Amor e Paixão.
Onde a Poeira Encontra a Traição
O ar na fazenda estava pesado naquela sexta-feira. Kim Seokjin, com seus quarenta anos e a sabedoria que a vida na terra lhe proporcionara, sentia um aperto estranho no peito. Ele sempre confiara em seus instintos, e seus instintos diziam que Jungkook estava escapando por entre seus dedos como areia fina. O jovem, que antes brilhava ao vê-lo, agora evitava o contato visual, e as desculpas sobre "trabalhos de faculdade" tornaram-se frequentes demais para serem ignoradas.
Jungkook havia saído cedo, alegando que passaria a noite na casa de Taehyung para terminar um projeto final de administração. Seokjin, querendo ser o companheiro compreensivo que sempre foi, apenas beijou a bochecha do namorado e desejou bom trabalho. Mas, assim que o carro de Jungkook sumiu na estrada de terra, Seokjin sentiu uma náusea súbita. Ele olhou para o celular de Jungkook, que o jovem havia esquecido sobre o balcão da cozinha — um erro fatal para quem vive de mentiras.
Uma notificação brilhou na tela bloqueada. Era Jimin.
"O quarto 302 do motel na saída da cidade já está pronto. Taehyung e eu estamos te esperando para terminar o que começamos ontem. Não demora, coelhinho."
O mundo de Seokjin girou. As palavras eram como facas afiadas cortando sua pele. Motel? Ontem? O respeito e a educação que eram marcas registradas de Seokjin deram lugar a uma fúria gélida e uma dor dilacerante. Ele pegou as chaves de sua caminhonete, o rosto pálido e os punhos cerrados. O trajeto até a cidade pareceu durar uma eternidade.
Ao chegar ao motel de beira de estrada, o neon piscante parecia zombar de sua desgraça. Ele viu o carro de Taehyung estacionado. Sem pensar nas consequências, Seokjin caminhou até a recepção. Sua presença era imponente e, com o tom de voz de quem manda em centenas de hectares, ele não precisou de muito para descobrir onde ficava o quarto 302.
Ele parou diante da porta de madeira. O som de risos abafados e gemidos altos vinha de dentro. O coração de Seokjin martelava contra as costelas, implorando para que aquilo fosse um pesadelo. Com um chute certeiro e violento, ele arrombou a porta, que bateu contra a parede com um estrondo seco.
A cena diante de seus olhos era pior do que qualquer imagem que sua mente pudesse criar. Na cama de lençóis bagunçados, Jungkook estava entre Taehyung e Jimin. Os três estavam nus, emaranhados em uma dança de luxúria que não deixava dúvidas sobre a profundidade da traição. Jungkook estava com as costas arqueadas, os olhos fechados em êxtase, enquanto Jimin beijava seu pescoço e Taehyung guiava seus movimentos.
— Mas que porra é essa? — A voz de Seokjin saiu como um trovão, carregada de um desprezo tão profundo que o ar no quarto pareceu congelar instantaneamente.
O choque foi imediato. Jungkook deu um pulo, caindo da cama em sua pressa para se afastar, os olhos arregalados de puro terror. Taehyung e Jimin, longe de parecerem envergonhados, apenas se cobriram parcialmente com o lençol, exibindo sorrisos cínicos e vitoriosos.
— Jin! — gritou Jungkook, a voz falhando, as lágrimas já começando a brotar. — Jin, eu... eu posso explicar! Eu juro que...
— Explicar? — Seokjin deu um passo à frente, e Jungkook recuou até bater na parede. — Você vai explicar o quê, Jungkook? Que as aulas de administração agora são dadas em motéis? Que o projeto final era ver quantos homens você conseguia colocar na cama ao mesmo tempo?
— Ora, Seokjin, não seja tão dramático — disse Taehyung, sentando-se relaxadamente na cama, passando a mão pelos cabelos bagunçados. — Você sabia que isso ia acontecer. Você é velho demais para ele. O Jungkook precisava de fogo, de vida, de alguém que falasse a língua dele. Você é apenas um fazendeiro entediante.
— Cale a boca, Taehyung! — Jungkook soluçou, tremendo violentamente enquanto tentava encontrar suas roupas no chão.
— Ele tem razão, Kook — Jimin interveio, com um tom de voz doce e venenoso. — Olhe para ele. Ele parece o seu pai vindo te buscar na escola. Você merece mais do que o cheiro de esterco e noites de chá. Você merece a gente.
Seokjin olhou para os dois jovens na cama com uma repugnância que os fez finalmente calar a boca. Depois, seu olhar voltou-se para Jungkook, que agora chorava convulsivamente, cobrindo-se com a própria jaqueta de couro.
— Eu te dei tudo, Jungkook — disse Seokjin, a voz agora baixa, o que era muito mais assustador do que o grito de antes. — Eu te dei meu respeito, minha casa, meu futuro e o meu amor. Eu achei que você era um homem, mas vejo que você não passa de um menino perdido que não sabe o valor de uma promessa.
— Jin, por favor, me perdoa... eles me disseram que você não me amava de verdade, que você queria apenas um herdeiro para a fazenda... — Jungkook tentou se aproximar, mas Seokjin levantou a mão, parando-o no lugar.
— Não me toque. Nunca mais me toque com essas mãos que acariciaram esses dois lixos.
Seokjin olhou para o quarto uma última vez, a imagem da traição gravada em fogo em sua memória.
— Amanhã, quando eu acordar, quero que todas as suas coisas estejam fora da minha fazenda. Se você colocar os pés nas minhas terras novamente, eu juro por Deus que não serei o homem educado que todos conhecem. Você escolheu a sua "juventude", Jungkook. Espero que ela te mantenha aquecido à noite, porque eu não farei mais isso.
Seokjin virou as costas e saiu, deixando para trás o som dos gritos desesperados de Jungkook e as risadas vitoriosas de Taehyung e Jimin.
As semanas que se seguiram foram o inferno na terra. Seokjin se afundou no trabalho, exaurindo-se fisicamente para não ter que pensar. No entanto, o silêncio da casa era ensurdecedor. Jungkook, por sua vez, percebeu o erro catastrófico que cometera no momento em que a porta do motel se fechou. Taehyung e Jimin, satisfeitos por terem destruído o relacionamento, logo perderam o interesse em Jungkook. Para eles, ele era apenas um troféu; uma vez conquistado e o rival derrotado, a diversão acabou.
Jungkook foi descartado por eles em menos de quinze dias. Ele se viu sozinho em um dormitório de faculdade, sem o conforto da fazenda, sem o carinho de Seokjin e, pior de tudo, sem o respeito por si mesmo. Ele passava as noites em claro, lembrando-se da bondade de Seokjin e de como ele jogara tudo fora por uma adrenalina barata.
Era uma tarde de chuva torrencial no Texas quando Seokjin ouviu alguém bater à sua porta. Ele não esperava ninguém. Ao abrir, encontrou uma figura encharcada, tremendo e com os olhos vermelhos de tanto chorar. Era Jungkook. Ele não tinha malas, não tinha o sorriso vibrante de antes. Parecia uma sombra do que um dia fora.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Seokjin, a voz dura, embora seu coração desse um solavanco doloroso.
— Eu não tenho para onde ir, Jin — sussurrou Jungkook, a voz rouca. — Não estou falando de casa... estou falando de alma. Eu morri naquele dia no motel. Eu sei que não mereço o seu perdão. Eu sei que sou um lixo. Mas eu precisava te dizer que eu os odeio. Eu me odeio.
— Vá embora, Jungkook.
— Eu vou! Eu só... eu só queria que você soubesse que eles mentiram para mim. Eles disseram que você me achava um fardo, que você só estava comigo por caridade. E eu fui burro, Jin. Eu fui um moleque inseguro que acreditou neles porque não me sentia digno de você.
Jungkook caiu de joelhos na varanda de madeira, a chuva lavando suas lágrimas.
— Você é o homem mais incrível que eu já conheci. E eu destruí a única coisa boa que eu tive na vida. Pode me mandar embora, pode me odiar... mas, por favor, saiba que eu nunca deixei de te amar, mesmo quando estava sendo o pior ser humano do mundo.
Seokjin olhou para o jovem aos seus pés. Ele viu a sinceridade na dor de Jungkook. Ele viu o arrependimento genuíno. O ódio que Seokjin cultivara nas últimas semanas começou a rachar. Ele ainda o amava. Esse era o seu maior fardo e sua maior verdade.
— Entre — disse Seokjin, após um longo silêncio. — Você vai pegar um resfriado.
Jungkook entrou, cabisbaixo. Seokjin entregou-lhe uma toalha seca e preparou um café forte. Eles se sentaram na sala, onde tantas vezes planejaram o futuro.
— Por que você voltou, Jungkook? — Seokjin perguntou, observando o jovem se encolher no sofá.
— Porque eu descobri que a liberdade que eles me prometeram era uma prisão — respondeu ele, olhando para as próprias mãos. — Sem você, Jin, o mundo não tem cor. Eu tentei curtir, tentei ser o jovem que eles diziam que eu deveria ser, mas em cada rosto eu procurava o seu. Em cada toque, eu sentia nojo por não ser o seu. Eu errei da pior forma possível.
Seokjin suspirou, aproximando-se e sentando-se ao lado dele. Ele tocou o queixo de Jungkook, forçando-o a olhar para ele.
— A confiança é como um vaso de cristal, Jungkook. Quando quebra, você pode colar os pedaços, mas as marcas sempre estarão lá.
— Eu passarei o resto da minha vida polindo essas marcas, se você me deixar ficar — Jungkook implorou, segurando a mão de Seokjin contra seu rosto. — Eu não quero festas, eu não quero Taehyung ou Jimin. Eu quero a lida pesada, o cheiro de terra e o seu abraço no fim do dia. Eu quero ser o homem que você merece.
Seokjin sentiu uma lágrima solitária escorrer. Ele viu que o menino havia finalmente crescido, embora da maneira mais dolorosa. Ele puxou Jungkook para um abraço, e o jovem se agarrou a ele como se sua vida dependesse disso.
— Vai ser difícil — avisou Seokjin, enterrando o rosto no pescoço de Jungkook, sentindo o cheiro familiar que tanto sentira falta. — Eu vou ter pesadelos. Eu vou ter dúvidas.
— E eu estarei aqui para te provar, todos os dias, que eu sou seu — Jungkook prometeu, chorando de alívio. — Só seu, Jin. Para sempre.
Naquela noite, sob o céu carregado do Texas, o amor não foi restaurado pela mágica, mas pela dor e pela verdade. Seokjin e Jungkook se deitaram na mesma cama, não para o sexo frenético que Jungkook tivera com os outros, mas para um toque de cura. Seokjin beijou cada centímetro do rosto de Jungkook, marcando-o novamente como seu, limpando as manchas da traição com a ternura de quem sabe que o amor verdadeiro é capaz de perdoar até o imperdoável.
— Eu te amo, Jin — sussurrou Jungkook, antes de adormecer nos braços seguros de seu fazendeiro.
— Eu também te amo, meu bem — respondeu Seokjin, fechando os olhos. — Bem-vindo de volta ao lar.
O sol nasceria no dia seguinte sobre as planícies, e embora as cicatrizes estivessem lá, o horizonte nunca pareceu tão promissor. Taehyung e Jimin tornaram-se apenas lembranças amargas de uma juventude mal vivida, enquanto Seokjin e Jungkook começavam, enfim, a escrever o capítulo mais real de suas vidas.