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A Luz e o Sol

O Brilho da Aurora e o Eco do Rei

A noite sobre o Thousand Sunny era um manto de veludo pontilhado por diamantes distantes. O balanço do navio era quase imperceptível, um ninar suave que parecia acompanhar o ritmo da respiração do oceano. No convés de grama, o silêncio era a música principal, interrompido apenas pelo estalar ocasional da madeira e pelo som do vento nas velas.

Luffy e Shary estavam deitados lado a lado. Para quem olhasse de longe, pareciam apenas dois companheiros descansando, mas a eletricidade entre eles era palpável. Shary, com seu inseparável caderno de desenhos apoiado ao lado, apontou para o alto com um dedo delicado.

— Olha, Luffy... aquela ali é a constelação da Lira — sussurrou ela, os olhos castanhos-avermelhados brilhando com o reflexo das estrelas. — Dizem que ela guia os corações que buscam harmonia.

Luffy inclinou a cabeça, os olhos semicerrados enquanto tentava conectar os pontos brilhantes no céu. Para ele, tudo parecia apenas um monte de luzes aleatórias, mas ele não desviava o olhar.

— Não estou vendo harpa nenhuma, Shary — admitiu ele com sua honestidade costumeira. — Mas se você diz que está lá, então está.

Ele não entendia de astronomia, mas entendia o brilho no rosto dela. Luffy sentou-se devagar, apoiando o peso em um dos braços enquanto segurava um copo de suco esquecido. Shary continuou deitada, observando o perfil do homem que agora era seu marido por juramento. O vento brincou com o lenço branco em seu cabelo azul-escuro, fazendo-o dançar como as fitas de energia que ela emanava em batalha.

A lua, em seu ápice, banhava Shary em uma luz prateada, tornando-a quase etérea, uma verdadeira manifestação da aurora. Atrás de Luffy, a posição do astro criava um halo vibrante, uma silhueta que, por um breve segundo, evocava a lendária figura do Deus Sol, o libertador. Eles se olharam. O sorriso de Luffy foi de encontro ao dela, um entendimento mudo que valia mais que qualquer tesouro no Grand Line.

Eles se aproximaram. O espaço entre seus rostos diminuiu até que pudessem sentir o calor da respiração um do outro. O cheiro de lavanda e papel dela misturava-se ao aroma de mar e aventura dele. Mas, no exato momento em que seus lábios estavam prestes a se selar, a voz estridente de Usopp ecoou pelos alto-falantes do navio, vinda do ninho do corvo.

— TERRA À VISTA! UMA ILHA DOURADA À FRENTE! ACORDEM, PESSOAL!

O encanto foi quebrado com um sobressalto. Luffy riu, coçando a nuca, enquanto Shary sentia o rosto arder de timidez, ajeitando rapidamente o lenço no cabelo. Em poucos minutos, o convés estava cheio. O bando se amontoava na amurada para ver a nova ilha que surgia no horizonte. Era magnífica. Sob a luz do amanhecer, a terra parecia feita de ouro puro, mas, ao se aproximarem, perceberam que o brilho vinha de campos infinitos de girassóis que cobriam cada centímetro de planície.

Assim que ancoraram, Shary foi a primeira a descer. Seus pés mal tocaram a areia e ela já estava cercada. As crianças da vila local, atraídas pela beleza exótica da mulher de cabelos azuis, correram em sua direção. Shary, com sua espontaneidade gentil, ajoelhou-se na altura deles, rindo enquanto permitia que pequenas mãos tocassem seus cabelos.

— Olhem! Ela tem luz nas mãos! — gritou um menino, enquanto Shary criava pequenas esferas de energia aurora que flutuavam como vaga-lumes coloridos ao redor das crianças.

Luffy observava a cena de longe, com os braços cruzados e um sorriso largo. Ele usava uma coroa de girassóis que as crianças haviam feito para ele, e Shary tinha uma idêntica.

— Ela leva jeito — comentou Robin, aproximando-se com um livro sob o braço. — Shary seria uma mãe maravilhosa, não acha, capitão?

— Sim! — respondeu Luffy sem hesitar. — Ela brilha mais quando está com eles.

Nami, que passava carregando um mapa, soltou uma risada lateral.

— Ela seria uma ótima mãe, mas ainda precisa que eu a ajude a tirar as manchas de grama do vestido e a desembaraçar o cabelo depois de brincar. Teríamos muito trabalho no navio com mais um "Luffy" correndo por aí.

Mais tarde, Shary retirou-se para a biblioteca do Sunny. O lugar era seu refúgio, onde ela e Robin compartilhavam silêncios confortáveis. Ela estava focada em seu grande projeto: o livro que conteria todos os segredos do mundo e as crônicas dos Chapéus de Palha. Mas, naquele dia, sua caneta parou. Ela mudou de caderno, abrindo um de esboços, e começou a desenhar as crianças que conhecera na ilha.

Um sentimento novo e profundo apertou seu peito. Era um desejo de pertencimento que ia além do bando. Ela queria alguém para zelar, alguém que fosse o fruto daquele juramento que fizera com Luffy.

— O que você está desenhando? — A voz de Luffy soou perto de seu ouvido enquanto ele a abraçava por trás, envolvendo-a em um abraço protetor.

— Só pensando... — disse ela, encostando a cabeça no ombro dele. — Luffy, eu quero que você realize seu sonho primeiro. Quero que seja o Rei dos Piratas. Só então eu me sentirei uma Rainha de verdade para ter... nossa própria família.

Luffy apertou o abraço, sentindo o cheiro de lavanda que tanto amava.

— Eu não me importo com o tempo, Shary. Se for agora ou depois, eu só quero que você continue sorrindo desse jeito. Mas eu vou ser o Rei, e você vai ser a Rainha mais incrível de todas.

O jantar naquela noite foi uma algazarra, como de costume. Sanji servia pratos decorados com pétalas de girassol comestíveis, e a conversa fluía solta. Luffy, entre uma mordida gigantesca de carne e outra, olhou para o bando com sua expressão mais séria e direta.

— Ei, como é que se faz crianças mesmo?

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Brook engasgou com o chá, Sanji deixou cair uma bandeja de prata, e Usopp quase caiu da cadeira. Franky soltou um "SUPER" de puro choque, enquanto Nami escondia o rosto nas mãos, bufando de vergonha.

— Luffy! Não se pergunta isso na mesa! — gritou a navegadora, o rosto vermelho.

— O que foi? — perguntou ele, genuinamente confuso. — A Shary e eu queremos saber para quando chegar a hora.

Zoro soltou uma risada seca, achando graça da situação, enquanto Robin, com um sorriso enigmático, começou a explicar de forma biológica e poética, sendo interrompida por Shary, que estava mais vermelha que o navio.

— Luffy, eu já te expliquei que... bem, é o que fazemos quando estamos sozinhos, mas... — Ela tentou completar, mas as brincadeiras de Franky e as piadas de Brook sobre "não ter pele para sentir calor" interromperam o momento formal.

Após o jantar, o clima no navio mudou. Shary foi para o banho, tentando acalmar o coração acelerado. A água quente relaxava seus músculos flexíveis, herança dos anos de treinamento acrobático com os sacerdotes. No entanto, ela não estava sozinha por muito tempo. Luffy, movido por uma curiosidade agora direcionada e carregada de desejo, apareceu na porta.

— Shary? Você disse que era o que fazíamos... eu quero aprender direito.

Não houve hesitação. Naquela noite, dentro do quarto que Frank fora especialmente projetado para o casal — com isolamento acústico e reforços que o carpinteiro garantira serem "à prova de qualquer tempestade" —, o conhecimento tornou-se íntimo.

As palavras de carinho eram sussurradas entre beijos. Luffy era gentil, mas sua natureza intensa transparecia em cada toque. Shary, que passara a vida sendo tratada como uma ferramenta fria pela Marinha, florescia sob o calor dele. Sua energia aurora escapava em ondas suaves, iluminando o quarto com tons de violeta e azul enquanto ela se entregava completamente.

— Eu vou cuidar de você — dizia ele, a voz rouca, enquanto seus corpos se tornavam um só. — Vou garantir que você tenha tudo o que quiser.

A libido despertada pelo casamento e pela segurança de estarem juntos transformou a noite em uma maratona de descobertas. Shary, geralmente contida, encontrou sua voz nos braços de Luffy, chamando seu nome até que a exaustão e o prazer a deixassem sem fôlego. Luffy, em sua determinação típica, parecia querer conquistar cada centímetro dela, prometendo que seus filhos seriam os piratas mais fortes e livres que o mar já vira.

Na manhã seguinte, o sol brilhava forte sobre o Sunny. O bando já estava reunido para o café da manhã quando o casal apareceu. Shary caminhava com uma leve hesitação, o rosto escondido pelas mechas de cabelo azul, enquanto Luffy exibia seu sorriso de orelha a orelha, parecendo mais enérgico do que nunca.

— E então, capitão? — provocou Sanji, cruzando os braços enquanto acendia um cigarro. — Decidiram se vão aumentar a tripulação ou não?

Luffy sentou-se à mesa, pegando um pedaço enorme de pão.

— Sim! Nós já fizemos isso ontem à noite para ter os bebês. Agora é só esperar eles aparecerem, não é?

O silêncio chocado da noite anterior retornou, seguido por uma explosão de risadas de uns e gritos de protesto de outros. Shary, num reflexo rápido, pegou um pão e o arremessou com precisão no rosto de Luffy, enterrando a cabeça nas mãos logo em seguida.

— LUFFY! Você não tem filtro nenhum! — gritou ela, embora houvesse um sorriso escondido atrás de seus dedos.

— Mas é verdade! — respondeu ele, mastigando o pão que o atingira. — Eu disse que ia cuidar de tudo.

Nami suspirou, balançando a cabeça, mas seus olhos mostravam carinho. Ela se aproximou de Shary e colocou a mão em seu ombro.

— Não se preocupe, Shary. Se o pequeno herdeiro do Rei dos Piratas for metade tão barulhento quanto o pai, vamos precisar de muito mais do que isolamento acústico no navio.

Shary olhou para Luffy, que agora brincava com Chopper, e sentiu uma paz imensa. Ela era a Imperatriz da Aurora, a guardiã dos segredos do mundo, mas ali, no Thousand Sunny, ela era simplesmente a mulher que amava e era amada pelo homem mais livre do mundo. E, enquanto as estrelas não voltavam para guiá-la, ela se perdia no brilho dos girassóis e no sorriso de seu capitão.