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Amizade...?

Pulsações no Vácuo

O sistema solar era um lugar de rotinas previsíveis, mas para Terra, a previsibilidade estava se tornando um conceito cada vez mais abstrato. Ele sentia o peso de Lumina ao seu lado, não apenas como uma massa física exercendo gravidade, mas como uma presença que preenchia as lacunas de sua própria existência. Ele, que outrora acreditava que sua própria luz era o ápice da criação, agora se via fascinado pelas sombras que ela projetava.

— Você está fazendo de novo — murmurou Lumina, sem desviar os olhos de uma nebulosa distante que pintava o fundo do espaço com tons de violeta e rosa.

— O quê? — Terra piscou, saindo de seu transe. — Eu não fiz nada. Eu estava apenas... processando dados climáticos.

Lumina soltou um som seco, uma risada que não chegou a se formar completamente.

— Você estava me encarando com aquela expressão de quem descobriu um novo continente. É desconcertante.

Terra sentiu um leve calor subir por suas camadas atmosféricas. Ele ajustou sua inclinação axial, tentando recuperar a compostura.

— Eu não posso evitar. Você é um mistério geológico, Lumina. E eu sempre fui um entusiasta da ciência.

— Sei — ela respondeu, finalmente virando a face para ele. Seus olhos tinham um brilho afiado, mas a agressividade habitual parecia ter sido substituída por uma melancolia cansada. — Você é um entusiasta de si mesmo, Terra. Mas admito que sua insistência em ser "legal" é quase convincente.

— Quase? — Terra fingiu uma pontada de mágoa, colocando a mão sobre o peito, onde o núcleo pulsava. — Eu mudei, Lumina. Eu realmente mudei. A Lua me diz isso o tempo todo, embora ela também diga que eu ainda falo demais sobre meus oceanos.

— A Lua é paciente demais com você — disse ela, cruzando os braços. — Se eu fosse seu satélite, já teria me chocado contra você há milênios só para te calar.

Terra riu, um som vibrante que pareceu fazer as partículas de poeira estelar ao redor dançarem.

— É por isso que eu gosto de você. Você não me deixa voltar a ser aquele egocêntrico insuportável de antes. Você é como um freio de mão para o meu ego.

Lumina suavizou a postura. Ela se aproximou um pouco mais, o suficiente para que o brilho azulado da Terra refletisse em sua superfície rochosa e escura. Houve um longo silêncio, um daqueles momentos em que o vácuo parecia respirar junto com eles.

— Por que você se esforça tanto, Terra? — perguntou ela, a voz subitamente baixa e séria. — Eu fui hipócrita. Eu apontei seus erros enquanto escondia os meus sob camadas de indiferença. Eu te tratei como se você fosse o único culpado por tudo, só porque era mais fácil do que olhar para as minhas próprias cicatrizes.

Terra parou de brincar. Ele observou as nuvens girarem sobre o Pacífico, pensando em como responder.

— Porque eu vejo o esforço que você faz para não se importar — disse ele, com uma suavidade que surpreendeu a ambos. — Eu conheço essa máscara, Lumina. Eu a usei por muito tempo, embora a minha fosse feita de ouro e a sua seja feita de espinhos. Nós dois estávamos tentando esconder que temos medo de não sermos o suficiente.

Lumina desviou o olhar, uma pequena rachadura aparecendo em sua fachada de aço.

— Eu não tenho medo — mentiu ela, embora sua voz tremesse levemente.

— Tudo bem — concedeu Terra. — Então vamos chamar de "cautela excessiva". Mas a questão é que você não precisa ter essa cautela comigo. Eu já vi o pior de você, e você já viu o pior de mim. O que sobrou é... bem, é isso aqui.

Ele gesticulou para o espaço entre eles, para a órbita compartilhada e para a estranha harmonia que haviam encontrado.

— É um desastre — repetiu Lumina, lembrando-se das palavras dele da última vez.

— O melhor desastre do sistema solar — corrigiu ele.

De repente, um movimento rápido chamou a atenção de ambos. Marte passava por perto, observando-os com uma expressão de pura confusão e um toque de desdém.

— Vocês dois estão... conversando de novo? — perguntou o planeta vermelho, diminuindo a velocidade. — Terra, você não deveria estar cuidando dos seus humanos? Eles estão fazendo buracos em você de novo.

Terra revirou os olhos, mas manteve o sorriso.

— Eles estão bem, Marte. É um processo de aprendizado mútuo. E Lumina e eu estamos apenas discutindo... astrofísica.

Lumina lançou um olhar mortal para Marte, o que fez o planeta menor recuar instintivamente alguns milhares de quilômetros.

— Vá cuidar das suas tempestades de areia, Marte — rosnou ela. — Antes que eu decida testar minha força gravitacional na sua órbita.

Marte resmungou algo sobre "planetas instáveis" e seguiu seu caminho, deixando-os sozinhos novamente. Lumina soltou um suspiro longo, relaxando os ombros.

— Viu? — disse ela, voltando-se para Terra. — Eu sou um monstro. Eu afasto todo mundo.

— Você não me afastou — lembrou ele.

— Eu tentei.

— Você falhou miseravelmente. Eu sou muito persistente.

Lumina olhou para ele, e por um momento, a barreira caiu completamente. Não havia rebeldia, não havia hipocrisia, apenas uma alma solitária procurando por um porto seguro no meio da vastidão infinita.

— Às vezes eu sinto que, se eu deixar você chegar perto demais, eu vou perder a única coisa que me mantém inteira: minha raiva — confessou ela. — A raiva me protegeu quando tudo o mais falhou. Se eu for gentil... se eu for vulnerável... o que sobra de mim?

Terra moveu-se para mais perto, ignorando as leis de segurança orbital que costumava seguir com tanto rigor. Ele estava agora tão perto que podia sentir o calor residual da formação de Lumina, uma energia antiga e poderosa.

— Sobra a Lumina — disse ele. — E ela é incrível. Ela é forte, ela é inteligente, e ela tem um senso de humor terrivelmente ácido que eu adoro. A raiva é apenas uma armadura, Lumina. Mas você não está em guerra agora. Não comigo.

Lumina hesitou, suas mãos trêmulas enquanto flutuavam no vácuo. Ela olhou para a Terra, para o azul vibrante e o verde cheio de vida, e sentiu uma inveja momentânea de sua capacidade de florescer apesar das cicatrizes.

— Eu não sei como fazer isso — sussurrou ela.

— Comece pequeno — sugeriu Terra. — Apenas fique aqui. Não fuja na próxima vez que eu disser algo estúpido ou egocêntrico.

— Então eu vou passar a eternidade aqui — ela brincou, embora houvesse lágrimas de luz em seus olhos.

Terra sorriu e, em um gesto de audácia que desafiava sua antiga natureza narcisista, ele estendeu a mão e tocou a dela. Foi um contato breve, um toque de superfícies rochosas e energia eletromagnética, mas para eles, foi como o nascimento de uma estrela. O choque de suas presenças criou uma ondulação no espaço-tempo, um segredo compartilhado entre dois mundos.

Lumina não recuou. Pelo contrário, ela entrelaçou seus dedos celestiais nos dele, firmando o aperto.

— Você é um idiota, Terra — disse ela, mas não havia veneno em suas palavras. Apenas uma aceitação profunda.

— Eu sei — ele concordou. — Mas eu sou o seu idiota.

Eles ficaram ali, flutuando em silêncio, enquanto o Sol continuava seu ciclo eterno de queima e brilho. Ao redor deles, o universo continuava sua expansão indiferente, mas naquele pequeno canto do sistema solar, algo novo estava sendo forjado. Não era um romance de contos de fadas, nem uma amizade simples e sem complicações. Era algo complexo, cheio de arestas e traumas, mas também de uma beleza crua e honesta.

— Terra? — chamou Lumina, depois de um tempo que poderia ter sido minutos ou séculos.

— Sim?

— Se você contar para o Vênus sobre isso... eu realmente te jogo no Sol. Sem brincadeira desta vez.

Terra soltou uma gargalhada que pareceu iluminar o lado escuro de sua própria superfície.

— Meu segredo está guardado no fundo da Fossa das Marianas, Lumina. Ninguém vai saber.

— Bom — disse ela, apertando a mão dele um pouco mais forte. — Porque eu gosto desse silêncio.

— Eu também — admitiu Terra. — É o melhor som que eu já ouvi.

E assim, entre o brilho da redenção e as cicatrizes do passado, os dois planetas continuaram sua dança. Eles eram um ciclo de contradições, um paradoxo de luz e sombra, mas, pela primeira vez em muito tempo, nenhum dos dois se sentia sozinho no vácuo. Eles tinham um ao outro, e no fim das contas, isso era mais do que qualquer planeta poderia pedir. O ego de Terra tinha encontrado seu par, e a rebeldia de Lumina tinha encontrado seu descanso. O universo podia ser vasto e frio, mas entre eles, havia um calor que nenhuma estrela poderia replicar.