Amor secreto
Sob a Superfície do Silêncio
A luz da manhã em Awa'atlu não era como o despertar dourado sob o dossel de High Camp. Nas ilhas Metkayina, o sol nascia como uma explosão de prata refletida no espelho infinito do oceano, uma claridade que feria os olhos de Neteyam e parecia expor cada um de seus segredos. Ele acordou antes de todos, o peito ainda pesado com a memória do toque de Lo’ak na noite anterior. O gosto de sal e o calor dos lábios do irmão ainda pareciam tatuados em sua pele.
Ele se levantou silenciosamente, evitando olhar para a rede onde Lo’ak dormia. Ele sabia que, se olhasse, se visse os cílios longos do irmão descansando contra as bochechas, ele não conseguiria manter a fachada de "filho perfeito" por mais um segundo.
Lá fora, a brisa marinha era fresca. Neteyam caminhou até a beira da água, sentindo a areia úmida entre os dedos dos pés. Ele precisava se concentrar. O dia de hoje seria longo; Tonowari e Ronal esperavam que os filhos de Jake Sully demonstrassem progresso real. Eles não eram mais apenas refugiados; eram aprendizes de um modo de vida que Neteyam sentia que estava tentando afogá-lo.
— Acordou cedo, Skxawng.
Neteyam não se sobressaltou. Ele conhecia aquele tom. Virou-se para encontrar Lo’ak parado a poucos passos, a luz da manhã destacando as listras escuras em seu corpo e a intensidade desafiadora em seus olhos.
— Alguém precisa estar pronto — disse Neteyam, cruzando os braços. — O pai vai nos cobrar hoje. Ele quer que mostremos aos Metkayina que somos capazes.
Lo’ak deu um passo à frente, ignorando a distância de segurança que Neteyam tentava estabelecer.
— O pai quer que sejamos soldados — rebateu Lo’ak em voz baixa. — Mas aqui não é uma guerra, Neteyam. É a nossa vida. Ou o que sobrou dela.
— É a nossa sobrevivência — corrigiu Neteyam, sentindo o coração acelerar. — E para sobreviver, precisamos seguir as regras. Todas elas.
Lo’ak soltou um som de escárnio, aproximando-se ainda mais, até que Neteyam pudesse sentir o calor emanando dele.
— Regras sobre como respirar? Ou regras sobre quem podemos amar? — O desafio na voz de Lo’ak era como uma lâmina.
— Lo’ak, por favor... — sussurrou Neteyam, olhando ao redor freneticamente. — Alguém pode ouvir.
— Deixe que ouçam — disse Lo’ak, embora tenha baixado o tom, seus olhos nunca deixando os de Neteyam. — Eu cansei de me esconder nas sombras das árvores e atrás das redes de dormir. Ontem à noite... você não estava seguindo regras ontem à noite.
Neteyam sentiu o rosto queimar. A lembrança do beijo era uma âncora e, ao mesmo tempo, um peso que o puxava para o fundo.
— Ontem à noite foi um erro — mentiu Neteyam, a voz falhando.
Lo’ak recuou como se tivesse levado um golpe físico. Seus olhos brilharam com uma mistura de mágoa e fúria.
— Um erro? — Ele riu, um som seco e sem alegria. — Engraçado. Foi o único momento em que senti que eu realmente pertencia a algum lugar desde que deixamos a floresta. Se isso foi um erro, então eu não quero estar certo nunca mais.
Antes que Neteyam pudesse responder, o som de uma concha ecoou pela vila, chamando todos para as atividades da manhã. O momento de intimidade dolorosa foi quebrado.
— Vamos — disse Neteyam, assumindo sua máscara de frieza. — Tsireya e Aonung estão esperando.
O treino do dia foi focado na montaria dos Ilu. Para Neteyam, a conexão com o animal era uma extensão de seu treinamento como guerreiro Omatikaya, mas o oceano exigia uma entrega diferente. O Ilu não era um Ikran; ele não respondia à força bruta ou ao comando absoluto, mas sim a uma dança de equilíbrio e fluidez.
Enquanto mergulhavam sob as ondas, Neteyam tentava manter sua mente limpa, mas sua visão sempre voltava para Lo’ak. O irmão mais novo parecia mais em casa sob a água do que jamais estivera na floresta. Havia uma liberdade no jeito que Lo’ak se movia, uma falta de medo que Neteyam invejava e temia.
Aonung e seus amigos nadavam ao redor deles, lançando olhares de desdém e risadinhas abafadas pelas bolhas de ar.
— Vejam só — sinalizou Aonung na linguagem de sinais Na'vi, apontando para a cauda de Neteyam, que ainda lutava para se estabilizar na correnteza. — Eles nadam como pedras. Pedras com dedos demais.
Neteyam ignorou, mas viu a mandíbula de Lo’ak travar sob a água. Ele conhecia aquele sinal. Lo’ak estava prestes a explodir.
— Não vale a pena — sinalizou Neteyam para o irmão, tentando manter a calma.
Mas Lo’ak não era de manter a calma. Ele impulsionou seu Ilu para frente, passando raspando por Aonung, forçando o filho do líder a desviar bruscamente para não colidir.
— O que foi isso, Sangue de Demônio? — gritou Aonung assim que emergiram para respirar, a voz carregada de veneno.
— Você fala demais para quem mal consegue acompanhar o ritmo — provocou Lo’ak, limpando a água dos olhos.
— Lo’ak, chega! — ordenou Neteyam, posicionando seu Ilu entre os dois. — Peço desculpas, Aonung. Estamos apenas tentando aprender.
Aonung olhou para Neteyam com um desprezo que lentamente se transformou em uma curiosidade maliciosa.
— Você sempre protegendo ele, não é, "Filho Perfeito"? — Aonung sorriu, um gesto que não chegava aos olhos. — É quase como se você tivesse medo de que ele se quebrasse se você não estivesse por perto. Ou talvez você tenha medo do que ele faria se estivesse livre de você.
Neteyam sentiu um calafrio que não vinha da água fria do mar. Ele olhou para Lo’ak e viu o irmão o observando, esperando por uma reação, por uma defesa, por qualquer sinal de que Neteyam estava do seu lado.
— Ele é meu irmão — disse Neteyam, a voz firme, embora seu interior estivesse em frangalhos. — É meu dever.
O brilho nos olhos de Lo’ak se apagou instantaneamente. Ele desviou o olhar, mergulhando de volta na água sem dizer uma palavra, deixando Neteyam sozinho na superfície com o peso de suas próprias palavras.
O resto do dia passou como um borrão de exaustão física e agonia mental. Quando o sol começou a se pôr, pintando a água de um vermelho sangue, Neteyam se viu livre das obrigações familiares por um momento. Ele procurou por Lo’ak em todos os lugares habituais, mas o irmão havia desaparecido.
Ele o encontrou finalmente em uma enseada isolada, longe das luzes de bioluminescência da vila principal. Lo’ak estava sentado sobre uma rocha que emergia da maré baixa, observando os peixes-voadores saltarem sobre as ondas.
Neteyam aproximou-se cautelosamente, o som de seus passos abafado pelo rugido constante do mar contra as pedras.
— Você sumiu — disse Neteyam, parando atrás dele.
— Eu precisava de um lugar onde eu não fosse um "dever" — respondeu Lo’ak, sem se virar. — Ou um "erro".
Neteyam suspirou, sentindo a armadura que construíra ao redor de si mesmo começar a rachar. Ele se sentou ao lado de Lo’ak, o ombro roçando o dele. Dessa vez, Lo’ak não se afastou, mas também não se inclinou para ele.
— Eu não queria dizer aquilo daquela forma — começou Neteyam, as palavras saindo com dificuldade. — Na frente de Aonung... eu não podia...
— Você nunca pode, Neteyam — interrompeu Lo’ak, finalmente olhando para ele. Seus olhos estavam vermelhos, talvez pelo sal, talvez por algo mais. — Você está tão ocupado sendo o escudo da família que esqueceu que eu também sou parte dela. E eu não quero um escudo. Eu quero você.
Neteyam sentiu uma lágrima solitária escapar e escorrer por seu rosto.
— Eu tenho medo, Lo’ak.
As palavras saíram tão baixas que quase foram levadas pelo vento. Lo’ak suavizou a expressão, sua raiva evaporando para dar lugar a uma preocupação genuína.
— Medo de quê? Do pai? De Eywa?
— De tudo — confessou Neteyam. — Se o mundo descobrir... se o pai descobrir... ele vai olhar para nós e não vai ver os filhos dele. Ele vai ver algo quebrado. Algo que ele precisa consertar. E eu não sei se aguentaria ver o desprezo nos olhos dele.
Lo’ak estendeu a mão e, desta vez, Neteyam não recuou. Os dedos de Lo’ak entrelaçaram-se nos dele, as quatro mãos de Neteyam contra as cinco de Lo’ak, uma prova constante de sua herança mista, de sua alteridade.
— O pai já nos vê como algo que precisa ser consertado, Neteyam — disse Lo’ak suavemente. — Ele quer que sejamos soldados perfeitos porque ele tem medo de nos perder para a guerra. Mas ele já está nos perdendo para o silêncio.
Neteyam olhou para as mãos entrelaçadas. O contraste entre a pele azul e as marcas bioluminescentes brilhando fracamente no crepúsculo.
— Eu não quero te perder — sussurrou Neteyam.
— Você nunca vai me perder — prometeu Lo’ak, aproximando-se até que seus rostos estivessem a centímetros de distância. — Mas você precisa parar de lutar contra o que sentimos. O oceano não tenta lutar contra a maré, Neteyam. Ele apenas flui com ela.
— Eu não sei como fazer isso — admitiu Neteyam, sentindo-se vulnerável de uma forma que nunca experimentara em um campo de batalha.
— Eu te ensino — disse Lo’ak, e então ele o beijou.
Desta vez, não foi um beijo de desespero ou de pressa. Foi um beijo lento, profundo, que carregava a promessa de algo que nenhum dever poderia apagar. Foi um beijo que dizia que, apesar do medo, apesar das regras e apesar do mundo que tentava separá-los, eles pertenciam um ao outro.
Neteyam sentiu a tensão deixar seu corpo. Pela primeira vez em semanas, ele sentiu que podia respirar, mesmo que estivesse cercado por água. Ele envolveu os braços ao redor do pescoço de Lo’ak, puxando-o para mais perto, querendo fundir sua existência com a dele.
— O que vamos fazer? — perguntou Neteyam quando se separaram, as testas ainda encostadas.
— Vamos viver — respondeu Lo’ak com um pequeno sorriso, o primeiro sorriso real que Neteyam via em dias. — Um dia de cada vez. Vamos aprender a nadar nessas águas, Neteyam. Juntos.
Eles ficaram ali por um longo tempo, observando as estrelas começarem a surgir no céu de Pandora. O perigo ainda estava lá. O segredo ainda era uma sombra que os perseguia. O pai ainda esperava que fossem o que não eram.
Mas ali, naquela enseada escondida, Neteyam percebeu que Lo’ak tinha razão. O oceano era vasto e perigoso, mas ele também era profundo o suficiente para esconder os segredos mais preciosos. E enquanto eles tivessem um ao outro, eles encontrariam uma maneira de não se afogarem.
— Precisamos voltar — disse Neteyam finalmente, mas desta vez ele não soltou a mão de Lo’ak enquanto caminhavam de volta pela areia.
— Só mais um momento — pediu Lo’ak, parando e olhando para o horizonte onde a lua começava a subir. — Veja.
Neteyam olhou. A água estava começando a brilhar com a bioluminescência noturna, milhares de pequenos seres transformando o oceano em um céu estrelado invertido. Era lindo, selvagem e livre.
— É como a floresta — sussurrou Neteyam, maravilhado.
— É melhor que a floresta — disse Lo’ak, apertando sua mão. — Porque aqui, nós estamos começando de novo.
Eles voltaram para a vila, soltando as mãos apenas quando as primeiras luzes das tendas Metkayina apareceram. Eles retomaram seus papéis — o herdeiro responsável e o irmão rebelde. Mas por baixo da superfície, algo havia mudado permanentemente.
Naquela noite, Neteyam deitou-se em sua rede e não olhou para o teto com medo. Ele olhou para o lado, encontrando o olhar de Lo’ak através da penumbra da tenda. Lo’ak piscou para ele, um gesto rápido e cúmplice.
Neteyam fechou os olhos e, pela primeira vez desde que chegaram ao recife, o som do oceano não parecia um rugido de ameaça, mas sim uma canção de ninar. Ele sabia que as tempestades viriam. Ele sabia que a verdade poderia, eventualmente, vir à tona como um destroço após um naufrágio.
Mas, por enquanto, ele se permitiu flutuar na correnteza do que sentia. Ele era um Sully. Ele era um guerreiro. Mas ele também era o coração de Lo’ak. E isso, ele percebeu, era a única coisa pela qual realmente valia a pena lutar.
O silêncio de Awa'atlu os envolveu, um manto protetor sobre um amor que desafiava as marés. E nas profundezas de sua alma, Neteyam finalmente parou de tentar nadar contra a corrente. Ele simplesmente se deixou levar.