A menina do porta ao lado da realeza azul
O Legado de Marfim e Ouro
O restante do café da manhã transcorreu em um estado de torpor coletivo. A presença de Isabel Peverell não era apenas uma novidade; era uma pressão atmosférica diferente, como se o ar no Salão Principal tivesse se tornado mais denso, saturado de uma magia que não era ensinada nos livros comuns. Harry mal conseguia se concentrar em seu suco de abóbora, sentindo o peso da Capa da Invisibilidade, dobrada no fundo de seu malão, queimar em sua consciência.
— Ela chamou você de primo — sussurrou Rony pela décima vez, cutucando uma salsicha fria. — Harry, você tem noção? A linhagem Peverell... isso é coisa de lenda. Meus irmãos diziam que os Peverell eram como fantasmas da história. E agora temos uma sentada bem na nossa frente, parecendo que vai mandar decapitar alguém se o chá estiver morno.
— Não seja dramático, Rony — retrucou Hermione, embora suas mãos tremessem levemente ao organizar seus pergaminhos. — Mas ela tem razão sobre a genealogia. Se ela descende de Catarina de Aragão, ela carrega o sangue da Casa de Trastâmara e, por extensão, dos Reis Católicos da Espanha. Misturar isso com a linhagem de Ignoto Peverell... é um milagre genético e mágico.
— O que me preocupa não é o sangue dela — disse Harry, olhando para a Mesa dos Professores, onde Isabel agora conversava em voz baixa com Dumbledore e Snape. — É o que ela disse sobre o "sangue antigo se levantar". Ela sabe de algo. Ela sabe sobre o que está acontecendo lá fora de um jeito que nós não sabemos.
Enquanto falavam, Isabel se retirou do salão acompanhada pela Professora McGonagall. O balançar de suas vestes era tão rítmico que parecia uma coreografia real. O burburinho voltou a crescer, mas o assunto era um só: a garota de pele de pêssego e cabelos de fogo que reivindicava um trono que ninguém sabia que ainda existia.
As aulas daquela manhã foram uma névoa. Na aula de Transfiguração, até mesmo a Professora McGonagall parecia distraída, lançando olhares frequentes para a cadeira vazia que Isabel deveria ocupar a partir do dia seguinte. Foi apenas no período da tarde, durante o tempo livre na biblioteca, que o trio encontrou a nova aluna novamente.
Isabel estava sentada em uma mesa isolada, nos fundos da Seção Restrita. No entanto, ela não parecia ter precisado de uma autorização assinada para estar ali; os livros pareciam ter se oferecido a ela. À sua frente, um tomo enorme com fechos de prata estava aberto, e ela passava os dedos pálidos pelas páginas amareladas com uma reverência quase religiosa.
— Isabel? — chamou Hermione, aproximando-se com cautela. — Esperamos não estar incomodando.
A garota ruiva levantou o olhar. Seus olhos azul-claros pareciam captar a luz das velas de uma forma que os olhos comuns não faziam. Ela fechou o livro suavemente.
— Nunca é um incômodo buscar o conhecimento, senhorita Granger. Por favor, sentem-se.
Harry e Rony se acomodaram, sentindo-se estranhamente desajeitados, como se estivessem em uma audiência real e não em uma biblioteca escolar.
— Você já começou a estudar? — perguntou Rony, olhando para o título do livro em latim arcaico. — As aulas só começam para você amanhã, não?
— O tempo é um luxo que minha linhagem raramente possuiu, senhor Weasley — respondeu Isabel, cruzando as mãos sobre a mesa. — Eu não vim a Hogwarts para aprender a transformar ratos em cálices de prata. Eu vim para consolidar o que meus tutores me ensinaram no isolamento. O mundo está mudando, e a linhagem Peverell sempre foi a guardiã do véu entre a vida e a morte.
— O que você quis dizer no café da manhã? — Harry foi direto ao ponto, ignorando o chute de advertência que Hermione lhe deu por baixo da mesa. — Sobre o Lorde das Trevas ser apenas um eco?
Isabel inclinou o rosto arredondado, e por um momento, a semelhança com os retratos de Catarina de Aragão foi assustadora. Havia uma força ali, uma resiliência que sobreviveu a séculos de traições e guerras.
— Tom Riddle — ela pronunciou o nome com uma nota de desdém que fez Harry estremecer — é um homem que teme a morte. Ele busca a imortalidade através da fragmentação e do horror. Ele acredita que o sangue puro o torna superior, mas ele não entende a natureza do sangue. O sangue não é superior por causa de sua pureza, mas por causa de sua história e do sacrifício que ele carrega.
— Você fala como se o conhecesse — observou Hermione.
— Eu conheço a espécie dele — disse Isabel, sua voz baixando para um tom aveludado e sério. — Meus antepassados enfrentaram tiranos que usavam coroas de ouro e tiranos que usavam varinhas de sabugueiro. Riddle é um sintoma de um mundo que esqueceu o equilíbrio. Ele busca o poder das Relíquias, mas ele nunca poderá possuí-las verdadeiramente.
Harry sentiu o coração acelerar.
— Por que não?
— Porque as Relíquias não pertencem aos que buscam fugir da morte — Isabel olhou fixamente para Harry —, mas àqueles que a aceitam como uma velha amiga. Você sabe disso, Harry Potter. Você carrega o manto em suas veias, mesmo sem o tecido sobre os ombros.
O silêncio que caiu sobre a mesa foi interrompido apenas pelo som distante de uma pena escrevendo em algum lugar da biblioteca. Rony olhava de um para o outro, confuso, enquanto Hermione parecia estar ligando pontos em sua mente que a deixavam pálida.
— Você é a última Peverell — disse Hermione em um sussurro. — Isso significa que você é a herdeira legítima de... de tudo.
— De uma herança de sombras e responsabilidade — corrigiu Isabel. — E como descendente dos reis que unificaram nações, minha responsabilidade não é apenas com o mundo bruxo. Se Riddle vencer, o véu cairá. O mundo trouxa, que meus antepassados governaram e protegeram, será o primeiro a queimar. Eu não permitirei que o legado de mil anos de soberania seja destruído por um órfão amargurado que brinca de ser deus.
— O que você vai fazer? — perguntou Harry.
Isabel levantou-se. Mesmo sendo jovem, sua presença parecia preencher o espaço de forma absoluta.
— Eu vou retomar o lugar que pertence à minha família. Não por ambição, mas por dever. Dumbledore sabe que minha presença aqui é um sinal. O castelo reconhece o sangue real; as paredes de Hogwarts foram erguidas em tempos onde a magia e a coroa caminhavam juntas.
Ela caminhou até Harry e colocou uma mão pequena e fria sobre o ombro dele. A pele "creme de pêssego" contrastava drasticamente com o preto das vestes de Hogwarts.
— Prepare-se, primo. A guerra que você está lutando está prestes a ganhar aliados que não se escondem em sombras, mas que caminham sob a luz do sol e o peso da história.
— Espera! — chamou Rony, enquanto ela começava a se afastar. — Se você é uma rainha e tudo mais... como é que o Chapéu Seletor te colocou na Grifinória? Eu achei que você iria para a Sonserina, com todo esse papo de linhagem e sangue.
Isabel parou e olhou por cima do ombro. Um pequeno sorriso, quase imperceptível, surgiu em seu rosto clássico.
— A Sonserina é para aqueles que buscam a grandeza. A Grifinória é para aqueles que já a possuem, mas estão dispostos a sacrificá-la por algo maior. Minha antepassada, Catarina, nunca desistiu de sua dignidade, mesmo quando perdeu tudo. Isso não é ambição, senhor Weasley. É coragem.
Com essas palavras, ela desapareceu entre as estantes de livros, deixando os três amigos em um estado de choque silencioso.
— Hermione — disse Harry, depois de um longo tempo —, acho que precisamos pesquisar mais sobre os Peverell. E sobre Catarina de Aragão.
— Eu já estou no terceiro volume — respondeu Hermione, puxando um livro pesado da prateleira ao lado com uma determinação renovada. — Se Isabel Peverell é quem diz ser, ela não é apenas uma aluna nova. Ela é uma declaração de guerra viva.
Nas semanas que se seguiram, a rotina de Hogwarts mudou sutilmente. Isabel não se comportava como uma celebridade, mas todos a tratavam como tal. Até mesmo Draco Malfoy, que normalmente teria comentários ácidos sobre qualquer um que roubasse a atenção, mantinha uma distância respeitosa. Havia algo nela que silenciava a arrogância dele; talvez fosse o fato de que, perto da linhagem dela, os Malfoy pareciam meros novos-ricos sem história.
Isabel destacava-se em todas as aulas. Sua magia não era chamativa, mas era precisa, imbuída de uma autoridade que fazia os objetos obedecerem antes mesmo de ela terminar o movimento da varinha. No entanto, era nos momentos de silêncio que ela era mais observada. Ela costumava sentar-se à beira do Lago Negro, olhando para a água com uma expressão de quem via séculos de história refletidos na superfície.
Certa noite, Harry a encontrou na Sala Comunal da Grifinória. O fogo na lareira estava baixo, e a luz das brasas refletia em seus cabelos ruivos, fazendo-os parecerem feitos de cobre derretido.
— Você não consegue dormir? — perguntou ele, sentando-se em uma poltrona próxima.
— As vozes do passado são barulhentas à noite, Harry — respondeu ela, sem desviar os olhos do fogo. — Cada rei e rainha que veio antes de mim deixou um peso. Eles esperam que eu restaure a honra de nossa casa.
— Eu sei como é isso — disse Harry suavemente. — Sentir que você deve algo ao mundo só por causa de quem você é.
Isabel olhou para ele, e seus olhos azuis pareciam brilhar com uma luz interna.
— Você é mais parecido comigo do que imagina. A diferença é que você foi criado na obscuridade, enquanto eu fui criada na luz fria da expectativa. Mas ambos somos as peças finais de um jogo que começou há muito tempo.
Ela estendeu a mão e, por um momento, Harry viu um anel em seu dedo que ele não tinha notado antes. Era de ouro antigo, com um brasão que ele não reconheceu de imediato, mas que exalava uma aura de poder ancestral.
— O que é isso? — perguntou ele.
— O Selo dos Reinos — disse ela. — Um objeto que une minha linhagem trouxa à minha linhagem mágica. Ele me permite sentir a terra. E a terra está sofrendo, Harry. O retorno dele está envenenando as raízes deste país.
— O que Dumbledore disse a você? — Harry perguntou, baixando a voz.
— Que eu sou a peça que ele não esperava encontrar. O "fator real" que pode mudar a lealdade de muitas famílias bruxas que ainda se importam com a tradição. Se a última Peverell, a descendente dos Reis de outrora, declarar que Riddle é um impostor e uma ameaça à própria estrutura da magia... as famílias de sangue puro terão que escolher entre um tirano mestiço e uma rainha legítima.
Harry sentiu um arrepio. Ele nunca tinha pensado dessa forma. A guerra bruxa sempre pareceu uma luta entre o bem e o mal, mas Isabel estava introduzindo uma nova variável: a legitimidade.
— Você vai se declarar? — Harry perguntou, admirado.
— No momento certo — disse Isabel, levantando-se com a graça de uma soberana. — Por enquanto, serei apenas Isabel. Mas saiba disso, Harry: quando a batalha final chegar, você não estará sozinho diante do véu. O sangue dos reis estará ao seu lado.
Ela se retirou para o dormitório das meninas, deixando Harry sozinho com o estalar das brasas na lareira. Ele percebeu que a chegada de Isabel Peverell não era apenas uma coincidência ou um reforço acadêmico. Era o despertar de uma força que o mundo mágico havia tentado esquecer — a ideia de que existem direitos que nem mesmo a morte ou a magia negra podem apagar.
Hogwarts tinha uma rainha em seus corredores, e o tabuleiro do destino tinha acabado de ser virado. Enquanto Harry subia para o seu próprio dormitório, ele não pôde deixar de pensar que, pela primeira vez em muito tempo, Voldemort tinha algo real a temer. Não apenas o Menino Que Sobreviveu, mas a Majestade que se recusava a morrer.