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Amor e sangue

O Silêncio sob as Sombras do Pampa

A escuridão do pampa era uma entidade viva, um manto negro que engolia os soluços de Joana enquanto ela corria sem rumo, longe da luz das velas da estância. O ar frio da noite cortava seus pulmões, mas a dor em seu peito era tão lancinante que o desconforto físico parecia um alívio. Ela não ouviu os gritos de Bento chamando seu nome, nem o som dos passos de algum capataz que, por ordem do general, certamente a seguiria de longe para garantir que não se perdesse na vastidão.

Joana parou apenas quando suas pernas cederam, caindo de joelhos perto de um antigo umbu, cujos galhos retorcidos pareciam braços implorando por clemência ao céu nublado. Ela apertou a terra úmida entre os dedos. O sangue de Estevão estava naquela terra. Em algum lugar, sob aquele mesmo solo que ela tanto aprendeu a amar, o corpo de seu irmão esfriava, enquanto ela se entregava ao homem que comandava os seus algozes.

A traição de Bento não era apenas política; era uma violação do sagrado.

— Senhorita Joana? — A voz era baixa, calma, desprovida da urgência autoritária de Bento.

Joana ergueu o rosto, as lágrimas manchando sua pele clara. Era Neto. O general Antônio de Sousa Netto, o homem que proclamara a República Rio-Grandense, estava parado a alguns metros, com as mãos cruzadas atrás das costas. Ele não se aproximou demais, respeitando o espaço daquela mulher que parecia prestes a quebrar.

— Vá embora — sussurrou ela, a voz rouca. — Não quero ver nenhum de vocês. Nenhum soldado, nenhum farrapo, nenhum... assassino.

Netto suspirou, o som perdendo-se no vento.

— Eu não vim como soldado, Joana. E Bento... Bento está lá dentro, destruído pelo que acabou de acontecer.

— Ele está destruído? — Joana riu, um som amargo e histérico que morreu rapidamente. — Ele sabia, Netto. Ele sabia enquanto me beijava. Ele sabia enquanto eu falava do Estevão. Ele permitiu que eu vivesse uma mentira enquanto meu irmão apodrecia no campo de batalha.

— Bento Gonçalves é um homem de muitas camadas, Joana. Algumas delas são duras como o aço das espadas que ele empunha. Mas ele não queria sua dor.

— Então ele deveria ter sido um homem, e não um estrategista, naquele momento — ela disse, levantando-se com dificuldade, limpando o vestido sujo de lama. — Eu não volto para aquela casa. Não volto para o lado dele.

Netto deu um passo à frente, a expressão séria.

— Onde você pretende ir? O caminho para as linhas imperiais é perigoso, e seu irmão não está mais lá para protegê-la. Se você cair nas mãos de homens como Moringue, será usada como moeda de troca, ou pior. Bento nunca permitiria que você fosse usada como isca, mas ele não pode protegê-la se você fugir para os braços do inimigo.

— Eu não vou para os imperiais — declarou Joana, com uma firmeza que surpreendeu a si mesma. — Eles também são culpados por essa guerra maldita. Eu não quero o Império, e não quero a República. Eu só quero... paz.

— A paz é um artigo de luxo nestes tempos — disse Netto — mas talvez eu possa oferecer um refúgio.

Joana olhou para ele, desconfiada.

— Bento enviou você?

— Bento não sabe que estou aqui. Ele está lidando com Caetana e com a própria consciência. Eu conheço uma estância, pequena, escondida nas dobras das serras, longe das rotas de suprimento e dos campos de batalha. Pertence a uma viúva de um antigo companheiro meu, uma mulher que não toma partido e que deve a vida à minha família. Lá, você não será a irmã de um capitão imperial, nem a amante de um general farroupilha. Será apenas Joana.

Joana hesitou. O silêncio do pampa parecia pressionar seus ouvidos. A ideia de voltar para a estância dos Gonçalves, de encarar o olhar ferido de Rosário ou o julgamento silencioso e digno de Caetana, era insuportável. Mas a ideia de ser capturada e usada contra Bento — algo que ela sabia que os imperiais fariam sem hesitar — era igualmente repulsiva.

— Você me dá sua palavra de que Bento não saberá onde estou? — perguntou ela.

Netto assentiu solenemente.

— Pelo menos por agora, ele não saberá. Direi a ele que você partiu para o sul, para a fronteira, e que a perdi de vista. Ele sofrerá, mas você terá o seu tempo.

***

A viagem durou dois dias. Netto providenciou um cavalo e um guia de sua total confiança, um homem velho e silencioso que parecia parte da paisagem. Eles evitaram as estradas principais, cavalgando por trilhas que apenas os homens do pampa conheciam. Joana sentia-se como um fantasma atravessando um mundo em chamas.

O refúgio era exatamente o que Netto descrevera. Uma casa de pedra sólida, aninhada em um vale verdejante, protegida por encostas íngremes e vigiada por um riacho de águas cristalinas. Dona Antônia, a proprietária, recebeu Joana sem perguntas. Era uma mulher de mãos calejadas e olhos que já tinham visto mortes demais para se impressionar com o drama de uma jovem aristocrata.

— Aqui o trabalho é o que cura a alma, menina — disse Antônia, entregando a Joana um xale de lã grossa. — Não temos generais aqui. Só o vento e as ovelhas.

Nas semanas que se seguiram, Joana mergulhou na rotina exaustiva da estância. Ela aprendeu a cuidar das feridas dos animais, a fiar a lã e a cozinhar no fogo de chão. A dor pela morte de Estevão não desapareceu, mas transformou-se em uma melancolia constante, um peso que ela carregava com dignidade.

No entanto, o fantasma de Bento Gonçalves a perseguia em seus sonhos. Ela acordava no meio da noite, sentindo o calor do corpo dele contra o seu, o cheiro de couro e tabaco que ele exalava. A raiva que sentira na noite da descoberta começava a se misturar com uma saudade dolorosa. Ela o odiava pelo silêncio, mas o amava pela humanidade que ele só mostrava a ela.

Certa tarde, enquanto Joana colhia ervas perto do riacho, o som de cascos se aproximou. Seu coração disparou. Seriam imperiais? Teriam os farrapos a encontrado?

Ela se escondeu atrás de um salgueiro, observando a trilha. Um único cavaleiro surgiu. Não era Bento, nem Netto. Era um mensageiro, um jovem rapaz com as cores da República, mas que parecia exausto. Ele entregou um envelope a Dona Antônia e partiu sem descer do cavalo.

Mais tarde, na cozinha, Antônia colocou o envelope sobre a mesa de madeira.

— É para você. O general Netto enviou.

Joana abriu o papel com mãos trêmulas. Não era uma carta de Netto. Era um pedaço de papel rasgado, com a caligrafia firme e inclinada de Bento.

"Joana,

Não peço perdão, pois sei que o que fiz é imperdoável aos olhos de uma irmã. Mas peço que saiba que a minha dor não é menor que a sua. A guerra nos tira tudo, até a nossa capacidade de sermos honestos com quem amamos.

Netto me contou onde você está. Ele não conseguiu guardar o segredo quando viu que eu estava perdendo a razão. Não vou buscá-la. Não vou forçá-la a voltar para um lugar que agora lhe traz apenas sofrimento. Mas saiba que você não é uma isca, nem uma prisioneira. Você é a única coisa pura que restou em minha vida.

Fique em paz. Se um dia o Rio Grande for livre, ou se eu cair em combate, saiba que meu último pensamento terá sido o brilho dos seus olhos na penumbra daquela cabana.

B."

Joana apertou o papel contra o peito, as lágrimas caindo silenciosamente. Ele sabia. Ele a deixara partir, não por falta de amor, mas por um excesso dele. Ele a estava protegendo da única maneira que sabia: mantendo a distância.

— Ele é um bom homem, à maneira dele — comentou Antônia, mexendo o caldeirão de sopa. — Mas homens que carregam o destino de um povo raramente conseguem carregar o coração de uma mulher sem esmagá-lo um pouco.

— Ele não me esmagou — sussurrou Joana, olhando para a janela, onde o sol se punha em tons de violeta e laranja. — Ele apenas me mostrou que, nesta terra, o amor e o sangue correm pelo mesmo leito.

Joana não voltou para a estância dos Gonçalves naquele mês, nem no seguinte. Ela permaneceu no vale, sob a proteção silenciosa de Netto e a distância respeitosa de Bento. Ela não corria perigo; os exércitos passavam longe dali, e seu nome fora apagado dos registros de guerra.

Ela era, finalmente, livre. Mas era uma liberdade solitária, comprada com o silêncio de um general e a memória de um irmão que nunca mais veria o pampa florescer.

Em uma tarde de inverno, Joana pegou um pedaço de carvão e, no verso da carta de Bento, escreveu apenas uma linha:

"A guerra pode terminar, Bento. Mas o pampa sempre lembrará de nós."

Ela entregou o papel a um tropeiro que passava, sabendo que, de alguma forma, aquela mensagem chegaria ao homem que, mesmo sendo seu inimigo por linhagem, continuaria sendo o dono de seus suspiros nas noites frias da serra. Ela não voltaria para ele, não agora, talvez nunca. Mas ela não fugiria mais. Ela ficaria ali, entre as sombras e o silêncio, esperando pelo dia em que o cheiro de pólvora fosse finalmente substituído pelo cheiro de terra molhada e paz.

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