Amor doentio
O Sangue das Promessas Quebradas
A base do Setor 45 estava mergulhada em um caos que nem mesmo os relatórios de inteligência de Aaron previam. O ataque começou não com um estrondo, mas com o silêncio súbito de todos os sistemas de ventilação, seguido por uma explosão que sacudiu as fundações de concreto e metal. Os rebeldes do Ponto Ômega haviam encontrado uma brecha.
Clara estava no subnível quatro, longe dos olhos de Aaron e ainda mais longe da proteção de sua guarda pessoal. Ela segurava uma prancheta digital contra o ventre, um gesto instintivo que se tornara frequente nos últimos dias. Ela ainda não tinha contado a ele. Como poderia? Aaron estava obcecado por Juliette, obcecado por transformar a garota de toque letal em uma arma controlável, e Clara sentia que o anúncio de uma gravidez seria visto apenas como mais uma "corrente" para prendê-lo, ou pior, um alvo para seu pai cruel, Anderson.
— Todos os oficiais técnicos para os abrigos de emergência! Agora! — O comando ecoou pelos alto-falantes, distorcido pela estática.
Clara começou a correr, mas seu corpo parecia mais pesado do que o normal. A náusea matinal, que a perseguia mesmo à tarde, deu um solavanco em seu estômago. Ela dobrou um corredor estreito, buscando o acesso rápido para a ala de segurança, quando as luzes de emergência vermelhas começaram a piscar, banhando as paredes de um tom de sangue profético.
— Aaron... — sussurrou ela, o nome escapando como uma prece desesperada.
Ele não estava lá. Ele estava na ala de treinamento com Juliette. Ele sempre estava com Juliette.
De repente, a porta metálica à sua frente foi arrancada das dobradiças por uma força invisível. Três invasores, vestindo trajes táticos pretos e máscaras, surgiram entre a fumaça. Clara recuou, mas suas costas atingiram a parede fria.
— Uma oficial do alto escalão — disse um deles, a voz distorcida pelo modulador da máscara. — Olhem o uniforme. Ela deve saber os códigos de acesso ao servidor central.
— Eu não sei de nada! — Clara gritou, as mãos cobrindo o ventre de forma protetora. — Sou apenas da logística!
— Mentira. Você sai dos aposentos do Comandante de madrugada. Nós observamos — o invasor deu um passo à frente, sacando uma lâmina serrilhada que brilhava sob a luz rubra. — Se não vai falar, não serve para nada além de uma mensagem.
Clara tentou se esquivar, mas o espaço era exíguo. Ela sentiu o terror paralisante de quem sabe que está sozinha. Aaron havia jurado protegê-la. Ele havia dito que ela era sua única prioridade, mas onde ele estava enquanto o aço frio se aproximava?
O golpe foi rápido e cruel.
A lâmina penetrou o lado esquerdo de seu abdômen, rasgando o tecido do uniforme e a carne macia. Clara soltou um grito que foi abafado pela mão enluvada de outro invasor. A dor foi uma explosão branca em seu cérebro, seguida por um calor úmido que começou a ensopar suas roupas.
— Deixem-na sangrar — ordenou o líder. — Temos que encontrar a garota Ferrars antes que o Warner se reorganize.
Eles a largaram no chão como se fosse lixo descartável. Clara caiu de lado, as mãos pressionando o ferimento enquanto as lágrimas turvavam sua visão. Ela sentia o sangue escorrer por entre seus dedos, quente e constante.
— Meu bebê... — ela soluçou, a voz falhando. — Por favor, meu bebê não.
A quilômetros de distância dali, ou assim parecia na mente de Clara, Aaron Warner sentiu um aperto súbito no peito. Ele estava no meio do campo de treinamento, gritando instruções para uma Juliette em pânico, quando o mundo pareceu perder o eixo. Não era a invasão. Não era o barulho das explosões. Era algo mais profundo. Algo que o ligava à única pessoa que ele realmente amava.
— Clara — ele murmurou, ignorando Juliette, ignorando os soldados que corriam para as posições de defesa.
Ele ligou o comunicador, a voz tremendo de uma forma que ele nunca permitia.
— Clara! Responda! Onde você está?
Silêncio. Apenas o chiado da estática.
Aaron começou a correr. Ele não correu para o centro de comando para liderar a defesa. Ele não correu para proteger Juliette, a "arma" que ele dizia ser essencial. Ele correu em direção ao setor de logística, seguindo um instinto que gritava que o tempo estava se esgotando.
Ele encontrou o rastro de destruição no subnível quatro. Quando viu o corpo caído no final do corredor, o mundo de Aaron Warner desmoronou.
— Não... não, não, não! — Ele se jogou de joelhos ao lado dela, as mãos trêmulas alcançando o rosto pálido de Clara. — Clara, meu amor, olhe para mim!
Ela abriu os olhos minimamente, a respiração vindo em pequenos espasmos. O rosto de Aaron estava borrado, mas ela reconheceu o cheiro de sândalo e a angústia em sua voz.
— Você... você demorou — ela sussurrou, uma trilha de sangue escorrendo pelo canto da boca.
— Shhh, não fale. Eu vou tirar você daqui. Eu vou matar cada um deles, eu juro por Deus, Clara, eu vou queimar este mundo se você não ficar comigo! — Ele estava soluçando agora, o controle impecável que ele ostentava como uma armadura havia desaparecido completamente.
Ele viu onde a mão dela estava pressionada. Viu a quantidade de sangue no chão.
— Aaron... — ela segurou o pulso dele com a pouca força que lhe restava. — O bebê... salve o nosso bebê...
O coração de Aaron parou. Ele olhou para o ventre dela, para o ferimento que estava perigosamente perto de onde uma nova vida deveria estar crescendo. O choque o atingiu como uma descarga elétrica. Um filho. Ele ia ter um filho com a mulher que ele amava, e ele havia passado as últimas semanas ignorando-a por causa de uma estratégia política idiota.
— Você está grávida? — A voz dele era um sopro de agonia.
— Eu ia te contar... hoje — ela fechou os olhos, a cabeça pendendo para trás. — Mas você estava... com ela. Sempre com ela.
— Perdão — ele chorou, pressionando a própria farda contra o corte dela para estancar a hemorragia. — Perdão, Clara. Eu fui um tolo. Eu fui um monstro. Por favor, não me deixe. Eu não posso ser esse homem sem você.
Ele a pegou nos braços, levantando-a com cuidado, apesar do caos ao redor. Soldados do Restabelecimento dobraram o corredor, apontando armas para a fumaça, mas recuaram ao ver o Comandante Supremo coberto de sangue, com uma expressão de pura fúria e desespero.
— Abram caminho! — Aaron rugiu, a voz ecoando como a de um animal ferido. — Se alguém entrar na minha frente, eu executo aqui mesmo! Chamem a equipe cirúrgica principal! Agora!
— Senhor, a garota Ferrars está desprotegida no setor norte... — um oficial tentou intervir.
Aaron parou por um segundo, os olhos verdes brilhando com uma promessa de morte.
— Que se dane a Juliette! Que se dane o Restabelecimento! Se minha esposa ou meu filho morrerem, não sobrará nada desta base para vocês defenderem!
Ele correu pela ala médica, chutando as portas duplas. Os cirurgiões, já ocupados com os feridos da invasão, pararam ao ver o Comandante entrar com uma mulher nos braços.
— Salvem os dois — Aaron ordenou, colocando Clara na maca cirúrgica. Ele não soltava a mão dela, mesmo quando os enfermeiros tentavam afastá-lo. — Se ela morrer, nenhum de vocês sai vivo desta sala. Estão me ouvindo?
— Senhor, precisamos que se afaste para operarmos — disse o médico-chefe, tremendo sob o olhar de Aaron.
Clara sentiu o aperto da mão dele uma última vez antes de a escuridão começar a levá-la.
— Aaron... — ela chamou, a voz quase inaudível.
— Eu estou aqui, meu amor. Eu nunca mais vou te deixar. Eu prometo.
Ele foi forçado a sair da sala. O corredor da ala médica estava em silêncio, um contraste bizarro com os sons de tiros e explosões que ainda vinham dos níveis superiores. Aaron encostou a testa na parede de vidro, observando os médicos se movimentarem freneticamente ao redor de Clara.
Ele olhou para as próprias mãos. Elas estavam vermelhas. O sangue dela. O sangue do filho que ele nem sabia que tinha.
A culpa o atingiu com o peso de uma montanha. Se ele não estivesse tão focado em Juliette, se não tivesse deixado Clara sozinha para manter as aparências, ele estaria com ela. Ele a teria protegido. Ele era o Comandante Supremo do Setor 45, o homem mais temido do continente, e não conseguira proteger a própria família de um único homem com uma faca.
Horas se passaram. A invasão foi repelida, os rebeldes capturados ou mortos, mas Aaron não se moveu do corredor. Ele não perguntou sobre os danos à base. Não perguntou sobre Juliette. Ele apenas esperou.
Quando o médico finalmente saiu, sua expressão era exausta.
— Comandante...
Aaron se endireitou, o rosto uma máscara de tensão.
— Diga.
— Ela é forte. Mais forte do que imaginávamos. O ferimento foi profundo, houve muita perda de sangue e o útero foi atingido de raspão...
Aaron sentiu o mundo girar.
— E o bebê?
O médico suspirou, limpando o suor da testa.
— Conseguimos estabilizá-la. O feto ainda tem batimentos, mas a situação é extremamente crítica. Ela precisará de repouso absoluto, monitoramento constante e... sinceramente, senhor, de um motivo para lutar. Ela parece ter desistido por um momento durante a cirurgia.
Aaron fechou os olhos, uma lágrima solitária escorrendo por seu rosto sujo de fuligem.
— Eu posso vê-la?
— Sim. Mas ela ainda está inconsciente.
Aaron entrou no quarto com passos lentos. Clara parecia tão pequena na cama de hospital, rodeada por tubos e monitores. Ele se sentou ao lado dela e, com uma delicadeza que ninguém no mundo acreditaria que ele possuía, beijou a palma de sua mão.
— Eu sinto muito — ele sussurrou no silêncio do quarto. — Eu achei que o poder me daria o que eu precisava para te dar um futuro. Mas eu quase destruí o nosso presente por causa disso.
Ele olhou para o ventre dela, coberto por bandagens brancas.
— Você me ouviu, Clara? Você tem que ficar. Nós temos que ficar. Eu vou mandar Juliette para outra base. Eu vou enfrentar meu pai. Eu vou contar ao mundo quem você é. Eu não me importo mais com as sombras.
Clara não respondeu, mas o monitor cardíaco ao lado da cama emitiu um bipe um pouco mais forte, um ritmo constante de vida que parecia ecoar a promessa dele.
Aaron Warner, o homem que sempre teve um plano para tudo, finalmente entendeu que a única estratégia que importava era aquela que mantinha o coração de sua esposa batendo. E ele passaria o resto de sua vida garantindo que ela nunca mais tivesse que sangrar sozinha no escuro.
— Eu te amo, Clara — ele disse, deitando a cabeça ao lado da dela. — E eu vou passar cada segundo provando isso para você e para o nosso filho. O Restabelecimento pode cair, o mundo pode acabar, mas eu nunca mais vou soltar a sua mão.
Lá fora, o sol começava a nascer sobre as ruínas do Setor 45, mas dentro daquele quarto, entre o cheiro de antisséptico e o som dos aparelhos, Aaron e Clara estavam começando uma guerra muito diferente: a guerra para salvar o que restava de sua própria humanidade.