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a mãe solteira

O Peso Suave do Destino

O mármore branco da cozinha reluzia sob os spots embutidos no gesso, criando uma atmosfera bem mais calma do que o clima elétrico do quintal. O som pesado das caixas JBL que Joãozinho VT e Tuto dominavam ficava abafado ali dentro, reduzido a uma batida ritmada e distante que parecia não mais incomodar.

Biel Drake empurrava o carrinho de bebê com as duas mãos firmes na barra de apoio, avançando em passos lentos, quase milimétricos, para evitar qualquer solavanco que pudesse perturbar o sono de Aurora. Rafaela caminhava ao seu lado, as mãos ainda segurando as lapelas da jaqueta de couro dele que agora cobria seus ombros. O perfume dele — uma mistura marcante de notas amadeiradas e baunilha — parecia ter se instalado definitivamente ali, trazendo uma sensação de aconchego que ela não esperava encontrar numa festa cheia de estranhos.

Na ilha central da cozinha, S/N e Lívia arrumavam algumas travessas de frutas e petiscos, enquanto Hillary conferia algumas taças no armário. Nino estava encostado na pia, rindo de alguma coisa no celular, mas levantou os olhos no instante em que a porta de correr de vidro se abriu.

— Olha só quem resolveu dar as caras no refúgio — brincou Hillary, apoiando os cotovelos na bancada de granito e lançando um olhar cúmplice para Rafaela. — Cansaram do pagode e do trap lá fora?

— A Aurora precisava de um pouco de silêncio — respondeu Rafaela, com a voz baixa e tranquila. — E eu precisava de um copo d'água antes que o barulho me deixasse tonta.

— Deixa que eu pego pra você — adiantou-se Biel Drake prontamente, soltando a barra do carrinho com todo o cuidado e já abrindo a geladeira de inox duplex do Buzeira. — Gelada ou natural, Rafa?

— Natural, por favor — disse ela, surpresa com a agilidade do rapaz em servi-la. — Obrigada, Biel.

Lívia cutucou Nino de lado com o cotovelo, enquanto S/N trocava um sorrisinho de canto com Hillary. Para quem conhecia a fama de Biel Drake nas redes sociais — sempre cercado de agitação, caronas velozes e a loucura típica dos criadores de conteúdo do momento —, vê-lo ali, concentrado em encher um copo d'água sem fazer barulho com a garrafa, era quase uma miragem.

— Quer ajuda com alguma coisa, Biel? — perguntou Nino, num tom que misturava respeito e aquela leve provocação de amigo de longa data.

— Não precisa, meu mano — respondeu Biel, entregando o copo de vidro com cuidado nas mãos de Rafaela. — A Rafa é a convidada de honra aqui, tem que ser bem tratada.

— Não precisa me mimar tanto, Gabriel — Rafaela tomou um gole d'água, os olhos brilhando em agradecimento por cima da borda do copo. — Eu já tô acostumada a me virar sozinha pra tudo.

— Pois agora não precisa mais se virar sozinha pra tudo quando eu tiver por perto — Biel respondeu de imediato, sem desviar o olhar do dela por um segundo sequer. A frase saiu sem hesitação, tão carregada de certeza que até S/N parou de cortar os morangos para prestar atenção na resposta.

Rafaela sentiu as bochechas esquentarem novamente. Tentou disfarçar ajeitando o cabelo atrás da orelha, enquanto Hillary soltava um suspiro teatral:

— Menina do céu... Eu acho que vou ali fora tomar um ar porque a temperatura aqui dentro subiu uns dez graus de repente.

— Para com isso, Hillary — repreendeu Lívia, rindo baixo enquanto batia levemente no braço da amiga. — Deixa os dois em paz. Vem, Nino, vamos levar essas frutas lá pra fora pros meninos antes que o Kabrinha coma o carvão da churrasqueira.

— Tô junto — concordou Nino, pegando duas bandejas com habilidade. — Se precisar de alguma coisa, Rafa, só gritar. O Buzeira deixou avisado que a casa é sua.

— Obrigada, gente — respondeu Rafaela, com um sorriso grato.

S/N deu uma piscadinha encorajadora para Rafaela antes de seguir o grupo, fechando a porta de correr de vidro atrás de si. A cozinha mergulhou num silêncio gostoso, quebrado apenas pelo zumbido quase imperceptível da geladeira e pela respiração compassada da pequena Aurora dormindo no carrinho.

Rafaela apoiou o copo vazio na bancada e encostou-se de leve no móvel, observando Biel. Ele continuava ali, de pé diante dela, sem aquela pose forçada que muitos homens adotavam na tentativa de impressionar. Havia nele uma vulnerabilidade desarmada, algo raro em pessoas públicas.

— Por que você tá me olhando desse jeito? — perguntou ela, com uma timidez elegante que a deixava ainda mais fascinante.

— Desse jeito como? — devolveu ele, dando meio passo à frente, cruzando os braços no peito coberto pela camiseta escura.

— Como se estivesse tentando decifrar um enigma — explicou Rafaela, erguendo o queixo. — Eu não sou complicada, Biel. Só sou uma mãe que trabalha duro, acorda cedo e dorme tarde todo santo dia pra não deixar faltar nada pra minha filha.

— E você acha pouco? — indagou Biel, a voz grave descendo mais um tom, ressoando íntima no espaço entre eles. — Eu olho pra você e vejo uma mulher que tem coragem de verdade. Muita gente na internet fala de força, de superação, mas na primeira dificuldade corre pro abraço dos outros. Você carrega o peso do seu mundo no colo e ainda consegue ter essa paz no olhar. Isso não é um enigma, Rafa. Isso é o tipo de coisa que me faz querer parar e prestar atenção.

Rafaela engoliu em seco. Aquelas palavras não eram frases feitas tiradas de um roteiro de aplicativo. Vinham de um homem que parecia enxergá-la por inteiro, despida de qualquer rótulo social.

— Minha vida é uma correria sem fim — confessou ela, olhando brevemente para as próprias mãos. — Tem dias em que a Aurora tem cólica, noites em que eu não durmo nem três horas seguidas... Não sobra tempo pra jantar romântico, pra viagem de última hora, pra nada dessas coisas que você costuma viver. Você tem certeza de que sabe com o que tá lidando?

Biel deu mais um passo à frente, diminuindo a distância até que seus sapatos quase tocassem os dela. Estendeu a mão direita e, com extrema delicadeza, tocou a ponta dos dedos na lateral do rosto de Rafaela, acariciando sua bochecha macia com as costas dos dedos.

— Eu não quero a sua vida pra transformar numa festa, Rafa — disse ele, pausadamente. — Se eu tiver o privilégio de entrar na sua rotina, eu quero estar lá pra dividir o cansaço. Quero estar acordado com você quando ela tiver cólica. Quero segurar a bolsa de fralda, quero ir na farmácia de madrugada se precisar. A vida de verdade é essa aí. O resto é só barulho de internet.

O coração de Rafaela bateu tão forte contra as costelas que ela quase teve medo de que ele pudesse escutar. Por muito tempo, ser mãe solteira significava carregar uma placa invisível de advertência; os homens se aproximavam com elogios fáceis, mas recuavam no primeiro sinal de responsabilidade real. Ver Gabriel ali, falando de farmácia de madrugada e bolsas de fraldas com os olhos cheios de verdade, fez com que as últimas defesas que ela guardava dentro do peito começassem a ruir.

Antes que ela pudesse responder, um chorinho fraco e manhoso ecoou de dentro do carrinho de bebê.

Aurora estava acordando.

Rafaela deu um passo automático para se aproximar, mas Biel foi mais rápido, porém comedido:

— Posso tentar? — perguntou ele, apontando para o carrinho com um olhar quase suplicante, demonstrando um respeito infinito.

Rafaela parou, os lábios entreabertos, e assentiu lentamente:

— Pode. Mas vai com calma, ela estranha fácil quando acorda fora de casa.

Biel curvou-se sobre o carrinho. Aurora estava espreguiçando as perninhas gordinhas, os olhinhos castanhos ainda marejados de sono, começando a franzir o narizinho para engatar um choro mais alto.

— Ei, coisa linda — sussurrou Biel, apoiando uma das mãos sob a nuca da menina com uma firmeza surpreendente e a outra sob as pernas, levantando-a com muito cuidado para junto do seu peito. — Acordou no meio do baile, foi? Não precisa chorar, o tio Biel tá aqui cuidando de você e da sua mãe.

Aurora abriu bem os olhos ao sentir o corpo quente e o peito largo de Biel. A respiração da bebê engasgou por um breve segundo, mas ao invés do berro esperado, ela apenas piscou devagar. Suas mãozinhas pequenas, com covinhas nas juntas dos dedos, encontraram a corrente de prata que Biel usava no pescoço. A menina agarrou o metal reluzente com força e encostou a cabeça no ombro dele, soltando um suspiro longo e pesado.

Biel começou a balançar o corpo num ritmo suave, de um lado para o outro, passando a mão aberta nas costas pequenas de Aurora.

Rafaela ficou imóvel, assistindo à cena com lágrimas quentes picando o fundo dos olhos. A imagem daquele homem alto, tatuado, admirado por milhares de jovens, ninando sua filha com uma paciência de quem fazia aquilo a vida inteira, era a coisa mais linda que já havia testemunhado.

— Ela nunca faz isso com ninguém que acabou de conhecer — murmurou Rafaela, a voz embargada pela emoção. — Nem com os meus parentes mais distantes ela fica calma desse jeito.

— Criança sente a intenção da gente, Rafa — Biel disse em tom baixo, sem parar o movimento suave de embalo, sorrindo abertamente ao sentir a bochecha de Aurora descansando em seu ombro. — E a minha intenção com vocês duas é a mais limpa que existe neste mundo.

A porta de correr de vidro da cozinha se abriu de repente, quebrando o feitiço do momento.

— Ô Biel, cadê o gelo que o... — começou Kabrinha entrando na cozinha a passos largos, seguido de perto por Feijuca e Pecinha, mas a voz dele morreu na garganta assim que deu de cara com a cena.

Kabrinha arregalou os olhos. Feijuca travou atrás dele com um pacote de carvão na mão e Pecinha quase derrubou o copo plástico que segurava.

— Pelo amor de Deus... — sussurrou Kabrinha, abaixando o tom de voz quase que por instinto. — Rapaziada, me belisca que eu devo tá sonhando. O Drake virou pai de família em quarenta minutos de resenha.

— Fala baixo, Kabrinha — alertou Biel, sem se irritar, apenas fixando um olhar severo no amigo para que não assustasse o bebê. — A neném acabou de acordar. Tem respeito.

Buzeira apareceu logo atrás dos rapazes, atraído pela lentidão dos amigos na cozinha. Ao ver Biel segurando Aurora no colo com toda a naturalidade do mundo, enquanto Rafaela olhava para ele com uma ternura inegável, o anfitrião abriu aquele sorriso largo característico, cruzando os braços no batente da porta.

— Eu não falei pra vocês? — disse Buzeira num tom tranquilo, apontando para Biel com a cabeça. — O homem encontrou o caminho dele. Vocês ficam aí com essas palhaçadas de moleque, mas o Drake entendeu o que é bagulho de verdade.

— Respeito máximo, na moral — admitiu Feijuca, ajeitando o boné e dando um tapinha nas costas de Buzeira. — Drake tá monstro. Parece até comercial de margarina, pô.

— Saiam todo mundo daqui — mandou Buzeira com autoridade de irmão mais velho, empurrando Kabrinha e Pecinha de volta para a varanda. — Deixa o homem trabalhar na paz. Vamos, Tuto e NZ tão chamando pra mandar mais um som lá fora. Vaza, vaza.

Kabrinha ainda lançou um último olhar zombeteiro, mas fez um sinal de "paz e amor" com os dedos antes de ser empurrado por Buzeira. A porta se fechou novamente, restabelecendo a calma.

Rafaela soltou uma risada fraca, cobrindo o rosto com uma das mãos.

— Seus amigos não perdem uma piada, né?

— Amigo de verdade zoa mesmo, Rafa — respondeu Biel, rindo junto com ela. — Mas no fundo eles sabem que quando eu decido uma parada, eu vou até o fim. E eu decidi que não quero sair dessa casa hoje sem saber quando vou te ver de novo.

Aurora bocejou gostoso no ombro de Biel, afrouxando os dedinhos da corrente de prata e fechando os olhos mais uma vez, rendida ao calor do peito dele.

Rafaela aproximou-se devagar, parando bem diante de Biel. Ela estendeu a mão e ajeitou a gola da camiseta dele com delicadeza, sentindo a respiração morna do rapaz contra a sua testa.

— Amanhã é domingo — disse ela suavemente. — Domingo à tarde eu costumo levar a Aurora num parque perto de casa, onde tem um gramado tranquilo pra ela engatinhar. É bem longe da loucura da internet. Sem câmera, sem stories, sem confusão.

Os olhos de Biel Drake brilharam com uma intensidade renovada.

— Passa o endereço — pediu ele sem pestanejar. — Três horas da tarde eu tô lá. Se você deixar, eu levo uma cesta com umas coisas gostosas pra gente comer e um brinquedo novo pra essa princesa aqui.

— Ela já tem brinquedo demais, Gabriel — advertiu ela, tentando manter uma postura rígida, mas falhando miseravelmente diante daquele olhar decidido.

— Nunca é demais pra quem merece tudo — retrucou ele com firmeza.

Rafaela pegou o celular na bolsinha lateral presa ao carrinho e estendeu para Biel:

— Anota seu número aqui. Eu te mando a localização quando chegar em casa.

Biel entregou a pequena Aurora de volta aos braços da mãe com um cuidado milimétrico, certificando-se de que a menina estava bem aconchegada antes de pegar o aparelho de Rafaela. Digitou rapidamente seu número pessoal — aquele que pouquíssimas pessoas no meio artístico tinham acesso — e devolveu o telefone às mãos dela.

— Prontinho — disse ele, guardando as mãos nos bolsos da calça jeans. — Me liga quando chegar em casa em segurança. Se você quiser, eu peço um carro de aplicativo executivo agora mesmo pra levar vocês duas até a porta do seu prédio.

— Não precisa, o Buzeira já tinha combinado que o motorista dele vai me levar daqui a pouco — explicou Rafaela, abraçando Aurora com carinho. — Mas obrigada pela preocupação. De verdade.

— O Buzeira é irmão — concordou Biel Drake. — Se ele tá cuidando do transporte de vocês, eu fico em paz. Mas amanhã o compromisso é meu. Três da tarde, no parque.

— Três da tarde — confirmou ela, sentindo um frio na barriga delicioso que há anos não experimentava. — Não vai se atrasar, Gabriel. Mãe não tem tempo a perder.

— Eu nunca me atrasaria pro momento mais importante da minha semana, Rafaela — garantiu ele, curvando-se para deixar um beijo suave e demorado na bochecha dela, sentindo o calor suave da sua pele perfumada, antes de dar outro beijo ainda mais delicado no topo da cabecinha de Aurora.

Quando Biel Drake se afastou e caminhou de volta para a varanda sob as luzes da mansão, o barulho dos graves e as vozes dos amigos já soavam completamente diferentes aos seus ouvidos. A vida que ele conhecia havia mudado de rota de forma irreversível.

No canto da cozinha, Rafaela observou a jaqueta dele ainda sobre seus ombros, apertando Aurora contra o peito enquanto um sorriso sincero e cheio de esperança iluminava seu rosto pela primeira vez em muito tempo. O destino tinha batido à sua porta no lugar mais improvável, e ela sabia que, a partir daquela noite, ninguém mais andaria sozinho.

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