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Abbie !

O Banquete do Erro

O silêncio na sala vermelha era cortado apenas pelo som rítmico e metálico das garras de Miss Circle batendo contra o chão de madeira. Abbie estava paralisado. O terror que sentia não era mais aquela onda frenética que o fizera correr pelos corredores da Paper School; agora, era um medo frio, denso e paralisante. Ele estava firmemente amarrado a uma cadeira de madeira pesada, com cordas que apertavam seu colete preto e imobilizavam seus braços.

A gravata preta, antes parte de seu uniforme impecável, agora servia como uma mordaça cruel, pressionando sua língua e abafando qualquer tentativa de grito. Seus olhos, pequenas fendas pretas dilatadas pelo pânico, seguiam cada movimento da professora de matemática. O caule de maçã em seu cabelo parecia murchar conforme ele tremia violentamente.

Miss Circle soltou uma risada baixa, um som gutural que parecia vir do fundo de sua garganta. Ela segurava um dispositivo de comunicação, observando Abbie com uma fome predatória que ia além da simples disciplina escolar. Para ela, aquela nota baixa não era apenas um fracasso acadêmico, era um convite para a caça.

— Mmm-mmmph! — Abbie tentou gritar, forçando os ombros contra o encosto da cadeira. As lágrimas começavam a arder em seus olhos, embaçando a visão da figura alta e pontiaguda à sua frente.

— Shh... — sussurrou Miss Circle, inclinando-se até que seu rosto estivesse a poucos centímetros do dele. O cheiro de papel antigo e algo metálico, como sangue seco, emanava dela. — Guarde o fôlego, Abbie. Você vai precisar dele para mais tarde.

Com um movimento ágil de suas garras, ela acionou uma chamada de vídeo no dispositivo. A tela brilhou, iluminando o rosto pálido de Abbie com uma luz azulada e doentia. Em poucos segundos, duas figuras familiares apareceram na transmissão: Miss Bloomie e Miss Thavel.

— Vejam só quem eu encontrei escondido como uma pequena praga — disse Miss Circle, virando a câmera para focar no rosto desesperado de Abbie. — O nosso ratinho tentou fugir, mas ele esqueceu que eu conheço cada ratoeira desta escola.

Na tela, Miss Bloomie soltou um risinho agudo, ajustando o que parecia ser uma lâmina circular em sua mão. Seus olhos brilharam com uma malícia indisfarçável.

— Ora, ora... o pequeno Abbie — disse Bloomie, sua voz carregada de um sarcasmo venenoso. — Ele sempre foi tão esforçado, não é? É uma pena que o esforço dele não tenha sido suficiente para salvar a própria pele.

Miss Thavel, com sua aparência imponente e expressões que beiravam o selvagem, soltou um rosnado de aprovação.

— Ele parece tão... vulnerável — comentou Thavel, passando a língua pelos lábios de forma ameaçadora. — Circle, você sempre fica com as melhores presas. Espero que tenha deixado um pedaço para nós. A matemática pode ser amarga, mas o castigo... ah, o castigo é sempre doce.

Abbie começou a se debater com mais força. O som de seus gemidos abafados preenchia a sala, um coro de desespero que só servia para divertir as três professoras. Ele tentava formar palavras, tentava implorar por uma segunda chance, por uma recuperação, por qualquer coisa que não fosse aquele destino cruel. Mas a gravata em sua boca tornava tudo ininteligível.

— Mmpgh! Nn-mppgh! — Ele balançava a cabeça freneticamente, as lágrimas agora escorrendo livremente pelas bochechas e sumindo sob o tecido preto da mordaça.

Miss Circle deu um passo à frente e, com uma mão, segurou o queixo de Abbie com força, forçando-o a olhar diretamente para a câmera, para as faces cruéis de suas colegas.

— Fique quietinho, ratinho — ordenou ela, sua voz caindo para um tom perigosamente baixo. — Você não quer que eu perca a paciência antes das minhas amigas chegarem, quer?

Ela voltou a atenção para a tela, ignorando os tremores do garoto.

— Ele é todo de vocês também — disse Circle para Bloomie e Thavel. — Preparem a mesa. Vou levá-lo para a sala de artes... acho que o contraste do vermelho dele com o papel branco vai ser uma lição que ninguém esquecerá.

— Estaremos lá em cinco minutos — respondeu Thavel, com um sorriso que mostrava dentes demais para ser humano. — Não comece a diversão sem nós.

A chamada foi encerrada com um clique seco. O silêncio voltou a reinar na sala vermelha, mas era um silêncio carregado de expectativa. Miss Circle guardou o dispositivo e começou a circular a cadeira de Abbie, como um tubarão rodeando uma presa ferida. Suas garras arranhavam o encosto da cadeira, produzindo um som de ranger de dentes que fazia os pelos da nuca de Abbie se arrepiarem.

— Você sabe, Abbie... — começou ela, parando atrás dele e colocando as mãos em seus ombros. — Eu realmente esperava mais de você. Você era tão quieto, tão obediente. Mas notas baixas são como doenças. Elas se espalham. E eu sou o remédio.

Abbie fechou os olhos com força, tentando se transportar para qualquer outro lugar. Ele pensou nas maçãs que gostava de comer no intervalo, no sol que batia no pátio, em como a vida parecia simples antes daquela prova maldita. Mas o aperto das mãos de Miss Circle em seus ombros o trazia de volta para a realidade brutal.

— Mmm... — Ele soltou um soluço abafado, o corpo cedendo ao cansaço e ao terror.

— Não chore — disse Circle, fingindo uma doçura que era mais assustadora que sua raiva. — Isso estraga o papel.

Ela se agachou novamente na frente dele, observando o pequeno coque em forma de caule no topo de sua cabeça. Com um movimento rápido, ela deu um peteleco na "folha" de cabelo, rindo da forma como Abbie encolheu os ombros.

— Você realmente parece uma maçãzinha, não é? — Ela sorriu, revelando seus dentes afiados. — Pena que está um pouco passada do ponto.

Longe dali, nos corredores escuros da Paper School, o som de passos apressados e metálicos indicava que Miss Bloomie e Miss Thavel estavam a caminho. Elas não caminhavam como professoras indo para uma aula; caminhavam como caçadoras indo para um banquete. A hierarquia da escola era simples: os fortes ensinam, os fracos são descartados. E Abbie, naquele momento, era o exemplo perfeito do que acontecia com quem não alcançava a média.

Miss Circle des amarrou a cadeira do chão, mas manteve Abbie preso a ela. Ela começou a empurrar a cadeira em direção à porta, o som das rodas rangendo no chão ecoando como um sino de enterro.

— Vamos, Abbie. Temos uma reunião de professores — disse ela com um tom de brincadeira cruel. — E você é o tópico principal da pauta.

Abbie tentou fincar os pés no chão, tentando criar qualquer tipo de resistência, mas a força de Miss Circle era sobre-humana. Ele olhou para a porta da sala vermelha, o lugar onde ele pensou que poderia se esconder, e percebeu que não havia esconderijo seguro naquele prédio feito de papel e sangue.

Enquanto cruzavam o corredor, as luzes fluorescentes piscavam acima deles, criando sombras longas e distorcidas nas paredes. Abbie viu, ao longe, as silhuetas de Bloomie e Thavel emergindo da escuridão. Bloomie carregava um compasso gigante que brilhava como uma adaga, e Thavel tinha as mãos transformadas em garras ainda mais longas que as de Circle.

— Olhem só — exclamou Bloomie, aproximando-se com passos saltitantes. — A entrega chegou.

— Ele parece estar tremendo — observou Thavel, parando ao lado de Circle e inclinando a cabeça para observar Abbie. — Isso é medo ou é apenas o frio do corredor, ratinho?

Abbie olhou para as três, o coração batendo tão rápido que ele sentia dor no peito. Ele tentou falar uma última vez, um esforço hercúleo para empurrar as palavras através da mordaça.

— Mmm-pp-lease... — O som saiu quase como um sussurro, mas foi o suficiente para que elas ouvissem.

As três professoras pararam e se entreolharam. Por um segundo, houve um silêncio mortal. Então, simultaneamente, as três caíram na gargalhada.

— "Por favor"? — repetiu Miss Circle, limpando uma lágrima imaginária do olho. — Abbie, querido... na matemática, não existe "por favor". Existe apenas o certo e o errado. E você errou... feio.

Ela empurrou a cadeira para o centro do círculo formado pelas três.

— Agora — disse Circle, olhando para as colegas —, quem quer começar a correção?

Abbie fechou os olhos, o som do metal sendo afiado era a última coisa que ouvia antes que o verdadeiro pesadelo começasse. Ele era apenas um garoto que gostava de maçãs, preso em um mundo onde o papel era mais afiado que o aço e o fracasso era uma sentença de morte.