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Amigos a amores

Batidas, Suor e o Alinhamento das Estrelas

O silêncio no carro de Logan era preenchido apenas pelo som baixo de uma rádio de jazz, um contraste absoluto com o caos sensorial que Maya havia deixado para trás no palco do bar. Suas mãos ainda formigavam pela vibração das cordas da guitarra, e seus lábios ainda queimavam com o toque de Logan. Ele dirigia com uma mão no volante e a outra firmemente entrelaçada na dela, os dedos polegares traçando círculos lentos sobre a tatuagem de *Mamma Mia* em seu pulso.

— Você está muito quieta — comentou Logan, quebrando o transe. Ele desviou o olhar da estrada por um segundo, o maxilar marcado destacando-se sob a luz amarelada dos postes de Briar. — Ainda está processando o fato de que o segredo acabou ou que eu finalmente tomei coragem para te beijar?

Maya soltou uma risada anasalada, ajeitando um cacho teimoso atrás da orelha. Seus olhos âmbar brilharam com uma fagulha de desafio.

— Um pouco dos dois, capitão. Mas, honestamente? Estou pensando que você vai precisar de muito mais do que coragem para o que vem a seguir. Eu prometi uma balada brasileira, lembra? E eu não volto atrás na minha palavra.

— Eu sobrevivo a sessões de treino com o treinador Edwards, Maya. Acho que consigo lidar com um pouco de música pop — ele provocou, estacionando a caminhonete em frente ao prédio dela.

— Não é "um pouco de música pop", Logan. É cultura. É ritmo. É o tipo de coisa que faz o seu sangue ferver de um jeito que o hóquei nunca fez — ela se inclinou para frente, a proximidade fazendo o perfume amadeirado dele invadir seus sentidos. — Mas antes disso, temos um acordo.

Logan desligou o motor, o silêncio subitamente pesado e carregado de expectativa. Ele se virou completamente no banco, os olhos castanhos escurecendo enquanto desciam para a boca dela.

— Que acordo?

— Você queria aprender português — ela sussurrou, a voz ganhando aquele tom aveludado que o deixava zonzo. — Repita comigo: "Eu estou completamente na sua mão".

Logan franziu a testa, concentrado, tentando imitar os sons suaves e anasalados que saíam da boca dela.

— Eu... estou... comple... tamente... na sua mão? — O sotaque dele era carregado, mas a tentativa foi genuína.

Maya sorriu, sentindo uma onda de ternura.

— Quase perfeito. E a tradução é: "I am completely in your hand". Ou, em bom inglês: você está ferrado comigo, John Logan.

— Eu já sabia disso antes mesmo de você abrir a boca para cantar Silver Springs — ele admitiu, a voz grave. Logan estendeu a mão, tocando o rosto dela com uma delicadeza que contrastava com seu porte atlético. — O que aconteceu lá naquele bar... Maya, eu nunca vi ninguém se entregar assim. Você parecia... intocável e, ao mesmo tempo, a pessoa mais real que eu já conheci.

O sorriso de Maya vacilou por um instante, a sombra do luto cruzando seu rosto como uma nuvem passageira.

— Meus pais diziam que a música é a única linguagem que não precisa de tradução para a alma. Quando eu canto, é como se eles estivessem na primeira fila. É doloroso, mas é o único jeito de não esquecer o som da voz deles.

Logan não disse as frases clichês de conforto que ela estava acostumada a ouvir. Em vez disso, ele puxou a mão dela e beijou os nós dos dedos, exatamente onde a tatuagem da Rita Lee decorava sua pele.

— Então eu vou estar em todos os shows. Para garantir que a primeira fila nunca esteja vazia.

O momento foi interrompido pelo celular de Maya vibrando freneticamente. Era o grupo do WhatsApp com Hannah, Allie e os meninos. Jules já havia postado um "teaser" na *Fifth Line* com uma silhueta misteriosa no palco, e as notificações não paravam.

— A Jules vai me matar se eu não der os detalhes amanhã — Maya riu, abrindo a porta do carro. — E você, Logan, trate de descansar. Amanhã à noite, o figurino é outro. Nada de moletons de Briar. Quero você pronto para suar.

***

A noite seguinte chegou com a promessa de algo inédito para os rapazes de Briar. Maya havia alugado um espaço que promovia noites temáticas internacionais, e aquela sexta-feira era dedicada ao funk brasileiro. Ela estava em seu elemento. Vestia um short jeans curto de cintura alta, um top que revelava a tatuagem de *Karma is a cat* nas costelas e argolas douradas que balançavam conforme ela se movia.

Quando o grupo chegou, a batida grave do funk antigo de Claudinho e Buchecha já ecoava pelas paredes, fazendo o chão vibrar.

— O que é esse ritmo? — Garrett perguntou, tentando acompanhar a batida com a cabeça enquanto segurava a mão de Hannah. — É... hipnotizante.

— Isso é só o começo, G — respondeu Maya, puxando-os para o centro da pista. — Hannah, Allie, esqueçam o que vocês sabem sobre dança de salão. Aqui, o corpo manda e a mente obedece.

Logan estava parado um pouco atrás, observando Maya. Ele nunca a tinha visto assim. Em Briar, ela era a nerd intelectual; no bar, a rockstar melancólica. Aqui, ela era pura energia vital. Quando a transição para um funk mais atual, de Pedro Sampaio, aconteceu, Maya não hesitou. Ela conhecia cada passo, cada inclinação de quadril, movendo-se com uma fluidez que deixou Logan sem fôlego.

— Você vai ficar aí parado como um poste ou vai deixar uma brasileira te ensinar a viver? — ela gritou por cima da música, aproximando-se dele com um sorriso provocador.

Logan riu, deixando-se levar.

— Eu não tenho esse molejo, Maya! Eu sou um jogador de hóquei, meu centro de gravidade é feito para o gelo, não para... seja lá o que você está fazendo com os quadris.

— Deixe o gelo para o ginásio, Logan — ela disse, ficando de costas para ele e puxando as mãos dele para a sua cintura. — Sinta a batida. Não pense, apenas sinta.

O contato físico foi como um rastilho de pólvora. O calor da pele dela sob as mãos dele, o movimento rítmico e a entrega ao momento criaram uma bolha onde só existiam os dois, apesar do barulho ao redor. Dean e Tucker estavam tentando imitar alguns passos ao fundo, arrancando gargalhadas de Allie, mas Logan só tinha olhos para a nuca de Maya e o perfume de baunilha que emanava dela.

A música mudou para algo mais lento, um remix de MPB com batidas de Lo-fi, e o clima na pista suavizou. Maya se virou no abraço dele, passando os braços pelo pescoço de Logan.

— Você está indo bem, aluno — ela provocou, os olhos âmbar fixos nos dele.

— É a professora — ele respondeu, a voz rouca. — Ela é muito envolvente.

Eles dançaram assim por um tempo, em um silêncio confortável que dizia mais do que qualquer conversa acadêmica. Logan sentia que, a cada hora que passava com ela, uma nova camada daquela mulher complexa se revelava. Ela era uma mistura de referências de cultura pop, força bruta do jiu-jitsu e uma sensibilidade artística que o assustava e o atraía na mesma medida.

— Eu sinto que estou começando a te entender — ele sussurrou perto do ouvido dela. — O jornalismo, as tatuagens, os gatos, a música... tudo faz parte de um quebra-cabeça para manter o mundo em ordem, não é?

Maya parou de se mover por um segundo, surpresa com a percepção dele.

— O mundo pode ser muito caótico, Logan. Especialmente quando ele tira de você as pessoas que eram o seu norte. Eu crio meus próprios nortes agora.

— Deixe-me ser um deles — ele pediu, a seriedade em seu tom fazendo o coração dela errar uma batida. — Não quero ser apenas o cara que você ensina português ou o amigo que ouve seus discos. Eu quero ser o cara que fica.

Maya sentiu a garganta apertar. O luto costumava torná-la cautelosa, mas com Logan, o medo parecia menor do que a vontade de se arriscar.

— Você sabe que eu sou difícil, não sabe? — ela brincou, tentando disfarçar a emoção. — Eu vou te obrigar a assistir *Mamma Mia* pelo menos uma vez por mês e você vai ter que aprender a lidar com o Fred e o Jorge tentando dormir na sua cara.

— Se eu puder acordar com você ao meu lado, eu aceito até os gatos — ele selou a promessa com um beijo lento, ignorando o assobio de Dean ao longe.

A noite continuou intensa. Eles riram das tentativas frustradas de Garrett de fazer o "quadradinho" e se emocionaram quando Maya, a pedido de Jules, subiu ao pequeno palco da balada para cantar uma versão improvisada de *Na Sua Estante*, da Pitty. Mesmo os que não entendiam a letra sentiam a força da melodia.

Horas mais tarde, quando o grupo se dispersou e Logan finalmente a deixou na porta de seu apartamento, a atmosfera era elétrica. O corredor estava silencioso, iluminado apenas por uma lâmpada fraca.

— Você quer entrar? — ela perguntou, a chave na mão, mas os olhos fixos nele. — Os meninos estão dormindo, mas eu posso fazer um café... ou abrir um vinho.

Logan encostou a mão na porta, cercando-a.

— Maya, se eu entrar, eu não vou querer sair tão cedo. E eu não estou falando de café.

— Eu sei — ela respondeu, a voz firme. Ela abriu a porta e o puxou para dentro pela gola da camisa.

O apartamento de Maya era exatamente como Logan imaginava: prateleiras cheias de livros de Jane Austen e Louisa May Alcott, uma vitrola no canto com discos espalhados e dois gatos laranjas que mal abriram os olhos no sofá. Mas Logan não olhou para nada disso. Ele só via a mulher à sua frente.

Ele a prensou contra a porta fechada assim que entraram, seus lábios se encontrando em um beijo que não tinha nada de hesitante. Era uma conversa física, um reconhecimento de tudo o que haviam construído como amigos e que agora transbordava. As mãos de Logan exploravam as curvas de Maya com uma fome controlada, enquanto ela se perdia na sensação do corpo atlético dele contra o seu.

— Logan... — ela arquejou quando ele desceu os beijos para o seu pescoço, encontrando o ponto exato que a fazia estremecer.

— Você é incrível, Maya — ele murmurou contra a pele dela. — Cada detalhe seu.

Eles se moveram para o quarto de forma desajeitada, rindo entre beijos quando Logan tropeçou em um dos brinquedos dos gatos. No quarto, a luz da lua entrava pela janela, iluminando as paredes repletas de pôsteres de filmes e heróis da Marvel.

A intimidade entre eles foi natural, como se seus corpos já soubessem o caminho um do outro. Não havia pressa, apenas uma descoberta mútua e intensa. Logan era cuidadoso, atento a cada reação dela, enquanto Maya se mostrava tão audaciosa na cama quanto era no palco. Cada toque era carregado daquela "saudade" que ela havia lhe ensinado — um desejo de preencher todos os espaços vazios.

Mais tarde, deitados entre os lençóis bagunçados, com a respiração voltando ao normal, Logan puxou Maya para o seu peito. Ela desenhava formas aleatórias sobre as cicatrizes que ele tinha nos ombros, frutos de anos no gelo.

— Sabe o que eu percebi? — Logan perguntou, a voz sonolenta e satisfeita.

— O quê?

— Que você ainda não me ensinou a dizer "eu te amo" em português.

Maya levantou o rosto, apoiando o queixo no peito dele. O brilho âmbar de seus olhos estava suave, emoldurado pelos cachos bagunçados.

— Você quer mesmo saber?

— Mais do que qualquer coisa.

— *Eu te amo* — ela disse, a pronúncia perfeita e carregada de significado. — Mas não diga isso a menos que você esteja pronto para o que vem com essas palavras. No Brasil, a gente não diz isso da boca para fora.

Logan sorriu, puxando-a para um beijo calmo e profundo.

— *Eu... te... amo* — ele repetiu, a voz firme apesar do sotaque. — E eu nunca estive tão pronto para nada em toda a minha vida, Maya Rozwadowski.

Pela primeira vez em muito tempo, o silêncio no coração de Maya não era preenchido pela dor da perda, mas pela promessa de um novo acorde. Um alinhamento milenar que, contra todas as probabilidades, havia acontecido no gelo de Briar.