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Algo mais??..

Atração de Maré e Núcleos Derretidos

O vácuo do espaço nunca pareceu tão pequeno para Terra. Desde o confronto com o Sol, ele sentia que cada centímetro de sua superfície vibrava com uma energia nova, algo que nem mesmo a fotossíntese de suas florestas mais densas conseguia explicar. Ele não era apenas o planeta da vida; ele se sentia o planeta do propósito. E esse propósito, para o seu próprio espanto (e deleite), tinha o nome de Lumina.

Eles flutuavam agora em uma região mais calma, longe da vigilância escaldante da estrela central. Terra, em sua nova fase "melhorada", estava levando seu papel de admirador a um nível que beirava o poético — ou o absurdamente irritante, dependendo de quem você perguntasse.

— Sabe, Lumina — começou Terra, girando lentamente para que a luz de uma estrela distante refletisse em seus oceanos mais profundos, criando um brilho turquesa deslumbrante —, eu estava olhando para a forma como a luz da Nebulosa de Órion atinge a sua superfície. É fascinante. Ela destaca o prateado da sua crosta de um jeito que faz você parecer... bem, uma obra de arte cósmica.

Lumina, que estava tentando se concentrar em estabilizar sua rotação após o estresse gravitacional do dia anterior, sentiu um estalo em seu núcleo. Ela apertou os olhos, sua atmosfera emitindo pequenas faíscas roxas de irritação.

— Terra, pelo amor de tudo que é sólido, você pode ficar em silêncio por cinco minutos? — Ela bufou, embora o brilho em suas extremidades não fosse apenas de raiva. — Você está parecendo um satélite com defeito repetindo a mesma mensagem de amor.

— Não é repetitivo se cada detalhe é novo — rebateu Terra, aproximando-se com uma suavidade que ele não possuía nos seus dias de puro egoísmo. — Ontem eu foquei nas suas crateras, hoje estou focado na sua aura. Você tem uma resiliência que... honestamente, me faz sentir que minhas montanhas são apenas grãos de areia.

Lumina parou de girar. Ela o encarou, a expressão dura, mas havia uma oscilação em seu campo magnético que ela não conseguia esconder. Por dentro, ela estava travando uma guerra civil. Uma parte dela, a rebelde que sempre foi chutada de um canto a outro do universo, queria gritar para ele se afastar, para parar de ser tão... tão doce. Aquilo a deixava vulnerável. A outra parte, no entanto, sentia-se como se estivesse finalmente sendo aquecida por um sol que não queimava, mas acolhia.

— Você é ridículo — murmurou ela, desviando o olhar para o nada. — Você usa essas palavras bonitas para me distrair do fato de que você quase nos transformou em poeira estelar hoje cedo.

— Eu lutei por nós — disse Terra, o tom de voz baixando para algo quase íntimo, uma vibração que ressoava através do éter. — E eu faria de novo. Você vale cada tempestade solar, Lumina.

Lumina sentiu um calor perigoso. Não era o calor de uma estrela, era algo interno, como se seu ferro fundido estivesse subitamente subindo para a superfície. Ela queria ser grossa. Ela precisava ser grossa. Era sua armadura.

— Não comece com isso de "nós" — ela disparou, embora sua voz não tivesse a força habitual. — Eu sou uma anomalia, lembra? Eu sou o erro de cálculo. Você é o garoto de ouro do sistema solar. Não tente me transformar em uma de suas luas românticas.

— Eu não quero que você seja minha lua — Terra sorriu, e por um momento, ele pareceu o planeta mais gentil de toda a galáxia. — Luas apenas seguem. Eu quero que você seja minha igual. Minha parceira de órbita. A única que tem coragem de me dizer quando estou sendo um idiota completo.

Lumina soltou uma risada seca, tentando recuperar sua postura de "durona".

— Bem, se é isso que você quer, então prepare-se, porque você está sendo um idiota completo agora mesmo. Esse papo de "obra de arte" é brega demais, até para os seus padrões de ex-narcisista.

— Brega? — Terra fingiu estar ofendido, colocando uma mão imaginária sobre o equador. — Eu passo horas pensando em como descrever a cor dos seus olhos estelares e você me chama de brega? Lumina, você fere meu núcleo.

— Ótimo — disse ela, cruzando os braços e tentando ignorar o fato de que seu coração estelar estava batendo em um ritmo acelerado. — Quem sabe assim você para de falar e começa a orbitar como uma rocha normal.

Terra deu uma risada leve, não se deixando abater. Ele sabia que, por trás daquela grosseria defensiva, Lumina estava derretendo. Ele conseguia ver as flutuações em sua magnetosfera. Ela estava nervosa. E, para ele, aquilo era a coisa mais adorável que já tinha visto no vácuo do espaço.

— Tudo bem, eu paro com a poesia por um momento — ele cedeu, deslizando para mais perto, até que suas atmosferas estivessem quase se misturando novamente. — Mas admita... você gosta de ter alguém que te veja de verdade. Não como um perigo ou uma rebelde, mas como... você.

Lumina ficou em silêncio. O desafio em seus olhos vacilou. Ela olhou para Terra, vendo o brilho azul e verde que abrigava bilhões de vidas, e sentiu uma pontada de inveja daquela paz que ele exalava. Mas também sentiu uma gratidão profunda. Ele era o único que não desviava o olhar quando ela mostrava os dentes.

— Eu não estou acostumada com isso — ela confessou em um sussurro, a voz carregada de uma vulnerabilidade que raramente permitia que alguém visse. — Todo mundo que se aproxima de mim acaba queimado ou me empurrando para longe. Você... você é persistente demais para o seu próprio bem.

— Eu sou a Terra — disse ele, com um traço daquela antiga confiança, mas agora temperada com carinho. — Eu aguento o calor. Eu tenho vulcões que queimam mais que qualquer insulto que você possa me atirar. E eu tenho oceanos para apagar qualquer incêndio que a gente comece.

Lumina sentiu uma lágrima de poeira cósmica ameaçar se formar. Ela rapidamente se recompôs, voltando à sua fachada de durona com um estalo de energia.

— Não se ache tanto — ela disse, dando um leve empurrão gravitacional nele, apenas o suficiente para fazê-lo balançar. — Se você continuar meloso desse jeito, eu vou pedir para Saturno te jogar alguns anéis na cara para ver se você acorda.

— Saturno está ocupado demais contando as próprias luas para se importar conosco — Terra brincou, recuperando o equilíbrio com facilidade. — E eu sei que você não faria isso. Você gosta de me ter por perto.

— Eu gosto de ter alguém para irritar — corrigiu ela, embora o sorriso de canto estivesse lá novamente, teimoso e brilhante. — É o meu passatempo favorito.

— Então somos o par perfeito — concluiu Terra, brilhando intensamente. — Eu amo ser o centro das atenções, e você ama me colocar no meu lugar. É um equilíbrio ecológico impecável.

Lumina revirou os olhos, mas não se afastou. Ela permitiu que o silêncio voltasse, mas desta vez, era um silêncio compartilhado, onde a gravidade de um ancorava o outro.

— Terra? — chamou ela depois de um tempo, sua voz suave novamente.

— Sim, Lumina?

— Se você contar para o Marte ou para o Vênus que eu não te expulsei da minha órbita depois de todo esse papo meloso... eu juro que causo uma era glacial em você.

Terra soltou uma gargalhada que ecoou pelas estrelas, sentindo-se o planeta mais sortudo de todo o universo conhecido.

— Seu segredo está guardado comigo, minha rebelde favorita. Mas saiba que, mesmo no gelo, eu ainda estaria flertando com você.

Lumina bufou, mas desta vez, ela não disse nada para contradizê-lo. Ela apenas deixou que seu brilho roxo se misturasse ao azul dele, aceitando que, talvez, apenas talvez, ser amada por um planeta um pouco egocêntrico não fosse o pior destino do cosmos.

— Idiota — ela murmurou, mas encostou sua órbita na dele com uma ternura que dizia muito mais do que qualquer grosseria poderia esconder.

— Seu idiota — corrigiu Terra, e o universo, por aquele breve momento, pareceu perfeitamente em paz.