Amor
O Eco da Tortura e o Peso do Mundo
O amanhecer na arena não trouxe o alento da luz, mas o prenúncio de um pesadelo orquestrado. O ar, antes úmido e com cheiro de terra, subitamente tornou-se metálico, carregado de uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de Tatsuyo se arrepiarem. Ela e Kuro estavam abrigados em uma rede de galhos grossos, a quase quinze metros do chão, escondidos pela folhagem densa das árvores gigantes que Tatsuyo conhecia tão bem.
Kuro dormia um sono inquieto, a respiração ainda pesada, mas a febre havia cedido graças às compressas da garota. Tatsuyo, sentada em um galho adjacente, vigiava o horizonte artificial. Foi então que o som começou. Não era um canhão, nem o hino. Era um zumbido agudo, uma frequência que parecia perfurar o crânio e revirar as entranhas.
— Kuro... acorde — sussurrou Tatsuyo, a voz trêmula.
Kuro despertou em um solavanco, a mão buscando instintivamente a faca, mas a dor em seu abdômen o fez gemer.
— O que é isso? — perguntou ele, tentando focar a visão.
A resposta veio na forma de uma névoa prateada que começou a subir do chão da floresta. Não era neblina comum; eram micro-máquinas, um enxame de rastreadores metálicos brilhantes que emitiam aquele som insuportável. A Capital decidira que o ritmo do jogo estava lento demais. Eles queriam movimento. Eles queriam sofrimento.
— Temos que subir mais! — gritou Tatsuyo, mas era tarde.
A névoa subiu com uma velocidade sobrenatural. Quando o primeiro contato ocorreu, Tatsuyo soltou um grito que rasgou a quietude da manhã. Não era apenas dor física; as máquinas eram programadas para induzir alucinações de terror. Ao toque do metal frio em sua pele parda, Tatsuyo não viu mais a floresta. Ela viu as minas do Distrito 12 desabando sobre sua família. Ela ouviu os gritos de seus irmãos sendo chicoteados. Ela sentiu o cheiro de carne queimada e o desespero de uma vida inteira de opressão concentrado em um único segundo.
Kuro tentou alcançá-la, mas o enxame o atingiu logo em seguida. Ele rugiu, golpeando o ar como se lutasse contra fantasmas. Suas mãos grandes, que antes ofereciam proteção, agora arranhavam o próprio rosto, tentando afastar visões de fracasso e morte.
A intervenção durou o que pareceram horas, embora o relógio da Capital marcasse apenas dez minutos de puro deleite para os telespectadores. Quando o zumbido finalmente cessou e a névoa se dissipou, restou apenas o silêncio quebrado por soluços lancinantes.
Tatsuyo estava caída em uma bifurcação de galhos, encolhida em posição fetal. Suas unhas haviam cavado sulcos sangrentos em seus próprios antebraços. O brilho de inocência que a tornara o símbolo de pureza da edição fora substituído por um olhar vazio, vidrado, como se sua alma tivesse sido arrancada e deixada em algum lugar sombrio entre as máquinas.
Kuro, tremendo violentamente, conseguiu se arrastar até ela. O ferimento dele havia reaberto com o esforço frenético, manchando o uniforme de um vermelho vivo, mas ele ignorou a própria agonia.
— Tatsuyo... — ele chamou, a voz quebrada. — Acabou. Eles pararam. Tatsuyo, olhe para mim!
Ela não respondeu. Seus olhos pretos estavam abertos, mas não refletiam nada. Uma lágrima solitária escorreu, seguida por uma enxurrada. Ela começou a tremer de forma tão violenta que Kuro temeu que ela caísse da árvore.
— Eles... eles levaram tudo — ela sussurrou, a voz tão fina que quase se perdia no vento. — Eu vi... eu vi eles morrendo, Kuro. Eu senti o cheiro...
— Foi a Capital, pequena. Foi um truque — disse Kuro, tentando envolver os ombros dela com seus braços musculosos, mas seus próprios membros mal obedeciam.
Tatsuyo desabou contra o peito dele. O choro que se seguiu não era o de uma competidora, mas o de uma criança que descobriu que o mundo é um lugar sem saída. Ela chorava com o corpo inteiro, soluços que a deixavam sem ar, transformando a garota ágil e capaz em um amontoado de dor e exaustão.
— Eu não consigo mais — ela soluçou, as mãos agarrando a jaqueta de Kuro com força desesperada. — Minhas pernas... elas não funcionam. Kuro, eu não quero mais estar aqui. Por favor, me deixe aqui.
— Nunca — rosnou Kuro, a determinação voltando aos seus olhos castanhos, impulsionada por uma raiva fria contra os idealizadores do jogo. — Eles querem que você desista. Eles querem quebrar a única coisa bonita que resta nesta arena. Mas eu não vou deixar.
Kuro tentou ajudá-la a se levantar, mas Tatsuyo era como gelatina. Seus músculos haviam entrado em colapso sob o estresse psicológico e o choque do sistema nervoso. Sempre que ela tentava firmar os pés no galho, seus joelhos dobravam e ela desabava, chorando ainda mais alto de pura frustração e terror.
— Eu sou um fardo — ela disse, a voz abafada contra o peito dele. — Você tem que ir. Você é forte, Kuro. Você pode vencer.
— Eu não vou a lugar nenhum sem você — afirmou ele.
Com um esforço hercúleo, Kuro usou a força que restava em suas costas e braços. Ele a içou, colocando-a cuidadosamente sobre suas costas. A dor do corte em seu abdômen era como uma faca em brasa sendo girada a cada movimento, mas ele cerrou os dentes com tanta força que sentiu o gosto de sangue na boca.
— Segure-se no meu pescoço — ordenou ele. — Não solte por nada.
Tatsuyo obedeceu por puro instinto, escondendo o rosto na curva do pescoço dele, as lágrimas molhando a pele branca de Kuro. Ele começou a descida. Cada centímetro para baixo era uma batalha contra a gravidade e contra o próprio corpo que implorava por descanso.
Quando seus pés finalmente tocaram o solo da floresta, Kuro quase desabou. Ele tropeçou, recuperando o equilíbrio no último segundo para não esmagar a garota. A floresta agora parecia diferente; a intervenção havia deixado um rastro de destruição, folhas chamuscadas e um silêncio opressor.
Ele começou a caminhar. Não para o centro, onde a luta acontecia, mas para longe, em direção às ruínas de pedra que Tatsuyo mencionara antes.
— Por que... por que você está fazendo isso? — Tatsuyo perguntou, sua voz um eco fraco. — Eu sou pequena... eu não valho o seu esforço, Kuro.
Kuro parou por um momento, a respiração saindo em arfadas curtas. Ele olhou para o nada, vendo as câmeras escondidas entre as árvores, e soube que a Capital estava assistindo.
— Você me salvou quando eu estava morrendo — disse ele, voltando a andar. — Você me deu comida quando eu não podia segurar uma colher. Mas, acima de tudo, Tatsuyo... você é a única razão pela qual eu ainda me sinto um ser humano aqui dentro. Se eu deixar você para trás, eu me torno um deles. E eu prefiro morrer como um homem do Distrito 12 do que viver como um monstro da Capital.
Tatsuyo apertou o abraço, sentindo o calor do corpo dele e a solidez de seus músculos. O choro dela começou a diminuir, transformando-se em um cansaço profundo e anestesiante.
— Onde vamos? — ela murmurou.
— Para algum lugar onde eles não possam nos ver por um tempo — respondeu Kuro. — Eu vou carregar você até minhas pernas cederem. E quando elas cederem, eu vou rastejar levando você comigo.
Eles avançaram pela vegetação densa. O sol artificial estava no ápice, mas para Tatsuyo, o mundo ainda estava envolto na penumbra daquela névoa prateada. O peso psicológico da arena era uma âncora, mas Kuro era o navio que se recusava a afundar.
Após o que pareceram quilômetros, eles encontraram uma pequena gruta escondida atrás de uma cortina de trepadeiras. Kuro entrou, movendo-se com cuidado para não bater a cabeça de Tatsuyo nas pedras baixas. Ele a depositou suavemente sobre um leito de musgo macio que cobria o chão da caverna.
Tatsuyo ainda tremia, os olhos fixos na entrada, temendo que a névoa voltasse a qualquer momento. Kuro sentou-se ao lado dela, ignorando o próprio sangue que agora escorria livremente por sua cintura. Ele pegou a mão parda dela, pequena e delicada, e a envolveu com a sua.
— Você está segura agora — sussurrou ele.
— Eles vão mandar outra coisa, não vão? — perguntou ela, a voz carregada de uma sabedoria trágica para alguém de dezesseis anos. — Eles não gostam quando as pessoas se ajudam. Eles querem sangue.
— Deixe que mandem — disse Kuro, encostando a cabeça na parede fria da caverna. — Se eles quiserem você, terão que passar por cima de mim primeiro. E eu sou muito difícil de derrubar, pequena.
Tatsuyo olhou para ele, vendo a exaustão em seu rosto, a palidez voltando a tomar conta de sua pele, mas a determinação ainda brilhando como aço. Pela primeira vez desde a intervenção, ela sentiu uma pequena faísca de esperança. Não a esperança de vencer os jogos, mas a esperança de não morrer sozinha e aterrorizada.
Ela se aproximou dele, deitando a cabeça em seu ombro musculoso.
— Desculpe por ser fraca — murmurou ela.
Kuro soltou um riso rouco, fechando os olhos.
— Você não é fraca, Tatsuyo. Você só tem um coração grande demais para este lugar. E isso é a coisa mais corajosa que eu já vi.
O silêncio da caverna foi o primeiro momento de paz que tiveram. Lá fora, a arena continuava seu ciclo de morte, mas ali dentro, entre o musgo e a pedra, um guerreiro ferido e uma garota quebrada compartilhavam o fardo de uma humanidade que a Capital tentava, em vão, destruir. Kuro a protegeria com seu corpo, e Tatsuyo, mesmo em pedaços, seria a bússola que manteria o que restava da alma dele intacta.
Enquanto Tatsuyo finalmente caía em um sono sem sonhos, exausta de tanto chorar, Kuro permaneceu acordado, vigiando a entrada da caverna. Ele era o escudo, ela era a luz, e enquanto estivessem juntos, a Capital ainda não havia vencido.