Amor
O Labirinto de Vidro e Sangue
O silêncio no quarto 402 era denso, quebrado apenas pelo zumbido baixo do ar-condicionado e pelo som abafado dos graves da música que vinha do andar de baixo, onde o cassino pulsava em sua glória decadente. Kuro permanecia ajoelhado, uma posição que mantinha sua postura submissa e não ameaçadora, apesar de seu corpo musculoso e da presença imponente. Ele observava Tatsuyo, que agora parecia uma criança perdida dentro daquela jaqueta de couro preta excessivamente grande.
Ela apertava a gola da jaqueta contra o queixo, os nós dos dedos brancos de tanta força. Seus olhos pretos, ainda úmidos, fixaram-se em um ponto qualquer no tapete, fugindo do olhar intenso e compassivo de Kuro. Ele sabia que o tempo estava correndo contra eles. Cada minuto que ele passava naquele quarto sem "consumar" o serviço era um risco, mas ele não podia apressar a alma estilhaçada à sua frente.
— Tatsuyo... — chamou ele, a voz como um veludo protetor. — Você não precisa me contar tudo de uma vez. Mas qualquer detalhe sobre como o Volkov opera... onde ele esconde os documentos... isso pode salvar você. E pode salvar as outras.
A garota estremeceu ao ouvir o nome do dono do cassino. Ela soltou um suspiro trêmulo, e a primeira barreira de seu silêncio finalmente cedeu.
— Ele é... ele é mais cuidadoso do que você imagina — começou ela, a voz tão baixa que Kuro teve que se inclinar levemente para frente para ouvir. — As câmeras... não são só para segurança. Ele assiste tudo de um escritório que não fica no prédio principal. Existe um túnel, Kuro. Atrás da adega de vinhos raros.
Kuro sentiu uma descarga de adrenalina. Ele tinha suspeitado de uma rota de fuga subterrânea, mas nunca conseguira localizar a entrada.
— Esse túnel leva para onde? — perguntou ele, mantendo a calma para não assustá-la.
— Para um galpão do outro lado da rua, disfarçado de lavanderia industrial. É por lá que as garotas entram e saem. — Tatsuyo começou a balançar o corpo levemente para frente e para trás, um gesto de autorreconforto. — Ele nunca traz ninguém pela porta da frente. O cassino é só a vitrine. O dinheiro de verdade vem das... encomendas. Ele tem um sistema de cores.
— Cores? — Kuro franziu a testa, os olhos castanhos atentos.
— Sim. Fichas de cassino que não são usadas nas mesas. Se um cliente VIP recebe uma ficha dourada com um selo azul, significa que ele comprou uma garota para levar. Se for um selo vermelho... — Ela parou, a voz falhando, e uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto pardo. — Significa que ela não vai voltar. Que ela foi vendida para fora do país.
Kuro sentiu uma onda de náusea. A sofisticação do crime era revoltante. Ele se aproximou apenas alguns centímetros, estendendo a mão no chão, perto da borda da cama, oferecendo uma presença sólida.
— Você foi muito corajosa em me dizer isso, Tatsuyo. E as garotas que ficam aqui? Como ele as mantém caladas? Além das ameaças às famílias?
Tatsuyo soltou uma risada amarga e sem vida, que logo se transformou em um soluço seco.
— Ele usa o "médico". Um homem que vem toda segunda-feira. Ele aplica injeções nelas... diz que é para a saúde, mas é para deixá-las dependentes. Elas ficam lentas, obedientes. E se alguém tenta fugir... — Ela apertou a jaqueta com tanta força que o couro rangeu. — Ele as leva para o "quarto zero". Fica no subsolo, abaixo das máquinas de manutenção. Não há isolamento acústico lá, mas ninguém ouve porque o barulho das caldeiras abafa os gritos.
Ela começou a hiperventilar. As lembranças pareciam estar sufocando-a. Kuro percebeu que ela estava entrando em colapso e, ignorando o protocolo de distância, ele se sentou na beirada da cama, a uma distância segura, mas perto o suficiente para que ela sentisse o seu calor.
— Respira, Tatsuyo. Olha para mim. — Ele esperou até que os olhos dela encontrassem os dele. — Você está segura aqui. Eu estou com a chave, a porta está trancada. Ninguém vai entrar. Eu sou o Kuro, lembra? O "bad boy" de cabelo branco que você achou que era só mais um idiota.
Um lampejo quase imperceptível de um sorriso cruzou o rosto dela antes de desaparecer.
— Você não é um idiota — sussurrou ela. — Seus olhos são diferentes. Eles não têm aquela... fome.
— Eu só tenho fome de justiça, pequena. E de tirar você desse lugar. — Ele deu um leve toque no ombro coberto pela jaqueta, sentindo como ela ainda tremia sob o couro. — Continue. O que mais você sabe sobre o Volkov? Como ele limpa o dinheiro?
— Ele usa empresas de fachada no Japão e na Rússia. Ele se gaba disso quando bebe demais. Ele diz que o mundo é um tabuleiro e que as pessoas são apenas peças de plástico. — Tatsuyo começou a chorar mais intensamente agora, o pânico subindo como uma maré. — Ele faz coisas horríveis, Kuro. Ele obriga as garotas a... a agradecerem por estarem aqui. Ele diz que nos salvou da sarjeta.
— Ele é um monstro, Tatsuyo. Um parasita.
— Você não entende... — Ela soluçou, escondendo o rosto nas mãos. — Ele não é só o dono deste lugar. Para mim, é pior. É muito pior.
Kuro sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Havia algo na voz dela, um desespero que ia além do medo de um captor. Era uma dor ancestral, uma traição enraizada no sangue.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou ele, a voz suave, quase um sussurro.
Tatsuyo levantou o rosto, e a expressão de agonia pura fez o coração de Kuro apertar. Ela parecia estar prestes a saltar de um penhasco.
— Eu não sou apenas uma garota que ele sequestrou — disse ela, as palavras saindo como se estivessem rasgando sua garganta. — Minha mãe... ela era uma das mulheres que trabalhavam para ele no início. Uma mulher que ele usou e descartou. Eu nunca a conheci de verdade. Ele a mandou embora quando eu nasci.
Kuro paralisou. A implicação começou a se formar em sua mente, terrível e clara.
— Tatsuyo, o que você está dizendo?
— O Volkov... ele é meu pai — ela disparou, e o desespero explodiu em um choro convulsivo. — O homem que comanda este inferno, o homem que me vende todas as noites, que me deixa ser marcada e machucada... é o meu próprio pai.
Kuro sentiu um impacto físico, como se tivesse levado um soco no estômago. Ele já vira muita depravação em sua carreira, mas aquilo era um novo nível de escuridão. Ele se aproximou mais, envolvendo os ombros dela com o braço, e desta vez ela não recuou. Ela se jogou contra o peito dele, agarrando a regata dele com as mãos trêmulas, escondendo o rosto no vão do seu pescoço.
— Ele começou quando eu tinha doze anos — ela confessou entre soluços, a voz abafada pelo corpo dele. — Doze anos, Kuro. Ele disse que eu tinha que pagar pela minha existência. Que eu era um investimento. Ele me trancou em um quarto escuro por um mês até que eu parasse de lutar.
Kuro fechou os olhos, sentindo uma raiva tão avassaladora que seus músculos ficaram tensos como cordas de aço. Ele queria sair dali naquele exato momento, subir as escadas e descarregar seu penteado na cabeça de Volkov. Mas ele precisava ser profissional. Ele precisava de Tatsuyo inteira.
— Eu sinto muito... eu sinto tanto, Tatsuyo — murmurou ele, passando a mão pelos cabelos negros e ondulados dela, tentando transmitir toda a proteção que podia. — Ninguém deveria passar por isso. Especialmente não pelas mãos de quem deveria te proteger.
— Eu sou um lixo, não sou? — ela perguntou, a voz quebrada, olhando para ele com olhos que buscavam desesperadamente uma negação. — Eu sou parte dele. O sangue dele está em mim.
Kuro segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a olhar para ele. Seus polegares limparam as lágrimas nas bochechas pardas.
— Escute bem o que eu vou te dizer, Tatsuyo Nakamura. Você não é ele. Você não tem nada a ver com a podridão daquele homem. O fato de você ter sobrevivido a isso, de ainda ter um coração que sente dor e medo, prova que ele não conseguiu te destruir. Você é a pessoa mais forte que eu já conheci.
— Eu não me sinto forte — ela soluçou, encostando a testa no ombro dele. — Eu me sinto despedaçada.
— Então eu vou ajudar você a juntar os pedaços — prometeu Kuro, a voz carregada de uma promessa solene. — Eu vou tirar você daqui hoje, ou vou morrer tentando. Mas eu preciso que você aguente mais um pouco. Preciso que você me diga onde ele guarda os contratos. Os papéis que provam que ele é o dono das empresas de fachada.
Tatsuyo respirou fundo, tentando controlar os tremores que ainda sacudiam seu corpo pequeno. A jaqueta de Kuro era como um escudo, e o perfume dele — menta e algo quente, másculo — era a única coisa que a mantinha ancorada na realidade.
— No escritório dele... — disse ela, recuperando um pouco da voz. — Há um cofre atrás do quadro da "Madona Negra". A senha é a data do meu nascimento. Ele... ele usa isso como uma piada doentia. Diz que eu fui o dia em que ele começou a ganhar dinheiro de verdade.
Kuro trincou os dentes. A crueldade de Volkov parecia não ter limites.
— Entendi. Dia do seu nascimento. — Ele memorizou a informação. — E quanto aos seguranças? Quantos ficam no corredor à noite?
— Dois na porta principal, um circulando. Mas o Volkov tem um guarda-costas pessoal, um homem chamado Boris. Ele nunca sai do lado dele. Boris é um animal, Kuro. Ele não fala, ele só destrói.
— Eu dou um jeito no Boris — afirmou Kuro com uma frieza profissional que contrastava com a ternura que mostrava a ela. — Tatsuyo, quando o sinal for dado, você precisa estar pronta. Eu vou te levar para um lugar seguro, uma casa de apoio da agência. Ninguém vai te encontrar lá.
Ela se afastou um pouco, olhando para ele com uma mistura de esperança e terror absoluto.
— E depois? O que acontece comigo? Eu não tenho nada. Eu não sou ninguém lá fora.
— Você vai ser quem você quiser ser — disse Kuro, sorrindo gentilmente. — Você vai terminar seus estudos, vai ver o sol sem ter medo, vai poder andar na rua sem que ninguém te toque se você não quiser. Você vai ter uma vida, Tatsuyo. Uma vida de verdade.
Ela olhou para as próprias mãos, perdidas nas mangas da jaqueta. Pela primeira vez em anos, a ideia de um futuro não parecia uma piada cruel, mas uma possibilidade remota e brilhante.
— Por que você está fazendo isso? — ela perguntou de repente. — Você poderia ter escolhido qualquer outra garota. Qualquer uma teria te dado as informações se você prometesse liberdade. Por que eu?
Kuro hesitou por um segundo. Ele pensou em todas as vezes que a vira no salão, o modo como ela parecia uma estrela moribunda tentando manter seu brilho em meio a um buraco negro.
— Porque quando eu te vi pela primeira vez, eu não vi uma vítima — confessou ele. — Eu vi alguém que estava lutando uma guerra silenciosa todos os dias. E eu decidi que você não ia lutar mais sozinha.
Tatsuyo não respondeu com palavras. Ela apenas se inclinou e apoiou a cabeça no peito de Kuro novamente, ouvindo as batidas fortes e ritmadas do coração dele. Para ela, aquele era o som da liberdade. Para Kuro, era o tambor de guerra.
Eles ainda tinham horas pela frente antes do amanhecer, horas em que teriam que fingir para as câmeras, manter as aparências e planejar a queda de um império construído sobre o sofrimento humano. Mas ali, naquele quarto luxuoso e maldito, o agente e a prisioneira haviam forjado um laço que nenhuma grade ou ameaça poderia quebrar.
— Kuro? — chamou ela, quase em um sussurro.
— Sim?
— Não me deixa tirar a jaqueta. Eu... eu não quero sentir o frio deste lugar de novo.
— Você não vai tirar — prometeu ele, apertando-a um pouco mais. — Ela é sua agora. E eu estou aqui. Eu não vou a lugar nenhum.
O silêncio voltou a reinar, mas desta vez, não era um silêncio de medo. Era a calmaria antes da tempestade que Kuro Hatake estava prestes a desencadear sobre o "L’Éden", jurando a si mesmo que, quando o sol nascesse, Tatsuyo Nakamura nunca mais teria que implorar para não ser machucada.