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Amor entre idas e vindas

Sinfonia em Três Corações

O camarim após o show no estádio não parecia o cenário de uma celebração de astros do rock, mas sim o santuário de uma família que acabava de descobrir seu novo alicerce. O barulho abafado da multidão que ainda se dispersava lá fora era apenas um ruído de fundo. Patricio não soltava a mão de Karen por um segundo sequer. Ele a olhava como se ela fosse uma miragem, uma divindade que acabara de lhe entregar as chaves de um universo inteiramente novo.

— Você tem noção do que acabou de fazer? — perguntou Patricio, a voz ainda embargada, enquanto a puxava para um abraço apertado, mas cuidadoso, como se ela fosse feita de cristal. — Eu planejei o pedido por meses, ensaiei o que dizer... e você simplesmente roubou a cena com a melhor notícia da minha vida.

Karen riu, encostando a testa na dele. O suor do show ainda brilhava na pele de Patricio, e o cheiro de adrenalina e perfume caro que sempre o acompanhava parecia mais doce naquela noite.

— Eu não aguentei, Pato. Guardar isso por duas semanas enquanto você organizava esse show foi a coisa mais difícil que já fiz — confessou ela, sentindo o coração finalmente desacelerar. — Eu queria que fosse especial. E que lugar seria mais especial do que onde a gente sempre se sente em casa? No palco.

A porta do camarim se abriu com um estrondo, e Guido e Gastón entraram carregando garrafas de champanhe e sorrisos que iam de orelha a orelha. A banda era uma irmandade, e a notícia de um novo integrante na família Sardelli era o combustível que faltava para transformar aquela turnê em algo lendário.

— Eu vou ser o tio favorito, já deixo isso bem claro! — gritou Guido, abraçando os dois ao mesmo tempo. — Vou ensinar a tocar bateria antes mesmo de aprender a falar português ou espanhol.

— Nem pensar — rebateu Gastón, rindo e abraçando Karen com carinho. — Esse bebê vai ter bom gosto, vai ser um baixista nato. Parabéns, Karen. Você é a única pessoa capaz de deixar o Pato sem palavras, e hoje você se superou.

A comemoração seguiu pela madrugada, mas, em meio ao caos alegre dos amigos e da equipe técnica, Karen e Patricio trocavam olhares que diziam muito mais do que qualquer brinde. Para ela, aqueles três anos na Argentina tinham sido uma metamorfose. Ela chegara como uma estudante de intercâmbio, uma poliglota com a vida em planilhas, e agora era a mulher de um ícone, prestes a gerar uma vida que carregaria o sangue de duas culturas vibrantes.

Algumas semanas se passaram, e a realidade da gravidez começou a se assentar. O apartamento de Patricio em Buenos Aires, que antes era o refúgio de um músico solteiro cheio de guitarras espalhadas e discos de vinil fora das capas, começou a sofrer pequenas, mas significativas transformações.

— Pato, onde você vai colocar esse amplificador? — perguntou Karen, observando-o arrastar um equipamento pesado para o canto do estúdio caseiro.

— Vou abrir espaço para a poltrona de amamentação — respondeu ele, limpando o suor da testa com o antebraço. — Eu andei lendo que bebês gostam de música clássica, mas acho que esse aqui vai preferir um blues bem executado.

— Ele ou ela vai preferir que o pai não tropece nos cabos enquanto o carrega no colo — brincou ela, sentando-se no sofá e sentindo um leve enjoo, um lembrete constante da pequena vida que crescia nela.

Patricio caminhou até ela e se ajoelhou no chão, colocando as mãos sobre o ventre de Karen. Ele fechou os olhos, como se estivesse tentando ouvir uma melodia que só ele era capaz de compor.

— Você está com medo? — perguntou ele, a voz subitamente séria e doce.

Karen suspirou, passando os dedos pelos cabelos longos dele.

— Um pouco. Minha família está no Brasil, minha vida mudou tanto... Às vezes eu acordo e me pergunto se sou a mesma Karen que desembarcou aqui há três anos. Mas aí eu olho para você e percebo que eu não mudei, eu apenas me expandi.

— Eu nunca vou deixar você se sentir sozinha — prometeu Patricio, beijando a mão dela. — Se precisar, eu levo a banda inteira para morar no Rio de Janeiro por uns meses. A gente faz uma turnê pelas praias, eu aprendo a tocar bossa nova... qualquer coisa por você e por esse bebê.

— Não precisa de tanto, meu rockstar — ela riu, emocionada. — Só de você estar aqui, já é o suficiente.

No entanto, a vida de um casal sob os holofotes nunca era simples. A notícia da gravidez e do noivado explodiu na mídia argentina e brasileira. Karen, que sempre preferiu os bastidores, viu-se cercada por paparazzi sempre que saía para uma consulta médica. As redes sociais estavam inundadas de teorias, fotos e mensagens de carinho, mas também de críticas de quem não entendia a intensidade daquele amor transfronteiriço.

Certa noite, após um jantar em que foram seguidos por três carros de reportagem, Karen desabou no sofá, exausta. O peso da fama de Patricio às vezes parecia um preço alto demais para a paz que ela desejava para o filho.

— Eu só queria um minuto de normalidade — desabafou ela, as lágrimas ameaçando cair. — Eu amo você, Pato, mas odeio o fato de que não podemos comprar um berço sem que isso vire capa de revista.

Patricio sentou-se ao lado dela, puxando-a para o seu colo. Ele sabia exatamente do que ela estava falando. Ele nascera e crescera sob aquela pressão, mas Karen fora jogada nela por amor.

— Escuta — começou ele, pegando o violão que estava sempre por perto. — O mundo lá fora é barulhento, eu sei. Mas aqui dentro, o ritmo é nosso.

Ele começou a dedilhar uma melodia suave, algo que Karen nunca tinha ouvido antes. Não era uma das canções explosivas do Airbag, nem uma balada triste de término. Era algo novo, solar, cheio de esperança.

— Eu comecei a escrever isso hoje de manhã — sussurrou ele entre os acordes. — É sobre o silêncio que você trouxe para a minha confusão. É sobre como o seu sotaque brasileiro é a minha música favorita.

Karen fechou os olhos, deixando-se levar pela música. Patricio começou a cantar baixo, misturando versos em espanhol com algumas frases em português que ela lhe ensinara ao longo dos anos. A letra falava de "duas cores que se misturam para formar um novo horizonte", uma referência clara à pele negra de Karen e à brancura pálida de Patricio, e ao futuro que eles estavam construindo.

— Você é incrível — disse ela quando ele terminou. — Como consegue transformar tudo em arte?

— É o meu jeito de lidar com o que não consigo explicar com palavras — respondeu ele, deixando o violão de lado e abraçando-a. — E eu prometo que, quando o bebê nascer, vamos tirar um tempo só para nós. Sem câmeras, sem turnês, apenas a gente em algum lugar onde o único idioma falado seja o nosso.

Os meses passaram, e a barriga de Karen cresceu, tornando-se o centro das atenções em todas as reuniões de família. A irmã de Karen, que fora o motivo inicial daquela viagem anos atrás, agora morava em Buenos Aires para ajudar a futura mãe.

— Quem diria, hein? — comentou a irmã enquanto ajudava Karen a organizar as roupas do bebê. — Eu te trouxe para um show para eu conseguir um autógrafo, e você acaba levando o vocalista e um herdeiro de brinde.

— O destino tem um senso de humor bem peculiar — riu Karen, segurando um pequeno macacão que tinha o logo da banda estampado. — Mas eu não trocaria nada disso. Nem as brigas, nem a distância no início, nem a loucura de viver entre dois países.

Na trigésima oitava semana, o momento finalmente chegou. Era uma madrugada fria em Buenos Aires quando as contrações começaram. Patricio, que normalmente era a personificação da calma no palco diante de 50 mil pessoas, entrou em um estado de pânico controlado que faria qualquer um rir, se a situação não fosse séria.

— Onde estão as chaves? Karen, você pegou a bolsa? Por que eu não consigo achar meus sapatos? — ele perguntava, correndo de um lado para o outro.

— Pato! — chamou ela, respirando fundo durante uma contração. — As chaves estão na porta, a bolsa está no carro e você está de sapatos. Só... respira comigo.

Ele parou, olhou para os próprios pés e soltou uma risada nervosa, ajoelhando-se ao lado dela.

— Desculpa. Eu só... eu nunca estive tão nervoso na vida. Nem no primeiro show no Luna Park.

— Vai dar tudo certo — disse ela, segurando a mão dele com força. — Somos nós, lembra? A gente sempre dá um jeito.

O parto foi uma maratona de emoções. Patricio não saiu do lado dela por um segundo, sussurrando palavras de incentivo em todos os idiomas que conhecia, e até inventando alguns novos no processo. Quando o choro forte ecoou pela sala de parto, o mundo pareceu parar.

Era uma menina. Uma mistura perfeita de ambos, com a pele dourada e os olhos expressivos de Karen, e o que Patricio jurava já serem as mãos de uma guitarrista.

— Ela é linda — sussurrou Patricio, as lágrimas correndo livremente enquanto ele segurava a filha pela primeira vez. — Ela tem a sua luz, Karen.

— E o seu nariz — brincou Karen, exausta, mas transbordando felicidade. — Qual vai ser o nome, Pato? A gente nunca decidiu o oficial.

Patricio olhou para a pequena criatura em seus braços e depois para a mulher que mudara sua vida.

— Aurora — disse ele. — Porque ela é o começo de um novo dia para nós. E porque, não importa o quão escura seja a noite, ela sempre vai trazer o sol.

Karen sorriu, sentindo uma paz que nunca conhecera. Aurora Sardelli. Um nome que carregava o peso de uma dinastia do rock e a força de uma mulher brasileira que não teve medo de seguir o coração através das fronteiras.

Semanas depois, a primeira foto da família foi publicada. Não foi uma venda exclusiva para uma revista de fofocas, mas sim uma foto simples postada por Patricio em suas redes sociais. Nela, Karen estava sentada na varanda, com Aurora no colo, enquanto Patricio tocava violão para as duas. A legenda dizia apenas: "A canção mais perfeita que já escrevemos".

O amor deles, que começara em um after-party esfumaçado, agora brilhava sob a luz da manhã de Buenos Aires. Entre idas e vindas, entre o português e o espanhol, entre os acordes de guitarra e os choros de bebê, eles tinham construído algo que nenhuma crítica ou distância poderia destruir. Eles eram uma sinfonia em constante evolução, e a melhor parte da música estava apenas começando.