Amor
O Compasso da Queda
O tablado de madeira rangia sob os pés descalços de Hayyah, um eco seco que se perdia na escuridão vazia do teatro de Vilna. Não havia público nas fileiras de veludo puído, apenas sombras compridas projetadas pela lâmpada solitária pendurada em um fio no centro do palco. E havia Kittel.
Ele não usava o casaco pesado da SS naquela noite. Havia despido a túnica cinzenta, deixando-a dobrada com um cuidado quase doentio sobre o encosto de uma cadeira na primeira fileira, junto com o coldre de couro preto e a pistola Luger. Ficara apenas com a camisa branca engomada, as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços pálidos e tensos, e as calças de montaria que se afunilavam nas botas de cano alto impecavelmente reluzentes. Em suas mãos descansava o saxofone, o metal dourado brilhando sob a luz fraca, mas ele não soprava a palheta. Apenas a acariciava com o polegar enluvado, observando-a.
— Você desafinou no terceiro ato — disse ele, a voz calma, deslizando suave como uma navalha sobre veludo.
Hayyah permaneceu imóvel, o vestido fino de algodão não a protegendo do frio cortante que subia das tábuas do chão. Ela mantinha o queixo erguido, a única armadura que lhe restava além de sua voz.
— Minha garganta estava seca, Herr Oberscharführer.
Kittel inclinou a cabeça, um sorriso pueril e perigoso curvando-lhe os lábios finos. Ele largou o instrumento com cuidado sobre uma mesa de adereços e caminhou em direção a ela, os passos lentos, ritmados, medidos por uma contagem invisível.
— Uma cantora de verdade canta até quando o sangue lhe afoga as cordas vocais — murmurou ele, parando a centímetros de distância. O cheiro dele a atingiu em cheio: sabão caro, tabaco turco e o ferro sutil e invisível que parecia impregnar a farda de qualquer homem que decidia quem vivia e quem morria naquela semana. — Mas você tem sorte, Hayyah. Hoje eu não quero ouvir você cantar.
— O que quer, então?
— Quero que dance comigo.
O pedido soou como uma piada de mau gosto, mas não havia riso nos olhos claros de Kittel. Havia ali um brilho febril, uma intensidade quase desvairada que ela aprendera a temer mais do que a violência explícita. Quando Kittel gritava, era previsível; quando Kittel sussurrava e brincava de cavalheiro, as covas em Ponary se enchiam mais depressa.
— Eu sou atriz, não bailarina — retrucou ela, sentindo o ar rarefeito ao redor.
— Tudo aqui é teatro, minha querida — ele estendeu a mão enluvada de couro negro, oferecendo-a com a curvatura formal de um baile vienense. — E neste palco, eu sou o diretor.
Hayyah olhou para a luva. O couro estava gasto nos nós dos dedos. Ela sabia o que aquela mão era capaz de fazer. Lentamente, ergueu a sua, os dedos trêmulos pousando contra a palma fria e escorregadia do oficial.
Com um puxão súbito e sem qualquer delicadeza, Kittel a colou contra o próprio peito. Hayyah soltou um arquejo assustado quando o braço dele circulou sua cintura, apertando-a com tanta força que o ar lhe fugiu dos pulmões. As costelas dela protestaram contra a pressão implacável da fivela do cinto dele.
— Um, dois, três. Um, dois, três — murmurou ele em seu ouvido, a respiração quente queimando-lhe a pele arrepiada da nuca.
Ele começou a se mover pelo tablado. Não era uma valsa harmoniosa; era um arrasto violento e descompassado. Kittel guiava com rigidez, forçando os passos de Hayyah a seguirem os seus, pisando deliberadamente perto demais dos pés descalços dela. Por duas vezes, a sola de couro duro de suas botas raspou nos dedos dela, arrancando-lhe pequenos espasmos de dor que ele registrava com uma faísca de triunfo no olhar.
— Mais rápido, judia — zombou ele, girando-a com um tranco que quase a fez perder o equilíbrio. — Onde está a graça do seu povo? Pensei que soubessem entreter quando a vida dependia disso.
— Você não sabe dançar — as palavras escaparam da boca de Hayyah antes que a razão pudesse contê-las, impulsionadas por um misto de ódio cru e vertigem.
O corpo de Kittel congelou no meio do compasso. A música inexistente morreu no ar. A mão dele na cintura dela se transformou em uma garra que cravou os dedos através do tecido do vestido, machucando a carne macia de seus quadris.
— O que disse? — perguntou ele, o tom despencando para uma placidez aterrorizante.
— Você finge elegância — disse ela, o coração martelando contra a garganta, decidida a não desviar os olhos dos dele. — Mas você só sabe comandar pela força. Seus passos são de marcha, não de dança.
O silêncio do teatro pareceu sugar todo o calor do universo. Por uma fração de segundo, Hayyah acreditou que aquele seria o momento em que ele sacaria a arma, ou que quebraria seu pescoço ali mesmo, diante da platéia imaginária. Ela viu a fúria atravessar as pupilas dilatadas dele, rápida e cortante.
Em vez disso, a mão enluvada subiu como um raio e agarrou sua mandíbula, os dedos apertando o osso com uma violência metódica que fez lágrimas involuntárias brotarem nos cantos dos olhos dela. Ele a empurrou para trás até que as costas de Hayyah bateram contra uma das coxias de madeira cenográfica, fazendo toda a estrutura estremecer.
— Você fala demais — sibilou ele, o rosto a milímetros do dela.
— Mate-me, então — sussurrou ela, entre dentes cerrados pela dor. — Acabe logo com o seu show.
Kittel a encarou, o peito subindo e descendo em arfadas desiguais. Mas então algo mudou. O olhar implacável de soldado cedeu lugar a uma perturbação profunda, quase desorientada. Seus olhos desceram para os lábios entreabertos de Hayyah, para a curva exposta de seu pescoço onde a pulsação batia descompassada como as asas de um pássaro capturado.
Hayyah, acostumada a ler os homens para sobreviver, sentiu a hesitação. Não era a hesitação de um homem misericordioso; era o desconcerto de alguém diante de um território desconhecido. Aquele oficial, que mandava fuzilar centenas com um aceno displicente, estava tremendo. A mão que apertava sua mandíbula perdeu a firmeza rígida, tornando-se febril, quase suada sob o couro.
Ele nunca havia tocado uma mulher assim. A constatação atingiu Hayyah como um raio. O temido Oberscharführer Kittel, o monstro de Vilna, guardava sob a farda uma virgindade patética e furiosa, escondida atrás de assassinatos e teatralidades sádicas.
Um riso fraco e involuntário vibrou na garganta dela. Kittel percebeu.
Com um rosnado abafado, ele rasgou a própria luva com os dentes, cuspindo o couro no chão, e fez o mesmo com a outra. As mãos nuas, brancas e ligeiramente trêmulas, foram direto para o decote do vestido dela. Com um puxão seco, a costura cedeu, o tecido rasgando do ombro ao peito, expondo a pele morena e arrepiada de Hayyah à poeira e ao gelo do palco.
— Não ria de mim — ordenou ele, a voz quebrando em uma nota quase infantil antes de se endurecer novamente na brutalidade.
Ele a beijou com uma violência desesperada, chocando os dentes contra os dela. Não havia técnica, apenas uma fome crua, desajeitada e faminta de quem tentava devorar algo para não ser consumido pelo próprio medo. Hayyah tentou virar o rosto, mas ele segurou seus cabelos pretos com força, puxando-os para trás até expor a garganta dela, onde enterrou a boca com mordidas e beijos pesados que deixariam marcas arroxeadas no dia seguinte.
Um gemido rouco escapou dos lábios de Hayyah — um som involuntário, nascido da dor e do choque de eletricidade que percorreu sua espinha. O contraste entre a frieza letal daquele homem e o calor desesperado de sua pele nua causava uma vertigem nauseante e inescapável.
Ao ouvir o gemido, Kittel parou por uma fração de segundo, os olhos febris e brilhantes fitando os dela. Ele parecia fascinado pelo som que acabara de extrair.
— De novo — exigiu ele em um sopro, a mão descendo áspera pelo ventre dela. — De novo, Hayyah.
— Kittel... — ela tentou falar, empurrando os ombros dele, mas a força dele era implacável.
Ele a empurrou para o chão de tábuas corridas. Hayyah caiu com as costas no tablado, o impacto tirando-lhe o fôlego. Antes que pudesse se levantar, o peso do corpo dele estava sobre o dela. As pernas dele, ainda vestidas com a calça pesada de montaria, separaram as dela com uma urgência cega, ajoelhando-se entre suas coxas.
Ele parecia brincar e ao mesmo tempo estar à beira de um precipício. Seus dedos desciam pelo corpo dela de forma errática, ora apertando com maldade para machucar, ora deslizando com uma curiosidade quase reverente, como se tocasse um instrumento proibido.
— É assim? — sussurrou ele, abrindo os botões das próprias calças com pressa febril, os dedos falhando duas vezes no fecho de metal. O rosto dele estava vermelho, as bochechas coradas em uma vergonha violenta que ele tentava sufocar com agressividade. — É isso que vocês fazem nas sombras deste lugar miserável?
— Você tem medo — Hayyah cuspiu as palavras, cravando as unhas no tecido da camisa dele, as pontas ferindo a carne por baixo do linho. — Você é só um menino assustado brincando com uma arma.
Os olhos de Kittel faiscaram de ódio. Em resposta, ele agarrou os pulsos dela e os prendeu contra o chão de madeira, acima de sua cabeça, imobilizando-a. O quadril dele se projetou para a frente, invadindo-a sem aviso prévio, sem carícia, sem concessão.
A dor rasgou Hayyah como uma lâmina fria. Ela arqueou o corpo, um grito agudo ficando preso em seus dentes cerrados, transformando-se em um gemido longo e sufocado que ecoou até as vigas mais altas do teto do teatro.
Kittel também estremeceu. Um som cru, uma mistura de dor e choque, rompeu de sua garganta quando a carne quente dela o envolveu. Ele cerrou as pálpebras com força, a mandíbula travada, o corpo inteiro rígido como pedra. Por alguns segundos, ele não se moveu; parecia paralisado pela enormidade daquela primeira sensação, esmagado pela vulnerabilidade avassaladora de estar completamente exposto dentro de sua prisioneira.
Hayyah viu. Mesmo através das lágrimas de dor e da humilhação, ela viu a rachadura na máscara dele.
— Olhe para mim — sussurrou ela, a voz fraca, mas carregada de veneno e desafio.
Kittel abriu os olhos. O azul de suas íris estava quase engolido pelas pupilas escuras. Ele respirava em arquejos curtos, a saliva brilhando em seus lábios entreabertos.
— Você não é um deus aqui, Kittel — disse ela, cravando os olhos nos dele. — Você é só um homem. E você está dentro de mim.
A humilhação de sua própria fraqueza pareceu enlouquecê-lo. Kittel soltou um rugido baixo e começou a se mover. Foi uma dança no escuro, brutal, sem ritmo harmônico, guiada pelo atrito desesperado e pela fricção implacável de dois corpos em colisão mortal. A cada estocada profunda, a madeira abaixo deles gemia em protesto, e o ar frio do teatro parecia arder.
Hayyah tentou manter o ódio intacto, mas o corpo traía a mente. A violência crua do ato, misturada àquela proximidade aterradora, arrancava-lhe gemidos que ela não conseguia controlar. Não eram sons de prazer puro, mas de rendição dos sentidos à agonia febril daquele contato. Ela mordeu o próprio lábio até sentir o gosto ferroso do sangue para não gritar o nome dele.
Kittel, cego pelo desejo acumulado e pela fúria de sua primeira vez, enterrou o rosto na curva do pescoço dela. Suas mãos soltaram os pulsos de Hayyah e agarraram seu quadril, puxando-a contra si com força desesperada, buscando um alívio que parecia doer tanto quanto satisfazer. Seus movimentos tornaram-se mais rápidos, desgovernados, infantis em sua urgência e aterrorizantes em sua força militar.
— Hayyah... — o nome dela escapou de sua boca, quebrado, desprovido de qualquer título, patente ou soberania.
Ele tremeu violentamente. As mãos dele cravaram-se na carne dela com tanta força que deixariam hematomas escuros por semanas. Com um gemido sufocado contra a clavícula dela, um espasmo profundo percorreu a espinha de Kittel, e ele desabou sobre o peito de Hayyah, despejando-se nela enquanto todo o ar parecia ser drenado de seus pulmões.
O silêncio desabou sobre o palco como uma cortina pesada de chumbo.
Por longos minutos, nenhum dos dois se moveu. Apenas a respiração entrecortada e áspera de ambos preenchia o vazio. Kittel permaneceu deitado sobre ela, o peso morto de seu corpo esmagando o dela contra as tábuas duras. Pela primeira vez desde que o vira entrar no gueto, ele não parecia um soldado; parecia apenas um corpo desprovido de defesas, a pele úmida colada à dela, o coração batendo descompassado e frágil contra as costelas de Hayyah.
Ela poderia tentar matá-lo agora. A arma estava a menos de três metros, sobre a cadeira. Bastava um movimento, um empurrão.
Mas o gueto não perdoava milagres. Se ele morresse ali, amanhã não haveria um único judeu vivo em Vilna. O poder dele não vinha daquele corpo desajeitado e trêmulo, vinha do maquinário de ferro que o sustentava lá fora.
Devagar, quase com relutância, Kittel começou a se afastar.
Ele se levantou sem olhar para ela a princípio, ajustando a calça com mãos que ainda tremiam levemente. A frieza começou a retornar aos seus traços, como água congelando rapidamente sobre a superfície de um lago. Ele abotoou as calças, limpou a camisa e virou-se para encará-la.
Hayyah continuava no chão, o vestido rasgado cobrindo apenas parte de seu corpo, a pele marcada, os olhos fixos nele como duas adagas cravadas no escuro.
Kittel curvou-se, apanhou as luvas de couro do chão e as calçou lentamente, encaixando cada dedo com precisão cirúrgica. A máscara estava quase de volta, mas seus olhos traíam o estrago. Ele a fitava com um misto de repulsa, fascínio e um ódio recém-nascido: o ódio do mestre que descobrira que a escrava agora conhecia o seu maior segredo.
Ele caminhou até a beira do palco, pegou o saxofone com uma das mãos e a Luger com a outra, enfiando a arma no coldre com um estalo seco e metálico.
— Amanhã — disse Kittel, a voz ligeiramente mais rouca que o habitual, sem se virar para encará-la —, o ensaio começa às oito.
Ele não esperou por uma resposta. Desceu os degraus de madeira com passos pesados e firmes, a sola das botas ecoando no piso como tiros solitários na noite vazia. As portas duplas do teatro se abriram, deixando entrar uma lufada de vento congelante, e depois se fecharam com um estrondo oco.
No tablado, sob a luz fraca da única lâmpada, Hayyah permaneceu deitada por um longo tempo. Sentia a dor pulsando entre as coxas, o cheiro dele ainda impregnado em sua pele e o gosto de sangue na boca. Mas, ao olhar para a escuridão do teatro, um sorriso tênue, cruel e vitorioso curvou seus lábios feridos.
O monstro havia sangrado primeiro. E a dança apenas começara.