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Aggressive Passion

Território Marcado e Refúgios Particulares

O ar na St. Jude’s Academy parecia mais denso naquela segunda-feira. Talvez fosse a chegada dos novos alunos de intercâmbio, um grupo de herdeiros vindos de escolas internacionais que achavam que o sobrenome e o sotaque carregado seriam suficientes para comprar o topo da hierarquia social. Eles caminhavam pelos corredores com uma autoconfiança que beirava a insolência, ignorando o fato de que aquele ecossistema já tinha uma rainha e uma força da natureza que ninguém ousava desafiar.

Engfa Waraha estava encostada em sua moto no estacionamento, a jaqueta da McLaren brilhando sob o sol matinal. Ela mal olhou para o grupo de novatos que se aproximou, liderado por um rapaz chamado Mew, que parecia acreditar ser o protagonista de algum filme adolescente.

— Então você é a famosa Engfa? — Mew perguntou, cruzando os braços e exibindo um relógio que custava mais que o carro de um professor. — Ouvimos dizer que você é quem manda nas festas por aqui. Estávamos pensando em organizar algo na sexta, talvez você queira nos mostrar como se faz.

Engfa tirou o cigarro apagado da boca e o guardou atrás da orelha, lançando um olhar de puro tédio para o rapaz.

— Você ouviu errado — Engfa respondeu, a voz rouca e desinteressada. — Eu não "mando" em festas. Eu sou a festa. E, honestamente? Vocês parecem o tipo de gente que eu costumo ignorar por esporte. Não percam o tempo de vocês.

— Qual é, Waraha, não precisa ser hostil — outro garoto tentou intervir, mas Engfa apenas colocou o capacete no banco e começou a caminhar em direção à entrada, deixando-os falando sozinhos.

Sua mente não estava em hierarquias escolares ou em novos rostos. Estava em uma certa nerd de óculos que provavelmente já estava na biblioteca, revisando algum tratado político antes da primeira aula. Desde o beijo no ateliê e a noite na pista de corrida, o mundo de Engfa tinha se reduzido a um único eixo: Charlotte Austin.

Enquanto isso, no corredor principal, o tal Mew e seu grupo encontraram Charlotte. Ela estava impecável, como sempre, segurando um tablet enquanto discutia algo com o representante de classe. Sua postura era ereta, a elegância emanando de cada gesto.

Mew, não aceitando a derrota anterior com Engfa, decidiu que a "garota estudiosa" seria um alvo mais fácil para massagear seu ego ferido.

— Com licença — ele disse, bloqueando o caminho de Charlotte com um sorriso charmoso. — Eu sou o Mew. Sou novo aqui e estou um pouco perdido. Será que a aluna mais brilhante da escola poderia me dar um tour privado?

Charlotte parou. Ela lentamente baixou o tablet e olhou para Mew por cima da armação dos óculos. O brilho em seus olhos não era de lisonja, era de absoluto desdém.

— Primeiro: eu não sou um guia turístico — Charlotte começou, sua voz soando como um chicote de seda. — Segundo: sua tentativa de flerte é tão medíocre quanto sua escolha de perfume. E terceiro: eu não tenho tempo para pessoas que acham que o mundo gira em torno de seu tédio.

— Uau, que temperamento — Mew riu, tentando manter a pose enquanto seus amigos observavam. — Só estou tentando ser amigável. Não me diga que uma garota como você não tem um tempinho para um café.

— Uma garota como eu — Charlotte deu um passo à frente, sua aura de superioridade fazendo o rapaz recuar instintivamente — não perde tempo com garotos que não conseguem interpretar um "não" implícito. Além disso, eu duvido que minha namorada, Engfa Waraha, ficaria muito feliz em saber que você está gastando o oxigênio dela tentando me convencer do contrário.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Os alunos que passavam pararam. A revelação de que Charlotte Austin, a intocável, e Engfa Waraha, a indomável, eram um item oficial, caiu como uma bomba.

— Namorada? — Mew gaguejou, a confiança desaparecendo. — A valentona? Você só pode estar brincando.

— Ela não está brincando.

A voz de Engfa veio de trás deles. Ela caminhou calmamente até Charlotte e, sem desviar o olhar de Mew, passou o braço pela cintura da morena, puxando-a para perto em um gesto possessivo e protetor. Charlotte não protestou; pelo contrário, ela se inclinou levemente para o toque de Engfa, selando a confirmação diante de todos.

— Se eu ouvir você ou qualquer um dos seus amigos respirando perto da Charlotte novamente — Engfa disse, a voz baixa e perigosa, enquanto seus caninos pontiagudos apareciam em um sorriso que não tinha nada de amigável —, eu vou garantir que sua estadia nesta escola seja a experiência mais dolorosa da sua vida. Eu não me importo com quem é seu pai. Eu quebro a sua cara antes mesmo do advogado dele atender o telefone. Fui clara?

Mew engoliu em seco, assentiu freneticamente e saiu apressado com seu grupo.

Engfa relaxou a postura, virando-se para Charlotte. O fogo em seus olhos transformou-se instantaneamente em uma adoração quase boba.

— "Namorada", Austin? — Engfa provocou, ajeitando uma mecha do cabelo de Charlotte. — Gostei de como soou na sua boca.

— Não se acostume, Waraha — Charlotte respondeu, embora um pequeno sorriso vitorioso brincasse em seus lábios. — Eu só não queria que aquele idiota continuasse desperdiçando meu tempo. Mas, já que você marcou território de forma tão... primitiva... acho que terá que sustentar o título.

***

O fim de semana chegou como um alívio. Longe dos olhos curiosos da St. Jude’s, as duas fugiram para uma casa de campo isolada que pertencia à família de Charlotte. Era uma propriedade moderna, cercada por florestas e um lago privado, onde o único som era o vento nas árvores.

Lá, os papéis se invertiam. Engfa, a rebelde que desafiava a polícia, tornava-se mansa sob os cuidados de Charlotte. Elas passaram as tardes pintando juntas — ou melhor, Charlotte pintava enquanto Engfa tentava não fazer muita bagunça, acabando por pintar o braço de Charlotte em vez da tela.

— Você é impossível — Charlotte ria, limpando uma mancha de azul do rosto de Engfa com um pano úmido.

— Eu sou sua — Engfa corrigia, selando a frase com um beijo calmo, que tinha gosto de paz e liberdade.

No entanto, a paz durou pouco. No sábado à noite, Engfa convenceu Charlotte a ir a uma festa em uma mansão vizinha, organizada por alguns conhecidos das corridas. O ambiente era o oposto da casa de campo: música alta, luzes neon, cheiro de álcool e fumaça.

Assim que entraram, a tensão sexual e o ciúme que sempre orbitavam as duas entraram em combustão. Engfa, em seu elemento, logo foi cercada por conhecidos, mas seus olhos nunca deixavam Charlotte, que bebia um drink sofisticado no canto, observando a fauna social com seu habitual ar de análise.

Foi quando Chompu, uma antiga ficante de Engfa, apareceu. Ela usava um vestido justo e não perdeu tempo em se jogar nos braços da valentona.

— Engfa! Que saudade — Chompu disse, passando as mãos pelo peito da jaqueta de Engfa. — Ouvi dizer que você tinha se aposentado das festas. O que houve? Ficou domesticada?

Engfa tentou se afastar educadamente, mas a garota era persistente. Antes que Engfa pudesse dizer algo cortante, sentiu uma presença fria e elegante ao seu lado.

— Ela não está domesticada — Charlotte disse, surgindo como uma sombra majestosa. — Ela está ocupada. E você está tocando em algo que não lhe pertence. Sugiro que retire as mãos, se quiser continuar tendo dedos para segurar esse copo.

Chompu recuou, intimidada pela intensidade do olhar de Charlotte. A nerd não precisava gritar; sua mera presença impunha um respeito que beirava o medo.

— E você é? — Chompu perguntou, tentando manter a audácia.

— A dona da paciência que você está prestes a esgotar — Charlotte respondeu, pegando a mão de Engfa e entrelaçando seus dedos. — Vamos, Engfa. O nível de inteligência deste ambiente está caindo drasticamente.

Mas o caos não parou por aí. Enquanto se dirigiam para a saída, Mew — que coincidentemente também estava na festa — tentou uma última cartada. Ele barrou o caminho de Charlotte enquanto Engfa tinha parado por um segundo para cumprimentar um mecânico amigo.

— Charlotte, admita — Mew disse, visivelmente alterado pelo álcool. — Você é inteligente demais para ficar com alguém como ela. Você precisa de alguém que entenda de política, de futuro... de alguém como eu.

Charlotte parou e olhou para ele com uma piedade genuína.

— Mew, o fato de você achar que política e futuro são caminhos que eu não posso trilhar sozinha, ou que Engfa não possa me apoiar neles, só prova o quão limitado você é. Eu não preciso de um acessório de status. Eu preciso de alguém que me faça sentir viva. E você? Você mal consegue me fazer sentir tédio.

Engfa chegou a tempo de ouvir a última parte. Ela já estava um pouco alterada pelas doses de tequila que tomara mais cedo, e sua paciência estava no limite.

— Ainda aqui, bonitão? — Engfa se aproximou, mas Charlotte colocou a mão em seu peito, impedindo o avanço.

— Não vale a pena, Engfa. Vamos embora.

***

No carro, a caminho de volta para a casa de campo, o álcool finalmente atingiu Engfa com força total. A adrenalina da festa passou, deixando para trás uma versão da valentona que poucos conheciam: a Engfa carente.

Charlotte dirigia com precisão, enquanto Engfa estava jogada no banco do passageiro, olhando para ela com olhos brilhantes e um sorriso bobo.

— Char... você é tão linda dirigindo — Engfa balbuciou, inclinando-se para tentar beijar o ombro de Charlotte enquanto o carro ainda estava em movimento.

— Engfa, senta direito. Eu estou tentando nos levar para casa em segurança — Charlotte ralhou, mas havia doçura em sua voz.

— Você me defendeu — Engfa continuou, ignorando o aviso. — Você disse que eu sou sua ocupação. Eu gosto de ser sua ocupação.

Quando finalmente chegaram e Charlotte ajudou Engfa a entrar na casa, a valentona se recusou a soltá-la. Engfa se sentou no sofá e puxou Charlotte para o seu colo, escondendo o rosto no pescoço da namorada.

— Você está bêbada, Waraha — Charlotte sussurrou, passando os dedos pelos cabelos castanhos de Engfa.

— Só um pouquinho... — Engfa murmurou, a voz abafada. — Mas eu estou sóbria o suficiente para saber que eu faria qualquer coisa por você. Eu picharia o nome de todos os seus inimigos na frente do parlamento se você pedisse.

Charlotte riu, uma risada baixa e sincera. Ela raramente se permitia ser vulnerável, mas com Engfa, era fácil.

— Eu não preciso que você piche o parlamento. Só preciso que você tome um banho e durma um pouco.

— Só se você for comigo — Engfa pediu, fazendo um biquinho que faria qualquer um de seus subordinados na escola questionar sua identidade. — Por favor, Char... não me deixa sozinho.

Charlotte suspirou, rendida. A nerd egocêntrica e a valentona impulsiva eram, de fato, um desastre anunciado. Mas, enquanto cuidava de Engfa, limpando o resto de maquiagem e ajudando-a a se deitar, Charlotte percebeu que não trocaria aquele caos por nenhuma paz no mundo.

Engfa adormeceu segurando a mão de Charlotte, como se tivesse medo de que ela desaparecesse. Charlotte ficou ali por um longo tempo, observando o rosto sereno da garota que tinha virado sua vida do avesso.

Elas eram duas forças opostas, destinadas a colidir. Mas naquela colisão, elas não se destruíram; elas criaram algo novo. Um território onde as notas dez e as corridas ilegais não importavam, apenas a segurança de pertencer uma à outra. Entre ciúmes, brigas em corredores e festas caóticas, o amor de Engfa e Charlotte era a única coisa real em um mundo de aparências. E, como Charlotte bem sabia, uma vez que você encontra algo real, você faz de tudo para protegê-lo.