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Alguns laços que resistem ao tempo

Entre o Vinho e o Amanhecer

A luz suave do restaurante iluminava o rosto de Sarada de uma forma que Boruto nunca tinha notado antes. Não que ele fosse cego à beleza dela — isso seria impossível —, mas havia algo diferente naquela noite. Talvez fosse a ausência do choro do pequeno Denki, que finalmente dormia sob os cuidados da avó Hinata, ou talvez fosse a consciência pesada e doce de que, pela primeira vez em meses, eles não eram apenas "os guardiões" de uma criança órfã. Eram apenas Boruto e Sarada.

— Você está muito silenciosa — comentou Boruto, girando o vinho tinto na taça. — O risoto estava ruim?

Sarada despertou de seus pensamentos e sorriu, um sorriso genuíno que raramente aparecia desde que a tragédia unira seus destinos de forma tão definitiva.

— Não, o risoto estava perfeito — respondeu ela, ajeitando os óculos. — Eu só estava pensando em como o silêncio é estranho. Sem fraldas, sem brinquedos espalhados pelo chão, sem o medo constante de que o Denki acorde com pesadelos. É... refrescante.

— É — concordou ele, a voz baixando um tom. — Mas eu não trocaria isso por nada. Criar o filho deles com você... é a única coisa que me mantém sã às vezes.

Eles compartilharam um olhar carregado de significado. A perda dos melhores amigos ainda doía, uma ferida que talvez nunca cicatrizasse totalmente, mas o amor que sentiam pelo afilhado e a parceria que desenvolveram transformaram o luto em algo construtivo. No entanto, entre as madrugadas acordados e as consultas médicas, um sentimento antigo, que datava da adolescência, havia florescido e se tornado algo inegável.

— Boruto — disse ela, a voz suave —, obrigada por me trazer aqui. Eu precisava disso.

— Eu também — admitiu ele, estendendo a mão sobre a mesa para tocar os dedos dela. — Eu queria que você se lembrasse de que você é mais do que uma mãe por escolha. Você é uma mulher incrível, Sarada. E eu sou um homem muito sortudo por ter você ao meu lado.

O jantar terminou com uma atmosfera carregada de uma eletricidade nova. Quando saíram do restaurante, o ar fresco da noite de Konoha — agora uma metrópole moderna e vibrante, longe dos tempos de guerras ninjas que pertenciam apenas aos livros de história de seus pais — os envolveu. Eles caminharam lado a lado até o estacionamento, o toque ocasional de seus ombros enviando faíscas que ambos fingiam ignorar.

O trajeto até o apartamento de Boruto foi feito em um silêncio confortável, quebrado apenas pela música baixa no rádio do carro. Quando ele estacionou na garagem do edifício moderno, a tensão mudou. Já não era mais sobre o jantar ou sobre Denki. Era sobre o que estava prestes a acontecer.

Ao entrarem no apartamento, Boruto mal teve tempo de acender a luz da sala antes de Sarada se virar para ele. A iluminação indireta da cidade entrava pelas grandes janelas de vidro, projetando sombras longas no chão de madeira.

— Boruto... — sussurrou ela, aproximando-se o suficiente para que ele sentisse o perfume de sândalo e jasmim que ela usava.

— Eu não quero que você sinta que precisamos fazer isso por causa da nossa situação — disse ele, a voz rouca, as mãos repousando hesitantes na cintura dela. — Eu quero que você saiba que eu te amo. Não como minha parceira de criação do Denki, mas como a mulher da minha vida.

Sarada sorriu, as lágrimas brilhando nos olhos, e encurtou a distância entre eles, selando seus lábios em um beijo que carregava anos de desejo reprimido, dor compartilhada e esperança renovada.

— Eu sei — respondeu ela contra os lábios dele. — E eu sinto o mesmo. Eu não quero ser "nós" apenas por causa do Denki. Eu quero ser sua, Boruto.

Ele a pegou no colo com uma facilidade que a fez rir baixo, o som ecoando pelo corredor enquanto ele a levava para o quarto. O ambiente estava imaculado, um contraste com a bagunça colorida que costumava dominar a sala de estar. Boruto a depositou cuidadosamente sobre a cama de lençóis escuros, seus olhos nunca deixando os dela.

— Você tem certeza? — perguntou ele, ajoelhando-se sobre o colchão, uma mão acariciando o rosto dela com uma ternura que a fez estremecer.

— Nunca tive tanta certeza de nada em toda a minha vida — afirmou ela, puxando-o para mais perto pela gola da camisa social.

As roupas foram deixadas de lado com uma urgência gentil. Cada centímetro de pele revelado era um novo território a ser explorado com reverência. Boruto traçou o contorno dos ombros de Sarada com os lábios, sentindo-a suspirar sob seu toque. Não havia pressa, apenas a descoberta mútua de dois corpos que se conheciam de alma, mas que agora se encontravam fisicamente pela primeira vez.

— Você é linda — murmurou ele, a voz falhando diante da visão dela sob a luz do luar que filtrava pelas cortinas finas.

— E você é teimoso, irritante e o homem mais maravilhoso que eu conheço — retrucou ela, puxando-o para um beijo profundo.

Quando eles finalmente se tornaram um só, o mundo lá fora pareceu desaparecer. Não havia passado doloroso, não havia responsabilidades futuras, havia apenas o calor do momento, o ritmo sincronizado de seus corações e a promessa silenciosa de que, não importa o que acontecesse, eles enfrentariam juntos. Foi um ato de entrega total, uma celebração da vida que eles estavam construindo sobre as cinzas do que perderam.

Horas depois, Sarada estava deitada com a cabeça no peito de Boruto, ouvindo as batidas estáveis do coração dele. O suor esfriava em seus corpos, e o lençol os cobria apenas parcialmente.

— No que você está pensando? — perguntou Boruto, passando os dedos pelos cabelos negros dela.

— No amanhã — confessou ela, subindo o olhar para encontrá-lo. — Amanhã de manhã, vamos buscar o Denki na casa da sua mãe. Vamos tomar café, ele vai derramar suco no tapete e vamos ter que correr para o trabalho.

Boruto riu baixo, beijando o topo da cabeça dela.

— Parece uma vida perfeita para mim.

— Para mim também — concordou ela, fechando os olhos. — Mas, por enquanto, só por mais algumas horas... eu quero ficar exatamente aqui.

— Eu não vou a lugar nenhum — prometeu ele, abraçando-a com mais força. — Nunca.

Naquela noite, no silêncio do apartamento no centro da cidade, Boruto e Sarada entenderam que o amor não era apenas sobre sobreviver à tempestade, mas sobre encontrar alguém com quem valesse a pena dançar sob a chuva, e alguém para segurar sua mão quando o sol finalmente decidisse aparecer. Eles não eram ninjas, não tinham poderes extraordinários, mas o que sentiam um pelo outro era a força mais poderosa que já haviam conhecido.