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a mãe solteira

Raízes que Não Vêm do Sangue

O riso cristalino de Aurora ainda ecoava pelo jardim da mansão quando a realidade começou a se assentar sobre os ombros de Biel. A pequena agora puxava de leve o pingente da sua corrente de prata, alheia à tempestade emocional que acabara de desarmar entre os dois adultos. Rafaela mantinha os olhos marejados, mas havia um alívio evidente na curvatura suave de seus lábios, como se o desabafo sobre o passado tivesse retirado uma armadura de chumbo que ela carregava desde a gravidez.

Kabrinha foi o primeiro a quebrar a solenidade do momento. Ele se aproximou da mureta com dois copos de suco nas mãos, fingindo uma postura formal que contrastava com a regata estampada e o sorriso de canto.

— Aí, se alguém me contasse três meses atrás que o Drake ia estar num fim de tarde ninando criança e olhando com cara de bobo apaixonado, eu apostava meu carro que era mentira — disse Kabrinha, entregando um dos copos para Rafaela com uma piscadela simpática. — Mas ó, de coração mesmo... cês combinam demais.

— Não enche, Kabrinha — respondeu Biel, rindo baixo, mas sem soltar Aurora do colo. — Vai ver se a carne do Feijuca não tá queimando, vai.

— Pior que tá quase — admitiu Kabrinha, dando meia-volta enquanto apontava para a churrasqueira. — O homem é bom de volante, mas com a grelha tá passando vergonha!

A risada geral dissipou qualquer resquício de constrangimento. Hillary e Lívia se aproximaram logo em seguida, estendendo a mão para Aurora, que bocejou dengosa, esfregando os olhinhos com as mãozinhas rechonchudas.

— Deixa ela comigo um pouquinho, Biel — pediu Hillary com carinho maternal. — A SN acabou de preparar uma mamadeira morna lá na cozinha. Vamos dar um banho nela antes que o friozinho da noite pegue.

Rafaela olhou para Biel, que assentiu com um sorriso terno, entregando a menina com todo o cuidado nos braços de Hillary. SN já esperava na porta de vidro da varanda com uma toalha macia, acenando para que entrassem.

— Vem também, Rafa — chamou Lívia, puxando-a gentilmente pelo braço. — Vamos deixar os meninos resolverem as crises existenciais deles com o churrasco.

Rafaela hesitou por uma fração de segundo, buscando o olhar de Biel. Ele tocou a mão dela de leve, transmitindo toda a segurança de que ela precisava.

— Vai lá com elas, meu bem. Eu vou dar um pulo ali com o Buzeira e já subo.

Quando as mulheres sumiram pelo corredor iluminado da casa, Buzeira se descolou da bancada gourmet. Ele deu um tapinha nas costas de Joãozinho VT, que continuava focado em dedilhar um violão acústico trazido da sala de gravações, e caminhou a passos lentos até a beirada da piscina, onde Biel permanecia observando as luzes da cidade começarem a brilhar no horizonte.

— Papai, é? — Buzeira puxou o assunto de forma direta, encostando-se na borda de pedra e fitando o amigo de longa data.

Biel soltou um suspiro profundo, passando a mão pelos cabelos.

— Ela só tem um ano, Buzeira. Nem sabe o que falou de verdade...

— Ela pode até não saber a teoria do bagulho — interrompeu Buzeira, em tom firme, olhando Biel nos olhos —, mas o coração da criança sente quem tá de peito aberto e quem tá de passagem. Criança não é boba, moleque. Ela viu em você o que aquele infeliz que gerou ela nunca teve coragem de demonstrar.

Biel baixou a cabeça, sentindo o peso daquelas palavras.

— O cara simplesmente meteu o pé quando ela engravidou — confessou Biel, a raiva transparecendo nos punhos cerrados. — Sumiu. Deixou a Rafa sozinha com a barriga crescendo, sem dinheiro, sem apoio de ninguém. Como é que um cara tem a coragem de fazer isso com a própria filha?

— Porque tem muito moleque fantasiado de homem por aí — afirmou Buzeira, com a experiência de quem já viu de tudo na vida e no meio em que viviam. — Só que agora o papo é outro, Biel. Você me conhece. Eu te vi chegar nessa internet sem nada, te vi deslumbrar com dinheiro fácil, festa todo dia, mulherada disputando atenção em camarote. Eu nunca te julguei por isso porque faz parte da fase. Só que a Rafaela não é fase. E a Aurora muito menos.

— Eu sei disso — rebateu Biel, sem vacilar.

— Sabe mesmo? — Buzeira deu um passo à frente, adotando a postura protetora de irmão mais velho. — Porque quando você assume uma mulher com filho, você assume a responsabilidade de ser a rocha da casa. A internet é cruel, Biel. Amanhã sai uma foto de vocês três numa página de fofoca e vai chover comentário de hater falando que você tá pagando de bom moço, que ela tá com você por interesse, que você tá assumindo B.O. dos outros. Você tem peito pra segurar esse rojão sem deixar isso respingar nelas?

Biel olhou para a água da piscina refletindo as primeiras estrelas da noite. Ele não hesitou nem por um segundo antes de responder.

— Buzeira, eu passei anos vivendo de aparência — disse Biel, com a voz carregada de convicção absoluta. — Me importando com o que seguidor falava, com quantas visualizações batia o story da revoada, com quem tava no meu camarote. Sabe o que aquilo me deixava no fim da noite? Vazio. Uma sensação de que se eu sumisse amanhã, ninguém ia sentir falta do Gabriel, só do Drake da internet.

Buzeira permaneceu em silêncio, ouvindo atentamente.

— Com a Rafa e a Aurora é diferente — continuou o jovem, batendo com a mão no próprio peito. — Pela primeira vez na vida, eu chego num lugar e sinto paz. Eu olho pra aquela menininha e vejo uma pureza que nada nessa cidade compra. E a Rafaela... mano, a Rafa enfrentou o mundo sozinha de cabeça erguida. Ela não precisa do meu dinheiro, ela precisa de respeito, de carinho, de um cara que não corra na primeira tempestade. Eu não tô fazendo cena pra seguidor ver. Eu tô vivendo a vida de verdade.

Buzeira abriu um sorriso largo, daqueles raros que ele reservava para poucos, e estendeu o braço, puxando Biel para um abraço forte, com tapinhas vigorosos nas costas.

— Era isso que eu precisava ouvir de você, meu irmão — disse Buzeira. — Se essa é a sua verdade, pode contar comigo pro que der e vier. Se faltar teto, eu dou teto. Se faltar conselho, eu tô aqui. Mas honra essa mulher e essa criança até o final.

— Pode deixar — garantiu Biel, sentindo o nó na garganta se desfazer em determinação.

Mais atrás, a movimentação continuava agitada. Nino e Tuto tentavam resgatar os últimos pedaços de picanha enquanto Feijuca e Pecinha riam descontroladamente de uma história que NZ contava sobre um dos clipes gravados na semana anterior.

— Ô Biel! — gritou NZ da mesa. — Vem comer logo, senão o Tuto vai limpar a travessa inteira sozinho!

— Tô indo! — respondeu Biel, sorrindo e caminhando em direção à mesa.

Enquanto isso, no andar superior da mansão, o clima era completamente diferente. No quarto de hóspedes espaçoso e com vista panorâmica, uma banheira infantil improvisada estava montada sobre a bancada do banheiro. Aurora batia as perninhas na água morna, salpicando gotículas em Lívia e SN, que se desdobravam em risadas para secar o chão com toalhas extras.

Rafaela estava sentada na beirada da cama king size, vestindo uma camiseta larga de algodão, observando a cena com o coração apertado de gratidão. Hillary se aproximou, sentando-se ao lado dela e estendendo uma xícara de chá calmante.

— Respira um pouco, mãe — disse Hillary suavemente. — Você parece tensa.

— É difícil desligar, sabe? — confessou Rafaela, segurando a xícara quente com as duas mãos. — Eu passei um ano e meio no modo de sobrevivência. Toda vez que alguém se aproximava, eu achava que era pra julgar ou pra me usar. Estar aqui... com pessoas que têm tudo, sendo tratada com tanto carinho... parece até um sonho do qual eu vou acordar a qualquer momento.

SN virou a cabeça para trás, enquanto enrolava Aurora em uma toalha felpuda com capuz de orelhinhas de urso.

— Não é sonho nenhum, Rafa — disse SN com convicção. — Você conquistou o Biel pelo que você é, de verdade. E a gente gosta de você exatamente por isso. Você não veio aqui querendo aparecer em vídeo, não ficou pedindo pra marcar arroba de ninguém. Você é real. E gente real tá em falta hoje em dia.

— E o Biel mudou da água pro vinho — acrescentou Lívia, ajeitando as roupinhas limpas da bebê. — O Nino me contou que ele não para de falar de vocês dois no grupo dos moleques. Ele tá todo bobo. Ontem mesmo ele tava pesquisando sobre cadeirinha de carro pra comprar pro carro novo dele.

Rafaela levou a mão aos lábios, surpresa e comovida com a revelação.

— Sério?

— Seríssimo — confirmou Hillary, sorrindo. — Ele tá querendo construir um futuro, Rafa. Deixa ele cuidar de você também. Você já foi forte demais por muito tempo. Agora é hora de descansar e deixar alguém segurar a sua mão.

As lágrimas voltaram aos olhos de Rafaela, mas dessa vez eram de puro alívio. Ela se levantou e pegou Aurora, que já bocejava sonolenta, aninhando-a contra o peito. A menina logo encontrou a posição perfeita, respirando compassadamente contra o pescoço da mãe.

A porta do quarto se abriu com um estalo suave. Biel entrou, trazendo dois pratos cuidadosamente servidos com pedaços suculentos de carne, salada e farofa, equilibrando-os com uma habilidade inesperada.

— A invasão masculina chegou — anunciou ele em voz baixa, para não acordar a pequena. — O Buzeira mandou avisar que se vocês não comerem agora, o Pecinha vai devorar até o carvão.

As meninas riram baixo e, com delicadeza, deixaram o quarto uma a uma, fechando a porta para deixar o trio a sós.

Biel colocou os pratos sobre a mesinha de centro perto da janela e se aproximou da cama. A iluminação indireta dos abajures deixava o ambiente acolhedor, contrastando com a escuridão da noite lá fora.

— Ela já dormiu? — perguntou ele num sussurro.

— Quase — respondeu Rafaela, sentando-se com cuidado para não perturbar o sono da filha. — Ela gastou muita energia hoje. Ficou encantada com essa casa, com as pessoas... com você.

Biel sentou-se ao lado dela na cama, tão próximo que seus ombros se encostavam. Ele estendeu o dedo indicador e sentiu os dedinhos pequenos de Aurora se fecharem automaticamente ao redor dele, em um aperto frágil, mas cheio de significado.

— Eu conversei com o Buzeira lá embaixo — disse Biel, a voz grave e suave preenchendo o espaço silencioso.

— É? E o que ele disse?

— Ele disse o que eu já sabia — respondeu ele, virando o rosto para encarar o perfil delicado de Rafaela. — Que eu tenho uma responsabilidade imensa nas mãos. E que eu tenho que ser o homem mais forte do mundo pra proteger vocês duas.

Rafaela baixou os olhos para a mão dele entrelaçada à da filha.

— Biel... você não precisa carregar o mundo nas costas por nossa causa. Eu não quero ser um peso na sua vida, muito menos atrapalhar a sua carreira. Você tem vinte e poucos anos, uma vida inteira pela frente, contratos, viagens...

— Ei — interrompeu Biel, erguendo a outra mão para acariciar o rosto dela, forçando-a a olhar para ele. — Para de falar isso. Você nunca vai ser um peso. Desde o momento em que você me contou o que aquele covarde fez, qualquer dúvida que eu pudesse ter sumiu da minha cabeça.

— Mas a internet... — começou ela, com o medo ainda sussurrando no fundo da mente.

— Que se dane a internet, Rafa — disse ele com firmeza, os olhos brilhando de paixão e determinação. — Se falarem, que falem. Se curtirem, que curtam. A minha vida de verdade não tá no feed do Instagram, tá aqui, nesse quarto. Tá em você me olhando desse jeito. Tá nessa menina dormindo no seu colo.

Rafaela sentiu o coração bater forte contra as costelas. A segurança nas palavras daquele homem parecia curar feridas que ela acreditava serem eternas.

— Eu nunca imaginei que alguém fosse me amar com tanta certeza — confessou ela, deixando uma lágrima solitária escorrer pela bochecha.

Biel limpou a lágrima com o polegar, inclinando-se devagar até encostar os lábios nos dela. O beijo foi calmo, doce e profundamente significativo, selando uma promessa que não precisava de contratos, likes ou audiência. Era um compromisso de alma, forjado na verdade de quem estava disposto a abrir mão das ilusões da fama para viver um amor concreto.

Quando se separaram, Aurora deu um pequeno suspiro de sono profundo. Biel a pegou nos braços com a segurança de um pai experiente e a deitou no centro da cama, cobrindo-a delicadamente com o edredom de plumas.

— Pronto — murmurou Biel, olhando para a bebê adormecida com um carinho imenso. — A nossa pequena tá segura.

Rafaela observou a cena, com as mãos sobre o peito. A palavra "nossa" ecoou em sua mente como uma melodia suave. Aquele rapaz que outrora representava tudo aquilo de que ela sempre tentara fugir — o mundo da badalação, da ostentação desenfreada e dos relacionamentos descartáveis — havia se transformado no refúgio mais seguro que ela e a filha já tiveram.

Biel virou-se para ela, estendendo a mão aberta.

— Vem, vamos comer um pouco antes que esfrie. E depois, eu quero que você me conte tudo sobre ela. Desde o dia em que ela nasceu. Eu quero saber de cada detalhe que aquele idiota perdeu.

Rafaela segurou a mão de Biel com força, sentindo o calor e a firmeza dos dedos dele se entrelaçarem aos seus.

— Eu conto tudo — disse ela, com um sorriso radiante iluminando o rosto. — Agora a gente tem todo o tempo do mundo.

Sentados lado a lado no parapeito da janela do quarto, enquanto a música dos amigos ecoava bem distante lá embaixo e a filha dormia em perfeita paz, Biel e Rafaela começaram a escrever os primeiros parágrafos de uma história que nada tinha a ver com o passado. Ali, sob as estrelas silenciosas de Alphaville, ficava claro que laços de verdade não dependem de sangue, mas sim da coragem de escolher amar e proteger até o fim.

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