A Noiva de Sleepy Hollow
O Sacramento do Vidro e da Carne
A tempestade que rugia do lado de fora da estufa dos Van Tassel parecia querer arrancar os vidros de suas molduras de chumbo. O som era um bombardeio constante, um lembrete de que a natureza em Sleepy Hollow era indomável, violenta e indiferente aos contratos dos homens. Lá dentro, porém, o ar era denso, parado e carregado com o aroma inebriante de terra úmida, samambaias e o perfume adocicado demais das rosas escuras que Katrina cultivava com um zelo quase ritualístico.
Ichabod Crane sentia que sua mente, outrora um templo de engrenagens e lógica, estava se desfazendo. Ele olhava para Katrina e via não apenas a mulher que amava, mas uma força da natureza que o desarmava. Ela havia acabado de revelar o plano: a entrega total, a destruição de sua pureza para que o casamento com Brom se tornasse uma impossibilidade teológica e social.
— Katrina, isso é... é uma loucura — sussurrou Ichabod, a voz falhando enquanto ele recuava um passo, esbarrando em uma bancada de madeira. — O escândalo... seu pai... ele nunca nos perdoaria.
— Meu pai deseja alianças, Ichabod — disse ela, aproximando-se com a calma de um predador gracioso. — Mas ele teme a desonra mais do que deseja o ouro de Brom. Se eu não for mais a noiva imaculada que a vila espera, o contrato se desfaz como cinzas ao vento.
Ela parou diante dele. A luz das velas, protegidas por lanternas de vidro, criava sombras longas que dançavam sobre sua pele de alabastro. Com um movimento lento, Katrina levou as mãos aos laços de seu corpete. Ichabod observou, paralisado por um fascínio que beirava o terror, enquanto o tecido de seda clara escorregava pelos ombros dela, revelando a curva delicada de seus seios iluminados pelo brilho dourado e pelas faíscas ocasionais dos relâmpagos lá fora.
— Você me olha como se eu fosse um dos seus mistérios científicos — murmurou ela, um sorriso enigmático curvando seus lábios. — Mas não há lógica aqui, Ichabod. Há apenas o que o sangue exige.
Ela pegou as mãos dele. As mãos de Ichabod, longas e pálidas, tremiam violentamente. Ela as guiou até seu corpo, pressionando as palmas dele contra sua pele quente. O contraste era avassalador: o frio da noite e o calor febril daquela entrega.
— Eu não sou digno — ele arquejou, fechando os olhos enquanto sentia a maciez dela sob seus dedos. — Sou um homem de sombras, Katrina. Um estrangeiro com a mente cheia de fantasmas.
— Então deixe que eu seja o seu único fantasma agora — disse ela.
Katrina o conduziu até um banco de carvalho coberto por mantas de veludo pesado. Ela o empurrou suavemente para que ele se sentasse e, em seguida, ajoelhou-se entre as pernas dele. O gesto era de uma submissão aparente que escondia um domínio absoluto. Ichabod sentiu a garganta secar quando ela começou a desabotoar seu colete e sua camisa, expondo o peito magro e o batimento frenético de seu coração.
Ela não parou por ali. Seus dedos ágeis desfizeram os laços de suas calças, libertando-o da prisão de suas roupas vitorianas. Ichabod sentiu uma onda de vulnerabilidade que quase o fez fugir, mas o toque de Katrina era uma âncora. Quando ela o envolveu com as mãos, ele soltou um gemido que foi abafado pelo som de um trovão.
— Katrina... por favor...
— Shhh — ela o silenciou, olhando-o nos olhos. — Deixe-me cuidar de você primeiro. Quero que você esqueça o mundo. Quero que esqueça a lei.
Ela se inclinou para a frente. O primeiro toque de seus lábios e de sua língua foi uma revelação. Ichabod agarrou-se à borda da bancada de madeira, os nós de seus dedos ficando brancos. Ele nunca experimentara nada parecido; sua vida fora uma sucessão de repressões e traumas, e agora, aquela mulher, aquela bruxa de luz e seda, estava desmoronando todas as suas defesas.
A sensação era uma inundação. Katrina movia-se com uma confiança mística, usando a boca e a língua com uma habilidade que parecia extraída de textos proibidos. Ichabod sentia o prazer subir por sua espinha como eletricidade, nublando sua visão. Ele enterrou os dedos nos cabelos dourados dela, não para afastá-la, mas para se certificar de que ela era real, de que não era uma alucinação nascida da névoa de Sleepy Hollow.
— Oh, Deus... Katrina — ele murmurou, a cabeça caindo para trás, os olhos fixos nas gotas de chuva que corriam pelo teto de vidro como lágrimas de anjos.
Ela continuou, intensificando o ritmo, levando-o a um estado onde o tempo e o espaço deixavam de ter significado. Para Ichabod, cada movimento dela era um argumento irrefutável contra a razão. Ele estava se perdendo, e a perda era a coisa mais doce que já conhecera. Quando o ápice finalmente o atingiu, foi como uma explosão de luz branca, um espasmo de liberação que o deixou trêmulo e sem fôlego.
Katrina levantou-se lentamente, limpando um rastro de umidade do canto da boca com o polegar. Ela o olhou com uma ternura predatória.
— Agora — sussurrou ela —, você é meu. E eu serei sua.
Sem dar tempo para que ele se recuperasse, Katrina despojou-se do restante de suas roupas. Ela ficou nua diante dele, uma visão de perfeição gótica, com os cabelos caindo como uma cascata de ouro sobre os ombros. Ela se aproximou e montou em seu colo, horcajando-o com uma determinação que fez o coração de Ichabod saltar novamente.
Ela o guiou para dentro de si com um suspiro longo, fechando os olhos enquanto a união se completava. Ichabod soltou um arfar, suas mãos encontrando a cintura fina dela, segurando-a como se ela fosse o único objeto sólido em um universo em colapso.
— Olhe para mim, Ichabod — ordenou ela.
Ele abriu os olhos. O rosto de Katrina estava a centímetros do dele. Suas pupilas estavam dilatadas, refletindo a chama das velas. Ela começou a se mover, cavalgando-o com um ritmo lento e deliberado no início, que logo se transformou em uma urgência febril.
O som da carne contra a carne misturava-se ao chicotear da chuva. Ichabod sentia a força dela, o poder de uma Van Tassel que decidira quebrar o próprio destino. Ele a ajudava, impulsionando seu quadril contra o dela, sentindo a fricção e o calor que pareciam queimar a própria alma.
— Eu não posso deixá-la... não posso deixar que ele a toque — ele disse entre dentes, a possessividade surgindo nele como um veneno negro.
— Ele nunca tocará — respondeu ela, o ritmo ficando mais rápido, os seios balançando ritmicamente, as pontas endurecidas roçando o peito dele. — O que estamos fazendo aqui... é um pacto de sangue. Você me marcou, Ichabod. E eu marquei você.
A intensidade aumentou. Katrina jogou a cabeça para trás, as costas arqueadas, as mãos cravadas nos ombros dele. Ichabod sentia que estava sendo consumido. Ele era um homem de ciência, mas naquele momento, ele acreditava em cada feitiço, em cada maldição e em cada milagre que Sleepy Hollow já produzira.
O prazer era uma dor aguda, uma necessidade que exigia tudo dele. Ele a puxou para um beijo desesperado, provando o sabor de ambos, enquanto os movimentos dela se tornavam frenéticos. O mundo ao redor deles desapareceu. Não havia mais estufa, não havia mais vila, não havia mais Brom. Havia apenas aquele altar de vidro e a consagração de seu amor proibido.
Katrina soltou um grito agudo que foi abafado por um estrondo de trovão quando o clímax a atingiu. Suas paredes internas se contraíram ao redor dele em ondas de puro êxtase, e Ichabod, levado pela maré dela, seguiu-a para o abismo, entregando-se em uma última e violenta pulsação de prazer.
Eles permaneceram abraçados por um longo tempo, as respirações entrecortadas harmonizando-se com o som da tempestade que começava a diminuir. O suor esfriava em seus corpos, mas a conexão permanecia, vibrante e inquebrável.
— Está feito — sussurrou Katrina, escondendo o rosto no pescoço dele.
Ichabod acariciou as costas dela, sentindo a suavidade da pele e a força dos músculos. Ele sabia que o homem que entrara naquela estufa não era o mesmo que sairia. Ele havia abandonado a segurança de sua lógica fria por um calor que poderia destruí-lo, mas ele não se arrependia.
— O que acontecerá amanhã? — perguntou ele, a voz ainda trêmula.
— Amanhã — disse ela, afastando-se para olhá-lo, os olhos brilhando com uma inteligência afiada —, eu direi a Brom que ele não pode me ter. Direi que pertenço a outro. E quando ele exigir provas, ele verá em meus olhos que eu não minto.
— E seu pai?
— Meu pai ama a ordem — respondeu ela, começando a recolher suas roupas. — Mas ele respeita a vontade da terra. E a terra agora sabe que você é o meu senhor.
Ichabod levantou-se, sentindo uma nova dignidade, apesar de sua nudez. Ele ajudou Katrina a se vestir, seus dedos movendo-se com uma reverência que era quase religiosa. Cada botão que ele apertava, cada laço que ele amarrava, era um juramento silencioso de proteção.
— Eu não tenho nada a lhe oferecer, Katrina — disse ele, parando diante dela. — Apenas minha mente e meu coração assombrado.
— Você me ofereceu a liberdade, Ichabod — disse ela, pegando a mão dele e beijando a cicatriz que ele carregava na palma. — E em Sleepy Hollow, isso vale mais do que todo o ouro dos Van Tassel.
Eles saíram da estufa separadamente, como sombras que se desprendiam de um sonho. Ichabod caminhou pela lama e pela névoa em direção ao seu quarto na mansão, sentindo o peso do segredo em seu corpo como uma armadura. Ele olhou para trás uma última vez e viu a silhueta da estufa, um farol de vidro na escuridão, onde ele havia deixado para trás sua antiga vida.
Brom Van Brunt podia ter a força e o nome, mas Ichabod Crane tinha a alma da herdeira de Sleepy Hollow. E enquanto a névoa subia das águas do rio, ele soube que a batalha estava apenas começando, mas que ele já havia vencido a guerra mais importante: a guerra pela posse do coração — e do corpo — de Katrina Van Tassel.
Naquela noite, o Cavaleiro Sem Cabeça cavalgou pelas florestas, mas Ichabod não sentiu medo. Ele tinha algo mais poderoso do que a ciência para protegê-lo. Ele tinha o sacramento do vidro e da carne, e nada, nem vivo nem morto, poderia desfazer o que fora consumado sob o olhar das rosas escuras.