AMOR & ODIO.
O Eco do Silêncio e o Gosto do Sangue
A luz do estúdio de dança número quatro era impiedosa. Refletia-se no linóleo cinza e nos espelhos do teto ao chão, capturando cada gota de suor que escorria pelas têmporas de Park Jimin. Ele estava exausto. Seus músculos gritavam, as fibras das coxas protestando contra a sequência de *grand jetés* que ele vinha repetindo há duas horas. Mas a dor física era um alívio. Era a única coisa capaz de abafar o ruído branco e ensurdecedor da presença de Jeon Jungkook em sua mente.
Jimin parou, a respiração vindo em haustos curtos e pesados. Ele se olhou no espelho. A mecha loira amanteigada estava colada à testa, e o pescoço, aquele mesmo pescoço que Jungkook havia mordido com tanta possessividade na noite anterior, exibia uma mancha arroxeada que a base de alta cobertura não conseguira esconder totalmente.
— Patético — sussurrou Jimin para o próprio reflexo.
Ele não sabia se estava se referindo à marca ou ao fato de que, ao tocar o hematoma com a ponta dos dedos, seu coração acelerou em uma memória involuntária.
A porta do estúdio se abriu com um estrondo, quebrando o silêncio sagrado do prédio de Artes. Jimin não precisou se virar para saber quem era. O ar mudou. A pressão atmosférica na sala pareceu cair drasticamente, e o cheiro de grama cortada e suor masculino — o perfume inconfundível do time de futebol — invadiu o ambiente.
Jungkook estava parado na soleira, ainda usando o uniforme de treino, a camisa branca colada ao peito largo, os cabelos escuros bagunçados e úmidos. Ele parecia um predador que havia errado o caminho da floresta e acabado em um santuário.
— O que você quer, Jeon? — Jimin perguntou, sem se virar, observando o reflexo do outro pelo espelho. — O horário de visitas para os bárbaros terminou às seis.
Jungkook entrou, fechando a porta atrás de si com um chute seco. Ele caminhou até o centro da sala, as chuteiras fazendo um som rítmico e irritante contra o chão delicado da dança.
— Você deixou isso no meu carro — disse Jungkook, a voz mais rouca que o normal. Ele estendeu a mão. Entre os dedos, balançava um brinco de prata pequeno, em formato de cruz, que Jimin costumava usar na orelha esquerda.
Jimin sentiu um frio na espinha. Ele se virou lentamente, mantendo a postura impecável, o queixo erguido.
— Poderia ter jogado no lixo. Ou dado para uma das suas líderes de torcida. Tenho certeza de que elas adorariam um troféu do "grande inimigo" do capitão.
Jungkook deu mais dois passos. A distância entre eles agora era perigosa. O jogador de futebol olhou para o pescoço de Jimin, os olhos escuros fixando-se na mancha que a maquiagem falhara em ocultar. Um lampejo de algo que parecia satisfação, misturado com puro pavor, cruzou seu rosto.
— Eu não dou as suas coisas para ninguém, Jimin — Jungkook rebateu, a voz baixando de tom. — E você sabe disso.
— Eu não sei de nada, Jungkook. Especialmente não sobre o que se passa nessa sua cabeça oca — Jimin caminhou até a barra de alongamento, pegando sua garrafa de água. — Por que você está aqui? O brinco é uma desculpa ridícula. Você poderia ter entregado amanhã, no corredor, com algum insulto criativo sobre como eu sou descuidado.
Jungkook soltou um riso sem humor, passando a mão pelo cabelo.
— Eu tentei. Tentei ficar longe. Mas eu não consigo parar de sentir o gosto do seu sangue no meu lábio. Você me mordeu com força, seu baixinho desgraçado.
Jimin sorriu, um sorriso lento e perverso que iluminou seus traços angelicais com uma luz demoníaca.
— E você adorou.
— Eu odeio você — Jungkook rosnou, avançando até prensar Jimin contra a barra de madeira. — Eu odeio o jeito que você me faz questionar tudo o que eu sempre soube sobre mim mesmo. Eu odeio que, quando eu fecho os olhos para dormir, é a sua voz que eu ouço, e não a de qualquer garota que eu já tenha levado para a cama.
Jimin sentiu o calor emanando do corpo de Jungkook. Era como estar perto de uma fornalha. Ele colocou as mãos no peito do jogador, sentindo os batimentos cardíacos frenéticos sob o tecido da camisa.
— Então por que não admite? — Jimin sussurrou, aproximando o rosto, a ponta do nariz roçando na de Jungkook. — Admite que você é um mentiroso. Que essa fachada de "hétero de ouro" é a coisa mais frágil que existe nesta universidade.
Jungkook apertou a cintura de Jimin com força, os dedos cravando-se na pele macia sob a regata de dança.
— Não é uma fachada — Jungkook disse, a respiração falhando. — Eu gosto de mulheres. Eu sempre gostei. Você é a exceção. Você é o erro no sistema, Jimin. Você é a falha que eu não consigo consertar.
— Então pare de tentar consertar e comece a aproveitar o desastre — Jimin provocou, deslizando as mãos para cima, envolvendo o pescoço de Jungkook, puxando-o para baixo.
O beijo que se seguiu foi uma explosão de tudo o que haviam acumulado durante o dia de fingimento. Não havia ternura. Era uma negociação violenta, um choque de línguas e dentes que buscava punição e prazer em doses iguais. Jungkook empurrou Jimin contra o espelho, o vidro frio contrastando com o calor febril de seus corpos. O som do impacto ecoou pela sala vazia, mas nenhum deles se importou.
Jungkook desceu os beijos para a mandíbula de Jimin, mordendo a pele sensível logo abaixo da orelha.
— Você é meu segredo sujo — Jungkook murmurou contra a pele dele, a voz vibrando nos ossos de Jimin.
— E você é o meu maior erro — Jimin respondeu, arqueando o pescoço, entregando-se ao toque bruto das mãos de Jungkook que agora subiam por baixo de sua camisa. — Mas admita, Jeon... nenhum dos seus "acertos" te fez gozar como eu faço.
Jungkook parou por um segundo, os olhos injetados de desejo e uma fúria contida. Ele olhou para Jimin, para a beleza etérea do dançarino desgrenhada pelo seu próprio desespero.
— Você se acha tão superior, não é? — Jungkook disse, a voz trêmula. — Acha que me tem na palma da mão só porque eu não consigo resistir a esse seu corpo de pecado.
— Eu não acho, Jungkook. Eu sei — Jimin desafiou, os olhos brilhando com uma confiança cruel. — Porque, enquanto você estiver aqui, escondido em um estúdio de dança escuro, você é meu. E você sabe que, se eu estalar os dedos, você esquece o futebol, esquece a reputação e esquece até o próprio nome.
Jungkook soltou um rosnado animal e o levantou, as pernas de Jimin envolvendo automaticamente sua cintura. Ele o carregou até o centro da sala, onde a luz era mais forte, como se quisesse ver cada detalhe da sua rendição. Eles caíram no chão de linóleo, um emaranhado de membros e roupas sendo arrancadas com pressa.
O sexo era a única linguagem em que eles não mentiam. No escuro, ou sob as luzes fluorescentes de um estúdio vazio, a rivalidade se transformava em uma necessidade visceral. Jungkook explorava o corpo de Jimin com uma curiosidade faminta, como se estivesse tentando decifrar um código secreto que o libertaria daquela obsessão. E Jimin recebia cada toque, cada investida, com uma voracidade que dizia: "Eu avisei".
Horas depois, quando o suor havia esfriado e a realidade começava a se infiltrar pelas frestas da porta, o silêncio voltou a ser um campo minado. Jungkook estava sentado no chão, encostado no espelho, vestindo a camisa com movimentos mecânicos. Jimin estava deitado a poucos metros, os cabelos loiros espalhados como uma auréola desfeita, olhando para o teto.
— O jogo de amanhã — Jimin começou, a voz suave, quase melancólica. — Você vai estar lá.
— Vou — Jungkook respondeu, sem olhar para ele. — E você vai estar na arquibancada, com aquele seu olhar de quem não dá a mínima, torcendo para que eu quebre uma perna.
Jimin soltou uma risada curta, sentando-se.
— Eu não torço para você quebrar a perna, Jungkook. Eu torço para você perder o foco. Para você olhar para a multidão e, por um segundo, ver o meu rosto e lembrar do que fizemos aqui.
Jungkook finalmente olhou para ele. Havia uma dor crua em seus olhos, uma vulnerabilidade que ele nunca mostrava a ninguém.
— Por que você faz isso, Jimin? Por que não pode simplesmente me deixar em paz?
— Porque você não quer a paz, Jungkook. Você quer o fogo. E eu sou o único que tem coragem de te queimar.
Jungkook levantou-se, pegando sua mochila. Ele caminhou até a porta, mas parou antes de sair. Ele não olhou para trás quando falou.
— Amanhã, no corredor... eu vou te empurrar contra o armário. Vou dizer algo terrível sobre a sua apresentação de final de ano.
— E eu vou dizer que você é um animal que deveria estar em uma jaula, não em uma universidade — Jimin completou, levantando-se também, a elegância voltando ao seu corpo como uma armadura.
— Combinado — disse Jungkook, a voz quase um sussurro.
Ele saiu, e o estúdio pareceu subitamente grande demais, frio demais. Jimin caminhou até o espelho e viu o brinco de prata que Jungkook deixara em cima do banco. Ele o pegou, apertando-o na palma da mão até que o metal machucasse a pele.
No dia seguinte, a Universidade Nacional de Artes de Seul testemunhou mais uma briga épica.
— Você é um lixo, Jeon! — Jimin gritou, a voz ecoando pelo refeitório lotado, depois que Jungkook derrubou sua bandeja de comida "sem querer".
— E você é uma piada, Park! — Jungkook rosnou, aproximando-se tanto que suas testas se tocaram, o veneno escorrendo de cada palavra. — Ninguém se importa com a sua dança. Você é apenas um rostinho bonito que não serve para nada.
Os amigos de Jungkook riram, e os colegas de Jimin o puxaram para trás, tentando evitar um confronto físico. A tensão era tão óbvia, tão carregada de ódio, que ninguém percebeu o brilho nos olhos de ambos.
Ninguém viu o momento em que a mão de Jungkook, escondida pela multidão, roçou rapidamente nos dedos de Jimin. Um toque de milissegundos que carregava a promessa da noite seguinte.
Jimin limpou a sujeira da sua calça com um movimento aristocrático, lançando um último olhar de desprezo para o jogador.
— Você vai pagar por isso, Jeon.
— Mal posso esperar — Jungkook respondeu, um sorriso de canto que todos interpretaram como arrogância, mas que Jimin sabia ser um convite para o abismo.
Enquanto Jimin se afastava, ele sentia o peso do olhar de Jungkook em suas costas. O ódio era a máscara perfeita, o disfarce mais eficiente do mundo. Mas, por baixo daquela encenação, havia uma verdade que começava a vazar pelas costuras: o ódio estava se tornando cansativo, e o desejo estava se tornando perigoso.
Jungkook, observando Jimin sair, sentiu o estômago dar um nó. Ele odiava Jimin. Realmente odiava. Odiava o jeito que ele se movia, odiava a sua voz, odiava a sua arrogância. Mas, acima de tudo, ele odiava o fato de que o mundo só fazia sentido quando ele estava tentando destruir Jimin... ou quando estava sendo destruído por ele entre quatro paredes.
A linha entre o amor e o ódio era, de fato, apenas um beijo. Mas para eles, era também um campo de batalha onde ninguém pretendia hastear a bandeira branca. O jogo de "inimigos com benefícios" estava apenas começando a cobrar seu preço, e o pagamento seria feito em segredos, mentiras e uma paixão que ameaçava reduzir toda a universidade a cinzas.
Jimin entrou no banheiro masculino, trancando a porta da cabine. Ele encostou a cabeça na parede fria e fechou os olhos. Ele podia sentir o cheiro de Jungkook em sua pele, apesar do banho. Ele sabia que estava brincando com fogo, e que Jungkook era um incêndio florestal fora de controle.
— Até quando? — ele se perguntou em voz baixa.
Mas ele já sabia a resposta. Até que um deles quebrasse. E, pela forma como Jungkook o olhara no refeitório, Jimin suspeitava que ele não seria o primeiro a cair. O "hétero de ouro" estava rachando, e Jimin estaria lá para recolher cada pedaço dourado, mesmo que isso significasse cortar as próprias mãos no processo.
Do lado de fora, o sinal tocou, chamando os alunos para as aulas. A vida continuava, a rivalidade persistia, e o segredo permanecia guardado no lugar mais escuro e quente de seus corações. A voltagem do ódio estava no máximo, e a explosão era inevitável.