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Amor Mascarado

Sementes do Silêncio

O sol entrava pelas frestas da persiana como lâminas de luz dourada, cortando a penumbra do quarto. Mariana abriu os olhos devagar, sentindo o peso do corpo afundado no colchão. Sua primeira sensação foi a dor — uma dor surda e pulsante entre as pernas e nos pulsos, um lembrete físico da noite de absoluta entrega e brutalidade. Ela tentou se virar, esperando encontrar o calor dos corpos musculosos que a cercaram antes do sono a levar, mas encontrou apenas o vazio.

Os lençóis estavam bagunçados, úmidos e frios. Eles haviam partido.

Mariana sentou-se na cama, sentindo o sêmen seco repuxar em sua pele e o cheiro de couro e suor masculino ainda impregnado no travesseiro. O silêncio da casa era ensurdecedor. Não havia bilhetes, não havia sinais de arrombamento, apenas a marca profunda de dois corpos no colchão e as manchas roxas que começavam a florescer em suas coxas e braços como flores escuras. Ela abraçou os próprios joelhos, tremendo. Por que não sentia medo? A timidez que sempre a acompanhou deveria estar gritando por socorro, mas, em vez disso, havia uma antecipação doentia. Ela sabia, nas profundezas de sua alma, que eles voltariam. Aquela possessão não era algo que se terminava com o nascer do sol.

Ela se levantou com dificuldade, as pernas bambas, e caminhou em direção ao banheiro. No entanto, antes mesmo de chegar à porta, uma sensação estranha começou a se manifestar.

Não era apenas a lembrança do prazer. Era algo físico. Uma vibração profunda, um formigamento que parecia nascer no colo do útero e se espalhar por cada terminação nervosa de sua intimidade. Mariana soltou um suspiro entrecortado, apoiando-se no batente da porta. Os choques de prazer vieram em ondas, rítmicos, como se as mãos daqueles homens ainda estivessem nela, invisíveis, mas onipresentes.

— Ahnn... o que é isso? — sussurrou para o espelho, vendo suas próprias bochechas corarem.

Seus dedos, agindo por puro instinto, desceram. Ela se encostou na parede fria do banheiro, a mesma frieza que a sustentara enquanto eles a tomavam por trás. Ao tocar-se, sentiu a umidade excessiva. Não era apenas o resquício deles; seu próprio corpo estava produzindo um excesso de lubrificação, reagindo a uma memória que parecia estar viva dentro dela.

Ela fechou os olhos e começou a se acariciar, os choques tornando-se mais intensos a cada toque. Ela conseguia ver as máscaras negras na escuridão de sua mente, os olhos predatórios que a despiram de toda a dignidade e a transformaram em um receptáculo de luxúria. A vibração em sua vagina aumentou, uma pulsação que parecia um coração extra batendo dentro dela. Mariana arqueou as costas, gemendo alto no banheiro vazio, enquanto um orgasmo violento e inesperado a atingia, fazendo-a escorregar até o chão.

Enquanto recuperava o fôlego, sentiu algo quente escorrer por suas pernas. Ela olhou para baixo e viu um líquido branco, denso, misturado com sua própria excitação, manchando o piso de cerâmica. Um calafrio percorreu sua espinha. Havia muito ali. Mais do que o normal.

Os dias que se seguiram foram um borrão de obsessão. Mariana não conseguia se concentrar no trabalho ou na vida social. Ela passava horas em casa, nua, esperando o som de uma fechadura girando, o cheiro de couro, o toque mudo. Mas eles não apareciam. Em vez disso, seu corpo começou a mudar.

Sua doçura habitual foi substituída por uma palidez persistente e um enjoo que a visitava todas as manhãs. Seus seios, já sensíveis pelas mordidas e apertos daquela noite, tornaram-se inchados e doloridos. A suspeita cresceu como uma sombra, e o medo — o medo real, não o excitante — finalmente bateu à sua porta.

Sentada na sala de espera da clínica, Mariana apertava as mãos no colo, tentando esconder o tremor. Ela era a imagem da inocência: um vestido floral leve, o cabelo preso em um coque frouxo, os olhos baixos. Ninguém ali poderia imaginar que, sob aquele tecido, seu corpo carregava as marcas de dois assassinos.

— Mariana Silva? — chamou a enfermeira.

Ela se levantou e caminhou até o consultório médico como se estivesse indo para o patíbulo. O Dr. Arnaldo, um homem de meia-idade com um olhar clínico e desprovido de julgamento, revisou os exames de sangue que ela fizera dois dias antes.

— Bem, Mariana — começou ele, ajustando os óculos —, os resultados confirmam o que suspeitávamos. Você está grávida. Cerca de seis semanas.

O mundo pareceu girar. Seis semanas. O tempo exato desde que as sombras entraram em seu quarto e a reivindicaram.

— Grávida... — a voz dela falhou, quase um sussurro.

— Sim. Você parece surpresa. Foi planejado? — perguntou o médico, notando a palidez da paciente.

Mariana engoliu em seco. Como explicar? Como dizer que não sabia quem era o pai, ou melhor, que poderiam ser dois pais diferentes, homens que nunca mostraram o rosto e nunca disseram uma palavra? Homens que a trataram como posse, como um objeto de culto sombrio.

— Não... não foi planejado — ela respondeu, os dedos cravando-se na própria coxa.

— Você tem um parceiro estável? Alguém com quem possamos conversar sobre o pré-natal?

Mariana sentiu um nó na garganta. Ela pensou naqueles braços musculosos, na forma possessiva como eles a seguraram na cama após o ato, protegendo-a e prendendo-a ao mesmo tempo.

— Não. Eu estou sozinha. Não conte a ninguém, por favor. Eu... eu preciso de tempo para processar isso.

— O sigilo médico é garantido, Mariana. Mas você vai precisar de apoio.

Ela saiu do consultório em transe. O sol da tarde parecia agressivo demais. Ela caminhou pelas ruas sentindo-se como uma estrangeira em seu próprio corpo. Dentro dela, algo crescia. Uma semente plantada no silêncio, na violência e no prazer absoluto. Ela não sabia de qual deles era, ou se, de alguma forma bizarra, pertencia aos dois.

Ao chegar em casa, Mariana trancou a porta e encostou a testa na madeira. O silêncio da casa a envolveu novamente. Ela caminhou até o quarto, o cenário de sua "ruína" e de seu despertar. Deitou-se na cama, na mesma posição em que acordara naquela manhã semanas atrás.

Ela levou a mão ao ventre ainda plano.

— Vocês fizeram isso... — sussurrou para o quarto vazio.

De repente, a sensação voltou. A vibração. O choque de prazer. Não era físico desta vez, era psicológico, uma manifestação de sua própria mente doentia e obcecada. Ela sentia que estava sendo vigiada. Em algum lugar, nas sombras daquela cidade, os dois mascarados sabiam. Eles sabiam que haviam deixado uma marca permanente nela.

Mariana não sentia vontade de chorar. Uma calma estranha e gentil, típica de sua personalidade, mas agora tingida de uma aceitação sombria, tomou conta dela. Ela pertenceria a eles para sempre agora. O filho que carregava era o elo final, a corrente que a prendia àqueles monstros silenciosos.

Ela fechou os olhos, imaginando o momento em que eles voltariam. Desta vez, ela não imploraria apenas por prazer. Ela mostraria a eles o que haviam criado. E no fundo, ela sabia que, quando a porta se abrisse novamente e as máscaras surgissem na escuridão, ela não seria mais a Mariana tímida que eles encontraram. Ela seria a rainha deles, a mãe de algo nascido do sangue e da obsessão.

A escuridão começou a preencher o quarto conforme o sol se punha, e Mariana, exausta pela revelação e pelas emoções conflitantes, deixou-se levar por um sono sem sonhos, guardada pela certeza de que o silêncio deles era apenas a calmaria antes da próxima tempestade de possessão. Eles voltariam. E ela estaria esperando, nua e pronta, com o segredo pulsando dentro de si.