Abbie !!:3
Geometria do Medo
O ar nos corredores monocromáticos da Paper School parecia ter se transformado em chumbo. Cada respiração de Abbie era uma batalha desesperada contra o objeto estranho cravado entre suas mandíbulas. A bola vermelha da mordaça forçava sua boca a permanecer dolorosamente aberta, esticando seus lábios até o limite enquanto tiras grossas de couro preto prendiam a peça por trás de sua nuca, emaranhando-se de forma incômoda em seus cabelos escuros. O saliva acumulada escorria sem controle pelo queixo pálido, pingando em sua camisa branca engomada e manchando a gola do pequeno colete que lembrava um smoking infantil.
Seus dentes raspavam na superfície rígida de plástico escarlate. Cada tentativa de fechar a boca resultava apenas em um clique abafado e numa onda de dor que irradiava pelas têmporas. Pior do que isso eram as cordas douradas. Elas não pareciam ter sido feitas de cânhamo ou tecido comum; brilhavam com uma luminosidade tênue, quase mágica, envolvendo com extrema firmeza os seus pulsos finos e esticando-os acima da cabeça. Preso por aquela força misteriosa que parecia ter brotado do próprio teto de papelão do corredor, Abbie mal conseguia encostar as pontas dos sapatos no chão. Seus tornozelos também estavam amarrados juntos pelas mesmas amarras resplandecentes, impedindo qualquer chance de corrida, de equilíbrio ou de fuga.
— Mmmph! Nn-nhmmph! — tentou gritar ele, mas tudo o que escapou de sua garganta foi um lamento estrangulado, seco e patético.
O coque no topo de sua cabeça, moldado na forma de um caule delicado com uma pequena folha de maçã de papel, tremia sem parar, acompanhando o tremor convulsivo de todo o seu corpo. As lágrimas ardiam em seus olhos, embaçando sua visão e escorrendo livremente pelas bochechas quentes. Suas pupilas, duas fendas pretas estreitas, dilatavam-se e contraíam-se num frenesi de horror puro. Ele pensava que aquilo só podia ser obra dela. Quem mais naquele colégio infernal teria o poder e a crueldade necessários para imobilizá-lo de maneira tão humilhante após um erro em uma prova?
Ele havia tirado uma nota vermelha. Havia falhado na matemática. E todos sabiam exatamente o que acontecia com quem falhava na sala daquela professora.
De repente, o eco característico começou a vibrar pelo piso xadrez.
*Clack. Clack. Rasp...*
O som vinha do final do corredor deserto. Era pesado, ritmado e acompanhado pelo arranhar agudo de metal pontiagudo perfurando o assoalho a cada dois passos. O estômago de Abbie despencou. O sangue pareceu sumir de suas extremidades, deixando suas mãos presas nas cordas douradas ainda mais gélidas.
A silhueta que dobrou a esquina era monumental.
Com seus chifres negros pontiagudos curvando-se contra a luz fraca, seus cabelos pretos volumosos caindo pelas costas e aquela expressão que misturava a severidade acadêmica com a volúpia de um predador à espreita, Miss Circle surgiu. Ela parecia ocupar todo o espaço do corredor, sua altura descomunal forçando-a a inclinar levemente a cabeça para não roçar o teto. Seu braço esquerdo não terminava em dedos humanos, mas sim em um gigantesco compasso escolar prateado, com a ponta de agulha polida reluzindo em um reflexo ameaçador.
Quando os olhos penetrantes da professora encontraram o pequeno garoto suspenso e indefeso, um sorriso lento, pontiagudo e totalmente desprovido de compaixão rasgou o seu rosto.
Abbie começou a se debater com uma fúria cega. Seus pés presos chutavam o ar vazio sem rumo, balançando-o como um pêndulo frouxo preso às amarras que desciam do alto. Seus braços puxavam as cordas douradas com tanta força que o atrito começou a queimar sua pele, mas os nós reluzentes nem sequer afrouxavam. O desespero fez com que ele mordesse a mordaça com mais violência, seus gemidos se tornando agudos e desesperados.
— Mmm-phhh! Hhh-mmph! S-soc... mmmph! — O pedido de socorro morreu antes de ultrapassar o couro e a borracha.
Miss Circle continuou avançando, sem nenhuma pressa. Seus passos largos e deliberados pareciam contar os segundos que restavam de vida ao garoto. O compasso gigante se arrastava pelo chão ao seu lado, deixando um sulco fino e contínuo no piso claro, arrancando pequenas lascas de papel comprimido com um chiado estridente que fazia os dentes de Abbie vibrarem de pavor.
Ela parou a apenas um passo de distância. A sombra imensa da mulher engoliu o corpo frágil do estudante por completo, mergulhando-o em uma escuridão fria.
— Ora, ora, ora... — disse ela, inclinando a cabeça para o lado enquanto examinava a cena com um misto de curiosidade mórbida e pura satisfação. — O que temos aqui? Uma pequena maçã caída da árvore antes mesmo de amadurecer?
Abbie soluçou com força. Seu peito arfava, subindo e descendo em espasmos rápidos sob a camisa escolar encharcada de suor frio e saliva. Ele arregalou os olhos o máximo que pôde, implorando em silêncio absoluto através do único canal que lhe restava: o olhar aterrorizado.
— Shh. — O compasso gigante de Miss Circle subiu com velocidade assustadora, a ponta metálica afiada parando a meros milímetros do nariz trêmulo de Abbie. O brilho frio do metal refletiu a fenda preta de sua pupila dilatada. — Fique quieto, Abbie. Você já fez barulho suficiente estragando a minha média da turma.
O garoto paralisou por uma fração de segundo, sentindo a ponta de ferro quase tocar sua pele. Mas o instinto de sobrevivência falou mais alto do que a obediência. Ele voltou a torcer o tronco, arqueando as costas e tentando desesperadamente afastar a cabeça daquela arma mortal. A saliva espumava ao redor da bola vermelha, pingando agora diretamente sobre a lâmina do compasso.
Miss Circle franziu o cenho de maneira teatral, fingindo uma profunda decepção enquanto baixava a arma apenas alguns centímetros para fitar o rosto desfigurado pelo pânico do aluno.
— Eu mandei você ficar quieto — disse ela, a voz descendo para um tom aveludado, mas carregado de uma violência implacável. — Você realmente nunca aprende a ouvir instruções, não é? Nem no papel, nem quando a professora está falando bem na sua frente. É por isso que você tirou aquele belo "F" em vermelho vivo?
— N-nhmm! — balbuciou Abbie em protesto, sacudindo a cabeça de um lado para o outro.
— Não precisa tentar se justificar — provocou ela, dando um passo ainda mais próximo. O cheiro doce de biscoitos recheados misturado ao odor ferroso de sangue seco emanava da figura imponente da mulher. — Até que essas cordas caíram muito bem em você. Pouparam meu tempo de ter que caçar você por todos os cantos da escola. Quem quer que tenha te deixado nesse estado tem um senso de organização quase tão refinado quanto o meu.
Ela estendeu a mão livre, a mão com unhas compridas e afiadas, e agarrou a tira de couro da mordaça na bochecha de Abbie, puxando-a para cima sem qualquer delicadeza. A cabeça do garoto foi forçada para trás, fazendo com que seu pescoço estalasse levemente.
— Mmm-aagh! — gemeu ele, as lágrimas queimando suas pálpebras enquanto tentava puxar o queixo para baixo, mas a força da professora era incomparável.
— Olhe para você — zombou Miss Circle, um riso baixo e gutural vibrando em sua garganta. Seus olhos semicerrados brilhavam com malícia. — Tão patético. Tão frágil. Você treme como uma folha seca diante de uma brisa leve. Você acha mesmo que um aluno que nem sequer consegue calcular a área de um círculo merece continuar respirando o ar puro dos nossos corredores?
Com a ponta da unha indicador, ela traçou o contorno da folha de papel no topo da cabeça de Abbie, descendo lentamente até a sua testa suada.
— Você parecia tão confiante quando entregou a prova — continuou ela, destilando veneno a cada palavra. — E agora veja só onde as suas respostas medíocres o colocaram. Amarrado como um pedaço de carne pronto para o abate, sem conseguir dizer uma única palavra decente para pedir desculpas pelo seu fracasso vergonhoso.
A humilhação misturou-se ao pavor no peito de Abbie. Uma centelha de raiva infantil e impotente acendeu em seu interior. Ele tentou se impulsionar para frente, usando o balanço dos próprios quadris para tentar dar uma cabeçada desajeitada na mão que segurava seu rosto, ou ao menos se desvencilhar daquele toque opressor. Seus pés amarrados sacudiram no ar, e seus dentes cravaram com tanta força na mordaça vermelha que ele sentiu o gosto amargo do plástico desgastado contra as gengivas dormentes.
A reação só fez o sorriso de Miss Circle se abrir ainda mais, revelando dentes incrivelmente brancos e pontiagudos.
— Oh, então a maçãzinha podre ainda tem espinhos? — desdenhou ela, soltando a tira de couro de forma abrupta para que a cabeça de Abbie caísse pesadamente para a frente. — Que fofo. Você está tentando lutar contra mim, Abbie? Você acha que essa sua birra vai desfazer os erros grosseiros daquele teste?
Ela deu um passo para trás, apoiando o peso do corpo sobre uma perna e erguendo o gigantesco compasso. A ferramenta de desenho, que nas mãos de qualquer outra pessoa seria inofensiva, reluzia como a guilhotina de um carrasco sob as lâmpadas fluorescentes que piscavam no teto.
— Vamos fazer um pequeno exercício mental, já que você foi tão incompetente na prova escrita — propôs ela, a voz soando alegre de uma forma doentia. — Se eu cortar a corda que segura a sua mão esquerda, você acha que consegue se equilibrar antes que a ponta do meu compasso encontre o centro exato do seu peito? O que a gravidade faria com você, hm? Seria uma queda livre acelerada ou você conseguiria flutuar como o pedaço de lixo que demonstrou ser?
— Nh-nhooo! Nn-nhmm! — Abbie gritava em desespero absoluto, balançando a cabeça em uma negação frenética. Ele tentava puxar os braços de volta, mas as cordas douradas mantinham seus pulsos firmes no ar, ignorando completamente sua agonia.
— Ah, não se preocupe tanto — ironizou a professora, inclinando-se para sussurrar perto de sua orelha, onde a folhinha de papel tremia sem cessar. — Eu sempre me certifico de que os meus alunos aprendam a lição. Alguns aprendem pelo lápis, outros... pela lâmina. E você, meu querido Abbie, perdeu o direito ao grafite há muito tempo.
Miss Circle recuou mais um passo, levantando o compasso com ambas as mãos em um gesto cerimonial e macabro. A lâmina afiada desenhou um arco no ar, cortando o vento com um assobio agudo e aterrorizante.
O estudante encarou aquela ponta reluzente, sentindo a saliva grossa escorrer pelo pescoço, o coração batendo tão rápido contra as costelas que parecia prestes a explodir. Não havia para onde correr, não havia quem chamar, e as cordas misteriosas continuavam a segurá-lo imóvel diante da morte iminente. Tudo o que restava a Abbie era chorar e assistir, paralisado de terror, ao próximo movimento da professora.