua canela! Isso é coragem!
De repente, o desastre espreitou novamente. Muichiro, que até então estava quieto, decidiu que queria ajudar Sanemi a organizar os brinquedos. Ao levantar uma caixa pesada, um dos carrinhos de madeira caiu e bateu diretamente no dedão do pé do jovem Pilar da Névoa.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Todos os Hashiras pararam. As crianças pararam. Até o vento pareceu segurar o fôlego.
Muichiro olhou para o pé. Olhou para Sanemi. Olhou para o caderninho.
— Oh — disse Muichiro, com uma calma transcendental. — Que situação deveras... caralhenta.
Gyomei soltou um lamento que mais parecia um rugido de dor.
— NÃO! — gritou o Pilar da Rocha, caindo de joelhos. — O veneno criou raízes! Ele está inventando variações!
Sanemi entrou em pânico.
— Eu não disse isso! Eu nunca usei essa palavra como adjetivo! Ele está inovando por conta própria!
— Shinazugawa! — Shinobu apareceu ao lado dele, as mãos na cintura. — Você corrompeu a gramática do menino!
— Por que a culpa é sempre minha?! — berrou Sanemi, esquecendo-se da mansidão. — O Iguro estava lá também! Ele... ele... ele disse que a sopa estava uma porcaria na semana passada!
— Eu disse que estava insossa! — defendeu-se Obanai, indignado. — Há uma diferença semântica enorme, seu energúmeno!
— "Energúmeno" — Muichiro anotou rapidamente. — Essa é boa. Soa como um tipo de inseto.
Mitsuri Kanroji chegou naquele momento, trazendo uma cesta de pães doces. Ao ver a cena — Gyomei em prantos, Sanemi e Obanai discutindo aos berros, e Muichiro anotando insultos arcaicos no caderno —, ela deixou a cesta cair.
— Oh, não! — Mitsuri levou as mãos ao rosto, as bochechas coradas. — Muichiro-kun, você não pode usar essas palavras! Elas fazem o coração das pessoas ficar murcho como um espinafre velho!
Muichiro olhou para Mitsuri, a expressão vacilante pela primeira vez.
— Murcho? Eu não gosto de espinafre.
— Então — disse Mitsuri, aproximando-se e segurando as mãos dele —, prometa que vai usar apenas palavras que tragam alegria. Como "doce", "brilho" ou "amizade".
Muichiro considerou a proposta. Ele olhou para Sanemi, que agora estava sendo forçado por Gyomei a carregar a rocha de cinquenta quilos enquanto recitava sutras sobre paciência. Olhou para Obanai, que estava sendo obrigado a ajudar as crianças a colher flores para um arranjo de "paz e harmonia".
— Está bem — concordou Muichiro. — Vou tentar.
Dez minutos depois, Tanjiro, Zenitsu e Inosuke apareceram para ver como as coisas estavam. Inosuke, claro, não perdeu tempo.
— Ei, Tokito! — gritou o rapaz da máscara de javali. — Vamos lutar! Deixe de ser um molenga e venha sentir o poder do Lorde Inosuke!
Muichiro olhou para Inosuke. Lembrou-se do pedido de Mitsuri. Lembrou-se das lições de Sanemi. Ele buscou no fundo de sua mente a palavra mais "extravagante" e "positiva" que pudesse usar para descrever a situação.
— Inosuke-kun — disse Muichiro, com um sorriso angelical que assustou até o Zenitsu. — Sua presença é uma... exuberante explosão de purpurina espiritual. Mas, no momento, estou ocupado contemplando a doçura intrínseca desta margarida. Por favor, vá catar coquinhos com alegria.
Inosuke travou. Zenitsu caiu no chão.
— O que você fez com ele?! — berrou Zenitsu, apontando para Muichiro. — Ele está falando como se tivesse sido possuído pelo espírito de um poeta bêbado!
— Ele está sendo manso — explicou Tanjiro, embora estivesse visivelmente confuso. — Eu acho.
Sanemi, passando ao fundo com a rocha colossal nas costas e o suor escorrendo pelas cicatrizes, parou por um segundo.
— Isso soou pior do que o palavrão — resmungou o Pilar do Vento. — Ele soa como se estivesse me insultando com elegância.
— É o progresso, Shinazugawa-san — disse Gyomei, enxugando as lágrimas. — Pelo menos a estrutura gramatical é louvável. Continue carregando a rocha. Faltam duzentos sutras.
— Eu vou matar esse moleque — murmurou Obanai, enquanto uma criança colocava uma coroa de flores em sua cabeça, por cima das bandagens. — Assim que eu terminar este... "adorável" arranjo floral.
A tarde terminou com um pôr do sol magnífico, pintando o céu de tons que Muichiro descreveu em seu caderno como "uma mistura de pêssego maduro e a bochecha da Kanroji-san quando ela vê um gato".
Oyakata-sama, informado por Shinobu sobre o progresso do dia, apenas sorriu em seus aposentos. Ele sabia que, apesar do caos, os laços entre seus Hashiras eram testados e fortalecidos das formas mais inusitadas.
Naquela noite, durante o chá, o silêncio reinava. Sanemi e Obanai estavam exaustos demais para falar qualquer coisa, muito menos um palavrão. Gyomei parecia em paz.
Muichiro quebrou o silêncio, olhando para uma pequena traça que voava ao redor da lanterna.
— Sabem — começou o jovem da Névoa —, eu aprendi algo hoje.
Todos olharam para ele, temendo o que viria a seguir.
— Palavras são como nuvens — continuou Muichiro. — Algumas são leves e brancas, outras são pesadas e trazem chuva. Mas, no fim, todas elas passam. O que fica é o céu.
Houve um momento de profunda reflexão. Até Sanemi pareceu tocado pela sabedoria inesperada do rapaz.
— Isso foi... profundo, Tokito — admitiu Uzui, impressionado.
— Sim — concordou Muichiro. — Por isso, decidi que, em vez de falar "caralho", vou falar "nuvem de tempestade".
— Como assim? — perguntou Obanai.
Muichiro olhou para Sanemi.
— Shinazugawa-san, sua cara está uma verdadeira nuvem de tempestade hoje.
Sanemi apertou a xícara de chá até que ela trincasse.
— É um progresso — suspirou Gyomei, unindo as mãos. — Namu Amida Butsu.
E assim, a Mansão da Rocha encontrou uma paz frágil, enquanto Muichiro Tokito continuava a sua jornada, flutuando entre a inocência absoluta e a capacidade única de deixar os guerreiros mais poderosos do Japão à beira de um colapso nervoso, tudo com a suavidade de uma brisa de verão.