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A Noiva de Sleepy Hollow

O Altar de Vidro e Sombras

A estufa parecia ter se tornado o centro do universo, um casulo de calor e segredo onde as leis de Sleepy Hollow não podiam penetrar. O som da chuva contra o teto de vidro não era mais um ruído externo, mas o ritmo cardíaco daquela união proibida. Ichabod sentia-se flutuar em um território desconhecido; ele, que sempre buscara a ordem nas engrenagens e a clareza nos fatos, via-se agora submerso na mais profunda e doce irracionalidade.

Katrina estava deitada sobre o veludo, a pele pálida brilhando como opala sob a luz vacilante das velas. Ichabod permanecia de joelhos diante dela, suas mãos ainda tremendo, mas agora movidas por uma fome que ele mal conseguia reconhecer como sua. O contraste era absoluto: a fragilidade dele, marcada pelo preto de suas vestes de perito, contra a nudez radiante e mística da mulher que ele amava.

— Você olha para mim como se eu fosse um de seus diagramas — sussurrou Katrina, um sorriso suave brincando em seus lábios enquanto ela observava o fascínio nos olhos dele. — Ou talvez como uma nova constelação que acaba de descobrir no céu de outono.

— Você é muito mais do que qualquer estrela, Katrina — respondeu Ichabod, a voz falhando enquanto seus dedos traçavam o contorno delicado de seus ombros. — As estrelas são distantes e frias. Você... você é o fogo que aquece este lugar. Eu nunca imaginei que a forma humana pudesse carregar tamanha... perfeição.

Ele baixou o olhar para os seios dela novamente. A visão era quase dolorosa de tão bela. Ele aproximou-se, o rosto a centímetros da pele dela, sentindo o calor que emanava de seu corpo. Com uma reverência que parecia um ato de adoração, Ichabod pressionou os lábios contra a curva superior de seu seio esquerdo.

Katrina soltou um suspiro entrecortado, arqueando as costas e afundando os dedos nos cabelos negros e úmidos dele.

— Ichabod... — ela murmurou, a voz carregada de um desejo que ele nunca ouvira antes. — Não tenha medo de mim. Não sou feita de vidro, embora estejamos cercados por ele.

— Tenho medo de minha própria imperfeição diante de você — confessou ele, subindo os beijos até o pescoço dela, onde a pulsação de Katrina batia frenética. — Eu sou um homem de sombras e dúvidas. Você é a luz que eu não mereço.

— Então deixe que as sombras se misturem à luz — disse ela, puxando-o para baixo, forçando-o a abandonar sua postura contida.

Ichabod finalmente cedeu. Ele se desfez de seu casaco e de seu colete com uma pressa desajeitada, seus movimentos guiados por um instinto que sua mente lógica tentava, em vão, rotular. Quando sua pele finalmente encontrou a dela, o choque térmico e emocional foi devastador. Ele sentiu a maciez dos seios dela pressionados contra seu peito, o calor do ventre dela contra o dele, e a sensação foi como se todas as peças de um quebra-cabeça que ele tentara montar por toda a vida finalmente se encaixassem.

Ela o guiou com uma paciência sedutora. Katrina sabia que Ichabod era um homem de contenção, alguém que passara a existência reprimindo impulsos em favor da razão. Ela queria quebrar cada uma daquelas barreiras.

— Sinta o que você faz comigo — sussurrou ela, levando a mão dele para baixo, para a seda do vestido que ainda envolvia seus quadris, mas que logo foi afastada. — Não há ciência que explique o que acontece quando estamos juntos, Ichabod. Não há lógica que possa desfazer o que estamos prestes a selar.

— Se eu fizer isso — disse ele, parando por um breve segundo para olhar nos olhos dela, a testa encostada na dela —, não haverá volta. Brom Van Brunt exigirá seu sangue. A vila a chamará de nomes que eu não suportaria ouvir.

— Deixe que chamem — respondeu ela, com uma força que o surpreendeu. — Deixe que o mundo queime lá fora. Se eu carregar sua marca, se eu pertencer a você, nenhum contrato de meu pai poderá me acorrentar a outro. Esta é a minha escolha, Ichabod. Minha liberdade tem o seu nome.

Aquelas palavras foram o golpe final na resistência dele. Ichabod a beijou com uma paixão que beirava o desespero, suas mãos explorando cada curva, cada segredo do corpo de Katrina com uma curiosidade que agora era puramente carnal e devotada. Ele a descobriu como um explorador descobre uma terra sagrada, com admiração e um toque de temor.

Quando o momento da união final chegou, o mundo pareceu silenciar. A chuva parou por um instante, deixando apenas o som das chamas das velas consumindo o pavio. Houve uma breve hesitação, um olhar de profundo entendimento compartilhado entre os dois, e então o selo foi quebrado.

Katrina soltou um gemido agudo, que foi abafado pelos lábios de Ichabod. Ele sentiu a tensão dela, o momento em que a tradição se tornou realidade e o destino foi irrevogavelmente alterado. Ele se moveu com uma ternura que contrastava com a intensidade de seus sentimentos, sussurrando palavras de conforto e adoração em seu ouvido, prometendo-lhe o mundo e além.

O tempo perdeu o sentido dentro da estufa. Eles se tornaram um emaranhado de membros e suspiros, uma dança de pele e sombra entre as rosas escuras. Ichabod, o homem que sempre confiava em seus sentidos para observar o crime, agora os usava para experimentar a vida em sua forma mais crua e vibrante. Ele descobriu que o toque de Katrina era mais curativo do que qualquer medicina, e que o amor que sentia por ela era a única verdade absoluta em um mundo de ilusões e fantasmas.

Horas depois, ou talvez apenas minutos — o tempo ali era uma dimensão irrelevante —, eles ficaram abraçados sobre o veludo. Ichabod cobriu o corpo nu de Katrina com seu próprio casaco, protegendo-a do ar que começava a esfriar.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz rouca, beijando a têmpora dela.

— Estou livre — respondeu ela, fechando os olhos com um sorriso de satisfação. — Pela primeira vez em minha vida, Ichabod, eu me sinto dona de meu próprio destino.

Ele olhou para as velas, que agora eram apenas poças de cera derretida.

— O que faremos agora? — perguntou ele, a preocupação com o futuro começando a retornar à sua mente. — O anúncio do noivado é em dois dias.

Katrina abriu os olhos, e neles Ichabod viu um brilho de astúcia que o lembrou de que ela era uma Van Tassel, criada entre segredos e tradições antigas.

— Deixaremos que meu pai faça o anúncio — disse ela calmamente. — E então, diante de todos, eu revelarei que o casamento é impossível. Eu direi que já entreguei meu coração e minha virtude ao homem que salvou Sleepy Hollow de seus próprios demônios.

— Brom não aceitará isso de forma pacífica — alertou Ichabod.

— Brom é um homem de força bruta, mas não possui honra suficiente para reivindicar uma mulher que ele sabe que pertence a outro em corpo e alma — afirmou Katrina. — E se ele tentar... bem, as tradições da vila são mais antigas do que a arrogância dele. Ninguém ousará forçar uma união sagrada que já foi quebrada por um amor verdadeiro.

Ichabod suspirou, sentindo o peso da responsabilidade, mas também uma coragem que nunca sentira antes. Ele não era mais apenas o investigador medroso de Nova York; ele era o homem que Katrina Van Tassel escolhera.

— Eu enfrentarei o que for preciso por você — prometeu ele. — Se tiver que enfrentar Brom, ou seu pai, ou o próprio Cavaleiro novamente, eu o farei.

— Você já enfrentou o maior desafio de todos, Ichabod — disse ela, acariciando o rosto dele. — Você enfrentou a si mesmo e permitiu-se amar.

Eles ficaram ali por mais algum tempo, ouvindo a chuva que voltava a cair, agora mais suave. A estufa, antes um lugar de tensão e sedução, era agora um santuário de paz. Ichabod olhou para as rosas escuras ao redor e pensou que, em Sleepy Hollow, a beleza e o terror caminhavam sempre de mãos dadas, mas que naquela noite, o amor encontrara uma maneira de florescer entre os espinhos.

— Precisamos voltar — sussurrou ele, embora não quisesse se mover. — Antes que sintam sua falta.

— Sim — concordou Katrina, levantando-se devagar e começando a se vestir com a ajuda dele. — Mas voltaremos como pessoas diferentes. O segredo que carregamos aqui embaixo é a nossa maior arma.

Enquanto Ichabod ajudava a fechar os laços do corpete dela, o mesmo que ele desatara com tanta hesitação horas antes, ele sentiu uma conexão inquebrável. Cada toque era um lembrete da entrega absoluta que testemunhara.

— Você é magnífica — disse ele, observando-a recompor sua imagem de dama da alta sociedade, embora soubesse que, por baixo daquela seda clara, ela agora carregava a marca dele.

— E você é meu — respondeu ela, dando-lhe um último beijo rápido e carregado de promessas.

Eles saíram da estufa separadamente, desaparecendo na névoa que ainda envolvia a propriedade. Ichabod caminhou de volta para o seu quarto, os sentidos ainda em êxtase, a mente finalmente em silêncio. Ele sabia que os próximos dias seriam de tempestade, que o escândalo abalaria as fundações de Sleepy Hollow e que sua lógica seria testada como nunca antes.

Mas, ao deitar-se em sua cama solitária, ele ainda conseguia sentir o cheiro de lavanda e terra úmida na própria pele. Ele fechou os olhos e viu a imagem de Katrina sob a luz das velas, a personificação de um mistério que ele não queria apenas resolver, mas viver para sempre.

O noivado de Brom Van Brunt estava morto antes mesmo de ser anunciado. E Ichabod Crane, o homem que não acreditava em magia, finalmente compreendeu que havia feitiços em Sleepy Hollow que eram muito mais poderosos do que qualquer lenda de cavaleiros sem cabeça: o feitiço de uma mulher decidida e o poder irrevogável de uma entrega por amor.