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A seleção

O Eco das Promessas Quebradas

A náusea matinal tornou-se a nova e cruel despertadora de Clara. Antes mesmo que os primeiros raios de sol atravessassem as frestas das janelas do alojamento das criadas, ela já estava curvada sobre o bacia de porcelana, o corpo tremendo sob o peso de um segredo que poderia custar sua vida. O estômago revirava não apenas pelo estado biológico, mas pelo terror absoluto. Ela era uma Seis. Estava grávida de um príncipe que, naquele exato momento, provavelmente estava decidindo qual das trinta e cinco garotas nobres tinha o sorriso mais encantador para as câmeras.

Clara lavou o rosto com água gelada, encarando-se no espelho embaçado. Suas bochechas, que Maxon costumava dizer que pareciam feitas de pêssego e veludo, estavam pálidas. Ela apertou o espartilho do uniforme um pouco mais do que o recomendado, ignorando o desconforto. Precisava disfarçar. Precisava ser a funcionária impecável que todos esperavam, enquanto o fruto de uma promessa de amor mentirosa crescia dentro dela.

Ao sair para o corredor de serviço, o burburinho sobre o encontro da noite anterior entre Maxon e America Singer já corria como pólvora entre as criadas.

— Dizem que ele a levou para ver as estrelas — sussurrou uma das meninas da cozinha enquanto passava por Clara. — Ele nunca pareceu tão interessado em ninguém.

Clara manteve o olhar fixo no chão, os punhos cerrados. Ela continuou seu caminho em direção à ala leste, onde os jardins eram menos frequentados a essa hora. Ela precisava de ar, longe do cheiro de comida e do perfume sufocante das selecionadas.

Ao chegar perto da guarita dos fundos, onde o muro do palácio encontrava a floresta, ela parou para respirar. O ar fresco da manhã ajudou a acalmar seu estômago, mas não sua mente.

— Você não deveria estar aqui fora sem um casaco, senhorita. O sereno desta manhã está traiçoeiro.

Clara deu um salto, levando a mão ao peito. Um soldado estava parado a poucos metros, encostado em uma pilastra de pedra. Ele não era um dos oficiais de elite que costumavam escoltar a família real; seu uniforme indicava que ele fazia parte da guarda externa, os homens que ficavam nas sombras para garantir que ninguém entrasse ou saísse sem permissão.

— Eu só precisava de um pouco de ar — respondeu Clara, recuperando a compostura e assumindo sua postura profissional. — Peço desculpas, senhor...

— Woodwork. Mas pode me chamar de Carter — disse ele, aproximando-se. Ele tinha um rosto jovem, marcado por uma pequena cicatriz na sobrancelha, e olhos que pareciam ver muito mais do que um soldado comum deveria. — Você é a Clara, não é? A responsável pela prataria e pelos aposentos reais.

Clara sentiu um arrepio. Ser notada nunca era bom para alguém em sua posição.

— Sou eu. Como sabe meu nome?

Carter deu um meio sorriso, chutando uma pedrinha no caminho de cascalho.

— Eu vejo você passar todos os dias. Você é a única que caminha como se estivesse carregando o peso do palácio inteiro nos ombros, mas ainda assim consegue manter a cabeça erguida. É difícil não notar.

— É apenas o cansaço do trabalho, Carter — mentiu ela, desviando o olhar. — O palácio está agitado com a Seleção.

— É, a Seleção — repetiu ele, o tom carregado de um desdém que surpreendeu Clara. — Trinta e cinco garotas competindo por uma coroa e um homem que não sabe o que quer. Enquanto isso, quem realmente faz este lugar funcionar mal tem tempo para respirar.

Clara olhou para ele com mais atenção. Havia uma sinceridade na voz dele que ela não ouvia há muito tempo. Maxon falava com ela com carinho, mas sempre havia uma barreira, uma condescendência de quem olha de cima para baixo. Carter falava com ela como se estivessem no mesmo nível.

— Você fala como se não aprovasse a tradição — comentou Clara, arriscando um pouco de conversa.

— Eu aprovo a felicidade, Clara. E não vejo muita gente feliz por aqui desde que as câmeras chegaram. Inclusive você.

Antes que ela pudesse responder, o sino do café da manhã tocou, ecoando pelas paredes de pedra. Era o sinal de que seu turno de verdade começaria.

— Preciso ir — disse ela apressadamente.

— Tome cuidado com os degraus da cozinha — disse Carter, sua voz suavizando. — Eles estão úmidos. E tente comer algo, você parece que vai desmaiar a qualquer momento.

Clara assentiu e saiu apressada, o coração batendo num ritmo diferente. Pela primeira vez em semanas, alguém a tinha visto. Não a "criada eficiente", não a "gordinha que serve o chá", mas a Clara.

O dia seguiu como um borrão de dor física e emocional. Ela teve que servir o lanche da tarde no jardim, onde Maxon estava rodeado por cinco selecionadas. Ele parecia radiante, rindo de uma piada que Celeste fizera. Quando Clara se aproximou para recolher as xícaras vazias, seus olhos se encontraram por um breve momento.

Maxon vacilou. O riso morreu em seus lábios por uma fração de segundo, e ele abriu a boca como se fosse dizer algo, mas America tocou seu braço para chamar sua atenção para um pássaro que passava, e ele se voltou para ela instantaneamente. O "eu te amo" que ele costumava sussurrar no ouvido de Clara agora parecia uma assombração.

Clara sentiu uma pontada aguda no baixo ventre e precisou se segurar na borda da mesa.

— Você está bem, querida? — perguntou Marlee, a selecionada de traços doces, olhando para Clara com preocupação genuína.

— Sim, senhorita. Apenas o calor — respondeu Clara, forçando um sorriso que parecia uma máscara de gesso.

— Maxon, veja como ela está pálida — insistiu Marlee. — Talvez ela deva descansar.

Maxon olhou para Clara, mas desta vez seu olhar era de puro pânico. Ele não via uma mulher sofrendo; ele via um risco. Ele via a evidência de seu passado secreto que poderia arruinar seu futuro perfeito com a "escolhida".

— Tenho certeza de que a governanta sabe gerenciar o pessoal, Marlee — disse Maxon, a voz fria e cortante. — Clara é uma profissional. Ela sabe quando precisa de uma pausa.

As palavras foram como chicotadas. Clara fez uma reverência, pegou a bandeja e saiu. Ela não chorou. Não ali. Ela caminhou até a despensa de limpeza, trancou a porta e desabou sobre um saco de batatas. Ela abraçou o próprio ventre, sentindo-se a mulher mais solitária de toda a Illéa.

— Ele não merece você — sussurrou para o bebê que ainda não tinha forma. — Ele não merece nem saber o seu nome.

Nas semanas seguintes, a rotina de Clara tornou-se um jogo de sobrevivência. Ela começou a usar aventais mais largos e a roubar pedaços de pão e frutas das sobras para manter as energias. Sua única válvula de escape eram os breves encontros matinais com Carter.

O soldado parecia sempre estar lá, no mesmo lugar, como uma sentinela silenciosa de sua sanidade.

— Você está comendo melhor — observou Carter certa manhã, entregando-lhe uma maçã vermelha que ele trouxera de fora. — Suas cores estão voltando, embora ainda pareça que não dorme há anos.

— O trabalho não para — disse ela, aceitando a fruta. — Por que você faz isso, Carter? Por que se importa com uma Seis que mal conhece?

Carter suspirou, olhando para o horizonte onde o sol começava a tingir o céu de laranja.

— Porque eu sei o que é ser invisível, Clara. Eu vim de uma família de Sete. Meu pai trabalhava na construção até quebrar as costas, e ninguém no palácio sequer enviou um cartão de melhoras. Eu entrei para a guarda para garantir que minha mãe não passasse fome, mas não deixei minha alma na porta de entrada. Eu vejo as pessoas. E eu vejo que você está passando por algo que é maior do que polir pratas.

Clara sentiu a garganta apertar. A vontade de contar a verdade era quase insuportável. Ela queria gritar que estava carregando um herdeiro que nunca seria legítimo, que amava um homem que a tratava como um erro de percurso.

— Eu só estou tentando sobreviver, Carter — disse ela, a voz embargada.

— Se precisar de um lugar para ir... se as coisas ficarem difíceis demais aqui dentro... — Carter deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Eu tenho amigos na resistência. Não os rebeldes que atacam o palácio, mas pessoas que ajudam aqueles que o sistema quer esmagar. Você não está sozinha.

Clara olhou para as mãos calejadas do soldado e depois para o palácio imponente atrás dela. Lá dentro, Maxon estava provavelmente acordando em seus lençóis de seda, preocupado com o próximo encontro ou com o que o Rei Clarkson diria sobre sua postura. Aqui fora, um homem que não tinha nada lhe oferecia tudo.

— Por que me ajudaria dessa forma? — perguntou ela, uma lágrima finalmente escapando.

Carter estendeu a mão e, com uma delicadeza que ela nunca esperaria de um soldado, limpou a lágrima de seu rosto.

— Porque ninguém deveria ter que carregar o mundo inteiro sozinha, Clara. Especialmente alguém com um coração tão grande quanto o seu.

Naquela noite, o palácio estava em festa. Era o primeiro baile oficial da Seleção. Clara foi designada para servir as bebidas no salão principal. O brilho dos diamantes e o som da orquestra criavam uma atmosfera de conto de fadas que, para ela, parecia um pesadelo grotesco.

Ela viu Maxon dançando com America. Eles pareciam a imagem perfeita da monarquia. Ele sussurrava algo no ouvido dela, e America ria, encostando a cabeça no ombro dele. Clara sentiu uma náusea súbita, mas desta vez não era física. Era o nojo de ter acreditado que aquelas mesmas palavras, aquele mesmo toque, eram exclusivos dela.

Enquanto passava com a bandeja de champanhe, Maxon tropeçou levemente ao trocar de passo na valsa e acabou esbarrando nela. Algumas taças balançaram, e o líquido espirrou no paletó impecável do príncipe.

O salão pareceu congelar.

— Oh, sinto muito, Vossa Alteza! — exclamou Clara, agindo por instinto e pegando um lenço para limpar o tecido.

Maxon a empurrou bruscamente. Não foi um empurrão forte o suficiente para derrubá-la, mas foi o suficiente para que todos vissem o seu desprezo.

— Tenha mais cuidado, sua imbecil! — gritou ele, a voz ecoando pelo salão. — Você não vê por onde anda? Olhe para você, sempre tão desajeitada. Saia da minha frente!

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. America olhou para Maxon com uma expressão de choque, e o Rei Clarkson, do seu trono, deu um sorriso de aprovação pela "autoridade" do filho.

Clara sentiu o sangue fugir de seu rosto. Ela não sentiu vergonha; sentiu uma clareza cortante. Aquele homem não era o seu Maxon. O homem que ela amava nunca existiu; era apenas uma projeção de suas próprias carências. O homem diante dela era um estranho coroado, um covarde que a humilhava para provar sua lealdade a um sistema que a odiava.

— Peço perdão, Vossa Alteza — disse ela, a voz tão fria e firme que alguns convidados estremeceram. Ela fez uma reverência lenta, mantendo o olhar fixo no dele. — Isso não voltará a acontecer. Nunca mais.

Ela se virou e caminhou para fora do salão com uma dignidade que nenhuma das selecionadas poderia imitar. Ela não correu para o quarto. Ela foi direto para os jardins dos fundos.

A chuva começava a cair, fina e gelada. Carter estava em seu posto, a capa de chuva brilhando sob a luz das tochas. Quando ele a viu chegar, com o uniforme manchado e os olhos ardendo de determinação, ele não fez perguntas.

— Carter — disse ela, parando diante dele.

— Eu ouvi os gritos lá de dentro — disse ele, a voz baixa e furiosa. — Eu sinto muito, Clara.

— Não sinta. Ele me deu o maior presente que eu poderia receber hoje: a certeza de que não devo nada a este lugar.

Ela respirou fundo, colocando a mão sobre o ventre, que agora parecia um pouco mais proeminente sob o uniforme molhado.

— Você disse que conhecia pessoas. Pessoas que poderiam me ajudar a sumir.

Carter olhou para ela com uma mistura de tristeza e esperança.

— Você tem certeza? Se você sair agora, não poderá voltar.

— Eu não quero voltar — afirmou ela. — Eu tenho algo para proteger agora. Algo que vale muito mais do que essa coroa de espinhos que eles chamam de realeza.

Carter assentiu solenemente. Ele tirou o próprio casaco de lã por baixo da capa de chuva e o colocou sobre os ombros de Clara.

— Então vamos. Eu vou tirar você daqui, Clara. E eu juro pela minha vida que ninguém vai encostar um dedo em você ou no seu filho.

— Como você... — ela começou, surpresa.

— Eu te disse — interrompeu ele com um sorriso triste. — Eu vejo você, Clara. Desde o primeiro dia.

Enquanto o palácio de Illéa continuava sua festa, celebrando um amor de fachada sob luzes artificiais, duas sombras se moviam rapidamente em direção à floresta. Clara não olhou para trás. Ela não precisava de um príncipe, de uma casta ou de uma promessa de vidro. Ela tinha a chuva no rosto, um amigo ao lado e uma vida nova batendo dentro de si. Pela primeira vez em muito tempo, a Seis que limpava o chão sentia-se como a verdadeira rainha de seu próprio destino.