A trouxa
Sussurros de Musgo e Medo
O vento de outono soprava através das frestas da pequena cabana improvisada, carregando o cheiro de terra úmida e o presságio de uma guerra que Clara não podia mais ignorar. O ano era 1996, e Hogwarts, que um dia fora o seu refúgio, agora parecia uma gaiola de vidro prestes a estilhaçar. O Enigma do Príncipe estava em curso, e o ar da escola tornara-se pesado, saturado com a magia negra que emanava de Draco Malfoy e das sombras que Lord Voldemort projetava sobre o castelo.
Clara sentou-se sobre o cobertor puído, abraçando os próprios joelhos. Ela estava mais magra, o rosto redondo que antes era alvo de piadas agora exibia maçãs do rosto mais proeminentes e olheiras profundas. Ela não aguentava mais. A pressão de ser a única a conhecer a verdadeira face de Tom Riddle, a agonia de ver Harry Potter lutar contra um destino que ela sabia ser cruel, e, acima de tudo, o terror paralisante que sentia toda vez que fechava os olhos e via aquele par de olhos escarlates.
Ela havia fugido. Não para o mundo trouxa, onde seus pais já não a reconheceriam como a filha que partira anos atrás, mas para as profundezas da Floresta Proibida. Ali, entre as árvores milenares e o silêncio quebrado apenas pelo estalar de galhos, ela se sentia, pela primeira vez em anos, minimamente segura. Ou, pelo menos, escondida.
— Você não pode se esconder para sempre, Clara — sussurrou ela para si mesma, a voz rouca pelo desuso. — Ele vai descobrir. Ele sempre descobre.
A percepção de que sua tentativa de salvar Tom Riddle fora um erro colossal atingira Clara como uma maldição *Cruciatus* na alma. Durante anos, ela se apegara à memória daquele beijo no laboratório de poções, àquela fração de segundo em que acreditara ter visto um vislumbre de humanidade no jovem prodígio da Sonserina. Mas agora, com o retorno oficial de Voldemort e os relatos de suas atrocidades chegando diariamente através do Profeta Diário, a ficha finalmente caíra.
Não havia nada para salvar. O que ela amara era uma miragem, uma construção cuidadosa de um mestre da manipulação que usara até mesmo o afeto dela para testar seus próprios limites. Ela não fora a mulher que ele amara; ela fora o experimento de laboratório dele para entender a fraqueza humana.
Um ruído do lado de fora da cabana a fez congelar. Clara tateou em busca da varinha, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado.
— Quem está aí? — perguntou ela, a voz falhando.
O som de cascos contra o solo macio precedeu a aparição de uma figura imponente. Firenze, o centauro, parou diante da entrada da cabana, seus olhos azuis como safiras observando-a com uma melancolia milenar.
— O medo é um perfume forte, filha de Eva — disse Firenze, inclinando levemente a cabeça. — Ele atrai predadores que você ainda não está pronta para enfrentar.
Clara relaxou os ombros, mas não soltou a varinha.
— Ele está vindo, não está? — perguntou ela, as lágrimas pinicando seus olhos. — Eu tentei, Firenze. Eu juro que tentei mostrar a ele que o mundo não precisava ser dor. Eu tentei salvá-lo de se tornar o que ele é agora.
Firenze deu um passo à frente, a luz da lua filtrada pelas copas das árvores iluminando sua pele pálida.
— Você tentou segurar o sol com as mãos nuas e se pergunta por que se queimou — disse o centauro, sua voz suave e profunda. — Algumas almas não são quebradas, Clara. Elas são forjadas no frio, e o calor apenas as enfraquece. Você não estava salvando-o; você estava apenas adiando o inevitável para si mesma.
— Agora eu tenho medo dele — confessou ela, um soluço escapando de sua garganta. — Pela primeira vez, eu não sinto saudade. Eu sinto um pavor que me impede de respirar. Eu o vejo em cada sombra. Eu sinto o toque frio dele no meu pescoço toda vez que o vento sopra.
Firenze olhou para as estrelas, que brilhavam intensamente acima da clareira.
— Marte está brilhante esta noite. A guerra não poupará nem mesmo aqueles que se escondem nas sombras das árvores. Você sabe o que ele está fazendo no castelo, não sabe?
Clara assentiu, limpando o rosto com a manga das vestes sujas.
— O Enigma do Príncipe... o livro, o Draco, a torre... Eu sei como isso termina. Ou como deveria terminar. Mas nada é igual agora. Minha presença aqui mudou as peças do tabuleiro, mas não o resultado final. Ele ainda é o monstro, e eu ainda sou a garota que ele quer destruir por ter visto sua fraqueza.
— Então por que você permanece aqui? — perguntou Firenze. — A floresta lhe dá abrigo, mas não lhe dá um futuro.
— Porque aqui ele não pode me ver — disse Clara, embora soubesse que era uma mentira. — Se eu ficar em Hogwarts, se eu cruzar o caminho de Harry ou de Dumbledore, eu me tornarei um alvo. E eu não sou corajosa, Firenze. Eu sou apenas uma Sonserina excluída que queria ser amada por um demônio.
Firenze suspirou, um som que pareceu o vento passando pelas folhas secas.
— O medo é uma bússola, Clara. Ele está lhe dizendo para onde não ir. Mas cuidado para não deixar que ele a transforme em algo que você despreza.
O centauro virou-se e desapareceu na escuridão da floresta com a mesma elegância com que chegara, deixando Clara sozinha com seus pensamentos e o silêncio opressor.
Ela voltou para dentro da cabana e acendeu uma pequena vela. Sobre a mesa improvisada, o anel de prata que ela roubara de Tom em 1943 brilhava fracamente. Ela o odiava agora. O objeto, que antes era uma relíquia de um amor perdido, agora parecia um pedaço de osso frio, um lembrete constante de sua própria estupidez.
Ela pegou o anel, sentindo o metal gélido contra sua pele. Por um momento, ela fechou os olhos e foi transportada de volta para aquela noite na Sala Comum da Sonserina em 1992, quando a memória de Tom, através de Gina, a chamara de traidora.
— "Eu o transformei em vingança" — sussurrou ela, repetindo as palavras dele.
Clara percebeu, com um calafrio, que Voldemort não a esquecera. Ele não era o tipo de homem que deixava pontas soltas. Se ele soubesse que a garota que conhecera nos anos 40 estava viva, em Hogwarts, e que ela possuía o conhecimento de sua ascensão e de suas fraquezas... ele não descansaria até que ela fosse eliminada.
— Ele não vai me matar por amor — disse ela para as paredes de madeira. — Ele vai me matar porque eu sou a prova de que ele já foi humano. E ele odeia a humanidade acima de tudo.
A percepção de que ela era uma ameaça para o Lorde das Trevas não a fez se sentir poderosa. Fez com que ela se sentisse como uma presa encurralada. Ela olhou para o próprio corpo, para as mãos trêmulas. Ela nunca fora uma duelista brilhante, nunca fora a melhor em feitiços de ataque. Sua única arma fora a empatia, e essa arma fora quebrada e usada contra ela.
Horas se passaram. O sono de Clara foi agitado, povoado por visões de corredores escuros e o som de uma risada fria que ecoava pelas masmorras. Ela acordou com o som de passos pesados perto de sua cabana. Não eram cascos de centauros. Eram passos humanos, deliberados.
Clara pegou a varinha e se encostou na parede ao lado da porta, prendendo a respiração.
— Eu sei que você está aí, Clara.
A voz era jovem, mas carregada de uma fadiga que não pertencia a alguém de dezesseis anos. Clara relaxou ligeiramente ao reconhecer o tom aristocrático e arrastado.
— Draco? — chamou ela, abrindo a porta apenas uma fresta.
Draco Malfoy estava parado na clareira, o rosto mais pálido do que o normal, quase translúcido sob a luz do amanhecer. Seus olhos estavam fundos, e ele parecia carregar o peso do mundo em seus ombros magros.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Clara, saindo da cabana, mas mantendo a varinha baixa. — Como me encontrou?
— Eu te segui semanas atrás — confessou Draco, sem olhá-la nos olhos. — Você é a única pessoa na Sonserina que não olha para mim com expectativa ou medo. Você olha para mim como se eu já estivesse morto.
Clara sentiu uma pontada de piedade, mas o medo foi maior.
— Você não deveria estar aqui, Draco. Se ele souber...
— Ele já sabe de tudo, Clara — interrompeu Draco, sua voz quebrando. — Ele sabe que você está aqui. Ele me perguntou sobre você. Sobre a "garota que não pertence ao tempo".
Clara sentiu o sangue fugir de seu rosto. O mundo pareceu girar.
— O que você disse a ele? — sussurrou ela.
— Eu disse que você era louca. Que vivia na floresta falando sozinha — Draco finalmente olhou para ela, e Clara viu o terror puro refletido em suas pupilas. — Mas ele sorriu, Clara. Eu nunca vi o Lorde das Trevas sorrir daquela maneira. Ele disse que você era um "fantasma adorável" que ele pretendia exorcizar pessoalmente.
Clara sentiu os joelhos fraquejarem e sentou-se no tronco de uma árvore caída. A floresta, que parecia um refúgio, agora parecia uma armadilha.
— Eu tentei salvá-lo, Draco — disse ela, as palavras saindo sem controle. — Há muito tempo, em outro lugar... eu achei que podia mudar o fim da história. Mas a história não quer ser mudada. Ela só quer ser escrita em sangue.
Draco aproximou-se, sentando-se a uma distância segura.
— Ele me deu uma tarefa — sussurrou o garoto. — Uma tarefa impossível. E se eu falhar, ele vai matar meus pais. Ele vai me matar.
— Eu sei o que você tem que fazer — disse Clara, olhando para as mãos dele. — E eu sei que você não quer fazer isso. Mas escute bem, Draco: não espere por misericórdia. Ele não conhece essa palavra. Eu passei anos tentando encontrar um rastro dela no coração dele, e tudo o que encontrei foi um abismo.
— Por que você tem tanto medo dele? — perguntou Draco, curioso apesar de seu próprio sofrimento. — Você fala dele como se o conhecesse. Não como o Lorde das Trevas, mas como... um homem.
Clara deu um sorriso triste, desprovido de qualquer humor.
— Porque eu conheci o garoto que ele era. E aquele garoto era muito mais perigoso do que o monstro que ele é hoje. O monstro você pode ver, pode combater com magia. Mas o garoto... o garoto te faz baixar a guarda. Ele te faz acreditar que você é especial.
Ela se levantou, sentindo uma resolução súbita e amarga.
— Você precisa ir, Draco. Volte para o castelo. Termine o que começou, ou fuja enquanto pode. Mas não venha mais aqui.
— E você? — perguntou Draco, levantando-se também. — Vai ficar aqui esperando que ele venha te buscar?
Clara olhou para a pequena cabana, para o anel de prata sobre a mesa e para a imensidão escura da floresta.
— Eu vou fazer o que deveria ter feito em 1943 — disse ela, sua voz agora firme, embora o medo ainda estivesse lá, enterrado sob a superfície. — Vou parar de tentar salvá-lo e começar a tentar sobreviver a ele.
Draco assentiu silenciosamente e deu as costas, desaparecendo por entre as árvores em direção ao castelo.
Clara entrou na cabana e pegou o anel de prata. Ela caminhou até um pequeno riacho que corria perto dali e, sem hesitar, jogou a joia nas águas turvas. O anel afundou rapidamente, desaparecendo sob o lodo e as pedras.
— Acabou, Tom — sussurrou ela para a correnteza. — Não há mais luz para você aqui.
Naquela noite, Clara não dormiu. Ela reforçou os feitiços de proteção ao redor de sua cabana, não com a esperança de que eles parassem Lord Voldemort, mas com a determinação de que ela não seria levada sem lutar.
Ela percebeu que a floresta não era um esconderijo, mas um campo de batalha. E ela, a garota gordinha e excluída da Sonserina, a "sangue-ruim" que ousara amar o herdeiro de Slytherin, finalmente aceitara a verdade mais dolorosa de todas.
O medo que ela sentia não era uma fraqueza. Era o reconhecimento da realidade. Tom Riddle estava morto. O que restara era uma sombra faminta que não pararia até consumir tudo o que ela era.
Clara sentou-se à entrada da cabana, a varinha em punho, observando o horizonte onde o sol começava a surgir, tingindo o céu de um vermelho que lembrava, dolorosamente, os olhos do homem que ela um dia chamara de seu.
Ela não ia mais tentar salvá-lo. Ela ia lutar para que ele não a destruísse. E, no Enigma do Príncipe, onde as traições e as mortes eram a moeda corrente, Clara finalmente encontrou sua própria espécie de coragem: a coragem de quem não tem mais nada a perder, exceto a própria vida.
O vento soprou novamente, mas desta vez Clara não estremeceu. Ela apenas apertou a varinha com mais força e esperou. O fim estava chegando, e ela estaria pronta para enfrentá-lo, não como a amante de um monstro, mas como a mulher que sobreviveu à sua própria ilusão.