Amor
O Eco do Rádio
A rotina na SWAT de Los Angeles raramente permitia momentos de calmaria, mas aquela terça-feira parecia excepcionalmente generosa. O Esquadrão 20, sob o comando firme de Hondo, havia acabado de neutralizar uma ameaça de bomba de baixa complexidade em um armazém no porto. Enquanto a equipe de perícia assumia o local, Hondo, Deacon, Luca, Street, Tan e Chris se permitiram um breve momento de descompressão ao lado do Black Betty.
Kuro Hatake, encostado na lateral da viatura blindada, secava o suor da testa com o antebraço. Seus cabelos brancos estavam bagunçados pelo uso do capacete, e ele exibia aquele sorriso confiante que era sua marca registrada. Alfaro, que havia sido designado para dar suporte tático naquela operação específica, aproximou-se de Kuro com uma garrafa de água.
— Nada mal para uma manhã de terça, hein, Hatake? — comentou Alfaro, dando um gole na água. — Achei que íamos ter que correr mais.
— Para mim, quanto menos correria, melhor — brincou Kuro, piscando para o amigo. — Tenho que poupar energia. A Tatsuyo me mandou uma lista de compras para o quarto do bebê que parece o inventário de uma loja de departamentos inteira. Se eu chegar em casa exausto, ela me faz montar o berço usando só o olhar.
— Ela está de licença há apenas três dias e já está te colocando para trabalhar? — Tan se aproximou, rindo da desgraça do amigo. — Boa sorte, cara. Quando o bebê nascer, você vai implorar para voltar a desarmar bombas só para ter um pouco de paz.
— Não fala isso — Kuro fingiu estar ofendido, colocando a mão sobre o peito musculoso. — Eu sou um homem de família agora. Um símbolo de maturidade e...
— E de piadas ruins — Chris interrompeu, passando por eles enquanto guardava seu equipamento. — Como ela está se sentindo? A primeira semana de licença é sempre a mais estranha.
— Ela está inquieta — admitiu Kuro, o tom de voz suavizando. — Vocês conhecem a Tats. Ela diz que sente falta do peso do distintivo na cintura. Hoje ela ia à universidade para entregar alguns documentos finais da pós-graduação que ela quer terminar durante a licença. Disse que ia aproveitar o tempo livre para ser uma "civil exemplar".
O grupo riu, imaginando a guerreira Tatsuyo tentando se comportar como uma estudante comum. A conversa continuava leve, com Luca reclamando da dieta que Deacon estava tentando impor ao grupo, quando o rádio geral da SWAT, sintonizado na frequência de emergência de longo alcance, emitiu um chiado estático, seguido por uma voz que fez o sangue de todos congelar.
— Aqui é Agente 28-David... — A voz era baixa, um sussurro urgente e controlado, mas perfeitamente reconhecível. — Solicito reforço imediato na Universidade de Los Angeles, Bloco C. Situação com reféns em andamento. Repito, situação com reféns.
Kuro travou instantaneamente. A garrafa de água em sua mão caiu, espalhando o líquido pelo asfalto quente. Seus olhos castanhos, antes cheios de humor, tornaram-se duas pedras de gelo.
— Tatsuyo? — sussurrou ele, a voz falhando por um milésimo de segundo antes de a adrenalina assumir o controle.
Hondo, que estava a poucos metros dali, já estava com a mão no rádio, aumentando o volume. O rosto do líder estava tenso.
— 28-David, aqui é Hondo. Qual é a sua situação?
— Hondo... — A voz de Tatsuyo soou através do rádio, ainda sussurrada. Dava para ouvir, ao fundo, o som distante de gritos e o eco de disparos de armas automáticas. — Eu estava no prédio da administração quando um grupo armado invadiu. Pelo menos seis terroristas, armamento pesado, fuzis de assalto. Eles estão agrupando os estudantes no saguão principal.
— Você está segura? — Kuro gritou, praticamente arrancando o rádio da mão de Hondo. — Tatsuyo, fala comigo! Onde você está?
— Kuro... — Houve uma pausa, e ele pôde jurar que ouviu a respiração dela tremer. — Eu consegui me mover para o lado oposto do corredor, estou escondida em uma sala de arquivos no segundo andar. Eles ainda não me viram, mas estão fazendo buscas sala por sala. Eu estou sem arma, Kuro. Eu vim como civil. Eu não tenho nada.
O pânico ameaçou subir pela garganta de Kuro, mas ele o engoliu com a força de um soldado treinado. Tatsuyo estava grávida de quatro meses. Ela estava desarmada. Ela estava sozinha em um prédio cheio de terroristas.
— Fica onde você está, Tats — disse Hondo, reassumindo o comando com uma voz que não admitia contestação. — Estamos a dez minutos de distância. Não se mova, não tente ser heroína. Entendido?
— Entendido — respondeu ela. — Mas apressem-se. Eles estão começando a ficar agressivos com os reféns. Eu ouvi... eu ouvi execuções, Hondo.
O rádio ficou mudo. O silêncio que se seguiu no grupo foi ensurdecedor. Street, Chris, Tan e Alfaro já estavam se movendo para dentro do Black Betty antes mesmo de Hondo dar a ordem.
— Movam-se! Agora! — gritou Hondo.
Kuro foi o primeiro a pular para dentro da viatura. Suas mãos tremiam levemente enquanto ele verificava o carregador de seu fuzil, mas seus olhos estavam fixos no nada, uma máscara de fúria e determinação cobrindo seu rosto.
— Se algum deles encostar nela... — Kuro começou, a voz rouca, quase um rosnado.
— Nós vamos tirá-la de lá, Kuro — disse Chris, sentando-se à frente dele e colocando a mão firme em seu joelho. — Ela é a Tatsuyo. Ela é a melhor que temos. Ela sabe se esconder.
— Ela está grávida, Chris — rebateu Kuro, olhando para a amiga com um desespero que ele raramente mostrava. — Ela não está lutando por um, está lutando por dois.
O trajeto até a universidade pareceu durar horas, embora Luca estivesse dirigindo o blindado como se estivessem em uma pista de corrida. No interior do veículo, o clima era de guerra. Alfaro, mesmo sendo do Esquadrão 50, estava totalmente integrado, carregando sua arma e trocando olhares de apoio com Tan e Street.
— Alfaro, você fica na cobertura com o Tan quando chegarmos — instruiu Hondo. — Street e Chris, entrada lateral. Deacon e eu vamos pelo telhado. Kuro...
Hondo olhou para o jovem de cabelos brancos. Ele sabia que, emocionalmente, Kuro estava no limite, mas também sabia que não havia ninguém no mundo que lutaria com mais ferocidade para limpar aquele prédio.
— Kuro, você vem comigo. Vamos direto para o ponto onde ela foi vista pela última vez. Mas eu preciso que você mantenha a cabeça no lugar. Se você perder o controle, você coloca a vida dela em risco. Pode fazer isso?
Kuro respirou fundo, fechando os olhos por um segundo. Ele imaginou o rosto de Tatsuyo, o sorriso dela naquela manhã, a mão dela sobre a barriga. Ele abriu os olhos e a luz neles era pura determinação tática.
— Eu estou pronto — respondeu ele, a voz fria como aço.
Quando o Black Betty freou bruscamente em frente ao Bloco C da universidade, o cenário era de caos. Estudantes corriam para fora, chorando, enquanto o som de tiros ecoava de dentro do prédio de concreto e vidro.
— SWAT! Abram caminho! — gritou Deacon enquanto a equipe desembarcava em formação.
Eles se moveram como uma unidade perfeita. A entrada foi rápida e violenta contra a resistência inicial na porta. Dois terroristas foram neutralizados em segundos por Street e Chris. O cheiro de pólvora e o som de alarmes de incêndio preenchiam o ar.
Kuro sentia cada batida do seu coração como um tambor. Eles subiram as escadas, movendo-se em silêncio tático. Cada porta que passavam era um risco, cada sombra um alvo potencial.
— Tatsuyo, estamos no prédio — Hondo disse pelo rádio de pulso. — Qual a sua situação?
Houve apenas estática por alguns segundos. Então, um som de luta. O barulho de algo pesado batendo contra a parede e um grito abafado.
— Tatsuyo! — Kuro não conseguiu se conter e gritou, acelerando o passo, ignorando por um momento a formação.
— Kuro, volte para a linha! — ordenou Hondo, mas ele mesmo apressou o passo.
Eles chegaram ao segundo andar. O corredor estava repleto de papéis espalhados e marcas de tiros. No final do corredor, a porta da sala de arquivos estava escancarada.
Kuro entrou primeiro, o fuzil levantado, pronto para disparar. O que ele viu fez seu coração parar por um instante.
Tatsuyo estava no chão, lutando contra um homem enorme que tentava pressionar uma faca contra o pescoço dela. Ela estava usando as pernas para mantê-lo afastado, protegendo a barriga com um dos braços enquanto a outra mão segurava o pulso do agressor. O rosto dela estava suado, os olhos negros arregalados, mas cheios de uma fúria selvagem.
— Larga ela! — A voz de Kuro não era humana.
O terrorista não teve tempo de reagir. Kuro não disparou, temendo atingir Tatsuyo. Em vez disso, ele percorreu a distância em um borrão de movimento, desferindo um chute lateral que jogou o homem para o outro lado da sala. Antes que o agressor pudesse se recuperar, Kuro estava sobre ele, descarregando uma sequência de golpes que deixariam qualquer um inconsciente em segundos.
Hondo e Deacon entraram logo atrás, garantindo o perímetro da sala.
— Kuro! Chega! Ele já era! — Deacon gritou, segurando o ombro do amigo para impedi-lo de matar o homem a socos.
Kuro parou, o peito arfando, os nós dos dedos manchados de sangue. Ele girou sobre os calcanhares e correu até Tatsuyo, que tentava se levantar, apoiada em uma estante de metal.
— Tats! — Ele a envolveu em seus braços, puxando-a para um abraço tão apertado que ela soltou um pequeno gemido. — Meu Deus, você está bem? O bebê... ele te machucou?
Tatsuyo enterrou o rosto no pescoço de Kuro, respirando o cheiro de equipamento tático e suor que era tão familiar para ela. Ela tremia, mas suas mãos agarraram o colete dele com força.
— Eu estou bem... nós estamos bem — sussurrou ela, a voz embargada. — Ele me encontrou... eu tentei me esconder, mas ele me ouviu no rádio.
Kuro a afastou apenas o suficiente para olhar em seus olhos, suas mãos grandes emoldurando o rosto pardo dela.
— Nunca mais — disse ele, a voz trêmula. — Nunca mais você sai de casa sem um esquadrão inteiro atrás de você.
Tatsuyo soltou uma risada fraca, uma lágrima finalmente escapando.
— Você é um idiota, Hatake.
— O seu idiota — ele rebateu, beijando a testa dela com força.
Hondo se aproximou, colocando a mão no ombro de Tatsuyo.
— Bom trabalho, 28-David. Você manteve a calma e nos deu as coordenadas exatas. Street e Tan estão limpando o saguão. A situação está sob controle.
— Obrigada, Hondo — disse ela, recuperando a postura de operadora, embora ainda estivesse protegida pelo abraço de Kuro.
Enquanto Deacon chamava os paramédicos para examinar Tatsuyo por precaução, o resto do grupo — Street, Chris, Tan e Alfaro — apareceu na porta da sala de arquivos. Ao verem a amiga segura, o alívio foi visível em cada um deles.
— Cara, você quase matou o cara com as mãos — comentou Street, olhando para o terrorista nocauteado no canto. — Acho que o instinto de pai é real.
— Se você visse o que eu ia fazer se ele tivesse encostado um dedo a mais nela, Street, você teria pesadelos — disse Kuro, finalmente relaxando os ombros, embora ainda não soltasse a mão de Tatsuyo.
— Bem-vinda de volta à ação, Tats — disse Tan, com um sorriso largo. — Mesmo que tenha sido por apenas dez minutos e sem arma.
Tatsuyo olhou para os amigos, para aquela família que o destino e o trabalho haviam lhe dado. Ela sentiu o movimento sutil em seu ventre, um pequeno lembrete da vida que ela estava protegendo.
— Sabe de uma coisa? — começou ela, encostando a cabeça no ombro de Kuro. — Eu acho que a licença maternidade vai ser muito mais emocionante do que eu imaginava. Mas, da próxima vez, eu prefiro ficar só com a parte de montar o berço.
— Combinado — disse Kuro, conduzindo-a para fora do prédio, cercado por seus amigos. — Mas eu ainda vou montar aquele berço. E vai ser o berço mais seguro de Los Angeles. Com blindagem nível quatro, se eu puder evitar.
O grupo riu enquanto caminhavam em direção à luz do sol, deixando o caos para trás. A missão de hoje havia sido pessoal, e para o Esquadrão 20, não havia nada mais importante do que trazer um dos seus de volta para casa. Especialmente quando esse "um" estava prestes a se tornar dois.