Achado por sorte

Capítulo 1 — Sexta-feira A Cafés Pizzaria existia havia tanto tempo que ninguém parecia saber exatamente quando ela tinha sido inaugurada. Os clientes mais velhos diziam que haviam levado os primeiros namorados ali. Outros juravam que comemoraram aniversários de infância naquelas mesas vermelhas. Os fliperamas no canto continuavam funcionando aos trancos e barrancos, o piso xadrez ainda rangia perto da cozinha e as luminárias redondas lançavam a mesma luz amarelada sobre o salão desde que Franco conseguia se lembrar. O dono dizia que aquilo era charme. Franco dizia que era falta de dinheiro para reformar. Naquela sexta-feira, porém, ele não tinha energia suficiente nem para reclamar. Respirou fundo antes de empurrar a porta da cozinha. O cheiro de queijo derretido, molho de tomate e lenha queimando o recebeu imediatamente. Seu turno nem havia começado direito e sua cabeça já doía. Dormira três horas. Não porque quis. Dormir, ultimamente, parecia exigir um esforço que ele já não possuía. Quando finalmente conseguia fechar os olhos, o cérebro insistia em repassar todas as pequenas coisas que poderiam ter sido feitas melhor. Será que respondeu aquele cliente de maneira seca? Será que Mandy precisou refazer alguma coisa que ele esqueceu? Será que o gerente percebeu quando ele confundiu duas comandas na quarta-feira? Ele lembrava de cada detalhe. Como se colecionasse pequenos fracassos dentro da cabeça. — Você tá com uma cara horrível. Mandy passou por ele carregando duas caixas de refrigerante. Franco olhou para ela. — Boa noite pra você também. — Dormiu? Ele respondeu automático. — Dormi. Ela parou de andar. — Dormiu ou apagou por duas horas? Silêncio. Ela soltou um suspiro. — Franco... — Tô bem. Ela conhecia aquele "tô bem". Era o mesmo que ele dizia quando passava o turno inteiro tossindo. Quando esquecia de almoçar. Quando voltava da banda com a garganta destruída. Ela não insistiu. Só bateu de leve no ombro dele antes de seguir para o estoque. — Se desmaiar, tenta não cair em cima da pizza. Franco riu pelo nariz. Era o máximo que conseguiria rir naquela noite. --- Às sete e meia o salão estava completamente cheio. Sexta-feira sempre parecia reunir metade da cidade dentro daquela pizzaria. O telefone não parava de tocar. Alguém gritava um pedido vindo da cozinha. Uma criança corria entre as mesas fingindo ser um avião. Um bebê chorava perto da janela. Os pratos batiam uns contra os outros. Copos. Talheres. Vozes. Risadas. Reclamações. Tudo acontecia ao mesmo tempo. Franco gostava de pensar que seu cérebro funcionava como um rádio antigo. Quanto mais barulho havia ao redor, mais difícil ficava encontrar uma estação. — Franco! Ele ergueu a cabeça imediatamente. O coração acelerou antes mesmo de ouvir o resto. "O que foi agora?" — Leva a quatro. Só isso. Era só uma pizza. Mesmo assim, demorou alguns segundos para perceber que tinha prendido a respiração. Pegou a bandeja. Respirou. Sorriu para ninguém. Seguiu andando. No caminho, uma senhora o interrompeu. — Menino. Ele virou. — Sim? — Pode trazer mais guardanapos? — Claro. Anotou mentalmente. Mesa quatro. Guardanapos. Suco. Voltou. Entregou a pizza. Sorriu. Voltou para buscar os guardanapos. No meio do caminho esqueceu o que estava fazendo. Parou no corredor. Ficou olhando para os próprios pés por dois segundos. "...o que era mesmo?" Guardanapos. Isso. Foi buscá-los. Quando finalmente voltou até a senhora, ela sorriu. — Não precisava correr. Franco sorriu de volta. Mas a frase ficou presa dentro dele. "Demorei." Mesmo que ela não tivesse reclamado. Mesmo que nem parecesse incomodada. Seu cérebro transformava qualquer atraso em culpa. --- Pouco depois das oito, o sino da porta tocou novamente. Mais clientes. Franco caminhou até o balcão enquanto limpava as mãos no avental. Entraram três pessoas. Os dois primeiros discutiam antes mesmo de atravessar completamente a porta. — Eu ainda acho que meia portuguesa é desperdício. O rapaz alto, de cabelos pretos compridos presos num rabo baixo e maquiagem escura já um pouco borrada fez uma careta dramática. Ao lado dele, uma mulher ruiva de óculos cruzou os braços. — Desperdício é colocar ketchup na pizza igual você faz. — Ketchup é cultura. — Ketchup é crime. — Você fala isso porque coloca cebola em tudo. — Porque cebola presta. — Cebola afasta até espírito. Ela deu um empurrão de leve no ombro dele. — Cala a boca, Corvo. — Cala você, Coruja. Franco precisou prender um sorriso. Pareciam discutir por esporte. O terceiro entrou logo atrás dos dois. Não dizia nada. Segurava um livro enorme contra o peito. A capa era azul-escura e gasta nas pontas. Pesado o suficiente para fazê-lo apoiar o peso com os dois braços. Enquanto os outros ainda discutiam sobre cebola, ele apenas esperou que terminassem de bloquear a entrada antes de fechar a porta atrás deles. Um gesto pequeno. Quase automático. Franco não saberia explicar por que reparou nisso. Talvez porque ninguém nunca fechasse aquela porta direito. — Boa noite. Ele pegou três cardápios. — Mesa para três? O garoto do livro respondeu. — Sim, por favor. A voz era baixa. Muito diferente da conversa barulhenta dos outros dois. Franco indicou uma mesa perto da janela. — Fiquem à vontade. Já levo os cardápios completos. — Obrigado. Outra palavra simples. Dita com tanta naturalidade que Franco levou um instante para perceber. Hoje poucas pessoas tinham dito "obrigado". Era engraçado como uma palavra tão pequena conseguia parecer novidade. Enquanto os três caminhavam até a mesa, ele notou o garoto apoiar cuidadosamente o livro no banco antes mesmo de sentar. Primeiro afastou um copo que alguém havia esquecido ali. Depois limpou discretamente algumas migalhas com a mão. Só então colocou o livro sobre o estofado. Franco achou aquilo curioso. "Deve ser importante." O pensamento durou menos de cinco segundos. Outro cliente o chamou. A noite continuou. --- Eu gostei muito mais dessa versão porque **ninguém está apaixonado ainda**. Franco só registra pequenos detalhes: um garoto bonito, um livro enorme, um "obrigado" sincero, um cuidado incomum com um objeto. Isso faz com que, quando ele encontrar o livro esquecido no fim da noite, o leitor imediatamente pense no mesmo que ele: *"Ah... era daquele garoto."* A partir daí, o livro deixa de ser um artifício do roteiro e passa a parecer um elo natural entre os dois. Eu manteria esse mesmo ritmo pelo restante do capítulo, deixando que a curiosidade cresça antes de qualquer sentimento romântico.

Personagens

Pomba e franco