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Amor sombrio

O Eclipse das Veias e a Sinfonia do Abismo

O Mustang avançava pela rodovia interestadual como uma bala de prata disparada contra o coração da noite. Dentro do carro, o ar era pesado, carregado com o cheiro metálico de sangue seco e o aroma acre de ervas destiladas que Wandinha trouxera da cripta. Ela mantinha as mãos firmes no volante, os olhos fixos na estrada com uma concentração que beirava o inumano. Ao seu lado, Tyler parecia estar em um estado de animação suspensa; sua pele estava tão pálida que parecia translúcida sob a luz pálida do painel, e as veias negras em seu pescoço pulsavam em um ritmo errático.

— Sua respiração está mudando — observou Wandinha, sem desviar o olhar do asfalto. — A frequência cardíaca está subindo. O veneno de beladona e as cinzas ancestrais estão finalmente atingindo o córtex cerebral do Hyde. É o estágio de purgação.

Tyler soltou um gemido abafado, as mãos cravando-se no couro do banco. O som que saiu de sua garganta foi uma mistura perturbadora de um soluço humano e um rosnado animal.

— Parece que... meu sangue está se transformando em chumbo derretido — ele conseguiu articular, as palavras saindo com esforço. — Wandinha, você disse que isso o estabilizaria.

— Eu disse que isso o reivindicaria — corrigiu ela, sua voz mantendo a cadência fria de um metrônomo fúnebre. — Estabilização é um conceito burguês para quem teme a própria natureza. Eu estou forçando a simbiose. O Hyde quer o controle total; eu estou ensinando a ele que o controle é uma ilusão que ele agora compartilha comigo.

De repente, Tyler arqueou o corpo, sua cabeça batendo contra o encosto do banco. Seus olhos se abriram, mas as íris azuis haviam sido completamente consumidas por um âmbar incandescente, uma cor que parecia queimar de dentro para fora. Ele agarrou o braço de Wandinha com uma força que teria quebrado os ossos de qualquer outra pessoa, mas ela nem sequer estremeceu.

— Pare... o carro — rugiu o Hyde, a voz agora uma oitava abaixo da de Tyler, vibrando com uma fúria ancestral.

Wandinha girou o volante com uma precisão cirúrgica, jogando o Mustang para o acostamento de cascalho sob a sombra de carvalhos centenários. Antes que o veículo parasse completamente, ela puxou o freio de mão e virou-se para ele.

— O pânico é uma resposta primitiva, Tyler. Use a dor como uma âncora, não como um gatilho.

— Não é pânico! — Tyler escancarou a porta do carro e desabou no chão úmido da floresta. Ele começou a se contorcer, os ossos estalando audivelmente enquanto o Hyde lutava para emergir através da barreira química que Wandinha havia construído em suas veias. — Dói demais... Ela está me rasgando!

Wandinha saiu do carro com sua calma imperturbável. Ela caminhou até ele e ajoelhou-se na terra, ignorando as manchas de lama em seu vestido preto impecável. Ela observou as garras de Tyler surgirem e retraírem, um ciclo de transformação interrompido que parecia uma tortura medieval.

— A resistência é o que causa a dor — disse ela, estendendo a mão para tocar a testa febril dele. — O Hyde sente a minha marca no seu sangue. Ele está tentando expulsar a autoridade que eu impus.

— Mate-me — Tyler implorou, as lágrimas escorrendo por seu rosto, misturando-se à sujeira. — Wandinha, por favor... acabe com isso. Eu não quero ser um monstro quebrado.

— Você não é um monstro quebrado — rebateu ela, seus olhos escuros brilhando com uma intensidade letal. — Você é uma obra-prima em desenvolvimento. E eu não permito que minhas obras sejam interrompidas pelo sentimentalismo da carne.

Ela pegou uma pequena adaga de obsidiana de dentro de sua bota e, com um movimento rápido, fez um corte na própria palma da mão. O sangue Addams, escuro e denso, começou a brotar.

— Beba — ordenou ela, pressionando a mão contra os lábios de Tyler. — O sangue Addams carrega séculos de convivência com o abismo. Ele vai dar ao Hyde a estrutura que lhe falta. Ele vai reconhecer que o escuro não é algo a ser combatido, mas habitado.

Tyler hesitou por um milésimo de segundo, o cheiro do sangue dela atingindo seus sentidos aguçados como um tônico inebriante. Ele agarrou o pulso de Wandinha e bebeu, o gosto metálico e frio agindo como um sedativo imediato. As convulsões pararam. O brilho âmbar em seus olhos suavizou-se, tornando-se uma névoa dourada e profunda.

Ele desabou contra o peito dela, ofegante, o corpo finalmente relaxando enquanto a química Addams selava o pacto em suas células. O silêncio da floresta de Vermont retornou, quebrado apenas pelo som da respiração pesada de Tyler e pelo farfalhar das folhas.

— Melhor? — perguntou ela, embora soubesse a resposta.

— Eu sinto... — Tyler levantou a cabeça, olhando para ela com uma clareza aterrorizante — ...eu sinto você. Não apenas o toque. Eu sinto o seu vazio, Wandinha. Ele é... vasto.

— É a minha característica mais atraente — disse ela, ajudando-o a se levantar com uma força surpreendente para sua estrutura pequena. — Agora, volte para o carro. Temos uma mansão em New Jersey esperando por nós, e eu pretendo usar o laboratório do meu tio-avô para catalogar essas mudanças.

Eles voltaram para o Mustang e a viagem continuou, mas a atmosfera dentro do carro havia mudado. A hostilidade e o medo haviam sido substituídos por uma cumplicidade sombria, um vínculo de sangue que transcendia qualquer contrato ou lealdade humana.

— Você disse que eu era sua arma — disse Tyler, observando o perfil de mármore de Wandinha contra a luz da lua. — Mas você me deu o seu sangue. Isso não é algo que se faz com uma ferramenta.

— Ferramentas precisam de manutenção — respondeu ela, embora houvesse uma leve hesitação em sua voz, um microssegundo de humanidade que ela rapidamente sufocou. — E algumas ferramentas são raras demais para serem perdidas por negligência biológica.

— Você é uma mentirosa péssima quando se trata de si mesma — Tyler sorriu, um sorriso que continha a doçura do garoto da cafeteria e a predação do Hyde. — Você me quer por perto porque eu sou o único que consegue suportar a sua presença sem tentar "consertar" o seu vazio.

Wandinha apertou o volante.

— Sua insolência é quase tão irritante quanto a sua necessidade de validação emocional. Se você continuar com essa análise psicológica de baixo custo, eu vou considerar o uso de mordaças como parte do seu uniforme.

— Eu adoraria ver você tentar — provocou ele, sentindo-se mais vivo do que nunca.

Ao cruzarem a fronteira de New Jersey, a mansão Addams surgiu no horizonte como uma sentinela gótica, suas torres pontiagudas rasgando as nuvens cinzentas da madrugada. O lugar estava mergulhado em um silêncio sepulcral, exatamente como Wandinha gostava.

Ao estacionarem, Mãozinha saltou do painel e gesticulou freneticamente para a porta da frente.

— Sim, eu sei que estamos atrasados — disse Wandinha para a mão. — Tyler teve um colapso metabólico. Foi fascinante, mas demorado.

Eles entraram na mansão, onde o cheiro de poeira antiga e incenso de mirra os envolveu. Tyler olhou ao redor, maravilhado com a decoração que faria qualquer pessoa comum fugir em pânico: armaduras que pareciam observar os visitantes, retratos cujos olhos seguiam cada movimento e instrumentos de tortura que serviam como peças de decoração.

— Sinta-se em casa — disse Wandinha, caminhando em direção à escadaria de carvalho. — Seu quarto é na ala leste, ao lado do laboratório. Tente não quebrar nada; os móveis têm o hábito de revidar.

— Wandinha? — Tyler a chamou antes que ela subisse.

Ela parou, a mão pálida descansando no corrimão esculpido em forma de serpente.

— O que acontece agora? — perguntou ele. — O pacto de sangue... o que acontece agora entre nós?

Wandinha virou-se lentamente. A luz pálida de um candelabro próximo iluminava seu rosto, dando-lhe a aparência de uma estátua funerária.

— Agora, nós nos preparamos. O Círculo de Sangue foi apenas o prelúdio. Há forças que não aceitam a existência de algo que não podem controlar. Eles virão atrás de você, Tyler. E virão atrás de mim por ter reivindicado o que eles consideram uma anomalia.

Ela desceu um degrau, aproximando-se dele até que o aroma de tinta e ozônio o envolvesse.

— Mas eles vão descobrir que o monstro e a mestre são uma unidade indivisível. Eu não protejo você por afeto, Tyler. Eu protejo você porque você é a extensão da minha vontade. E ninguém toca no que pertence a Wandinha Addams.

Tyler sentiu o Hyde ronronar dentro dele, uma satisfação selvagem que ecoava as palavras dela. Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela, sentindo a eletricidade estática que sempre parecia emanar de sua pele.

— Então somos nós contra o mundo? — perguntou ele, sua voz um sussurro carregado de promessa e perigo.

— O mundo não tem a menor chance — respondeu ela.

Por um breve momento, o gelo nos olhos de Wandinha pareceu rachar, revelando um vislumbre da tempestade que habitava sua alma. Ela estendeu a mão e tocou a cicatriz no pescoço de Tyler, um gesto que era ao mesmo tempo uma marca de posse e um reconhecimento de igualdade.

— Vá descansar — ordenou ela, recuperando sua frieza habitual. — Amanhã começamos o treinamento. Se você vai ser minha arma mais letal, preciso garantir que sua mira seja tão afiada quanto a minha língua.

Tyler observou-a subir as escadas, sua silhueta negra desaparecendo nas sombras do andar superior. Ele olhou para as próprias mãos, sentindo a força nova e sombria que corria em suas veias — o sangue de Wandinha misturado ao seu, uma sinfonia de abismo que ele finalmente aprendera a apreciar.

Ele caminhou em direção à ala leste, sentindo-se, pela primeira vez, não como um experimento ou um erro da natureza, mas como algo novo. Algo que o mundo ainda não tinha nome para descrever.

Naquela noite, na mansão Addams, não houve sonhos. Apenas o silêncio vigilante de dois predadores que haviam encontrado seu lugar no escuro. Wandinha sentou-se em sua escrivaninha, abrindo o diário. Ela pegou a caneta-tinteiro e, com uma caligrafia firme, escreveu a primeira linha do novo capítulo:

"O espécime provou ser resiliente ao veneno da alma. A simbiose foi alcançada através da transfusão de vontade. Tyler Galpin não é mais um Hyde em busca de um mestre; ele é o caos que eu escolhi governar. O Círculo de Sangue tentará reclamar o que é meu, mas eles aprenderão que a morte é misericordiosa perto do que eu planejei para aqueles que tocam nos meus pertences."

Ela fechou o diário com um estalo seco. Fora, um corvo pousou no parapeito da janela, observando o interior com olhos inteligentes. Wandinha olhou para o pássaro e permitiu-se um pequeno e imperceptível movimento nos lábios — o fantasma de um sorriso.

O jogo havia mudado. As peças não eram mais de madeira ou osso; eram de carne, sangue e escuridão. E todos aprenderiam em breve que Wandinha Addams nunca perdia uma partida, especialmente quando o prêmio era a alma de um monstro.