Ahyeon e James / enimes to lovers
A Harmonia do Caos
O ensaio para o "Special Stage" estava entrando em sua fase mais crítica. Faltavam apenas duas semanas para a grande apresentação no SBS Gayo Daejeon, e a pressão sobre Ahyeon e James era palpável. O público já criava teorias sobre a colaboração nas redes sociais, e cada interação mínima entre os dois era analisada por milhões de fãs. Mas, dentro daquela sala de ensaio, o mundo exterior deixava de existir, restando apenas o som das batidas do hip-hop e o atrito dos tênis no chão de madeira.
Ahyeon estava exausta. Ela era conhecida por sua ética de trabalho impecável, mas James parecia ter uma bateria infinita. Ele repetia o salto final pela décima vez, o suor escorrendo pelo pescoço e molhando a gola da camiseta preta, que agora grudava em seu peito definido. Ahyeon tentava não olhar, mas seus olhos teimavam em traí-la.
— Você está perdendo o tempo da batida no terceiro compasso, Ahyeon-ah — James disse, parando no centro da sala e ofegando levemente. — Se você entrar um segundo antes, a nossa conexão visual no giro vai ficar desalinhada.
Ahyeon limpou o suor da testa com as costas da mão, sentindo a irritação borbulhar novamente.
— Eu não estou perdendo o tempo, James. Eu estou criando uma pausa dramática. Chama-se "interpretação artística", algo que talvez você devesse pesquisar.
James soltou uma risada curta e sarcástica, caminhando até ela com aquele jeito confiante que a fazia querer gritar e beijá-lo ao mesmo tempo — um pensamento que ela enterrou profundamente em sua mente.
— Interpretação artística ou cansaço? — Ele parou a poucos centímetros dela, o calor que emanava de seu corpo envolvendo-a. — Você é perfeita, Ahyeon, mas até as deusas precisam admitir quando estão exaustas. O seu joelho está tremendo.
— Não está nada! — rebateu ela, embora soubesse que ele tinha razão. — Eu aguento mais cinco horas se for necessário.
— Teimosa como sempre — James murmurou, estendendo a mão para bagunçar o rabo de cavalo dela, um gesto que ele sabia que a irritaria profundamente.
— James! Eu levei vinte minutos para prender isso! — Ela o empurrou, mas ele apenas riu, desviando com agilidade.
— Vamos fazer um acordo — propôs ele, recuperando a seriedade, mas mantendo o brilho travesso nos olhos escuros. — Se você admitir que está com fome e que quer ir comer os macarons de pistache agora, eu prometo que amanhã eu faço a parte difícil da coreografia sozinho enquanto você apenas faz pose de rainha.
Ahyeon cruzou os braços, tentando manter sua expressão de exigência, mas o estômago dela deu um ronco traidor naquele exato momento. O silêncio que se seguiu foi preenchido pela gargalhada sonora de James.
— O seu estômago parece concordar comigo — ele disse, vitorioso. — Vamos logo, antes que a confeitaria feche. Eu já pedi para o motorista esperar nos fundos.
A contragosto — ou fingindo que estava —, Ahyeon pegou sua bolsa. Enquanto caminhavam pelos corredores silenciosos da empresa, ela observava a silhueta dele à sua frente. James era uma contradição ambulante. Ele era o cara que a provocava até ela perder a paciência, mas também era o mesmo cara que, na noite anterior, tinha enviado uma mensagem perguntando se o tornozelo dela ainda doía depois de um salto mal executado.
Ao chegarem ao carro, o silêncio era confortável, algo raro entre os dois. James estava concentrado no celular, mas Ahyeon percebeu que ele estava revisando o vídeo do ensaio de hoje.
— Você é obcecado — comentou ela, inclinando-se para ver a tela. — Já terminamos por hoje, James. Esqueça o trabalho por uma hora.
— Eu não estou olhando o trabalho — ele disse, virando a tela para ela. — Estou olhando como você fica bonita quando acerta aquele giro. Veja, o modo como seu cabelo voa... é cinematográfico.
Ahyeon sentiu o rosto queimar. Ela não estava acostumada com elogios diretos vindos dele. Geralmente, os elogios dele vinham embrulhados em camadas de sarcasmo.
— Você está sendo estranho hoje — ela murmurou, desviando o olhar para a janela. — Onde está o James irritante que eu conheço?
— Ele está de folga — James respondeu em voz baixa, e por um momento, a tensão no carro mudou. — Às vezes, eu canso de lutar contra você, Ahyeon.
Eles chegaram à pequena confeitaria artesanal, um refúgio escondido que James havia descoberto. Como já era tarde, o local estava vazio, iluminado apenas por luzes amareladas e quentes. O cheiro de manteiga e açúcar era inebriante.
James cumpriu sua promessa. Ele comprou uma caixa inteira de macarons de pistache, além de alguns de baunilha e um café gelado para ela. Eles se sentaram em uma mesa de canto, longe da vitrine.
— Por que você se lembra de tudo o que eu falo? — Ahyeon perguntou de repente, enquanto saboreava o primeiro doce. — Até as coisas que eu digo quando estou brava ou em lives aleatórias de meses atrás.
James mexeu no canudo de sua bebida, parecendo subitamente interessado no gelo que flutuava ali.
— Eu tenho boa memória para detalhes importantes — ele respondeu, tentando parecer casual.
— Eu sou um "detalhe importante"? — Ela o desafiou, apoiando o queixo na mão, os olhos fixos nele.
James levantou o olhar. A vulnerabilidade que ela vira na sala de ensaio estava de volta, mas agora parecia mais intensa, sem o medo de ser descoberta.
— Ahyeon, você é o detalhe mais importante da minha rotina desde que eu entrei na YG — ele confessou, a voz rouca. — Eu sei que eu te irrito. Eu sei que eu te tiro do sério. Mas é que você é tão... brilhante. Às vezes, eu sinto que se eu não fizer barulho, você vai simplesmente passar por mim sem me ver. E eu não suportaria ser invisível para você.
Ahyeon sentiu um nó na garganta. Ela sempre o viu como o rival, o menino loiro e barulhento que queria competir por espaço. Ela nunca tinha parado para pensar que as provocações dele eram, na verdade, um pedido desesperado de atenção.
— Você nunca foi invisível para mim, James — ela disse suavemente, estendendo a mão sobre a mesa e, por um milagre de coragem, tocando os dedos dele. — Na verdade, você é a pessoa que mais ocupa espaço na minha cabeça. Mesmo que metade desse tempo eu esteja planejando como te dar um soco.
James soltou um sorriso fraco, virando a mão para entrelaçar seus dedos aos dela. O toque enviou uma corrente elétrica pelos braços de Ahyeon, algo que ela nunca sentira com nenhum outro colega de profissão.
— Um soco? — Ele brincou. — Pensei que você fosse uma "gentil idol de kpop".
— Eu sou — ela riu. — Mas você desperta o meu lado mais... intenso.
— Eu gosto do seu lado intenso — ele disse, aproximando-se um pouco mais. — Gosto de como você não desiste. Gosto de como você é exigente com tudo, inclusive comigo. Isso me faz querer ser melhor.
O momento foi interrompido pelo toque do celular de James. Era o manager deles, avisando que o carro precisava voltar para o dormitório. O mundo real estava chamando novamente.
— Temos que ir — suspirou James, soltando a mão dela com relutância.
— James? — chamou Ahyeon enquanto eles se levantavam.
— Sim?
— Sobre amanhã... não precisa fazer a coreografia sozinho. Eu quero dançar com você. Do jeito certo.
Ele sorriu, e desta vez não era o sorriso de canto arrogante, mas um sorriso largo e genuíno que iluminava todo o seu rosto.
— Combinado, boneca.
No dia seguinte, o clima na sala de ensaio era diferente. A tensão agressiva havia se transformado em uma tensão carregada de expectativa. Eles não precisavam mais de palavras para se entenderem. Quando a música começava, seus corpos se moviam como se fossem um só.
No entanto, James não conseguiu evitar sua natureza por muito tempo. Durante uma pausa para água, ele se aproximou de Ahyeon, que estava revisando a letra de sua parte no rap.
— Sabe, Ahyeon-ah — ele começou, encostando-se na parede ao lado dela —, eu estava pensando. Já que estamos sendo "amigos" agora, você poderia me dar o seu número de telefone pessoal. O oficial, não o que o manager monitora.
Ahyeon levantou uma sobrancelha, voltando ao seu modo defensivo habitual, mas com um brilho de diversão nos olhos.
— E por que eu faria isso? Para você me mandar fotos do seu cabelo loiro às três da manhã?
— Não — ele se inclinou, sussurrando perto do ouvido dela —, para eu poder te mandar áudios dizendo o quanto você errou o passo, sem precisar esperar até o ensaio de amanhã.
— Você é impossível! — Ela exclamou, batendo nele com o roteiro de papel.
— Mas você me adora — ele provocou, piscando para ela antes de correr para o outro lado da sala.
Ahyeon bufou, mas não conseguiu conter o sorriso. Ela realmente o adorava. O processo de se apaixonar por James era como uma música de K-pop: começava com um ritmo estranho, às vezes um pouco barulhento e confuso, mas depois que o refrão pegava, era impossível tirar da cabeça.
Horas depois, quando o ensaio finalmente terminou, James a acompanhou até a porta. O corredor estava escuro, e o silêncio da noite trazia uma sensação de intimidade.
— Ei — ele a chamou antes que ela entrasse no elevador.
Ahyeon se virou. James parecia hesitar por um segundo, algo raro para ele. Ele caminhou até ela e, sem dizer uma palavra, envolveu-a em um abraço apertado. Não era um abraço de provocação ou um esbarrão coreografado. Era um abraço de verdade, onde ela podia sentir o coração dele batendo contra o seu peito.
— Boa noite, Ahyeon — ele sussurrou contra o topo da cabeça dela. — Tente não sonhar muito comigo, ok? Eu sei que é difícil resistir.
Ahyeon se afastou, olhando-o nos olhos. Ela esticou a mão e ajeitou a gola da jaqueta dele.
— O seu ego ainda é maior que essa sala de ensaio, James.
— É uma das minhas melhores qualidades — ele rebateu.
— Vá dormir — ela disse, entrando no elevador.
Enquanto as portas se fechavam, a última imagem que ela teve foi a de James acenando, com aquele olhar que dizia que ele sabia exatamente o que estava fazendo com o coração dela.
Já no dormitório, Ahyeon se jogou na cama, exausta mas com a mente a mil por hora. Ela pegou seu celular e viu que havia uma nova notificação de um número desconhecido.
"O macaron de pistache estava bom, mas a companhia foi melhor. Não conte para ninguém que eu disse isso, ou vou ter que te irritar em dobro amanhã. Durma bem, boneca técnica. - J."
Ahyeon abraçou o travesseiro, sentindo um calor reconfortante se espalhar por seu corpo. Ela era exigente, talentosa e perfeita. E, pela primeira vez, ela sentia que tinha encontrado alguém que não apenas acompanhava seu ritmo, mas que também sabia quando era hora de parar a música e apenas oferecer um doce.
O ódio estava definitivamente morto. E o que estava nascendo em seu lugar era algo que Ahyeon mal podia esperar para apresentar ao mundo, mesmo que, por enquanto, fosse o segredo mais doce entre os dois. Ela salvou o contato como "Loiro Irritante (Pistache)" e respondeu antes de fechar os olhos:
"Você ainda está atrasado para o ensaio de amanhã. Cinco minutos. Se chegar no horário, talvez eu te deixe escolher o sabor do doce."
A guerra entre o Cortis e o BABYMONSTER continuaria nos palcos, mas nos bastidores, a paz tinha um gosto inconfundível de morango e pistache. E Ahyeon, a garota que amava a perfeição, estava começando a descobrir que a maior perfeição de todas estava justamente nas imperfeições provocantes de James.