Amor doentio
Entre o Silêncio e o Grito
Os dias que se seguiram à promessa de Aaron foram, para Clara, uma sucessão de decepções amargas embrulhadas em papel de seda. Ele prometera mudanças, prometera espaço, mas o que ela recebeu foi o vazio. O Setor 45 agora girava em torno de um único eixo: Juliette Ferrars. A garota de toque letal era o sol de Aaron, e Clara sentia-se como um planeta esquecido, orbitando na escuridão, morrendo de frio.
Clara decidiu que não seria mais a esposa que espera. Ela parou de frequentar os aposentos dele nas madrugadas. Parou de responder aos bilhetes codificados que ele deixava em seu terminal de trabalho. Se ela era um segredo, então se tornaria um segredo absoluto, inacessível até mesmo para o homem que usava sua aliança pendurada em uma corrente sob a farda.
Naquela noite, Clara estava na seção de logística, revisando inventários de munição e suprimentos médicos. O silêncio da sala era apenas quebrado pelo zumbido dos computadores. Ela se sentia pesada, não apenas pelo cansaço físico, mas pela mágoa que parecia ter se instalado em seus ossos. Suas curvas, que Aaron costumava elogiar com tanta devoção, agora pareciam um fardo sob o uniforme apertado. Ela se sentia invisível, uma peça de mobília do Restabelecimento.
A porta automática deslizou com um chiado metálico. Ela não precisou olhar para saber quem era. O ar parecia eletrizado, a temperatura da sala caindo vários graus instantaneamente.
— Você não apareceu ontem. Nem anteontem — a voz de Aaron era um trovão contido, baixa e perigosa.
Clara não tirou os olhos da tela. Seus dedos continuaram digitando, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas.
— Eu tive muito trabalho, Comandante. O fluxo de suprimentos para a ala de testes da Srta. Ferrars exige atenção redobrada. Afinal, ela é a prioridade absoluta deste setor, não é?
Aaron caminhou até a mesa dela, as botas reluzentes batendo no chão com uma precisão militar que a irritava profundamente. Ele bateu com as mãos na superfície de metal, inclinando-se sobre ela.
— Pare com isso, Clara. Agora.
— Parar com o quê? — Ela finalmente levantou o rosto, encarando-o com uma frieza que o fez recuar um milímetro. — Com o meu trabalho? Com a minha discrição? Eu achei que era isso que você queria. Que ninguém suspeitasse. Se eu não vou ao seu quarto, ninguém suspeita. Estou sendo a esposa perfeita para o seu jogo político.
— Você está me punindo — ele sibilou, os olhos verdes faiscando de fúria e algo que parecia desespero. — Eu passo o dia inteiro lidando com a instabilidade daquela garota, com as pressões do meu pai, com a resistência dos soldados... Eu preciso de você à noite. Eu preciso do seu silêncio, do seu toque.
Clara soltou uma risada seca, levantando-se da cadeira. Ela era mais baixa que ele, e o fato de ser gordinha muitas vezes a fazia se sentir vulnerável diante daquela figura esguia e letal, mas naquele momento, ela se sentia gigantesca.
— Você precisa de um porto seguro, Aaron. Você quer que eu seja o lugar onde você descansa depois de passar o dia inteiro fascinado pela "arma" que você encontrou. Você quer que eu lamba suas feridas enquanto você ainda tem o cheiro do perfume dela na sua farda.
— Eu já te disse que não há nada entre ela e eu! — Ele gritou, perdendo o controle que tanto prezava. — É uma estratégia!
— Uma estratégia que envolve chamá-la de "meu amor" na frente dos outros? — Clara deu um passo à frente, batendo no próprio peito. — Eu sou sua esposa perante Deus, Aaron, mesmo que não seja perante o mundo. Mas quando você usa as nossas palavras com ela, você me apaga. Você me mata um pouco a cada vez que olha para ela com aquele misto de horror e admiração.
— Você está sendo irracional — ele retrucou, tentando retomar a postura fria, mas suas mãos tremiam levemente ao lado do corpo. — Você sabe quem eu sou. Você sabe o que eu preciso fazer para manter o poder aqui. Se eu falhar com Juliette, meu pai vem para cá. E se ele vier, ele vai descobrir sobre você. Ele vai te destruir só para me ensinar uma lição.
— Então me deixe ir! — Clara gritou de volta, as lágrimas finalmente transbordando. — Se você está com tanto medo pelo meu bem-estar, assine a porcaria da transferência! Deixe-me ir para o Setor 4. Deixe-me ser uma técnica medíocre em uma base esquecida onde eu possa respirar sem sentir que estou sufocando no seu teatro!
— Nunca! — Aaron avançou, segurando os braços dela com força. Ele não a machucava, mas a pressão era firme, possessiva. — Você não sai deste setor. Você não me deixa sozinho neste inferno.
— Você já está sozinho, Aaron! — Ela tentou se soltar, a voz embargada pelo choro. — Você se cercou de paredes e agora está colocando Juliette dentro delas também. Eu não caibo mais nesse espaço. Olhe para mim!
Ela se soltou com um solavanco, indicando o próprio corpo, o rosto vermelho de raiva e tristeza.
— Eu não sou pequena, nem delicada, nem tenho poderes destrutivos que podem mudar o mundo. Eu sou apenas Clara. A mulher que te amou quando você não era nada além de um garoto assustado sob a sombra do pai. Mas agora, você olha para ela e vê um espelho. Você vê poder. E você sempre foi viciado em poder.
— Isso não é verdade — ele sussurrou, a voz subitamente fraca. — Clara, por favor...
— É a mais pura verdade. Você está encantado pela destruição que ela representa porque você se sente destruído. E você acha que, se puder consertá-la, poderá se consertar. Mas enquanto isso, você está me quebrando. E eu não vou ficar aqui para ver o que sobra de mim quando você terminar.
Aaron sentiu um soco no estômago. Ele tentou se aproximar, tentou tocá-la, mas Clara recuou, escondendo as mãos atrás das costas. O gesto o feriu mais do que qualquer palavra.
— Eu não vou mais à sua ala — disse ela, a voz agora mortalmente calma, o que era muito pior do que os gritos. — Eu vou cumprir minhas funções aqui. Vou ser a oficial exemplar. Mas entre nós, Aaron... acabou o tempo das sombras. Se você não pode me assumir sob a luz do sol, então não me procure no escuro.
— Você não pode fazer isso — ele disse, a autoridade de Comandante Supremo vacilando, dando lugar a um pânico cru. — Eu sou seu marido. Eu ordeno que você...
— Você vai me ordenar a te amar? — Ela deu um sorriso triste, limpando o rosto com as costas da mão. — Vai me prender no seu quarto? Vai me forçar a ser o seu consolo? Tente, Aaron. E veja quanto tempo leva para eu me tornar apenas mais um cadáver emocional nesta base.
Ele ficou em silêncio, a respiração pesada. O quarto parecia pequeno demais para os dois. Aaron Warner, o homem que não temia ninguém, estava aterrorizado pelo silêncio da mulher à sua frente. Ele percebeu, com uma clareza dolorosa, que Juliette Ferrars era apenas uma tempestade passageira, mas Clara era o chão sob seus pés. E o chão estava se abrindo.
— Eu te proíbo de pedir transferência — ele disse, tentando usar a última arma que lhe restava: a lei do Restabelecimento. — E proíbo qualquer contato não oficial com outros setores.
— Você pode me manter prisioneira aqui, Aaron — Clara caminhou até a porta, parando antes de sair. — Mas você não pode me obrigar a olhar para você. A partir de hoje, para você, eu sou apenas a Oficial Técnica Clara. Nada mais.
— Clara! — Ele chamou, mas a porta já havia se fechado.
Aaron ficou sozinho na sala de logística. Ele olhou para as mãos, as mesmas mãos que haviam tocado a pele de Clara com tanta ternura na noite anterior à chegada de Juliette. Ele sentia o peso do anel escondido sob o tecido da farda, queimando contra seu peito como brasa.
Ele deu um soco na mesa de metal, o barulho ecoando pelo corredor vazio. Ele queria ir atrás dela, derrubar a porta de seu alojamento e implorar por perdão. Mas ele era o Comandante Warner. E no corredor ao lado, Juliette Ferrars estava tendo outro pesadelo, e os médicos estavam chamando por ele.
Ele estava preso entre a mulher que era sua alma e a garota que era seu destino político. E, naquele momento, Aaron Warner percebeu que, ao tentar segurar as duas, ele estava perdendo a única que realmente importava.
Clara, por sua vez, caminhou pelos corredores frios até seu alojamento individual. Ela se trancou por dentro e desabou contra a porta. O choro veio em ondas, profundo e dilacerante. Ela amava Aaron com cada fibra de seu ser, mas não podia mais aceitar as migalhas de um homem que estava faminto pelo poder que outra mulher representava.
Ela olhou para o espelho do pequeno banheiro. Viu a mulher gordinha, de olhos inchados e uniforme amassado. Ela não era uma mutante. Não era uma arma. Mas ela tinha uma força que Aaron ainda não compreendia: a força de saber quando se retirar de uma batalha que já estava perdida.
Naquela noite, o Setor 45 estava mais silencioso do que o normal. Aaron não dormiu, vigiando as câmeras de segurança que mostravam o corredor de Clara, esperando por um sinal de que ela voltaria atrás. Mas a porta dela permaneceu fechada.
E no dia seguinte, quando se cruzaram no refeitório, Clara passou por ele sem sequer desviar o olhar do tablet em suas mãos. Aaron sentiu como se tivesse sido atingido por um tiro. Ele a chamou de "meu amor" para Juliette por estratégia, mas o silêncio de Clara era a realidade que ele não sabia como enfrentar.
A guerra estava chegando, Juliette era a chave, mas Aaron estava começando a entender que, sem Clara, ele não teria nada pelo que lutar quando a fumaça baixasse. O problema era que Clara já tinha decidido que não estaria lá para ver o fim da história.