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Amor secreto

Marés de Inveja e Silêncio

A manhã em Awa'atlu trouxe consigo uma claridade impiedosa. O sol refletia na água cristalina com uma intensidade que parecia querer expor cada segredo escondido nas profundezas. Para Lo'ak, a luz era uma inimiga. Ele preferia a penumbra da caverna, o lugar onde as máscaras caíam e onde ele não precisava dividir a atenção de Neteyam com o resto do mundo.

Enquanto a família se reunia para a primeira refeição, Lo'ak mantinha os olhos fixos em sua tigela de frutas e peixe seco. Ele sentia a presença de Neteyam ao seu lado, o calor familiar de seu ombro quase roçando o dele, mas a distância emocional que precisavam manter em público parecia um abismo.

— Neteyam, hoje você acompanhará os caçadores de Tonowari até os recifes externos — disse Jake, sua voz de comando preenchendo o espaço da tenda. — Eles precisam de alguém que entenda de cobertura aérea caso os Akula estejam ativos.

— Sim, senhor — respondeu Neteyam, a voz firme e impecável. — Estarei pronto em poucos minutos.

— E eu? — perguntou Lo'ak, levantando a cabeça. — Eu também posso ajudar. O Skimwing está rápido, pai. Eu superei meu tempo ontem.

Jake olhou para o filho mais novo, um lampejo de dúvida em seus olhos.

— Hoje não, Lo'ak. Tsireya e Rotxo precisam de ajuda com os novos tecidos das redes. Além disso, você tem praticado muito o caminho da água, mas ainda se distrai fácil. Fique na vila e ajude onde for necessário.

Lo'ak sentiu as orelhas murcharem. Não era apenas o fato de ser deixado para trás; era o fato de que Neteyam passaria o dia cercado por outros guerreiros, por jovens Metkayina que o admiravam, enquanto ele ficaria preso às tarefas domésticas. Ele olhou para Neteyam, esperando algum sinal de apoio, mas o irmão mais velho estava com o olhar fixo no pai, a postura de soldado perfeita.

— Entendido — resmungou Lo'ak, levantando-se abruptamente e saindo da tenda antes que alguém pudesse dizer mais nada.

O dia passou devagar, como uma tortura silenciosa. Lo'ak ajudava Tsireya a esticar as fibras vegetais sob o sol escaldante, mas sua mente estava longe. Seus olhos constantemente escaneavam o horizonte, procurando pela silhueta dos Skimwings voltando da caça.

— Você está muito quieto hoje, Lo'ak — comentou Tsireya, seus olhos gentis observando o amigo com curiosidade. — Aconteceu alguma coisa?

— Nada — mentiu ele, puxando a fibra com força excessiva. — Só estou cansado de ficar parado.

— Neteyam é um grande guerreiro — disse ela, como se pudesse ler os pensamentos dele, embora estivesse longe da verdade. — É natural que o seu pai confie nele para as missões mais importantes. Mas você também tem o seu valor, Lo'ak.

Lo'ak soltou um suspiro frustrado.

— Todo mundo fala do Neteyam. "Neteyam é incrível", "Neteyam é o sucessor". Às vezes parece que eu sou apenas a sombra dele.

— Você não é a sombra dele — Tsireya sorriu, tocando levemente a mão de Lo'ak. — Você é o fogo dele. Sem você, ele seria sério demais, não acha?

O toque de Tsireya era amigável, mas Lo'ak sentiu um desconforto imediato. Ele retirou a mão sutilmente, fingindo ajustar a rede. Ele não queria o toque de ninguém que não fosse Neteyam. A ideia de que as pessoas pudessem ver nele algo que ele só queria compartilhar com o irmão o deixava sufocado.

Foi no final da tarde que os caçadores retornaram. Lo'ak estava na beira da passarela, observando as criaturas marinhas emergirem. Neteyam estava na frente, rindo de algo que um jovem caçador Metkayina dizia. O estranho tinha a mão no ombro de Neteyam, e eles pareciam compartilhar uma piada interna.

O estômago de Lo'ak deu um nó. A queimação do ciúme voltou com força total, uma labareda que consumia sua razão. Ele observou enquanto eles desembarcavam e começavam a descarregar a caça. O jovem Metkayina, um guerreiro chamado A'no, não parecia querer se afastar de Neteyam.

— Você tem a mira de um Toruk Makto, estrangeiro — disse A'no em voz alta, para que todos ouvissem. — Nunca vi ninguém acertar um peixe-lança em movimento daquela distância.

Neteyam sorriu — aquele sorriso que Lo'ak queria guardar apenas para si.

— Foi sorte, A'no. As correntes estavam a meu favor.

— Sorte nada! Amanhã você precisa me mostrar como posiciona o cotovelo. Podemos ir para a Enseada dos Ventos, é mais calmo lá.

Lo'ak não aguentou mais. Ele caminhou em direção ao grupo, seus passos pesados e a cauda chicoteando o ar com violência.

— Ele está ocupado amanhã — interrompeu Lo'ak, a voz saindo mais ríspida do que pretendia.

O grupo se calou. Neteyam olhou para o irmão, seus olhos se arregalando levemente em um aviso silencioso. A'no arqueou uma sobrancelha, confuso.

— Ocupado? — perguntou A'no. — O seu pai disse que as patrulhas continuariam.

— Ele vai treinar comigo — afirmou Lo'ak, parando ao lado de Neteyam e encarando o Metkayina. — Temos coisas de... família para resolver.

Neteyam limpou a garganta, tentando suavizar a tensão que emanava de Lo'ak.

— Lo'ak tem razão, A'no. Eu prometi a ele que revisaríamos algumas técnicas de defesa hoje à noite e amanhã. Mas podemos marcar outro dia.

A'no deu de ombros, ainda parecendo desconfiado, mas se afastou para se juntar aos outros. Assim que ficaram sozinhos na passarela, Neteyam agarrou o braço de Lo'ak e o puxou para um canto mais reservado, atrás de uma das grandes tendas de armazenamento.

— O que foi aquilo? — sibilou Neteyam, as orelhas para trás. — Você quase criou um incidente diplomático por nada!

— Por nada? — Lo'ak rebateu, a voz tremendo de raiva contida. — Ele estava tocando em você, Neteyam! Ele estava te olhando como se... como se você fosse um prêmio!

— Ele é apenas um caçador sendo amigável, Lo'ak! — Neteyam esfregou o rosto com as mãos, exausto. — Eu sou o filho do Olo'eyktan dos Omatikaya. Eles tentam ser receptivos. É política, é sobrevivência!

— Eu não me importo com política! — Lo'ak deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Neteyam. — Eu odeio o jeito que eles olham para você. Eu odeio que eu tenha que ficar sentado tecendo redes enquanto você está lá fora sendo o herói de todo mundo.

Neteyam suspirou, sua expressão mudando de irritação para uma tristeza profunda. Ele olhou ao redor para garantir que estavam sozinhos e, por um breve momento, deixou a máscara cair.

— Você acha que eu gosto disso? — perguntou ele em um sussurro sofrido. — Você acha que eu prefiro estar com eles do que com você? Cada minuto que passo ouvindo os elogios de A'no ou as instruções de Tonowari, eu estou pensando em como eu queria estar na nossa caverna. Eu estou contando os segundos para poder olhar para você sem ter que desviar o olhar logo em seguida.

Lo'ak sentiu a raiva começar a murchar, substituída por aquela necessidade desesperada de proximidade que sempre o vencia.

— Então por que você sorri para eles? — perguntou Lo'ak, a voz agora quebradiça. — Por que você deixa que eles se aproximem tanto?

— Porque se eu for frio, se eu me isolar, eles vão perguntar o porquê — explicou Neteyam, dando um passo cauteloso para mais perto de Lo'ak. — E se eles perguntarem demais, eles podem encontrar a resposta. E você sabe o que acontece se descobrirem sobre nós, Lo'ak. Não seríamos apenas exilados. Seríamos a vergonha de nosso pai. Destruiríamos tudo o que ele construiu aqui.

Lo'ak encostou a cabeça no ombro de Neteyam, fechando os olhos. O cheiro de sal e da pele de seu irmão era a única coisa que o acalmava.

— Eu sinto que estou sufocando, Neteyam. Esse segredo... ele é tão pesado quanto o oceano.

Neteyam passou o braço pela cintura de Lo'ak, um gesto rápido e furtivo, mas carregado de significado.

— Eu sei. Mas nós somos fortes, não somos? Somos os filhos de Jake Sully. Nós aguentamos o peso.

— Eu não quero ser o filho de Jake Sully agora — murmurou Lo'ak contra o pescoço do irmão. — Eu só quero ser seu.

Neteyam sentiu um aperto no peito. Ele queria beijar Lo'ak ali mesmo, queria gritar para todo o clã Metkayina que seu coração não pertencia a nenhuma donzela do mar ou guerreiro valente, mas sim ao garoto rebelde e de olhos dourados que segurava em seus braços. Mas o dever era uma corrente de ferro.

— Hoje à noite — sussurrou Neteyam. — Quando a lua estiver no topo e todos estiverem dormindo. Vá para as rochas do sul. Eu te encontro lá.

Lo'ak assentiu, afastando-se relutantemente. Ele sabia que precisava recompor sua expressão. Eles voltaram para a área comum separadamente, agindo como se tivessem tido apenas uma discussão fraternal comum sobre deveres e treinamentos.

A refeição noturna foi uma prova de resistência. Kiri estava observando-os com seus olhos curiosos e profundos, como se pudesse sentir a eletricidade estática entre os dois irmãos. Tuk falava sem parar sobre as criaturas que viu na areia, alheia à tempestade silenciosa que ocorria à sua frente.

— Vocês dois estão muito quietos — notou Neytiri, seus olhos de mãe examinando os filhos. — A caçada foi difícil, Neteyam?

— Apenas longa, mãe — respondeu ele com um sorriso calmo. — Estou cansado. Acho que vou me recolher cedo.

— Eu também — disse Lo'ak rapidamente. — O sol me deu dor de cabeça.

Jake assentiu, satisfeito com a ideia de que seus filhos estavam apenas exaustos pelo trabalho duro.

Horas depois, quando o som da respiração rítmica de sua família preenchia a tenda, Lo'ak se levantou. Ele se moveu como uma sombra, cada passo calculado para não fazer barulho nas esteiras tecidas. Ele deslizou para fora e mergulhou na água morna, nadando silenciosamente em direção às rochas do sul.

Neteyam já estava lá. Ele estava sentado em uma saliência rochosa que ficava escondida pela maré alta, observando o brilho da flora marinha sob a água. Quando Lo'ak emergiu, Neteyam estendeu a mão para ajudá-lo a subir.

Assim que Lo'ak se firmou na rocha, ele não disse nada. Ele apenas envolveu Neteyam em um abraço esmagador, escondendo o rosto em seu peito.

— Eu achei que o dia não fosse acabar nunca — confessou Lo'ak.

Neteyam o apertou de volta, enterrando os dedos nos cabelos de Lo'ak.

— Eu também.

Eles se sentaram juntos, as pernas balançando sobre a água luminescente. O silêncio da noite era absoluto, interrompido apenas pelo som das ondas quebrando suavemente contra as pedras.

— Lo'ak — começou Neteyam, a voz baixa e séria. — Você precisa tentar controlar esse ciúme. Eu sei que é difícil, mas as pessoas percebem. A'no ficou confuso. Tsireya olha para nós com perguntas nos olhos.

— Eu tento — disse Lo'ak, olhando para as próprias mãos. — Mas quando vejo alguém chegando perto de você, sinto como se estivessem tentando roubar o meu oxigênio. Você é a única coisa que me faz sentir que eu pertenço a algum lugar, Neteyam. Se eu te perder para o clã, ou para algum compromisso que o pai inventar... eu não sei o que farei.

Neteyam pegou o queixo de Lo'ak e o virou para si, forçando-o a olhar em seus olhos.

— Você não vai me perder. Nunca. Mesmo que eu tenha que me casar com uma princesa de outro clã por dever, meu espírito sempre estará ligado ao seu. Eywa sabe disso. O vínculo que criamos... ele vai além do que é permitido. É algo que está gravado nas nossas canções de corda, mesmo que nunca as cantemos em voz alta.

Lo'ak sentiu as lágrimas arderem em seus olhos.

— Eu queria que pudéssemos fugir. Para algum lugar onde ninguém nos conheça. Onde possamos ser apenas Lo'ak e Neteyam.

Neteyam sorriu com tristeza, acariciando a bochecha do irmão.

— Não há lugar no mundo onde possamos fugir de quem somos, pequeno irmão. Somos Sullys. Somos guerreiros. E somos o segredo um do outro.

Ele se inclinou e beijou Lo'ak. Foi um beijo lento, cheio de uma promessa silenciosa e de uma dor compartilhada. Naquele momento, sob a luz das estrelas de Pandora, não havia clãs, não havia pais e não havia expectativas. Havia apenas a batida de dois corações que batiam no mesmo ritmo proibido.

— Prometa-me que, se as coisas ficarem difíceis, você não vai me afastar — pediu Lo'ak, segurando a mão de Neteyam com força.

— Eu prometo — respondeu Neteyam, encostando sua testa na de Lo'ak. — Eu sou sua âncora, Lo'ak. E você é o meu norte. Nada vai mudar isso.

Eles ficaram ali até que a primeira luz do amanhecer começasse a pintar o céu de um cinza pálido. Sabiam que o ciclo recomeçaria. As máscaras seriam colocadas, os sorrisos falsos seriam distribuídos e a distância seria mantida. Mas, por enquanto, o segredo estava seguro nas sombras das rochas do sul, alimentado pelo fogo de um amor que não deveria existir, mas que queimava com mais brilho do que qualquer sol.

Ao voltarem para a vila, nadando lado a lado no silêncio da madrugada, Lo'ak sentiu uma calma momentânea. Ele ainda odiaria ver Neteyam sorrir para outros, e Neteyam ainda carregaria o peso do filho perfeito. No entanto, enquanto tivessem aquelas horas roubadas, eles sobreviveriam.

Porque no caminho da água, as correntes mais perigosas são aquelas que correm por baixo da superfície, invisíveis aos olhos, mas capazes de moldar o mundo inteiro. E a corrente que os unia era a mais profunda de todas.