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A surpresa

Onde o Gelo se Derrete

Nos dias que se seguiram à chegada de Zemina, a rotina no castelo da família Bayezid mudou drasticamente. O temido "Espadachim Estelar", o guerreiro implacável que enfrentava dragões e demônios sem hesitar, havia se transformado, essencialmente, na sombra de uma jovem de cabelos vermelhos. Onde quer que Zemina fosse, Vlad estava logo atrás. Se ela caminhava pelos jardins, os cabelos dourados dele reluziam logo atrás dela; se ela ia até a biblioteca, ele se sentava ao seu lado, observando-a ler com uma atenção que beirava a adoração.

Os corredores de pedra do castelo, antes preenchidos pelo som pesado de armaduras e conversas sobre táticas de guerra, agora ecoavam com as risadas abafadas dos cavaleiros.

— Olhe só para aquilo — sussurrou Goethe, encostado em uma pilastra do pátio principal, observando a cena distante. — O homem que decapitou o verme da morte agora parece um filhote de lobo seguindo a mãe.

Potree Canore, que limpava sua espada ali perto, soltou uma gargalhada rouca.

— Eu nunca pensei que veria o grande Vlad carregar uma cesta de frutas como se fosse o tesouro mais valioso do reino. Rutiger realmente sabe como desarmar um monstro.

Vlad, no entanto, não se importava nem um pouco com os comentários ou com os olhares divertidos de seus antigos companheiros de mercenário. Para ele, o resto do mundo continuava sendo apenas um cenário de fundo. Sua prioridade absoluta era a garota à sua frente. Tudo o que Zemina pedia, ou mesmo sugeria, tornava-se uma ordem inquestionável para o espadachim.

— Vlad, você não precisa carregar isso, está leve — disse Zemina, parando no meio do corredor e olhando para trás com uma expressão levemente exasperada.

— Está pesada demais para você — respondeu Vlad imediatamente, a voz calma, mas firme, enquanto segurava a cesta com apenas dois dedos, demonstrando sua força descomunal. — E o chão está úmido. Se você escorregar, eu preciso estar perto para segurá-la.

— Eu vivi nas ruas do subúrbio por anos, Vlad. Eu sei andar no chão úmido — retrucou ela, arqueando uma sobrancelha vermelha.

— Isso foi antes. Agora eu estou aqui — insistiu ele, sem recuar um único centímetro.

Zemina suspirou, mas um sorriso carinhoso ameaçou surgir em seus lábios. A implicância entre os dois era constante, uma dança de teimosia que apenas eles entendiam. No entanto, os outros logo começaram a perceber um lado consideravelmente mais perigoso dessa nova dinâmica: o ciúme possessivo de Vlad.

Mais tarde naquele mesmo dia, enquanto caminhavam pelo pátio de treinamento, um jovem cavaleiro recém-recrutado, que não conhecia a história do casal, aproximou-se de Zemina para lhe oferecer direções, deixando sua mão chegar perto demais do ombro da jovem para indicar um caminho.

Em uma fração de segundo, a atmosfera ao redor deles congelou. O ar pareceu ficar pesado, saturado com uma intenção assassina tão densa que o jovem cavaleiro empalideceu instantaneamente. Vlad deu um passo à frente, sua estatura alta e porte atlético obscurecendo a luz do sol sobre o recruta. Seus olhos azuis claros, geralmente tão serenos, transformaram-se em duas fendas de gelo cortante. O olhar de Vlad prometia nada menos que a destruição completa daquele homem se ele ousasse tocar em um único fio de cabelo de Zemina.

O recruta começou a tremer, a mão congelada no ar, incapaz de respirar sob a pressão da aura do mestre da espada.

— Vlad! — exclamou Zemina.

Antes que o espadachim pudesse desembainhar seu olhar ainda mais profundamente, Zemina ergueu a mão e desferiu um soco sonoro bem no topo da cabeça loira de Vlad.

O som do impacto ecoou pelo pátio. Cavaleiros veteranos que assistiam de longe prenderam a respiração, esperando uma reação violenta. Afinal, ninguém tocava em Vlad daquela forma e saía ileso.

No entanto, a reação de Vlad foi imediata e completamente oposta. A aura assassina desapareceu no ar como fumaça. Ele encolheu os ombros ligeiramente, levando a mão ao lugar do golpe, e olhou para Zemina com uma expressão de cachorro sem dono, os olhos azuis totalmente desarmados.

— Pare de encarar as pessoas assim! Você vai acabar matando o coitado de susto! — ralhou ela, cruzando os braços e batendo o pé no chão.

— Ele ia tocar em você — resmungou Vlad, a voz baixa, quase como um sussurro defensivo.

— Ele estava apenas sendo educado! Peça desculpas! — ordenou ela.

Vlad olhou de soslaio para o recruta, que ainda parecia prestes a desmaiar, e deu um aceno de cabeça minimalista, o máximo de desculpas que seu orgulho permitia. O jovem cavaleiro murmurou algo incompreensível e saiu correndo dali o mais rápido que suas pernas permitiam.

Assim que ficaram sozinhos novamente, a postura rígida de Vlad se desfez. Ele se inclinou para frente, aproveitando a diferença de altura, e enterrou o rosto nos cabelos vermelhos e curtos de Zemina, aspirando o perfume familiar que sempre o acalmava.

— Você é inacreditável — sussurrou Zemina, embora não se afastasse, permitindo que ele se apoiasse nela.

— Senti sua falta por muito tempo — respondeu Vlad contra os fios vermelhos. — Não vou me afastar agora.

A tarde avançou, e o castelo começou a se preparar para o jantar. Em um dos corredores mais isolados da ala leste, perto das antigas tapeçarias da família Bayezid, o silêncio era quase absoluto. Era um lugar onde poucos cavaleiros passavam àquela hora.

Lady Alicia caminhava calmamente por ali, segurando um livro de poesias. Seus pensamentos ainda estavam nublados pelos acontecimentos da noite anterior. Ela tentava, de todas as formas, aceitar a realidade que se impunha diante de seus olhos, mas o coração de uma nobre orgulhosa não se dobrava tão facilmente. Ela queria entender o que Zemina tinha que ela, com toda a sua riqueza e influência, não possuía.

Ao dobrar a esquina do corredor, Alicia parou abruptamente. Seus passos foram abafados pelo tapete grosso, e ela prendeu a respiração.

A poucos metros dali, Vlad e Zemina estavam envoltos em uma atmosfera que exalava uma intensidade avassaladora. Vlad havia prendido Zemina delicadamente contra a parede de pedra. Suas mãos grandes estavam espalmadas de cada lado da cabeça dela, encurralando-a em seu próprio espaço. O contraste entre o corpo robusto e imponente dele, vestido com sua túnica escura, e a silhueta esguia e delicada de Zemina era impressionante.

Mas o que realmente chocou Alicia foi a expressão de Vlad. Não havia calma ou distância ali. Seus olhos azuis queimavam com uma paixão fervorosa, uma fome que Alicia nunca imaginou que o "espadachim de gelo" pudesse possuir.

— Vlad... alguém pode ver — murmurou Zemina, a voz trêmula, as mãos espalmadas contra o peito dele, tentando manter uma distância que claramente não queria.

— Não me importo — respondeu ele, a voz rouca e determinada.

Antes que Zemina pudesse protestar novamente, Vlad se inclinou e a beijou. Foi um beijo profundo, possessivo e cheio de uma entrega absoluta. Zemina soltou um suspiro baixo, seus dedos se enterrando nos cabelos dourados de Vlad, puxando-o para mais perto enquanto se entregava ao toque dele. Vlad moveu uma das mãos para a cintura dela, puxando-a para cima, colando seus corpos de uma forma que demonstrava que ele nunca, em hipótese alguma, a deixaria ir.

Alicia deu um passo para trás, as costas tocando a parede oposta. Seus olhos estavam arregalados, e uma pontada aguda de dor atravessou seu peito. Ela viu a verdade nua e crua. O respeito que Vlad demonstrava por ela, os agradecimentos formais, a proteção cavalheiresca... tudo aquilo era apenas o dever de um homem justo. Mas aquilo ali? Aquele fogo, aquela necessidade desesperada de estar perto de outra alma? Aquilo pertencia única e exclusivamente a Zemina.

Sem fazer o menor ruído, Alicia deu meia-volta e caminhou na direção oposta. Ela escolheu guardar o que vira para si mesma. Não havia espaço para intrigas ou tentativas de conquista. A batalha pelo coração de Vlad nunca existira; a vitória de Zemina havia sido decretada na infância deles, nos subúrbios miseráveis onde ninguém mais olhava por eles.

Uma hora depois, o grande salão de banquetes estava novamente preenchido pela liderança dos Bayezid. Josef estava sentado à cabeceira, conversando em tom baixo com Jager Lamund sobre os suprimentos de inverno. Rutiger e Ramund discutiam técnicas de combate corporal, enquanto Goethe e Potree Canore serviam-se de vinho.

As portas do salão se abriram, e Vlad e Zemina entraram juntos.

Imediatamente, um silêncio curioso se instalou na mesa. Todos os olhos se voltaram para o casal.

Zemina estava visivelmente diferente. Suas bochechas ostentavam um tom de vermelho tão intenso que rivalizava com a cor de seus próprios cabelos. Ela tentava manter a postura, mas desviava o olhar de todos, ajustando nervosamente a gola de seu vestido verde-esmeralda, que parecia ligeiramente desalinhada.

Por outro lado, Vlad exibia uma expressão que ninguém ali jamais vira em seu rosto. O jovem espadachim, conhecido por sua rigidez militar e seriedade inabalável, estava com um sorriso radiante de orelha a orelha. Seus olhos azuis brilhavam com uma satisfação absoluta, e ele caminhava com uma leveza que parecia flutuar.

Rutiger ergueu a taça de vinho, um sorriso malicioso cruzando seus lábios enquanto olhava de Vlad para Zemina.

— Ora, ora... — comentou Rutiger, quebrando o silêncio com uma voz arrastada. — Parece que o ar do castelo está fazendo muito bem para os nossos convidados. Você parece muito bem disposta, senhorita Zemina. E o Vlad... bem, eu não sabia que ele conseguia sorrir tanto sem que estivéssemos ganhando uma guerra.

Goethe soltou uma risadinha, cutucando Potree com o cotovelo.

— Acho que o treinamento de hoje foi mais intenso do que esperávamos, não é, Vlad?

Zemina escondeu o rosto entre as mãos por um segundo, sentindo o calor subir ainda mais por seu pescoço.

— Por favor, mudem de assunto — pediu ela, a voz abafada, o que só fez os cavaleiros rirem mais alto.

Vlad, no entanto, não perdeu o sorriso por um único segundo. Ele puxou a cadeira para Zemina com extrema fidalguia e, assim que ela se sentou, ele ocupou o lugar ao lado, colocando um braço sobre o encosto da cadeira dela, marcando seu território de forma sutil, mas clara.

— O jantar está excelente, Rutiger — disse Vlad, ignorando as provocações com uma superioridade bem-humorada que surpreendeu a todos. — Obrigado por perguntar.

Josef Bayezid observava a cena com um olhar caloroso. Ele olhou para Jager, que apenas assentiu com a cabeça, exibindo o orgulho de um mestre que via seu pupilo encontrar a verdadeira felicidade.

Lady Alicia permaneceu sentada em seu lugar, observando a interação. Ela olhou para Zemina, que agora tentava acalmar o rubor de suas bochechas enquanto aceitava um pedaço de pão que Vlad havia cortado delicadamente para ela. Alicia sentiu a tristeza inicial se transformar em uma aceitação pacífica. Ela ergueu discretamente sua taça em direção ao casal, um brinde silencioso à lealdade e ao amor que nenhuma força no mundo seria capaz de corromper.

Naquela noite, sob o teto do castelo dos Bayezid, o mestre da espada estelar não era o herói de uma profecia ou o guerreiro temido por monstros. Ele era apenas um homem que, após uma longa e dolorosa jornada através da escuridão, havia finalmente retornado para casa, encontrando seu porto seguro nos braços daquela que sempre fora sua única e verdadeira luz.

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